Hoje, a bordo de um ônibus, a caminho de casa após o trabalho, enquanto ouvia, por uma coincência só explicável para Jung ou Charles Fort, The Smiths em meus fones, e me perguntando, como Qohélet, que proveito pode tirar um homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol, vi embarcar Zooey Deschanel. Já era noite, embora ainda restasse no céu, de ordinário plúmbeo, de nossa gloriosa capital das araucárias, uma claridade indecisa, aquela última faixa de azul, com entretons dourados, que lentamente desaparece sobre Curitiba antes que as luzes da cidade assumam definitivamente o seu lugar. Eu estava cansado e quase a cochilar, devido ao embalo da música e do coletivo. Então o ônibus parou no terminal Hauer. As portas se abriram, algumas pessoas desceram, outras entraram. Entre elas, uma moça que logo me chamou a atenção. Olhei para ela por um segundo, e pensei, com uma convicção súbita e completamente irracional:
— É Zooey Deschanel!
Ela tinha os cabelos escuros, os olhos grandes, o rosto delicado e aquela expressão ligeiramente distraída que eu sempre associei à própria atriz. Pensei em Summer Finn. Havia nela alguma coisa que inevitavelmente me lembrava 500 Dias com Ela (500 Days of Summer, 2009), embora fosse difícil determinar se essa sensação vinha dos traços da passageira ou da personagem de Zooey que ressurgiu em minha memória.
500 Dias com Ela parece, à primeira vista, só mais uma pequena história romântica sobre um homem que se apaixona por uma mulher que não corresponde às suas expectativas, mas se torna progressivamente mais interessante quando percebemos que seu verdadeiro assunto não é o amor, mas a sua fabricação projetiva. Tom transforma Summer em uma personagem antes mesmo de conseguir conhecê-la. Seleciona seus gestos, suas palavras, suas peculiaridades e até suas coincidências como se todos fossem fragmentos de uma narrativa que o universo estivesse construindo especialmente para ele. E, no fundo, não é assim que opera o amor, especialmente quando platônico? Quantas vezes não amamos mais a imagem do ser amado que construímos para nós mesmos do que o próprio ser amado em carne e osso?
Summer resiste a essa operação: ela existe fora da história que Tom inventou sobre ela.
Não por acaso, o filme de Marc Webb costuma ser lido como uma subversão do arquétipo da manic pixie dream girl, expressão cunhada pelo crítico Nathan Rabin, num artigo a propósito da personagem Claire Colburn, interpretada por Kirsten Dunst, em Tudo Acontece em Elizabethtown (Elizabethtown, 2005), para designar a personagem feminina excêntrica e luminosa cuja função narrativa basicamente consiste em arrancar o protagonista melancólico de seu torpor e ensiná-lo a viver. Zooey Deschanel, cuja persona pública ficou associada a esse tipo, interpreta Summer justamente para desmontá-lo, assim como Kate Winslet, com Clementine, de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004). Summer tem desejos próprios, não deseja ser salva nem salvar ninguém, não se compromete com a fantasia que lhe é imposta e acaba casando-se com outro homem, sem que o filme a puna por isso. Já na abertura, o narrador adverte que aquilo não é uma história de amor, e a advertência se dirige menos ao espectador do que a Tom: o arquétipo nunca esteve em Summer, e sim no olhar de quem a projetava.
Creio que é exatamente esta a razão pela qual 500 Dias com Ela sempre me pareceu um filme infinitamente mais melancólico do que verdadeiramente romântico. Tom não sofre apenas porque perde Summer; sofre porque precisa descobrir que a mulher que amava e a mulher que havia imaginado amar não eram a mesma pessoa. É uma distinção bastante incômoda. E também bastante humana. Talvez demasiado humana.
Quanto a mim, no ônibus, diante daquela jovem que parecia ter saído diretamente de um filme, ocorreu-me que eu próprio estava fazendo algo semelhante, embora em escala consideravelmente menor. Bastou um rosto familiar para que minha imaginação lhe atribuísse uma personagem. Mas não representamos sempre um papel para com cada pessoa com quem temos contato, dia após dia? O mundo, no final das contas, talvez seja realmente o que disse o rei Lear, um grande palco.
A Zooey curitibana sentou-se algumas fileiras à frente. Continuei ouvindo The Smiths em meus fones. Não fiz absolutamente nada. Não havia realmente motivo algum para fazer o que quer que fosse. Não seria razoável aproximar-me de uma desconhecida apenas porque ela se parecia tanto com uma atriz americana. Especialmente nos dias que correm. Tampouco havia necessidade de destruir a pequena ilusão que magicamente se instalara no ônibus. Bastava-me observá-la discretamente, como se observa uma paisagem pela janela, ou uma pintura controversa num museu excepcionalmente lotado. Sempre amei a lua, mas nunca pensei em ser um astronauta para visitá-la.
Enquanto isso, o ônibus avançava pelas ruas umedecidas pela chuva que principiava a cair, levando trabalhadores para suas casas. Pessoas cansadas, sacolas de mercado, celulares iluminando rostos, conversas fragmentadas. Nada havia de extraordinário naquela viagem.
Exceto ela.
Por alguns instantes, o ônibus deixou de ser simplesmente o veículo que me levava de volta para o meu lar. Tornou-se um desses lugares de passagem em que a realidade, por alguma razão imponderável, parece produzir uma pequena falha em sua configuração. A moça então olhou pela janela. Eu também. Por um momento simultaneamente breve e infinito, nossos olhares se cruzaram e se desviaram. Quando finalmente desci, já não a vi mais. Ela, naturalmente, não era Summer Finn. Talvez nem sequer soubesse quem era Zooey Deschanel. Mas, durante alguns quilômetros, naquela noite, isso pareceu uma distinção excessivamente racional e a razão nem sempre explica o realismo mágico do cotidiano. Não é apenas quando estamos dormindo que podemos sonhar.
