Eu não sou exatamente o que se costuma dizer, na linguagem das redes sociais, um "criador de conteúdo". Sou um escritor, no sentido mais lato da palavra, o de alguém que escreve textos e, às vezes, os publica, ainda que somente na internet. Sou, ainda mais, um artista, e digo-o sem medo de parecer talvez ridículo, ou mesmo pretensioso. Escrever é expressar-se, e a arte é a mais elevada e nobre forma de autoexpressão. Não sigo lógicas algorítmicas. Não crio obras que o público queira ou que tenham o objetivo de ser populares. Crio obras pelas quais sou apaixonado, e não me importo em ser o único a verdadeiramente amá-las. Não faço propaganda do que escrevo. Se você está lendo estas linhas, é por puro acaso, mas seja bem-vindo, e fique mais um pouco, se quiser. Há um lugar junto à lareira.
Não sou, repito, um “criador de conteúdo”. A própria expressão “conteúdo” me parece inadequada. Conteúdo preenche; obra instaura. O primeiro se molda à demanda; a segunda cria suas próprias condições de existência. Onde há conteúdo, há substituição possível; onde há obra, há singularidade.
Escrevo contra a corrente. Não por espírito de rebeldia, mas por fidelidade. A mim mesmo, acima de tudo. Há uma diferença decisiva entre aquilo que se produz para atender a uma expectativa e aquilo que se realiza por necessidade interior. A primeira obedece a uma lógica de adequação; a segunda, a uma lógica de inevitabilidade. Não me reconheço na figura daquele que calcula o efeito antes de conceber a forma, que antecipa o aplauso antes de ouvir a própria voz, que mede a qualidade e o valor de suas obras pelo número de curtidas e de seguidores que conquista. Isso me parece uma inversão da ordem natural da criação.
Quando escrevo, faço-o para responder a uma tensão interna que exige resolução. Essa tensão não é constante; ela se impõe em momentos específicos, com intensidade variável, e desaparece quando quer. Não há disciplina que a produza artificialmente, nem método que a garanta. Posso, no máximo, preparar o terreno: ler, pensar, observar, acumular linguagem. Mas o impulso criador, o que verdadeiramente importa, escapa a qualquer programação. Ele irrompe em mim como uma erupção, embora domada pela razão e pelo estilo.
Essa condição tem um preço. A irregularidade de minha produção é inevitável. Há períodos de silêncio que, vistos de fora, podem parecer esterilidade, mas que, por dentro, são incubação. Também há o risco da incompreensão alheia. Uma obra que não nasce orientada pela recepção dificilmente se ajustará aos códigos mais imediatos de inteligibilidade. Ela exige do leitor uma disposição que nem sempre está disponível. Aceito essa consequência sem ressentimento. A comunicação, quando ocorre, é mais rara e, por isso mesmo, mais substancial.
Não ignoro o fato de que toda obra, uma vez lançada ao mundo, entra em circulação e se torna objeto de leitura, interpretação, apropriação. Não há pureza absoluta possível. Contudo, a direção do movimento importa: não parto do público para chegar à obra; parto da obra, ou melhor, da necessidade interior que a engendra, para, eventualmente, alcançar um público. Essa assimetria é o que preserva a integridade do meu processo de criação.
Há, evidentemente, uma tentação constante de concessão. O ambiente contemporâneo favorece a visibilidade rápida, a repetição de fórmulas eficazes, a produção contínua. Tudo convida à adaptação. Resistir a isso não é uma questão moral, mas estrutural: trata-se de não corromper o próprio princípio organizador da escrita. Uma obra concebida sob o signo da conveniência já nasce diminuída, porque abdica de sua autonomia antes mesmo de existir.
Prefiro, portanto, a fidelidade à paixão, mesmo que ela seja intermitente, exigente, por vezes ingrata. Quando me apaixono por uma ideia, por uma imagem, por um ritmo, por uma história, por um personagem, sei que ali há algo que merece ser levado até o fim, independentemente de sua utilidade ou de sua recepção provável. Esse é o único critério que reconheço como legítimo: a intensidade da relação entre mim e aquilo que escrevo.
Se isso implica menor alcance, aceito. Se implica demora, aceito. Se implica silêncio, aceito. Porque, no limite, não escrevo para ocupar espaço, mas para justificar a própria escrita enquanto obra de arte. E disso jamais abrirei mão.
