A noite caiu como um véu de luto silenciosamente lançado sobre o mundo, apagando contornos e dissolvendo fronteiras. Os sinos da vila desabitada haviam silenciado há décadas, mas o eco do último dobre de finados ainda parecia rondar os subterrâneos.
A cripta jazia sob as ruínas do antigo mosteiro, escondida por vinhas espessas e promessas esquecidas. As pedras, gastas pelo tempo e pela culpa, exalavam um frio que não vinha do clima, mas da memória do que ali repousava. Não era descanso que eu procurava. Era ela.
O sarcófago estava no centro, rodeado por colunas rachadas e restos de vitrais partidos. Haviam inscrições em latim arcaico e um símbolo gravado com perfeição: uma rosa de espinhos invertida, como se o próprio amor tivesse se rendido à morte.
Aproximei-me. A tampa se moveu com lentidão, rangendo como uma prece recusada.
E então, ela despertou.
Emergiu da cripta como um poema profano. Primeiro os dedos, pálidos como a lua minguante, as unhas pontiagudas como punhais, depois os braços longos, o pescoço nu e finalmente o rosto de um branco marmóreo. Não havia poeira em sua pele, nem decadência em seus olhos. Ela dormiu por anos a fio e agora despertava.
Seu olhar encontrou o meu com a precisão de quem já me havia sonhado incontáveis vezes.
— Há quanto tempo? — ela perguntou, a voz como um sopro de veludo e ossos partidos.
— Dois séculos, querida — respondi, sentindo que toda resposta seria insuficiente. Procurei você por todo esse tempo, pelo mundo inteiro.
Ela se ergueu por completo. Os cabelos negros, longos, caíam sobre os ombros como uma noite que se recusava a passar. A túnica em farrapos deixava à mostra o ventre liso e a curva silenciosa dos seios. Nada nela era feito para o mundo dos vivos. Tudo nela era um ritual.
Aproximou-se de mim como se eu fosse parte do altar. Seus pés descalços não faziam ruído nas pedras frias, e seu perfume era o da umidade antiga misturada ao sangue seco da história.
Com um gesto, ela pousou os dedos em meu peito. Cada toque parecia fazer soar em mim notas esquecidas. Senti o passado, os olhos das mulheres cujas vidas sorvi com meus dentes, os filhos que nunca tive, as noites em que desejei morrer por causa de minha solidão secular e não consegui, por estar condenado a vagar pelas noites do mundo "ad aeternum".
— Pensei que a tivesse perdido em Budapeste — eu disse. — Contaram-me que um caçador lhe havia cravado uma estaca no peito; outros disseram que você havia sido queimada ao nascer do sol. Duzentos anos de buscas, até finalmente descobrir seu paradeiro.
Ela sorriu, não com alegria, mas com reconhecimento.
— Você também esteve adormecido dentro de si mesmo — disse-me, enquanto suas unhas riscavam minha pele com delicadeza sacramental. — Agora, acordamos juntos.
Inclinou-se e pousou os lábios no meu pescoço. Não como fera, mas como amante.
A mordida, quando veio, não me trouxe dor, mas êxtase. Foi um rasgo no tempo, a entrada num mundo onde o desejo já não teme o abismo.
Senti o sangue se esvair, sim, mas também me senti mais inteiro e, por mais estranha que esta palavra pareça quando aplicada a seres como eu, cujo coração deixou de bater há séculos, vivo, quanto mais ela me bebia. Havia, na minha entrega, um gozo que só os condenados compreendem.
Quando enfim recuou, seus lábios tingidos de carmim, ela disse:
— Agora, somos dois que a luz esqueceu.
E então, me beijou, e eu a mordi de volta.
Ao fundo da cripta, as velas que não acendi acenderam-se sozinhas.
O ar tinha gosto de vinho e pecado.
E do altar profanado, um novo cântico brotou: o cântico do que nasce depois da morte.
Ela me tomou pela mão, e descemos juntos aos corredores mais profundos.
Lá onde o mundo termina.
Lá onde a eternidade começa a murmurar.
A vampira havia despertado.
E com ela, tudo aquilo que em mim dormia.