A Luz na Cordilheira


O motor do automóvel parecia o único elemento vivo naquele quadrante de Avelânia, a grande autopista imperial 312, uma fita asfáltica larga e interminável, que rasgava os contrafortes rochosos da Cordilheira Nestoriana, subindo em direção à província de Valquíria e deixando para trás os vales úmidos de Sabrina. Àquela hora da noite, o silêncio da altitude era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido constante dos pneus contra o pavimento perfeito.
No banco do motorista, Darion mantinha as mãos firmes no volante de osso e couro, os olhos fixos nos feixes dos faróis de acetileno que mal conseguiam vencer a imensidão da pista deserta. Ao seu lado, Mirela observava a escuridão abissal pela janela. Ambos eram funcionários da Secretaria de Registro Civil de Sabrina, pessoas habituadas a inventários, a censos demográficos e à solidez dos papéis timbrados. Não eram dados a fantasias.
— Olhe, Darion! Na crista da montanha! — disse Mirela, a voz baixa, quase temendo quebrar o isolamento do lugar.
Darion inclinou a cabeça. Acima dos picos denteados da cordilheira, onde apenas as estrelas deveriam reinar, uma luz de tonalidade violeta e densidade incomum flutuava. Não piscava como os astros, nem caía como os meteoros que costumavam cortar o céu daquela região. Era um ponto firme, magnético, que parecia deslizar de forma síncrona com o movimento do veículo pela autopista.
— Deve ser um reflexo nos cristais de gelo da encosta — murmurou Darion, apegando-se à lógica fria dos topógrafos. Ele hesitou por um segundo antes de continuar, baixando o tom de voz. — Ou talvez... você lembra dos boatos que circulam nas secretarias de fronteira? Dizem que o exército está conduzindo testes de voo secretos com protótipos de alta altitude numa base militar no coração da Floresta de Valquíria. Alguma tecnologia experimental que trouxeram do norte. Dizem que da Ilha Branca.
Mirela balançou a cabeça, cética. No entanto, a luz mudou de comportamento antes que ela pudesse responder. O objeto desceu a encosta com uma velocidade que desafiava a gravidade e qualquer engenharia conhecida, posicionando-se algumas dezenas de metros acima da pista, logo à frente deles. O motor do carro tossiu. Os faróis vacilaram, diminuindo até se tornarem brasas opacas. Darion pisou no freio, e o veículo deslizou suavemente, até parar no amplo acostamento da autopista. Nenhum protótipo militar humano agiria daquela forma.
O que viram não era uma máquina com engrenagens, fumaça ou rebites, mas uma lente perfeita de metal fosco, que parecia absorver a própria noite. Através de uma fenda longitudinal, figuras esguias, desprovidas de pelos ou expressões discerníveis, observavam o casal. Tinham cabeças volumosas e olhos que lembravam poços de piche polido.
Uma vibração aguda, semelhante ao zumbido de mil vespas de ferro, ecoou no interior do crânio de Darion. Ele tentou alcançar seu revólver no porta-luvas, mas seus dedos recusaram o comando. A rigidez não era de medo; era como se o seu sistema nervoso tivesse sido desconectado por uma vontade externa. A última imagem gravada em suas pupilas foi a de Mirela, estática, com os olhos abertos e vazios, enquanto a penumbra violeta invadia o habitáculo do veículo.
Um estalo metálico. O som do motor funcionando novamente.
Darion piscou, assustado. Suas mãos ainda seguravam o volante. O painel estava iluminado e os faróis cortavam a autopista deserta. À sua direita, Mirela respirava arfante, as mãos cravadas no tecido do vestido.
— O que... o que aconteceu? — ela perguntou, olhando ao redor.
A autopista à frente estava vazia, estendendo-se em direção ao horizonte negro. A luz geométrica havia desaparecido. Darion olhou para o relógio de bolso preso ao painel: os ponteiros marcavam quase quatro horas da manhã. Pelo cálculo de marcha e pela distância percorrida na rodovia, deveriam ser pouco passadas duas horas. Havia um vácuo de tempo na memória de ambos, um abismo de duas horas onde nada existia além do som daquele zumbido de vespas.
Nos meses que se seguiram, a rotina em Sabrina tornou-se insuportável. Darion passou a sofrer de tremores nas mãos, e Mirela acordava aos gritos, desenhando linhas obsessivas nas margens das folhas de inventário da Secretaria. Sentiam-se violados na carne e na mente, mas não possuíam as palavras para explicar o porquê. Aquela vaga hipótese sobre os testes de voo na Floresta de Valquíria agora parecia uma tentativa ingênua e desesperada de confortar a si mesmos antes do abismo.
Desesperados por ordem no caos que se instalara em suas vidas, procuraram o Dr. Aris, um psiquiatra e parapsicólogo inortodoxo, que estudava os mistérios do magnetismo e da mente humana nas periferias de Valquíria. No gabinete sombrio do médico, sob o efeito de um transe induzido por pêndulos e ópio suave, as barreiras da amnésia ruíram.
As vozes de Darion e Mirela, gravadas nos cilindros de cera do médico, mudaram de tom. Eles descreveram o interior da lente de metal: um ambiente frio, com cheiro de ozônio e superfícies que pareciam feitas de osso polido. Falaram de agulhas finas que mediam a densidade de suas peles, de instrumentos que perscrutavam suas linhagens e de olhos negros que colhiam informações sem a necessidade de palavras.
Em uma das últimas sessões, Mirela, ainda em transe, pediu um pedaço de carvão. Com movimentos rápidos e geométricos, ela desenhou na mesa de madeira do Dr. Aris uma teia de pontos e linhas.
— O que é isto, Mirela? — perguntou o analista, aproximando a lamparina.
— O mapa deles — ela respondeu, com uma voz que parecia vir de uma distância incomensurável. — O líder me mostrou na parede de osso. É de onde eles vêm. Não tem nada a ver com as bases de Valquíria... Ele disse que nosso planeta é apenas um grão de poeira na estrada.
O silêncio que se instalou na Secretaria do Registro Civil de Sabrina após o retorno de Darion e Mirela não decorria apenas do trauma oculto na memória do casal, mas também de uma nova e discreta presença que passou a frequentar os corredores de mármore acinzentado do prédio público: as visitas dos agentes da UCC (Unidade de Controle de Contingências).
Diferentemente dos inspetores comuns do Ministério da Defesa ou dos oficiais da base de Valquíria, os agentes da UCC não usavam fardas vistosas ou medalhas. Vestiam longos casacos de gabardine escura, perfeitamente alinhados, e chapéus que projetavam sombras profundas sobre seus rostos expressivamente neutros. Suas visitas nunca eram anunciadas. Eles simplesmente surgiam nas antessalas, portando pastas de couro rígido e credenciais de latão polido que abriam qualquer porta sem a necessidade de chaves.
A princípio, as abordagens pareceram casuais. Um agente de voz excessivamente pausada sentava-se à mesa de Darion sob o pretexto de revisar os registros de tráfego noturno da autopista 312.
— Apenas uma rotina de checagem, funcionário Darion — dizia o homem, enquanto seus olhos, frios e fixos como duas esferas de vidro, inspecionavam o leve tremor nas mãos do analista. — Há relatos de contrabando de combustível vindo do norte, pela floresta. Queremos garantir que nenhum veículo oficial tenha cruzado o perímetro fora do horário.
Mas o tom mudava quando o assunto tocava, mesmo que por acidente, nos "boatos de testes de voo" na base da floresta de Valquíria. O agente inclinava-se para a frente, e a atmosfera na sala parecia perder alguns graus de temperatura.
— Histórias de camponeses e operários impressionáveis, o senhor compreende. A propagação de rumores sobre a segurança nacional de Avelânia é uma infração grave contra a ordem civil. O silêncio é a mais nobre das virtudes burocráticas.
Com Mirela, a pressão era mais sutil e psicológica. Os agentes da UCC confiscavam as folhas de papel onde ela, em momentos de distração, começava a traçar as linhas geométricas e os pontos interligados com a ponta do lápis. Eles guardavam os desenhos nas pastas de couro com um zelo quase religioso, sem emitir uma única palavra de explicação.
Em uma tarde de outono, antes que o casal decidisse buscar o Dr. Aris em Valquíria, um dos agentes mais velhos da Unidade parou junto à mesa de Mirela, depositou sobre ela um pequeno relatório datilografado e disse, quase como um conselho amigável:
— A Secretaria preza pela sanidade de seus arquivistas, senhorita. Estreite suas vistas aos papéis oficiais. Olhar demais para as cristas da Cordilheira Nestoriana costuma causar uma fadiga mental severa... e permanente.
As visitas da UCC deixavam claro que o governo de Avelânia sabia perfeitamente que algo cortava os céus da província. Mas, para a Unidade, a verdade era uma mercadoria perigosa demais para ser deixada nas mãos de cidadãos comuns. Cada passagem daqueles homens deixava no ar um rastro de ozônio, o som ecoante de sapatos de cromo no corredor e a certeza sufocante de que Darion e Mirela estavam sendo vigiados tanto por Tellus quanto pelas estrelas.
Anos mais tarde, eruditos da Imperial Academia de Astronomia de Lavínia analisaram o desenho rústico deixado por Mirela na mesa do médico. Confrontando o carvão de Mirela com os novos telescópios que mapeavam o hemisfério sul celeste, encontraram uma correspondência exata. Os pontos principais, interligados por linhas grossas que sugeriam rotas de trânsito, apontavam para dois sóis gêmeos e pálidos, invisíveis a olho nu, perdidos na Constelação Meridional.
O casal de Sabrina nunca mais voltou a ser o mesmo. Eles sabiam que, embora continuassem dirigindo pelas autopistas modernas de Avelãnia e assinando os papéis da Secretaria, uma parte de suas almas havia sido deixada para trás, flutuando em algum ponto escuro entre a Cordilheira Nestoriana e as estrelas gêmeas do firmamento.

O Beijo


A fumaça densa dos cigarros misturava-se ao vapor de suor dos corpos na pista, criando uma névoa que diluía os contornos das paredes descascadas do casarão. No centro do salão, o som dos alto-falantes operava em uma frequência grave, contínua, que parecia fazer vibrar o assoalho de madeira sob os pés. Era a última hora da última festa. O tipo de celebração que já nasce com o peso do próprio fim.
Eles estavam estáticos perto da janela de guilhotina, imunes ao ritmo frenético dos poucos sobreviventes da noite. A luz da rua, um tom de sódio filtrado pelas cortinas encardidas, cortava o rosto dela em duas metades: uma nítida e fria; a outra, entregue à penumbra.
— A gente sabe que é agora — ela disse, a voz baixa, quase engolida pelo eco dos graves.
Ele não respondeu de imediato. Olhou para o copo de plástico quase vazio em sua mão, onde o gelo já havia derretido por completo, restando apenas um líquido morno e turvo. Havia semanas que vinham ensaiando aquela distância, uma coreografia mútua de silêncios e desvios, mas a atmosfera saturada daquela sala impunha uma urgência inevitável. O amanhã traria trens diferentes, portões de embarque distintos e a irremediável liquidez dos dias comuns.
— Não precisa de solenidade — ele murmurou, dando um passo à frente.
Ela sorriu, um espasmo breve e melancólico nos lábios, e inclinou a cabeça.
O toque inicial teve a textura de um papel antigo: seco, denso, consciente de sua própria fragilidade. Não houve nele a euforia dos primeiros meses, nem a urgência dramática das reconciliações. Foi um ato de puro registro. Os lábios se encontraram com a precisão de um peregrino que reconhece um território familiar pela última vez, sabendo que, a partir do próximo minuto, a entrada ali estaria permanentemente vetada.
O beijo moveu-se devagar, em um compasso próprio, alheio aos gritos e risadas ecoando no canto do bar. Havia o gosto amargo do tabaco e a doçura artificial do xarope de alguma bebida barata, uma combinação que o tempo e a memória inevitavelmente transformariam em nostalgia. Cada pressão, cada leve hesitação da língua, funcionava como o fechamento de uma gaveta pesada de carvalho. Um pacto silencioso de que nenhuma promessa seria feita para aliviar o peso da partida.
Quando se afastaram, o espaço de poucos centímetros entre os dois pareceu subitamente intransponível. A música parou abruptamente, substituída pelo zumbido estático dos amplificadores desligados e pelas luzes brancas do teto que se acenderam sem aviso, revelando a crueza do chão sujo de confetes e copos pisados.
Ela ajeitou a gola do casaco, deu as costas e caminhou em direção à saída, misturando-se aos poucos remanescentes que ganhavam a rua cinzenta da madrugada.
Ele permaneceu junto à janela por mais alguns instantes, sentindo o ar frio da manhã entrar pelas frestas, guardando o gosto de cinza e absoluto que ainda restava em seus lábios.

Breves Reflexões Quadragenárias


Completo, neste momento, exatos 45 anos de idade. Quase um século de vida. É hora de fazer um balanço da minha história. 
Meus quarenta e cinco anos não se anunciaram como um evento festivo, mas como um território conquistado. Há algo de solene nessa idade: a consciência de que o tempo deixou de ser meramente uma promessa e passou a ser uma substância real, moldada pelas próprias mãos.
Os fios brancos em minha barba não são, para mim, um sinal de declínio, mas de registro. Cada um deles carrega um episódio, uma escolha, uma perda que não pôde ser evitada. Não é a velhice que se insinua para mim num horizonte cada vez mais próximo, mas a inscrição visível de um percurso. A juventude supõe; a maturidade testemunha.
Já estive no inferno algumas vezes. Conhecer o inferno não é uma metáfora excessiva, no meu caso. Trago, de todas essas atribuladas estadias, inúmeras cicatrizes (algumas delas físicas; na sua esmagadora maioria, emocionais; não me envergonho delas, são, cada uma, uma história, minha história). É uma competência adquirida. Há um ponto na vida em que o homem deixa de temer o abismo porque já o atravessou. Reconhece-lhe o cheiro, a lógica, os mecanismos. E essa familiaridade altera tudo. O mundo perde a ingenuidade, mas ganha nitidez. Já não se acredita em redenções fáceis, tampouco em quedas definitivas.
É nesse cenário que o renascimento deixa de ser retórica e assume forma concreta. Renascer das próprias cinzas não é um gesto épico, mas um trabalho contínuo de recomposição. Não se volta intacto. Volta-se diferente, mais sóbrio, menos impressionável, mais exato. A identidade já não é aquilo que se exibe, mas aquilo que resiste.
A maturidade, portanto, não é apenas acúmulo de anos, mas depuração. Há menos dispersão, mais direção, menos vaidade e mais integridade, menos urgência de agradar, mais compromisso com o que permanece. A cultura, nesse estágio, deixa de ser ornamento e se torna ferramenta. Literatura, história, filosofia, não são mais refúgios, mas instrumentos de leitura do real e de si mesmo.
A paternidade, por sua vez, desloca o eixo da existência. O tempo deixa de ser exclusivamente próprio. Cada decisão passa a reverberar além da própria biografia. Educar não é transmitir certezas, mas oferecer estrutura para que outro atravesse seus próprios infernos com alguma lucidez. Se algum grande sonho ainda alimento, é o de formar meu filho como um homem completo. É uma responsabilidade silenciosa, sem aplauso, mas de um alcance moral (e existencial) incalculável.
E então surge a questão do legado. Não o legado grandioso, inscrito em monumentos, mas um mais austero, quase invisível. O modo de pensar, a forma de agir sob pressão, a integridade mantida quando ninguém observa. O legado é aquilo que permanece quando a presença já não é possível, como um dia, de fato, não será. 
Os quarenta e cinco anos de um homem, não servem exatamente para celebrar o que foi conquistado, mas para reconhecer o que foi integrado. Há cicatrizes que não pedem cura, apenas reconhecimento. Há perdas que não exigem superação, apenas assimilação. E há uma força nova, menos ruidosa, mais estável, que nasce precisamente dessa travessia.
Não é o início, tampouco o fim. É um ponto de consolidação. Um lugar onde o homem já não precisa provar que existe, porque sabe, com precisão suficiente, quem se tornou.

Mais uma Dose?


Aproximava-se o fim da entrevista. O velho escritor deu uma longa baforada em seu charuto, bebeu mais um gole de vinho e olhou para o nada por alguns minutos. A garçonete passou por nós e sorriu. Clientes entravam e saíam. Chovia lá fora. Ao fundo, uma canção de Chet Baker. Depois voltou-se para mim, pigarreou e recomeçou a contar:
— Aconteceu há tantos anos, mas ainda me lembro, como se fosse neste exato instante. 
Vejo-a entrar. Ela me oferece um vinho, tal como este que estamos agora bebendo.
Faz isso com uma calma estudada, como se já soubesse exatamente o efeito que seu gesto teria. E realmente sabia. O gelo dança no copo como se ensaiasse o momento. A garrafa pousa de volta à mesa com um som surdo, mas sua mão permanece desenhando arabescos no ar, como se escrevesse uma história com palavras invisíveis. 
Ela não me olha de imediato. Apenas cruza as pernas devagar, deixando à mostra uma faixa breve de pele entre o vestido e a meia, o que já basta para me incendiar. O silêncio pesa, mas não constrange. É um silêncio escolhido, como a iluminação amarelada da sala, como a trilha sonora que sussurra, ao fundo, jazz, blues e bossa nova.
— Não vai beber? — ela pergunta, sem sorrir.
Mas seus olhos... bem, seus olhos sorriem, de um jeito perigoso, deliciosamente perigoso.
Levo o copo aos lábios, mais por obediência do que por vontade. Embora suave, talvez por meu nervosismo, o líquido arde-me na garganta, mas é o perfume dela que me embriaga primeiro: alguma mistura de baunilha e noite antiga.
Ela se aproxima. A não ser pela nudez completa abaixo do vestido, não há nada declaradamente erótico em seus movimentos, e talvez por isso mesmo, tudo nela seja altamente sensual. Senta-se ao meu lado sem pressa, sabendo que o jogo já estava vencido. Cruza os braços, e o decote forma um vinco sutil, um V quase tímido, mas impossível de ignorar, evidenciando a doce fartura de seus seios.
— Você parece tenso, querido. Mais uma dose? — ela pergunta.
Quero responder. Quero dizer que estou com medo, que ainda sou demasiado jovem, que não tenho um pingo de experiência comparado a ela, que tenho apenas alguns trocados no bolso e não sei se poderei pagar pela noite, que sou apenas um garoto com temor e desejo diante de uma verdadeira mulher, a primeira mulher que toco... Mas há algo na forma como ela brinca com o próprio copo, um giro lento, circular, hipnótico, que me desarma. Não sei mais se vim por causa dela ou se por causa de mim mesmo. Só sei que agora tudo cheira a perigo, madeira antiga e pele aquecida.
E ela sabe. E me puxa para o quarto. Dali nasceu minha primeira obra.
Os lábios vincados do velho escritor tremeram levemente e ele se levantou da mesa, colocou o chapéu e o sobretudo, pegou o guarda-chuva, e saiu do bar, mergulhando no coração da noite. Eu fiquei ainda por alguns minutos, olhando para os copos vazios, fazendo as últimas anotações para a matéria na revista, e pensando. Ou melhor, sonhando. Há ocasiões em que sonhar é tudo o que nos resta na vida.

Garotas Só Querem Se Divertir


Havia um pacto silencioso entre elas, firmado muito antes de sequer saberem o peso real das palavras. Nunca foi escrito, nem jurado, mas existia, tão sólido quanto as calçadas rachadas da rua onde cresceram: jamais se separariam.
Eram quatro.
Clara era a mais bela, e sabia disso. Havia nos seus gestos uma consciência do próprio corpo que não era vaidade, mas uma arma, uma forma de existir num mundo que parecia exigir sempre algo em troca de sua presença. Ria alto, como se sempre desafiasse toda e qualquer tentativa de contenção.
Beatriz era a mente do grupo. Observadora, metódica, a única que compreendia que o mundo não era um palco, mas um mecanismo. Via suas engrenagens girarem nas pessoas, nas instituições, nas pequenas violências cotidianas, e, em silêncio, anotava tudo.
Sabrina era puro fogo. Impulsiva, inquieta, sempre à beira de alguma explosão. Onde as outras hesitavam, ela avançava. Onde havia risco, ela via sentido. Sua risada era breve, quase um estalo.
E Letícia, talvez a mais perigosa de todas, era a que amava demais. Amava tudo: as amigas, os homens, as ideias, as promessas. Vivia como se cada instante fosse um último gesto de entrega.
As quatro cresceram juntas, entre tardes de verão, músicas altas e sonhos desordenados. Diziam, com a convicção própria da juventude, que queriam apenas se divertir.
A primeira a romper o pacto foi Clara.
Não por vontade, mas por cálculo.
Saiu cedo da cidade, levada por um homem mais velho, estrangeiro, grisalho e misterioso, um desses sedutores natos, que prometem o mundo em troca de obediência disfarçada de carinho. Clara acreditou que dominava o jogo. Sempre acreditou.
Por algum tempo, pareceu verdade.
Fotos em lugares caros, roupas impecáveis, viagens que as outras acompanhavam pelas redes sociais como quem assiste a uma ficção. Mas a ficção, como Beatriz teria dito, é apenas uma versão editada da realidade.
Quando Clara desapareceu por três dias, ninguém estranhou de imediato.
Dias depois, uma notícia breve num jornal local: uma mulher encontrada morta em circunstâncias suspeitas. Nome confirmado após uma semana. O riso alto de Clara nunca mais foi ouvido.
Beatriz tentou entender o que aconteceu. Era a única forma que conhecia de lidar com a perda. Mergulhou em estudos, estatísticas, padrões de comportamento. Queria provar que aquilo não fora um acaso, que havia lógica, que poderia ter sido previsto.
Foi trabalhar em um órgão público, investigando fraudes, corrupção, esquemas que se repetiam como fórmulas matemáticas.
Descobriu demais.
Os nomes começaram a pesar. As informações deixaram de ser abstratas. Tornaram-se perigosas.
Uma noite, voltando para casa, percebeu que estava sendo seguida. Não era paranoia. Beatriz não era dada a ilusões.
Nos dias seguintes, tentou denunciar, documentar, deixar rastros. Mas subestimara o alcance daqueles que estudava.
O relatório final nunca foi publicado. Beatriz morreu em um acidente de trânsito. Um caminhão, disseram. Possível falha humana.
Ela saberia que não foi.
Sabrina não suportou.
A morte de Clara foi um choque. A de Beatriz, uma confirmação: o mundo não era apenas injusto, era hostil. E ela não fora feita para recuar.
Entrou em tudo o que podia incendiar: protestos, movimentos radicais, confrontos diretos. Tornou-se presença constante em todos os lugares onde a tensão era a regra.
Dizia que não tinha medo. Talvez não tivesse mesmo. Mas havia uma diferença entre ausência de medo e presença de destino.
Numa noite de manifestação que saiu do controle, a linha entre protesto e confronto dissolveu-se. Gás, gritos, correria. Sabrina avançou quando todos recuavam. Um disparo, ninguém sabe de onde. O fogo que ela carregava apagou-se ali, no asfalto.
Restou Letícia.
E talvez tenha sido a que mais sofreu. Porque, ao contrário das outras, ela continuava acreditando. Mesmo depois de tudo. Mesmo quando não havia mais nada em que acreditar.
Tentou reconstruir o que restava do passado. Visitava os lugares onde as quatro estiveram, revivia memórias como quem tenta ressuscitar o tempo.
Conheceu alguém. Apaixonou-se. Como sempre fazia, por inteiro.
Mas havia algo quebrado nela. Um excesso de ausência. Um peso que não se dividia.
O amor não resistiu. Nenhuma coisa resiste quando precisa ocupar o espaço de três mortes.
Letícia começou a desaparecer aos poucos. Não de forma abrupta, como Clara, nem violenta, como Sabrina, nem silenciosa, como Beatriz. Foi um apagamento progressivo. Parou de atender ligações. Parou de sair. Parou de escrever.
Um dia, simplesmente não foi mais vista.
Alguns dizem que se mudou. Outros, que não suportou.
Não houve notícia. Nem corpo. Nem explicação.
Apenas o vazio.
Anos depois, a rua onde cresceram ainda existe. As calçadas continuam rachadas. As casas mudaram de cor, de donos, de histórias.
Mas, em certas noites, dizem, é possível ouvir risadas.
Quatro vozes femininas, jovens demais, livres demais, inconscientes demais. Como se ainda acreditassem na promessa nunca dita. Como se ainda repetissem, com a leveza de quem não conhece o fim: garotas só querem se divertir.

Talvez um Prefácio


Eu não sou exatamente o que se costuma dizer, na linguagem das redes sociais, um "criador de conteúdo". Sou um escritor, no sentido mais lato da palavra, o de alguém que escreve textos e, às vezes, os publica, ainda que somente na internet. Sou, ainda mais, um artista, e digo-o sem medo de parecer talvez ridículo, ou mesmo pretensioso. Escrever é expressar-se, e a arte é a mais elevada e nobre forma de autoexpressão. Não sigo lógicas algorítmicas. Não crio obras que o público queira ou que tenham o objetivo de ser populares. Crio obras pelas quais sou apaixonado, e não me importo em ser o único a verdadeiramente amá-las. Não faço propaganda do que escrevo. Se você está lendo estas linhas, é por puro acaso, mas seja bem-vindo, e fique mais um pouco, se quiser. Há um lugar junto à lareira.
Não sou, repito, um “criador de conteúdo”. A própria expressão “conteúdo” me parece inadequada. Conteúdo preenche; obra instaura. O primeiro se molda à demanda; a segunda cria suas próprias condições de existência. Onde há conteúdo, há substituição possível; onde há obra, há singularidade.
Escrevo contra a corrente. Não por espírito de rebeldia, mas por fidelidade. A mim mesmo, acima de tudo. Há uma diferença decisiva entre aquilo que se produz para atender a uma expectativa e aquilo que se realiza por necessidade interior. A primeira obedece a uma lógica de adequação; a segunda, a uma lógica de inevitabilidade. Não me reconheço na figura daquele que calcula o efeito antes de conceber a forma, que antecipa o aplauso antes de ouvir a própria voz, que mede a qualidade e o valor de suas obras pelo número de curtidas e de seguidores que conquista. Isso me parece uma inversão da ordem natural da criação.
Quando escrevo, faço-o para responder a uma tensão interna que exige resolução. Essa tensão não é constante; ela se impõe em momentos específicos, com intensidade variável, e desaparece quando quer. Não há disciplina que a produza artificialmente, nem método que a garanta. Posso, no máximo, preparar o terreno: ler, pensar, observar, acumular linguagem. Mas o impulso criador, o que verdadeiramente importa, escapa a qualquer programação. Ele irrompe em mim como uma erupção, embora domada pela razão e pelo estilo.
Essa condição tem um preço. A irregularidade de minha produção é inevitável. Há períodos de silêncio que, vistos de fora, podem parecer esterilidade, mas que, por dentro, são incubação. Também há o risco da incompreensão alheia. Uma obra que não nasce orientada pela recepção dificilmente se ajustará aos códigos mais imediatos de inteligibilidade. Ela exige do leitor uma disposição que nem sempre está disponível. Aceito essa consequência sem ressentimento. A comunicação, quando ocorre, é mais rara e, por isso mesmo, mais substancial.
Não ignoro o fato de que toda obra, uma vez lançada ao mundo, entra em circulação e se torna objeto de leitura, interpretação, apropriação. Não há pureza absoluta possível. Contudo, a direção do movimento importa: não parto do público para chegar à obra; parto da obra, ou melhor, da necessidade interior que a engendra, para, eventualmente, alcançar um público. Essa assimetria é o que preserva a integridade do meu processo de criação. 
Há, evidentemente, uma tentação constante de concessão. O ambiente contemporâneo favorece a visibilidade rápida, a repetição de fórmulas eficazes, a produção contínua. Tudo convida à adaptação. Resistir a isso não é uma questão moral, mas estrutural: trata-se de não corromper o próprio princípio organizador da escrita. Uma obra concebida sob o signo da conveniência já nasce diminuída, porque abdica de sua autonomia antes mesmo de existir.
Prefiro, portanto, a fidelidade à paixão, mesmo que ela seja intermitente, exigente, por vezes ingrata. Quando me apaixono por uma ideia, por uma imagem, por um ritmo, por uma história, por um personagem, sei que ali há algo que merece ser levado até o fim, independentemente de sua utilidade ou de sua recepção provável. Esse é o único critério que reconheço como legítimo: a intensidade da relação entre mim e aquilo que escrevo.
Se isso implica menor alcance, aceito. Se implica demora, aceito. Se implica silêncio, aceito. Porque, no limite, não escrevo para ocupar espaço, mas para justificar a própria escrita enquanto obra de arte. E disso jamais abrirei mão.

A Curva


João Roberto nunca gostou do próprio nome. Soava longo demais, excessivamente correto. Ele dizia achar que era um nome de velho.
Nos rachas, porém, ninguém o chamava assim. Era Johnny, simplesmente Johnny, seco, funcional, um nome que cabia melhor quando o giro subia e o mundo se resumia a reta e reação.
Ele aprendeu a correr tarde.
Não com bicicletas ou brincadeiras de infância, mas já nos quinze, quase dezesseis anos, quando o tempo parece insuficiente e tudo pede intensidade. Havia nele uma pressão interna, uma necessidade de avanço, que não encontrava forma organizada de se expressar.
Começou encostado.
Postos de gasolina fechados, avenidas largas, asfalto limpo. Capôs abertos, trocas de ideias curtas, som alto vazando de porta-malas. Ali, ninguém falava em imprudência, falava-se em puxar, alinhar, dar chão, segurar pé embaixo.
Johnny observava.
Aprendeu rápido o vocabulário das corridas clandestinas. Aprendeu também que o carro fala antes do motorista: preparação, ronco e resposta. E que, naquele meio, hesitar era ser descartado.
O carro veio depois. Era do irmão mais velho. Uma máquina mais forte do que ele precisava, menos do que os veteranos tinham. Suficiente para entrar no jogo. A chave esquecida sobre a mesa não foi um simples acaso, mas um ponto de inflexão.
Na primeira noite em que alinhou, ninguém quis saber sua idade.
Quiseram saber se o carro “andava”.
Alinhou lado a lado. Farol baixo, respiração curta, pé segurando o giro alto. Um gesto quase imperceptível fez as vezes de bandeira.
Ele saiu bem.
Não queimou a largada, não patinou demais. A segunda entrou limpa. A terceira sustentou. Quando cruzou o ponto combinado, já tinha dado meio carro. Venceu.
Nada de comemoração aberta, porém. 
Apenas um “anda bem”, vindo de alguém que importava. A única. Um espaço aberto no círculo. Era o suficiente.
Mas, aos poucos, ela começou a desaparecer. Sem ruptura clara. Sem confronto. Apenas ausência progressiva. Visualizava e não respondia. Promessas vagas. Um deslocamento silencioso que lentamente tornava evidente o desinteresse.
Johnny percebeu antes de admitir.
Na noite do acidente, ele já operava com essa informação consolidada, ainda que não verbalizada. Havia uma perda ali, não espetacular, mas corrosiva. E, sobretudo, havia uma comparação insidiosa, que o devorava por dentro: o outro que ocupava seu antigo lugar era alguém mais estável, mais previsível, mais adequado do que ele jamais seria. 
Naquela noite, Johnny chegou ao ponto de encontro dos corredores mais calado.
Recusou distrações. Aceitou direto quando chamaram para outra puxada. Mais longa. Valendo até a saída da cidade. Estrada aberta.
Alguém comentou:
— Termina na curva.
Johnny sabia qual era a curva.
Alinharam.
Motor cheio, giro alto, controle no limite. Um carro ao lado, mais leve, aparentemente melhor acertado. Não importava. Johnny não estava ali para cálculos conservadores.
O sinal veio na buzina.
Ele cravou o pé.
Primeira curta, troca rápida. A segunda entrou com leve cantada de pneu. A terceira puxou forte. O carro respondeu acima do esperado. Ele estava inteiro na condução. Mão firme, olho longe, leitura de pista precisa.
Deu vantagem.
Atrás, o outro vinha tentando buscá-lo no vácuo.
Mas não era apenas uma puxada. Havia interferência. Fragmentos de memória intrusivos: conversas interrompidas, silêncios recentes, a sensação de substituição. Ele não tentou bloquear. De certo modo, incorporou isso à condução, como se acelerar fosse também um modo de não permanecer.
A cidade acabou.
Restou a estrada.
Restou a curva.
Ele conhecia cada detalhe técnico daquele trecho. Sabia o ponto de frenagem, o limite de entrada, o quanto podia manter de pé antes de aliviar. Já passara ali outras vezes, sempre respeitando a margem. Desta vez, a margem era outra coisa. Viu a curva com antecedência. Teve tempo de decisão.
Atrás, o farol do outro carro ainda pressionava. Reduzir significaria perder a puxada. Tirar o pé seria admitir limite. Manter seria arriscar tudo, a máquina, o corpo, o resultado.
Ele manteve.
Entrou rápido demais.
No primeiro instante, pareceu que daria. O carro apontou corretamente. A trajetória inicial sustentou a escolha. Porém, a física não responde a intenções, responde a condições.
O pneu dianteiro perdeu aderência. Uma fração mínima. Mas foi o suficiente.
O volante corrigiu dentro do possível, mas o conjunto já estava comprometido. O carro abriu mais do que devia. A traseira ameaçou sair. Havia, ainda, uma janela técnica, estreita, mas existente, para aliviar, corrigir, recuperar.
Essa janela passou.
Resta saber se foi percebida.
Resta saber se foi utilizada.
O instante seguinte de Johnny foi de lucidez absoluta. Sem gritos, sem gestos desordenados, sem medo; apenas a compreensão da curva, da velocidade, da sequência de decisões. Como se, naquele ponto exato, tudo se tornasse coerente.
Depois, veio o impacto.
Os outros frearam mais à frente.
Um voltou correndo. Outro ficou dentro do carro, olhando pelo retrovisor. Comentários baixos, técnicos, quase defensivos:
— Entrou muito quente. 
— Não aliviou nada. 
— Dava para segurar.
Ninguém concluiu nada.
No ambiente dos rachas, certas hipóteses permanecem tácitas. Defini-las implicaria reconhecer que o controle, o valor central daquele sistema, pode, em algum momento, ser voluntariamente abandonado.
Na manhã seguinte, a cidade tratou o caso como mais um acidente de alta velocidade.
No quarto de Johnny, ficaram os restos de uma vida em estado de esboço: cadernos abertos, roupas largadas, intenções não consolidadas, o violão em que tocava os Beatles. 
Naquela curva, Johnny não apenas perdeu. Pode ter escolhido não ganhar.

O Fim do Beco


Ela vinha sempre com um grito 
preso na garganta, 
nascido num quarto apertado 
de um lar sem janela,
carregando o batom como espada,
e um passado preso à bainha 
da saia de látex.

Trocou promessas por neon,
rezas por suspiros entre um gole e outro,
aprendeu a dançar como quem luta,
e a sorrir como quem mente.

Diziam: “Ela não presta.”
Mas ela só prestava atenção
no jeito como a cidade tudo devora e engole,
no preço que o amor de aluguel
cobra no fim do beco.

Tinha nos olhos o que ninguém via:
um espelho partido em mil futuros,
cada estilhaço, uma escolha,
cada escolha, uma cicatriz invisível, 
além das visíveis em seu corpo. 

Foi estrela em boates sem céu,
foi santa em noites sem fé.
A cada beijo vendido,
perdia um nome 
e ganhava um segredo.

Alguém um dia lhe deu flores.
Ela não soube o que fazer com elas.
Jogou-as num vaso sanitário, 
junto com seu vômito.

Era mais fácil despir o corpo
do que o coração.

Hoje, dizem que sumiu.
Talvez esteja em Paris, 
ou num porto africano,
ou apenas dormindo num metrô,
com a cabeça encostada 
em alguma canção antiga.

Mas se um dia você a vir,
não pergunte de onde ela vem;
ofereça um café, 
um pouco de silêncio, 
e um pouco mais de paciência, 
e talvez ela lhe conte quem é.

Passeio Noturno


Foi numa madrugada fria e nublada, numa época em que as luzes noturnas nas ruas ainda possuíam aquele inexplicável e algo melancólico tom laranja de sonho e devaneio. 
Eu estava sem sono. Os comprimidos para dormir não fizeram efeito. Tentei ler, mas não consegui, as palavras teimosamente fugiam do alcance dos meus olhos. O álcool e o cigarro também em nada ajudaram. Então decidi sair.
As ruas pareciam submersas em um oceano de fumaça cinzenta, onde o som dos meus próprios passos era devorado pelo silêncio. Naquela madrugada, o mundo não passava de um esboço inacabado. O relógio no pulso era um adereço inútil; o tempo havia estagnado entre o "ainda não" e o "nunca mais".
Caminhei até que a névoa fosse rasgada por um retângulo de luz âmbar, uma ilha de calor em meio ao deserto de asfalto úmido. O letreiro dizia apenas "COFFEE", com letras que pareciam flutuar no vácuo.
Através do vidro embaçado, vi uma silhueta. Um homem sentado ao fundo, imóvel, como se estivesse posando para uma pintura que ninguém terminaria. Parecia uma espécie de quadro vivo de Hopper. Ele não lia, não escrevia, não esperava. Apenas existia ali, fundindo-se à penumbra da cafeteria.
Hesitei diante da porta. Havia algo de sagrado e terrível naquela quietude. Se eu entrasse, quebraria o feitiço daquela solidão compartilhada? Ou nos tornaríamos dois fantasmas ocupando o mesmo purgatório?
Foi quando ouvi o motor. Um ronco baixo, cansado, vindo das entranhas do nevoeiro. Um carro antigo surgiu como uma miragem, seus faróis projetando feixes pálidos que mal venciam a densidade do ar.
Ao meu lado, um vulto de chapéu cruzou o brilho solitário do poste de luz. Ele caminhava com a inclinação de quem carrega o peso de todos os seus ontens. Não olhou para o café, não olhou para o carro, não olhou para mim.
A cidade, às três da manhã, não é feita de pedra, mas de lembranças que esquecemos de enterrar.
Fiquei ali, parado na calçada, sentindo o frio morder a pele. Naquele instante, compreendi que nós três, o homem no café, o pedestre, na neblina, e eu, éramos a mesma pessoa em diferentes tempos de uma mesma saudade. Éramos pontos de luz alaranjada tentando, em vão, não ser engolidos pela vastidão cinza de uma existência que, às vezes, parece um sonho do qual não conseguimos acordar.
O carro passou, o pedestre sumiu na curva e a luz do poste oscilou, como se estivesse prestes a suspirar. Eu continuei ali, esperando que a névoa me contasse para onde todos eles estavam indo, ou se, como eu, apenas buscavam um lugar onde o café fosse quente o suficiente para provar que ainda estávamos vivos.

O Vento na Estrada


A poeira fina do asfalto agarrava-se ao cromo do escapamento da velha Harley, mas nada conseguia ofuscar o brilho daquele metal polido. A moto estava parada na beira da estrada secundária, sob a sombra magra de uma araucária. Era um respiro, um momento suspenso no tempo e na velocidade, um instante roubado da complexidade dos dois mundos que ela conduzia.
Naquele assento de couro ligeiramente rachado, dois pares de pernas, entrelaçados, contavam histórias diferentes, narrativas de universos tão distintos que jamais deveriam ter se cruzado.
Havia as de Laura: pele exposta, bronzeada pelo sol errante de Ibiza, pousada de leve sobre a coxa de couro e ganga. Eram as pernas de quem estava ali por prazer, por impulso, um capricho, talvez, uma fuga temporária da moldura dourada de sua vida. Ela vinha da grande metrópole, do calor de um verão passado em piscinas de cobertura e jantares formais, mas naquele momento, ela só queria o vento da estrada no rosto. A mão repousava suavemente sobre o couro, um contraste de textura e temperatura com o tecido mais grosso por baixo, um gesto de delicadeza que jamais seria compreendido na dureza do asfalto. Laura, herdeira de uma fortuna que mal podia quantificar, habituada ao circuito internacional de luxo que a levava de Mônaco às Maldivas, sentia-se mais livre, ali, do que em qualquer mansão ou resort cinco estrelas, para o escândalo de seus pais e da alta sociedade em que nascera.
E havia as pernas de César, envoltas em ganga escura, gasta e amassada, que se fundia às botas de combate já cansadas. Essas botas não eram apenas calçados; eram artefatos de sobrevivência, testemunhas de invernos rigorosos e verões escaldantes, os cadarços folgados, o couro marcado por incontáveis quilômetros de terra, asfalto e cascalho, a sola grossa que pisara desde as areias desérticas de Atacama até as lamas fluviais do Orinoco. Elas o protegiam, o ancoravam, eram sua única certeza. Ele era um cavaleiro moderno, o condutor do ritmo veloz e constante da máquina que vibrava sob eles, a personificação da estrada. 
César, um errante por escolha ou destino, sem raízes ou heranças, nada a não ser sua velha Harley, encontrava sua riqueza na liberdade de cada amanhecer e no ruído do motor.
Laura inclinou a cabeça para trás, o vento ainda zunindo em seus ouvidos, apesar da moto estar parada.
— Para onde vamos agora, César? — perguntou, a voz rouca, quase um sussurro contra o vasto silêncio da paisagem.
César tirou o pé da pedaleira, sentindo a rigidez do tornozelo, e fixou os olhos na estrada vazia que se estendia além. Ele apertou os lábios, e a ruga entre as sobrancelhas se aprofundou. Ele não tinha um destino no mapa, apenas uma direção. Um destino, para ele, era uma âncora que ele se recusava a ter. Deu uma última tragada em seu cigarro, jogou a guimba no asfalto, olhou para Laura e sorriu.
— Não sei. Para onde ela — e deu uma palmada leve na motocicleta — nos levar. — Ele esfregou a mão enluvada no joelho, um gesto quase inconsciente de quem está acostumado a não ter muito para onde ir. — Está com frio?
Laura sorriu, o vento dissipando o calor do sol da tarde.
— Não. Estou ótima. Sinto-me... não sei... invencível, aqui, assim, em cima dela.
Era a máquina envenenada que dava a Laura essa sensação, mas era César que lhe dava a permissão para senti-la, a porta para um mundo de que seus ancestrais se esforçaram tanto para protegê-la. Ele podia ser duro, e, às vezes até áspero, como o couro de suas botas, mas ali, naquele momento, era apenas a rocha sobre a qual ela descansava, o pilar de um mundo que ela nunca imaginou existir. 
E então os dois se beijaram sob um céu cálido e livre. 
Ele olhou para a bota, depois para a perna nua ao lado da sua. Dois mundos. Duas estradas. Mas, naquela tarde, naquele pedaço de asfalto, eles seguiam a mesma direção, com o cheiro da gasolina e do couro como perfume, com a incerteza do amanhã como guia, e a estranha união de seus universos, suspensa no tempo, apenas por um instante, breve, mas infinito, como um sonho de amor.

Quatro Mulheres


Hoje acordei pensando 
nas quatro mulheres que mais amei.

Não como alguém que simplesmente
rememora uma recordação,
mas como quem reabre uma ferida antiga, 
a seco, 
e com uma pitada de sal, 
para arder mais,
e encontra nela ainda pulsação, 
ainda calor, 
ainda sede, 
uma inesgotável e imperecível sede.

As mulheres que mais amei 
não se deixam reduzir a meras lembranças, 
elas ainda retornam, em fragmentos:
um tornozelo, 
um riso, 
um silêncio depois do toque
uma dobra de pele 
onde o tempo parecia nunca correr.

A comissária de bordo luso-germânica,
pai português, mãe alemã, 
com sua precisão quase litúrgica,
sabia exatamente onde pousar 
as mãos e os lábios, 
como se já conhecesse, 
desde longas eras,
cada relevo, planície, esplanada e cordilheira 
do mapa hirsuto de meu corpo em chamas.

Havia nela, de fato, um ímpeto teutônico 
que me incendiava,
um erotismo, contudo, disciplinado, prussiano, 
de linhas retas e respiração medida,
mas, quando cedia ao Sturm und Drang 
entre nossos lençóis,
irrompia como turbulência súbita, 
como se marchasse ao som de Wagner,
como se o céu, enfim, perdesse o controle,
e eu também me perdia no intervalo 
entre suas pernas cruzadas em minha cintura.

Ela tinha o cheiro de aeroportos 
e despedidas adiadas,
e um modo de inclinar o rosto
que transformava qualquer 
proximidade em promessa jamais quebrada.

A bailarina loira da Sociedade Garibaldi
era feita de tensão e abandono,
cada músculo treinado 
para conter o excesso,
cada gesto calculado 
para parecer inevitável.
Mas havia momentos, 
raros, perigosos,
em que o corpo traía a técnica
e então surgia algo mais cru
mais próximo da carne do que da alma.

Eu a via no intervalo entre as danças, 
suada, os cabelos colando na nuca,
a respiração irregular,
e ali, nesse colapso mínimo,
o desejo deixava de ser contemplação
para tornar-se vertigem.

Ela dançava como quem domina 
não só próprio corpo, 
mas o mundo inteiro, 
e me tocava como quem ainda o descobre,
e nisso havia uma beleza inquietante,
quase violenta, 
em sua delicadeza de cisne 
à beira da morte.

A atriz com pretensões literárias
vivia em camadas,
texto, subtexto, intenção, desvio, 
entoava obscenidades 
como se recitasse preces,
e beijava-me como se reescrevesse 
um romance erótico,
apagando, testando, sempre recomeçando
onde o prazer pulava 
para o próximo parágrafo.

Havia nela uma fome de ser vista
não apenas como um corpo,
mas como construção, 
como narrativa, 
como espetáculo, 
e, ainda assim,
era no instante em que esquecia seu papel,
que se tornava absolutamente real.

Seus dedos tinham urgência.
Seus silêncios, densidade.
E, às vezes, depois, deitados, lado a lado,
depois de seu hipismo sobre mim,
parecíamos dois personagens 
que sobreviveram ao próprio enredo.

Ela queria eternizar tudo
em palavras, 
em páginas, 
em versões,
e eu sabia,
com uma lucidez quase cruel,
que certas experiências só existem enquanto não são fixadas.
- Sou uma obra em progresso, ela dizia. 
Mas o papel sempre mente.

E a dekasegui fumante, 
descendente de samurais, segundo dizia,
obsessiva, caótica, multipolar,
delicadamente deslocada,
como se vivesse num país 
que não era o seu, 
apesar de nele haver nascido, 
eternamente sonhando 
com a terra de origem de seus ancestrais, 
e nunca presente no tempo que lhe coube, 
a pele dos pulsos, braços e pernas marcada
pelas cicatrizes de feridas autoinfligidas,
o que dizer a seu respeito?

Havia uma lentidão ritual em seus gestos,
um cuidado quase cerimonial
ao acender o cigarro,
ao inspirar,
ao soltar a fumaça, 
como se dissolvesse pensamentos.

Quando me olhava,
não era inteiramente a mim que via.
Havia ali, camadas de referências, 
de fantasmas de ronins, 
talvez um aroma longínquo de sakuras,
como se eu fosse também uma tradução 
de um haicai de Bashô.

Mas seu corpo,
esse não mentia.
Havia nele uma entrega sem ornamento,
um abandono que contrastava 
com sua mente superpovoada 
de sonhos orientais.

E no encontro entre esses dois planos,
nascia algo estranho,
íntimo e estrangeiro, ao mesmo tempo.

As mulheres que mais amei
foram territórios instáveis,
zonas de contato 
entre desejo e linguagem,
lugares onde o corpo tecia hinos 
antes da consciência compreender o idioma.

Não as possuí, 
nem mesmo quando me deram seus corpos,
nem fui por elas possuído 
de forma duradoura.
Houve apenas interseções
breves, intensas, irrepetíveis.

Corpos são intercambiáveis, 
Almas, incomunicáveis. 

E, ainda assim
há madrugadas em que retornam em mim,
não como lembranças organizadas 
e racionalmente depuradas,
mas como sensações difusas, 
calores que não encontram origem,
nome que não ousam se pronunciar.

E eu permaneço ali,
entre o que foi e o que poderia ter sido,
escutando ecos, 
bebendo litros de uísque, 
insistindo em inserir mais uma moeda, 
só mais uma moeda,
numa jukebox velha,
que já conhece de cor,
cada canção.

A Fera


Ela tem uma boca incrivelmente suja,
mas os palavrões ferozes que profere
soam como sonetos de Petrarca 
em seus lábios deliciosamente carnudos.

Há uma música subterrânea em cada sílaba,
um canto lúbrico, antigo, ancestral,
a vibração de uma deusa pagã 
perdida nas encruzilhadas
onde o desejo aprende a caminhar sozinho.

Quando fala, é como se um incêndio
se insinuasse pelas frestas do mundo,
e cada palavra sua,
obscena, brutal, elétrica, 
erguesse altares clandestinos 
dentro de meu templo mental.

O que ela diz, eu não decoro;
o que ela diz, eu respiro.
Suas blasfêmias cintilam como relâmpagos
que riscam a madrugada do meu peito,
e me deixam marcado, mordido,
ferido de súbita claridade.

Que importa o vocabulário chulo e pobre,
se é a sua voz que arruína 
a gramática do meu juízo?
Em sua boca, até a vulgaridade 
ganha nobreza e requinte.

Entre suas coxas serpenteantes, 
esvai-se toda minha cultura e erudição. 

Ela não tem nenhuma elegância,
fuma cigarros falsos,
fala alto e faz escândalos, 
adora chamar toda a atenção 
do mundo para si.

Contudo, tem o porte de uma deusa ctônica.

Há nela a solenidade dos abismos,
a autoridade silenciosa dos terremotos
que despertam cidades adormecidas.
Mesmo quando tropeça nas próprias palavras,
seu corpo parece obedecer
a leis arcaicas, subterrâneas,
como se caminhasse guiada por forças
que nenhuma superfície compreende.

Sua risada,
desajeitada, estridente, vulgar,
é o eco de rituais esquecidos,
de uma noite primordial
em que o caos ainda moldava o mundo 
com as mãos nuas.

E quando ergue o queixo,
mesmo com o batom borrado
e a impaciência acesa nos olhos,
há uma realeza mineral em sua postura,
o brilho grave das criaturas 
que nunca pedem licença.

Ela não seduz: arrasta em seu vórtice.
Ela não encanta: reclama o que é seu.
Nada nela foi talhado para agradar,
e, no entanto, sua presença
tem o peso de um mito 
respirando no escuro,
o magnetismo brutal
daquilo que sabe 
e faz você saber
que nasceu para ser temido.

Gata Preta às 3 da Manhã


A penumbra respira lentamente.
O quarto é um navio imóvel
num mar de lençóis amassados.

Ela estende o braço,
um gesto sacerdotal 
entre o feitiço e o tédio,
como se chamasse a noite
pelo seu nome ancestral.

A gata preta roça seu ventre,
macia, líquida, sem culpa,
como se o mistério, 
tal como nos áureos tempos do Egito Antigo, 
tivesse pelos negros 
e quatro patas.

Há um rumor de cantos arcaicos, 
de promessas 
que não precisam ser ditas, 
de relâmpagos breves
entre a pele e a renda.

Do lado de fora, 
o mundo é mecânico, 
frio, impessoal.
Mas, aqui dentro,
tudo pulsa em analogia, 
o corpo, 
a sombra, 
o felino desejo,
numa gramática 
anterior à fala humana.

E aqui estou eu, de novo,
meio bêbado, como sempre, 
porém, não de álcool 
(ou não só), 
mas de amor,
com o cheiro dela 
grudado na minha alma,
pensando que, talvez, a paixão 
seja mesmo um gato 
atravessando a noite, 
cada mordida e arranhão, 
uma antífona do Magnificat,
um corpo que se camufla no escuro,
um toque que nos faz esquecer 
de que o mundo apodrece lá fora.

Mas, ainda assim,
agradecemos,
porque há beleza no desastre,
e o desastre, às vezes,
tem perfume de mulher.

Há beleza em certos precipícios 
e beleza ainda maior, em algumas quedas.

O Despertar


A noite caiu como um véu de luto silenciosamente lançado sobre o mundo, apagando contornos e dissolvendo fronteiras. Os sinos da vila desabitada haviam silenciado há décadas, mas o eco do último dobre de finados ainda parecia rondar os subterrâneos.
A cripta jazia sob as ruínas do antigo mosteiro, escondida por vinhas espessas e promessas esquecidas. As pedras, gastas pelo tempo e pela culpa, exalavam um frio que não vinha do clima, mas da memória do que ali repousava. Não era descanso que eu procurava. Era ela.
O sarcófago estava no centro, rodeado por colunas rachadas e restos de vitrais partidos. Haviam inscrições em latim arcaico e um símbolo gravado com perfeição: uma rosa de espinhos invertida, como se o próprio amor tivesse se rendido à morte. 
Aproximei-me. A tampa se moveu com lentidão, rangendo como uma prece recusada.
E então, ela despertou.
Emergiu da cripta como um poema profano. Primeiro os dedos, pálidos como a lua minguante, as unhas pontiagudas como punhais, depois os braços longos, o pescoço nu e finalmente o rosto de um branco marmóreo. Não havia poeira em sua pele, nem decadência em seus olhos. Ela dormiu por anos a fio e agora despertava.
Seu olhar encontrou o meu com a precisão de quem já me havia sonhado incontáveis vezes.
— Há quanto tempo? — ela perguntou, a voz como um sopro de veludo e ossos partidos.
— Dois séculos, querida — respondi, sentindo que toda resposta seria insuficiente. Procurei você por todo esse tempo, pelo mundo inteiro. 
Ela se ergueu por completo. Os cabelos negros, longos, caíam sobre os ombros como uma noite que se recusava a passar. A túnica em farrapos deixava à mostra o ventre liso e a curva silenciosa dos seios. Nada nela era feito para o mundo dos vivos. Tudo nela era um ritual.
Aproximou-se de mim como se eu fosse parte do altar. Seus pés descalços não faziam ruído nas pedras frias, e seu perfume era o da umidade antiga misturada ao sangue seco da história.
Com um gesto, ela pousou os dedos em meu peito. Cada toque parecia fazer soar em mim notas esquecidas. Senti o passado, os olhos das mulheres cujas vidas sorvi com meus dentes, os filhos que nunca tive, as noites em que desejei morrer por causa de minha solidão secular e não consegui, por estar condenado a vagar pelas noites do mundo "ad aeternum".
— Pensei que a tivesse perdido em Budapeste — eu disse. — Contaram-me que um caçador lhe havia cravado uma estaca no peito; outros disseram que você havia sido queimada ao nascer do sol. Duzentos anos de buscas, até finalmente descobrir seu paradeiro.
Ela sorriu, não com alegria, mas com reconhecimento.
— Você também esteve adormecido dentro de si mesmo — disse-me, enquanto suas unhas riscavam minha pele com delicadeza sacramental. — Agora, acordamos juntos.
Inclinou-se e pousou os lábios no meu pescoço. Não como fera, mas como amante.
A mordida, quando veio, não me trouxe dor, mas êxtase. Foi um rasgo no tempo, a entrada num mundo onde o desejo já não teme o abismo.
Senti o sangue se esvair, sim, mas também me senti mais inteiro e, por mais estranha que esta palavra pareça quando aplicada a seres como eu, cujo coração deixou de bater há séculos, vivo, quanto mais ela me bebia. Havia, na minha entrega, um gozo que só os condenados compreendem.
Quando enfim recuou, seus lábios tingidos de carmim, ela disse:
— Agora, somos dois que a luz esqueceu.
E então, me beijou, e eu a mordi de volta.
Ao fundo da cripta, as velas que não acendi acenderam-se sozinhas.
O ar tinha gosto de vinho e pecado.
E do altar profanado, um novo cântico brotou: o cântico do que nasce depois da morte.
Ela me tomou pela mão, e descemos juntos aos corredores mais profundos.
Lá onde o mundo termina.
Lá onde a eternidade começa a murmurar.
A vampira havia despertado.
E com ela, tudo aquilo que em mim dormia.

Os Grandes Homens


Thomas Carlyle (1795-1881)

Vivemos numa era de homens de palha, de verdadeiros anões morais e intelectuais. A democracia moderna, ressalvadas suas muitas e inegáveis virtudes, produziu, como um amargo e doloroso efeito colateral, o nefasto fenômeno do "homem-massa" (na feliz terminologia de Ortega y Gasset e Fulton Sheen) ou "homem medíocre" (na também muito apropriada definição de José Ingenieros). Paradoxalmente, esse é exatamente o tipo de homem ideal para construir e consolidar sistemas totalitários de governo, pois só sabe pensar coletivamente, ainda que se iluda com uma individualidade de fachada, a serviço apenas de seus instintos mais básicos e primitivos, o que inevitavelmente o torna presa fácil da populismo e da demagogia.
A moda da época atual parece ser a uniformização. Cultural, comportamental, sentimental. Em última instância, ideológica e política. Contudo, não é um fenômeno inteiramente novo, embora hoje seja mais visível e agudo: já nos anos 30, Stefan Zweig denunciava a monotonização (ou melhor, americanização, isto é, massificação) do mundo.
Thomas Carlyle, que, há exatos cento e oitenta e seis anos, realizou a primeira de suas clássicas conferências sobre as grandes personalidades da história, religião e cultura humanas, pensava de forma diametralmente oposta à dos atuais arautos e apologistas da mediocridade coletiva. Dizia ele que o mundo não anda senão pela ação dos grandes homens e a massa não é mais do que um instrumento passivo e flexível de que eles se utilizam para atingir os próprios fins. Pode-se, é claro, discordar desta posição (os marxistas, por exemplo, com sua patológica obsessão pela economia como o motor da história, discordam), mas eu penso exatamente como ele, e, pessoalmente, ouso até fazer minhas estas belas e célebres palavras de Will Durant, no tocante ao tema:

"Dos muitos ideais que, na mocidade, dão à vida uma significação e uma radiância que faltam às frias perspectivas da idade madura, um, pelo menos, não se adormentou em mim, permanecendo brilhante como no começo - a intrépida adoração dos heróis. Numa idade que nivela tudo e nada reverencia, ponho-me ao lado de Carlyle e acendo minhas velas, como Pico de Mirandola¹, diante da imagem de Platão, no santuário dos grandes homens".

Particularmente, acho deveras difícil, senão impossível, imaginar como seria o mundo, hoje, se não tivesse sido moldado, em que pesem suas inúmeras diferenças de ações e de pensamentos, pelas mãos de homens como Alexandre, César, Napoleão, Bismarck, Churchill, de Gaulle, Roosevelt e tantas outras grandes personalidades (incluindo mulheres, convém esclarecer) que já caminharam sobre a face deste planeta, e deixaram suas marcas na história, membros representativos, como diria Emerson, de uma espécie que se encontra sob grave risco de extinção nos dias atuais, se é que já não foi completamente extinta: o Homem Superior. Esta ideia é um anátema nesta era de falsa equidade. Mas convém sempre lembrar: a igualdade humana é, pura e simplesmente, uma mentira, um mito moderno, responsável por fazer derramar verdadeiros rios de sangue na história contemporânea. 
Existem muitas formas válidas e reconhecidas de estudar e compreender os fenômenos históricos. Já citei o marxismo, mas também há o conceito de "longa duração" da Escola dos "Anales", por exemplo. Entretanto, eu ainda fico com Carlyle:

"Porque, conforme eu a considero, a história universal, a história daquilo que o homem tem realizado neste mundo, é, no fundo, a história dos grandes homens que aqui têm laborado. Eles foram os condutores de homens, estes grandes homens, os modeladores, padrões, e, em sentido amplo, criadores de tudo o que a massa geral dos homens imaginou fazer ou atingir; todas as coisas que nós vemos efetuadas no mundo, são, propriamente, o resultado material externo, a realização prática e a incorporação dos pensamentos que habitam nos grandes homens mandados ao mundo: a alma de toda a história universal, pode justamente considerar-se, seria a história destes".

 E, ainda uma vez, Will Durant:

"Não, a verdadeira história do homem não está nos preços e salários, nem em eleições e batalhas, nem no nível de vida do homem comum: está nas duradouras contribuições dos gênios para a soma da civilização e da cultura humana. A história da França não é a história do povo francês, o desenrolar da vidinha de criaturas sem nome que lavraram o solo, fizeram sapatos e roupas, mascatearam artigos (porque estas coisas sempre foram feitas em todos os tempos); a história da França é o relato da ação dos seus homens e mulheres excepcionais, seus inventores, cientistas, homens de Estado, poetas, artistas, músicos, filósofos e santos, e das adições que eles trouxeram à técnica e à sabedoria, às artes e aos costumes, tanto da França como da humanidade. E o mesmo com todos os demais países; a história do mundo é a história dos grandes homens".

Há anos não vejo um grande homem. Nem no Brasil, nem alhures. Há, nestes dias sombrios, apenas homens moral e intelectualmente pequenos, para onde quer que meus olhos apontem, e não sou o único a ter essa amarga e incômoda impressão, mas provavelmente sou um dos pouquíssimos a externá-la, pois não é politicamente aceitável dizer que há homens superiores. Sim, as instituições, principalmente numa democracia, são superiores aos indivíduos, e assim devem permanecer. Mas, ouso perguntar, de que valem grandes instituições quando comandadas por homens pequenos? Instituições pequenas, comandadas por grande homens, tornam-se igualmente grandes e sólidas instituições, mas o contrário nunca acontece. Homens pequenos tudo apequenam, até mesmo as maiores e mais sólidas instituições, e instituições pequenas, comandadas por homens pequenos, geram países pequenos.
Quando anões morais e intelectuais habitam catedrais institucionais, eles não se elevam; eles rebaixam o teto da catedral para que este se ajuste à sua própria pequenez. O resultado é o espetáculo grotesco que assistimos diariamente: o apequenamento sistemático do debate público, transformado em um teatro de sombras para saciar apetites imediatos e vaidades nanicas. O Brasil de hoje é um vívido e triste exemplo desse fenômeno. Basta observar o bestiário, digo, noticiário político nacional, para averiguar esse fato.
É um velho truísmo, mas que convém sempre repetir: grandes homens fazem a história. Homens pequenos apenas a sofrem.
Este pequeno artigo é a minha humilde vela para o altar de Platão.

 ¹E Marsílio Ficino.

Semáforos


Assim que o sinal vermelho se acendia no semáforo, eles imediatamente começavam o espetáculo. Era sempre ali, naquele instante breve em que o tempo se detinha, que eles realmente existiam e o mundo lhes pertencia
Miguel e Luna não tinham uma idade definida, ora pareciam ser extremamente velhos, ora mal tendo acabado de sair da infância. Fosse qual fosse sua idade real, haviam-na irremediavelmente perdido no turbilhão voraz e inexorável dos dias sempre iguais. Ambos acreditavam ser eternamente jovens, embriagados pela névoa de uma fome que nunca cessava, pela adrenalina que lhes provocavam os carros que rugiam impacientes, pela ilusão química que às vezes lhes permitia sonhar com outro mundo.
Os corpos magros, desenhados pelo tempo áspero da rua e do vício, moviam-se com uma estranha graça sob os olhos distraídos dos motoristas. Luna atirava as bolinhas e malabares para o alto, e Miguel, com uma destreza quase ingênua, os colhia de volta, compondo um balé frágil e silencioso. Nos segundos em que durava a performance, eram artistas de um circo invisível, crianças brincando com a gravidade, deuses efêmeros sustentando um infinito cosmos de cores e movimentos. Era sempre o mesmo show, em todos os semáforos. 
Mas a indiferença também fazia parte do espetáculo. Olhares apressados atravessavam suas figuras como se eles fossem de vidro, sem ver o suor na testa, o tremor nos dedos, os olhos marcados pelo cansaço. Às vezes, alguém abaixava o vidro e jogava uma moeda, às vezes apenas desviavam sua visão, como se o simples ato de ignorá-los os apagasse da existência.
Quando a luz verde surgia no semáforo, como um decreto dos deuses mecânicos do asfalto, os carros partiam, levando consigo os resquícios daquela breve atenção. Luna então contava os poucos trocados recolhidos, e Miguel ajeitava a mochila surrada onde guardavam tudo o que possuíam: suas maiores riquezas, além dos malabares, eram um cobertor puído, um isqueiro e uma seringa.
À noite, debaixo do viaduto, o mundo se tornava um universo à parte. Sob a luz amarelada dos postes, o frio infiltrava-se-lhes por entre os ossos, mas era ignorado quando a primeira picada trazia seu êxtase doce e entorpecente. Luna sentava-se no chão, encostada em um dos pilares, e Miguel deitava a cabeça em seu colo. Ela acariciava seus cabelos desgrenhados e sujos com dedos frágeis, sentindo a pulsação lenta de um coração que já não conhecia pressa.
— Um dia a gente vai sair dessa, né? — murmurava ele, os olhos semicerrados, inebriado pelo narcótico.
Luna não respondia de imediato. Olhava para cima, para o céu cortado pelo concreto, tentando encontrar uma estrela, qualquer uma, ou talvez um cometa em que ela pudesse voar. Uma vez, sua mãe lhe disse, os olhos roxos, depois de um dos costumeiros abusos de seu pai, que, se desejasse com força suficiente, alguma coisa boa aconteceria. Mas aquilo já fazia tanto tempo...
Às vezes. sonhava com uma casinha branca, como a da sua infância distante, cercada de árvores e pássaros, ou próxima a uma cachoeira, como uma casa de calendário. Até chegou a tatuá-la no braço, agora coberto de picadas de agulha. Quase nem era mais possível reconhecer sua tatuagem. 
Miguel, por sua vez, nem conseguia compreender o conceito de "casa", ele nunca teve uma, pois seu berço foi a própria rua, e na rua ele sempre viveu, exceto por alguns anos que passou no reformatório. Seu verdadeiro lar era Luna, Luna era todo o seu mundo. 
— Claro que vamos — respondeu ela por fim, sem muita certeza se o dizia para Miguel ou para si mesma.
O silêncio se acomodava entre os dois como um cobertor fino demais para aquecê-los.
Pela manhã, quando os primeiros carros começavam a encher as avenidas, eles já estavam de pé. O corpo pesado, a alma leve, o sangue pedindo mais. Mais uma vez, caminharam até o cruzamento, tomando seus lugares como atores antes da cortina se abrir.
Luna jogou a primeira bolinha para o alto, e Miguel a seguiu com os olhos. Viu-a subir, girar no ar por um instante, hesitante, antes de começar sua queda. Naquele breve momento, Miguel sentiu como se sua própria vida estivesse suspensa ali, flutuando no vácuo, sem saber se voltaria a tocar o chão ou se se perderia no vento.
O farol ficou vermelho. O espetáculo recomeçou. 
Um dia, Luna teve uma overdose. Morreu engasgada no próprio vômito, enquanto Miguel dormia, completamente entorpecido e alcoolizado. Veio o rabecão, policiais entediados tomaram notas enquanto Miguel, subitamente sóbrio, apenas chorava, convulsivamente, e os carros seguiram sem o habitual espetáculo de malabares.
Luna foi sepultada como indigente. No cemitério, apenas Miguel e os coveiros, trocando piadas obscenas e reclamando do clima. Chovia. Miguel ainda ficou um longo tempo, diante da sepultura, debaixo da chuva, depois que tudo acabou.
Na manhã seguinte ao enterro, Miguel foi sozinho ao semáforo. E não saiu da frente dos carros quando o sinal ficou verde.

As Lendas de Lady Revólver

Dizem que Lady Revólver 
nasceu num motel de beira de estrada,
entre os gritos estridentes 
de uma parturiente solitária 
e o ronco estrondoso e gutural 
de um caminhoneiro bêbado.

Outros juram
que era filha de um coronel desertor 
do exército americano
com uma cantora de tangos argentina
que morreu por overdose de barbitúricos.

Falam que matou o primeiro homem 
aos quinze anos,
com um beijo envenenado
e uma lâmina escondida no sutiã: 
um movimento preciso e rápido, 
quase sem sangue, 
e depois a fuga para o vasto mundo,
a bordo de uma motocicleta roubada.

Outros dizem que foi a única sobrevivente
de um massacre numa cidade sem nome, 
esquecida nos grotões do Brasil Profundo,
e que, desde então,
carrega consigo o revólver 
do último jagunço que tombou. 

Há também os que dizem 
que foi bailarina em Marselha,
que dançava sobre o piano 
com uma rosa na boca
e um punhal nos cabelos.

Outros, que foi espiã em Praga,
e que as cicatrizes em seu corpo 
eram códigos secretos 
criptografados a faca.

Contam que ela teve um filho, natimorto,
e o enterrou com as próprias mãos, 
entre as cinzas de um circo incendiado.

Outros contam que jamais pariu seres humanos,
mas vinganças, com dores maiores 
do que em qualquer parto.

Há quem diga que amou um homem cego,
que tocava violoncelo no porão 
de um cassino clandestino, 
e por ele quase se matou, 
quando ele não a amou de volta.

Também dizem que matou 
todos os que ousaram amá-la,
um por um,
de forma tão bela e doce, porém,
que eles sorriam ao expirar em seus braços. 

Lady Revólver, 
a rainha das estradas vicinais,
a matriarca dos corpos inumados,
a cafetina dos condenados,
a santa dos pecadores.

Com um dedo no gatilho
e outro entre as pernas do destino,
ela escreve sua lenda
na pele de cada homem 
que pensa ser o escolhido
e descobre, tarde demais,
que foi só mais um nome
no caderno vermelho
que ela mantém trancado
na última gaveta
do último quarto
do último bordel do fim do mundo.

Mundo Secreto


Para entrar em meu mundo, 
é preciso abandonar a pressa 
e abraçar o silêncio. 

Só assim, a entrada secreta se abre,
como uma porta antiga,
apenas para quem sabe ouvir 
o som da própria alma.

Há corredores de sombra e âmbar,
onde os passos ecoam devagar,
como se o tempo, neles, respirasse
num ritmo próprio, subterrâneo.

Nele, nada real floresce
sob a tirania dos segundos;
a delicadeza precisa de intervalos,
a verdade exige penumbra,
e o desejo, quando nasce,
vem sempre depois da contemplação.

Nos desvãos das salas altas,
o pó repousa sobre livros gastos,
como se guardasse, em silêncio,
os grandes nomes que o mundo esqueceu.

Ali, a luz se parte em diagonais lentas
e as margens das páginas
parecem folhas de inverno.

Há uma mesa onde velhas anotações
ainda conservam o calor de mãos atentas;
a tinta, ligeiramente desbotada,
indica batalhas travadas na solidão gloriosa
de madrugadas carregadas de pensamento.

As janelas, altas e estreitas,
deixam entrar um ar frio
que cheira à madeira e contemplação.

Nos corredores silenciosos,
esculturas rachadas vigiam a noite,
como se esperassem um visitante
capaz de decifrar seus lábios imóveis.

E, ao longe, o rumor do vento
faz vibrar uma porta semicerrada,
sugerindo segredos que preferem
não ser tocados pela luz.

Quem caminha comigo
aprende a ler o que não digo,
o que vibra sob a superfície,
onde o gesto é mais profundo 
do que qualquer palavra.

Meu mundo não se visita,
conquista-se.

E só se abre, inteiro,
àqueles que sabem deter o relógio
e deixar o espírito
amadurecer no fogo lento da reflexão.