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Breves Reflexões Quadragenárias


Completo, neste momento, exatos 45 anos de idade. Quase um século de vida. É hora de fazer um balanço da minha história. 
Meus quarenta e cinco anos não se anunciaram como um evento festivo, mas como um território conquistado. Há algo de solene nessa idade: a consciência de que o tempo deixou de ser meramente uma promessa e passou a ser uma substância real, moldada pelas próprias mãos.
Os fios brancos em minha barba não são, para mim, um sinal de declínio, mas de registro. Cada um deles carrega um episódio, uma escolha, uma perda que não pôde ser evitada. Não é a velhice que se insinua para mim num horizonte cada vez mais próximo, mas a inscrição visível de um percurso. A juventude supõe; a maturidade testemunha.
Já estive no inferno algumas vezes. Conhecer o inferno não é uma metáfora excessiva, no meu caso. Trago, de todas essas atribuladas estadias, inúmeras cicatrizes (algumas delas físicas; na sua esmagadora maioria, emocionais; não me envergonho delas, são, cada uma, uma história, minha história). É uma competência adquirida. Há um ponto na vida em que o homem deixa de temer o abismo porque já o atravessou. Reconhece-lhe o cheiro, a lógica, os mecanismos. E essa familiaridade altera tudo. O mundo perde a ingenuidade, mas ganha nitidez. Já não se acredita em redenções fáceis, tampouco em quedas definitivas.
É nesse cenário que o renascimento deixa de ser retórica e assume forma concreta. Renascer das próprias cinzas não é um gesto épico, mas um trabalho contínuo de recomposição. Não se volta intacto. Volta-se diferente, mais sóbrio, menos impressionável, mais exato. A identidade já não é aquilo que se exibe, mas aquilo que resiste.
A maturidade, portanto, não é apenas acúmulo de anos, mas depuração. Há menos dispersão, mais direção, menos vaidade e mais integridade, menos urgência de agradar, mais compromisso com o que permanece. A cultura, nesse estágio, deixa de ser ornamento e se torna ferramenta. Literatura, história, filosofia, não são mais refúgios, mas instrumentos de leitura do real e de si mesmo.
A paternidade, por sua vez, desloca o eixo da existência. O tempo deixa de ser exclusivamente próprio. Cada decisão passa a reverberar além da própria biografia. Educar não é transmitir certezas, mas oferecer estrutura para que outro atravesse seus próprios infernos com alguma lucidez. Se algum grande sonho ainda alimento, é o de formar meu filho como um homem completo. É uma responsabilidade silenciosa, sem aplauso, mas de um alcance moral (e existencial) incalculável.
E então surge a questão do legado. Não o legado grandioso, inscrito em monumentos, mas um mais austero, quase invisível. O modo de pensar, a forma de agir sob pressão, a integridade mantida quando ninguém observa. O legado é aquilo que permanece quando a presença já não é possível, como um dia, de fato, não será. 
Os quarenta e cinco anos de um homem, não servem exatamente para celebrar o que foi conquistado, mas para reconhecer o que foi integrado. Há cicatrizes que não pedem cura, apenas reconhecimento. Há perdas que não exigem superação, apenas assimilação. E há uma força nova, menos ruidosa, mais estável, que nasce precisamente dessa travessia.
Não é o início, tampouco o fim. É um ponto de consolidação. Um lugar onde o homem já não precisa provar que existe, porque sabe, com precisão suficiente, quem se tornou.

Petricor


Pesadas nuvens escuras começam a se formar no céu, lentamente convertendo o dia em noite. O vento ganha força e faz as folhas nas árvores dançarem sob seu sopro decidido. Há um presságio inequívoco de chuva no ar, e isso, de certo modo, me alegra e conforta. Tenho predileção por esse clima. Amo dias chuvosos. Sou particularmente sensível ao petricor, esse aroma terroso que se eleva do solo quando a água o toca. Os estudiosos da mente humana chamam a essa inclinação de pluviofilia.
Estou sentado em minha biblioteca. Em breve, chegará o crepúsculo, e a escuridão, aos poucos, recobrirá os móveis e os livros. Sinto-me imerso numa atmosfera que lembra um romance gótico. É o ambiente ao qual pertenço, ou, ao menos, no qual melhor me reconheço. Nele, encontro a disposição ideal para a leitura, por exemplo, de "História Narrada ao Crepúsculo", de Stefan Zweig; de "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë; de "Drácula", de Bram Stoker; ou ainda, dos contos de E. T. A. Hoffmann e Edgar Allan Poe, sempre acompanhados por uma xícara generosa de café ou de chá, ao lado de minhas estatuetas e bustos clássicos.
Apesar de não ter sido um dia particularmente extenuante em termos objetivos, minha energia social encontra-se, como de hábito, completamente esgotada. Interações humanas, na maior parte das vezes, produzem em mim um desgaste considerável. São raras as ocasiões em que a sociabilidade se me apresenta como algo espontaneamente desejável. Em geral, o convívio prolongado me conduz a um estado de saturação silenciosa, no qual tudo o que anseio é recolhimento, distância e quietude. Quisera eu ser um urso e viver permanentemente no interior de minha caverna, num inverno eterno. Sou um homem polar. O frio e a chuva são os meus elementos naturais. O mundo exterior só me enfada e exaure. Tenho a alma de um monge sem hábito. Minha biblioteca é meu mosteiro particular. 
Hoje, porém, não há irritação, tampouco impaciência. Pelo contrário: sinto-me estranhamente pacificado comigo mesmo e, de maneira mais ampla, com os demais homens que habitam este pálido e atribulado ponto azul perdido e solitário na periferia do cosmos. É plausível que seja por influência do clima. A chuva tem o dom de apaziguar o meu espírito. Mal posso esperar pelo petricor.