Petricor


Pesadas nuvens escuras começam a se formar no céu, lentamente convertendo o dia em noite. O vento ganha força e faz as folhas nas árvores dançarem sob seu sopro decidido. Há um presságio inequívoco de chuva no ar, e isso, de certo modo, me alegra e conforta. Tenho predileção por esse clima. Amo dias chuvosos. Sou particularmente sensível ao petricor, esse aroma terroso que se eleva do solo quando a água o toca. Os estudiosos da mente humana chamam a essa inclinação de pluviofilia.
Estou sentado em minha biblioteca. Em breve, chegará o crepúsculo, e a escuridão, aos poucos, recobrirá os móveis e os livros. Sinto-me imerso numa atmosfera que lembra um romance gótico. É o ambiente ao qual pertenço, ou, ao menos, no qual melhor me reconheço. Nele, encontro a disposição ideal para a leitura, por exemplo, de "História Narrada ao Crepúsculo", de Stefan Zweig; de "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë; de "Drácula", de Bram Stoker; ou ainda, dos contos de E. T. A. Hoffmann e Edgar Allan Poe, sempre acompanhados por uma xícara generosa de café ou de chá, ao lado de minhas estatuetas e bustos clássicos.
Apesar de não ter sido um dia particularmente extenuante em termos objetivos, minha energia social encontra-se, como de hábito, completamente esgotada. Interações humanas, na maior parte das vezes, produzem em mim um desgaste considerável. São raras as ocasiões em que a sociabilidade se me apresenta como algo espontaneamente desejável. Em geral, o convívio prolongado me conduz a um estado de saturação silenciosa, no qual tudo o que anseio é recolhimento, distância e quietude. Quisera eu ser um urso e viver permanentemente no interior de minha caverna, num inverno eterno. Sou um homem polar. O frio e a chuva são os meus elementos naturais. O mundo exterior só me enfada e exaure. Tenho a alma de um monge sem hábito. Minha biblioteca é meu mosteiro particular. 
Hoje, porém, não há irritação, tampouco impaciência. Pelo contrário: sinto-me estranhamente pacificado comigo mesmo e, de maneira mais ampla, com os demais homens que habitam este pálido e atribulado ponto azul perdido e solitário na periferia do cosmos. É plausível que seja por influência do clima. A chuva tem o dom de apaziguar o meu espírito. Mal posso esperar pelo petricor.

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