terça-feira, 12 de setembro de 2017

Ação e Reação

Luis Quiles
Para tudo na vida, não só na física, existe a famosa lei de ação e reação. A liberdade de expressão é legítima e deve ser respeitada. Por todos. Mas liberdade rima com responsabilidade. Se uma pessoa posta um texto em modo público, nas redes sociais, com comentários abertos, criticando o movimento LGBT, por exemplo, é natural que receba críticas, construtivas ou não, de membros ou simpatizantes do referido movimento. O mesmo vale para posts de supremacistas brancos com relação aos negros e de outros grupos que atacam minorias e adeptos de crenças diferentes, apenas por serem diferentes. É o preço a pagar por dizer o que se pensa. Sobretudo quando o que se pensa não é socialmente aceitável. 
Não existe uma visão única. O único modo de evitar críticas é ficar calado ou então compartilhar suas opiniões apenas na esfera privada, com pessoas que comungam do mesmo pensamento que o seu.
O que se deve coibir, no entanto, é o radicalismo.
De todo modo, no que se refere ao movimento LGBT e congêneres, minha modesta opinião é de que a vida sexual alheia, desde que não me faça mal ou não fira a lei, é um assunto que não me diz respeito. Que cada um viva sua vida da forma que melhor lhe aprouver e tente ser feliz ao seu próprio modo.
E também não julgo os indivíduos pela cor de sua pele ou pela fé que professam. O caráter é minha régua. E o único modo de julgar corretamente, na medida do possível, o caráter de alguém, é observar suas ações, mais do que suas palavras.
Meros acidentes, como cor de pele, credo religioso ou opção sexual não são indicadores válidos. Não traduzem a verdadeira essência de um ser humano. E a pessoa que leva apenas tais fatores em conta e quer dividir a humanidade em categorias distintas e estanques, com base em critérios tão vis e insignificantes como os supramencionados, não merece qualquer mínimo respeito intelectual. Para falar a verdade, não merece senão desprezo.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Porcos sem Pérolas

Capa de uma edição de "Animal Farm" ("A Revolução dos Bichos"), de George Orwell. 
Mote perfeito para uma crônica machadiana: em fevereiro deste ano, o Corpo de Bombeiros do condado de Wiltshire, na Inglaterra, salvou uma ninhada de vinte porcos de um incêndio numa fazenda da região. Seis meses depois, a proprietária da referida fazenda decidiu oferecer, como agradecimento aos profissionais de resgate, por seu ato heroico, um churrasco. Nada fora do comum, aparentemente. Não fosse o tragicômico detalhe de a linguiça com que se fartaram os nobres bombeiros, no dito churrasco, ter sido feita com a carne dos mesmos porcos que eles salvaram das chamas.¹ 
Percebe a ironia, amado leitor? Nada tenho contra quem come carne de porco, eu mesmo sou um grande apreciador desta iguaria, mas não posso deixar de sentir uma certa pena dos pobres animais a que aludo neste artigo. Pena e uma certa vontade de rir. Pois que triste e, ao mesmo tempo, confessemos, hilário, destino tiveram: salvos de, num primeiro momento, morrer pelo fogo, acabaram por servir de alimento para seus próprios salvadores, também pelo fogo! Há algo de kafkiano nesta história. A realidade pode, muitas vezes, ser mais absurda do que a ficção.
De todo modo, agora ocorre-me pensar que é melhor comer um porco do que dar-lhe pérolas. Oxalá não promovam a classe suína e outros animais, uma revolução contra os homens, nos moldes daquela imaginada na clássica obra de George Orwell! Há quem diga que já ocorreu algo parecido, em plagas russas. Mas há controvérsias sobre a natureza verdadeiramente suína de tipos como Stálin e congêneres. Eu não tenho dúvida de que os porcos levariam vantagem na comparação.  
Guardadas as devidas proporções, a história dos infelizes porquinhos, que não é da carochinha, apresenta certa analogia com a da mulher que foi morta por uma equipe de polícia, nos Estados Unidos, enquanto ameaçava cometer suicídio.² Seu objetivo inicial era morrer pelas próprias mãos. Acabou por morrer pelas mãos de outrem. Não deixa de ser, embora trágica, uma história de sucesso. Afinal, ela alcançou seu intento.
É possível, porém, que, ao ameaçar matar-se, a pobre mulher quisesse, na verdade, viver (dizem os psicólogos e seus comparsas, que os suicidas, embora queiram morrer, na verdade, não o querem, de fato). Mas a SWAT parece ter levado a sério o que ela referiu como seu propósito original, morrer, e decidiu auxiliá-la, matando-a. Curioso ato de generosidade de sua parte!
Nos antigos contos de fadas, havia sempre, ao final das histórias, uma moral. Aqui temos duas histórias e, portanto, duas morais. Ou a mesma moral para ambas as histórias. Ou melhor, duas morais que valem tanto para a primeira quanto para a segunda história.
A primeira, e mais óbvia: não se pode fugir da morte. Podemos evitar morrer de uma determinada forma ou num dado momento, mas vamos morrer, uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, e nada podemos fazer a respeito, apenas torcer para que não soframos muito, quando chegar a hora. E a segunda: a diferença entre um herói e um vilão, é, no mais das vezes, apenas uma diferença de perspectiva ou de cronologia. Aquele que nos salva de um incêndio, hoje, pode comer nossa carne, amanhã - esperemos que não literalmente, é claro, a não ser que se trate de um legítimo canibal dos rincões da Amazônia Profunda, ou um curandeiro antropófago de alguma aldeia inóspita da África do Sul³, por exemplo - ou (válido para os suicidas) nos matar, para evitar que nos matemos - e isto se liga à primeira moral supramencionada.
Mas nenhuma destas histórias é um conto de fadas. Ninguém viveu feliz. Nem para sempre.
Fim.