segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Homo Machinus

Da série "Doctor Who"
É triste constatar, mas não há como negar que a humanidade está a ficar obsoleta e os robôs estão a dominar o mundo. A mais nova cidadã da Arábia Saudita, Sophia, um robô feminino com mais direitos do que as mulheres de carne e osso de seu novo país, está aí para prová-lo.¹ Já não parece mais tão distante o dia em que o argumento central da franquia "O Exterminador do Futuro", o domínio dos homens pelas máquinas, deixará de pertencer ao plano da ficção científica e passará a ser a mais pura e sombria realidade. Não sou apenas eu que o digo. Já há até quem tenha marcado uma data para esse fatídico evento ocorrer.²
Os fatos o comprovam: é cada vez maior o número de robôs que estão a desempenhar tarefas que antes eram exclusivas dos seres humanos. Nas mais diversas áreas. E com muito mais eficiência e acerto do que os já ultrapassados homo sapiens. Chegarão eles, um dia, a nos substituir, por completo, como foi tantas vezes retratado no cinema e na literatura? Já há inúmeros robôs com características ao menos pretensamente humanas, a exercer, sozinhos, ofícios e atividades que antes necessitavam do concurso de dezenas de homens para a sua realização, com todas as nefastas consequências já bem conhecidas em nosso tempo, a começar pelo desemprego em massa, fenômeno que tende a agravar-se exponencialmente nas próximas décadas, a ser mantido - como tudo indica que será - o atual ritmo de robotização da economia. Corremos o sério risco de, num mundo regido pelas máquinas, nos tornarmos simplesmente inempregáveis.³ 
Verdade que se trata de um processo que não data de hoje, mas, no mínimo, dos primórdios da Revolução Industrial inglesa, com a invenção da célebre máquina a vapor de Watt - por Newcomen, que raramente leva o devido crédito por sua criação.
Note-se: nada tenho contra a automatização do trabalho, em si mesma. Ela tem inúmeros pontos positivos, sobretudo a elevação da qualidade de vida de grandes parcelas da população mundial. Não sofro de tecnofobia, pelo contrário. Mas incomoda-me, por outro lado, ver que as consequências negativas deste processo para a humanidade - como a inempregabilidade, por exemplo - continuam a ser tratadas, seja pelos governos, seja pelas empresas, seja pela sociedade como um todo, de forma tão criminosamente rasa e superficial, enquanto que a maquinização do mundo é geral e entusiasticamente tratada como a nova panaceia universal - me perdoem o verso involuntário - o que, evidentemente, não é e provavelmente jamais será.      
Sem embargo da eficiência e produtividade alcançadas pela automação, em quase todos os níveis da vida social, principalmente no setor secundário da economia, não há como negar que, essencial e infelizmente, o veloz e ininterrupto processo de mecanização do trabalho é, ao mesmo tempo, um processo de desumanização das relações de produção, com inevitáveis reflexos negativos sobre o conjunto da sociedade. É a mais nova e moderna forma de alienação da mão-de-obra. A exploração do homem pelo homem será substituída pela exploração do homem pela máquina - sob o comando de outros homens, os que detém o capital necessário para arcar com os custos de seus robôs. Enfim, mais do mesmo, mas não como antes, talvez ainda pior.
À medida em que automatizamos nossas atividades, tornamo-nos, nós mesmos, autômatos. Nos desumanizamos. E a perda de nossa humanidade será o primeiro passo rumo ao retorno à barbárie - desta vez, praticada com precisão cirúrgica e alto grau de sofisticação tecnológica. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Deusa Matéria Ou O Marxismo Como Religião

"Monumento às Vítimas do Comunismo" - Praga, República Tcheca, detalhe.

A ideia comunista nasceu de um impulso generoso: aliviar a miséria e o sofrimento dos que nada possuem, frente àqueles que os exploram. Ora, ninguém, que tenha um mínimo de sensibilidade e compaixão para com o próximo, ousará negar que esta é uma bela ideia, uma ideia apaixonante, uma ideia, pela qual, a priori, valeria a pena matar e morrer em batalha. O próprio cristianismo, em seus primórdios, a abraçou. Mas, como toda ideia que nasce generosa e sublime, ela tem, também, um lado perverso. O reverso da medalha consiste no erro fundamental do comunismo, erro que é a principal causa pela qual, ele nunca deu e jamais dará certo em parte alguma do mundo: ele ignora completamente a existência de algo denominado “natureza humana”. Ele é um sistema anti-humano, par excellence. Notai que não o chamo apenas desumano, mas anti-humano. É-o na medida em que tenta fazer do homem aquilo que o homem não é. Despe-o de tudo que o torna efetivamente “humano”. Tenta abolir da esfera da vida humana tudo o que a humanidade erigiu como símbolo e razão de ser de sua própria vida na Terra: família, pátria, religião, cultura, não somente a propriedade. Mas, acima de tudo, ele almeja retirar do homem, o mais valioso e fundamental alicerce de sua humanidade: a liberdade.
O comunismo, como ideia, tem uma longa história. Suas origens remontam, não apenas a Platão, mas ainda mais longe, a Pitágoras e aos atomistas. Mas o comunismo moderno - marxista – é fruto direto de duas outras ideias ou correntes de ideias principais: o niilismo, que assolou o ambiente intelectual europeu após as guerras napoleônicas, e o darwinismo, ou melhor, a aplicação das ideias de Darwin, via Herbert Spencer, nos campos da sociologia e da economia política. A primeira corrente aboliu Deus dos assuntos humanos. A segunda aboliu a primazia do homem sobre a natureza. Há, ainda, outra influência, mais direta, sobre o marxismo: o hegelianismo, principal fonte da qual beberam Marx e Engels e da qual o primeiro extraiu o conceito de “dialética”, invertendo completamente seu sentido original, proposto por Hegel e criando o célebre e malfadado conceito de "materialismo histórico".
Com a “morte de Deus”, urgia edificar uma nova religião, e criar um novo deus para guiá-la. Marx o fez: no trono deixado vago por Deus, ele entronizou a Matéria. A Matéria passou a ser o centro do universo, na escatologia marxista. Os defensores do marxismo chamam-no, como o próprio Marx o chamava, “científico”. Mas, na verdade, o marxismo é uma religião. Uma religião, na qual, a salvação virá através da abolição das classes. Mas a abolição das classes nunca ocorreu, nem mesmo na União Soviética. Mesmo assim, os fiéis do marxismo continuam a acreditar cegamente na palavra de seus profetas e permanecem inabaláveis em sua crença, fanaticamente. Acreditar no marxismo é um exercício de fé. Como em qualquer outra igreja.
E como qualquer outra igreja, o marxismo também teve e tem seus autos-de-fé e suas inquisições. E também seus holocaustos. A Matéria é uma deusa tirânica e sanguinária. Sua sede é inestancável. Cem milhões de mortos ainda não bastam para saciá-la. Ela quer mais. Muito mais.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Postagem Escatológica

Não, isto não é uma urna.
Certa vez, um amigo de longa data e grata memória, ao voltar de uma viagem de alguns meses ao Japão, contou-me que, entre outras coisas que o impressionaram profundamente ao longo de sua estadia em plagas asiáticas - algumas absolutamente inexistentes no Brasil e outras que, embora existam, quando comparadas aos seus originais nipônicos, não passam de  meros simulacros caricaturais - o que mais o impressionou, seguramente, foi o asseio e também, como direi, a elegância, e até, por que não dizer, uma certa beleza dos banheiros públicos japoneses, locais de uma sofisticação impensável para os padrões tupiniquins, verdadeiros oásis sanitários, em que há, inclusive, acredite ou não, leitor, privadas eletrônicas, cujas tampas se abrem sozinhas e onde é possível ouvir música e tranquilamente acessar a internet ao mesmo tempo em que se satisfazem os imperativos fisiológicos de nossa natureza animal mais profunda e primitiva.
Mas o que o impressionou ainda mais, foi a completa inexistência, nas paredes desses mesmos banheiros, pelo menos daqueles em que ele entrou, dos clássicos cartazes que, pelo contrário, abundam em nossos sanitários públicos, com instruções de como dar vazão às nossas necessidades biológicas do modo correto, sem sujar o assento da privada e ainda advertem que o lugar certo para jogar o papel higiênico usado é na lixeira e não no chão ou na pia. Meu amigo disse-me que, ao constatar esta gritante diferença entre os sanitários públicos japoneses e brasileiros, deu-se conta do quão atrasados ainda estamos com relação ao resto do mundo civilizado e, enquanto legítimo brasileiro dos quatro costados, disse ter se sentido como um verdadeiro selvagem deslocado no interior de um clube aristocrático, um canibal entre gourmets, um aborígene perdido entre mestres renascentistas, pois somente um país num estágio civilizacional muito inferior, ainda precisa ensinar aos seus habitantes o óbvio, que é preciso urinar dentro do vaso sanitário e que se deve lavar as mãos antes de sair do banheiro e cumprimentar outra pessoa.
Quando ouvi esta história pela primeira vez, achei-a, per supuesto, um tanto quanto exagerada e, é claro, hilária e não lhe dei grande importância na ocasião. Sempre vejo esses cartazes nos banheiros públicos e nunca me importei muito com eles, para falar a verdade, porque nunca precisei seguir suas instruções, uma vez que já as sigo naturalmente em casa e na rua não poderia ser diferente. 
Mas recentemente ocorreu-me precisar fazer uso de um banheiro público, em caráter emergencial, para atender a um imperioso chamado da natureza (poupe-me o leitor de entrar nos detalhes sórdidos) e acabei por me lembrar da anedota de meu amigo quando, ao adentrar o cubículo do vaso sanitário, deparei-me com um cartaz desse gênero, afixado na parede, contendo minunciosas instruções de como fazer uso do banheiro de forma correta, explicando, de forma muito clara e didática, em etapas, detalhadamente, todo o processo que se deve adotar na hora de usar a privada e a destinação adequada a dar ao papel higiênico, depois de usado, passando, também, é claro, pela distância miníma a ser observada entre o vaso sanitário, ou o mictório, e o pobre basbaque com necessidade de urinar, de modo a garantir que o jato de urina vá, efetivamente, para dentro da privada, e não para o chão ou para os sapatos desse mesmo basbaque. Faltou apenas medi-lo em centímetros (o espaço entre o usuário do mictório e o mictório, propriamente dito, que fique claro).
E, repentinamente, tive um "estalo", como o do padre Antônio Vieira, ou um insight, como Newton, embora não estivesse a rezar, como o grande jesuíta, ou a descansar debaixo de uma macieira, como o ilustre físico. Ocorreu-me subitamente pensar que talvez não fosse má ideia afixar cartazes semelhantes nas paredes das cabines eleitorais nos dias de votação. À diferença dos cartazes afixados nos banheiros públicos, que ensinam a fazer as nossas necessidades biológicas do modo correto, esses outros cartazes ensinariam a votar corretamente. Pelo menos, poderiam ensinar que não se pode fazer numa urna o que se faz num vaso sanitário. O Brasil poderia estar muito melhor agora, em 2017, se em 2002, 2006, 2010 e 2014, os eleitores brasileiros não tivessem confundido as urnas com latrinas.        
       

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Ação e Reação

Luis Quiles
Para tudo na vida, não só nos livros de física que muitas dores de cabeça me deram no ensino médio, existe a famosa lei de ação e reação. Como no boxe, bateu, levou. Fiquei a pensar nisto depois de ter travado uma acerba e muito provavelmente inútil discussão com uma hater de extrema direita, no Facebook, bonitinha, mas ordinária, sobre a liberdade de expressão e o "politicamente correto" na blogosfera e nas redes sociais. A bela hater em questão, estava a fazer, num grupo de debates políticos do qual também participo no reino virtual de Mark Zuckerberg, a seguinte reclamação: sempre que ela publicava suas opiniões explicitamente homofóbicas - e, de um modo geral, fascistas - no seu mural, aparecia algum membro ou simpatizante do movimento LGBT e congêneres para retrucá-las, com o mesmo grau de virulência e azedume com que ela as expressava. Ela se disse indignada com as invasões ao seu perfil - público, frise-se - e defendia, em altos brados - ou melhor, em caixa alta - seu "sagrado" direito à "liberdade de expressão", ou seja, seu suposto direito a ofender aqueles que ela julga inferiores a si mesma e aos seus afins ideológicos, usando o artigo 5º da Constituição Federal como escudo para destilar livremente seus ódios e preconceitos. Saliente-se que os homossexuais não são os únicos alvos de seus petardos no Facebook. Negros, nordestinos, judeus e muçulmanos também desfrutam deste duvidoso privilégio.         
Ora, é evidente que a liberdade de expressão, além de constitucionalmente assegurada, é inteiramente legítima e deve sempre ser respeitada, por todos, independentemente de ideologias ou credos. Mas liberdade rima com responsabilidade. Se uma pessoa qualquer, por mais bonita e sensual que aparente ser, posta um texto em modo público, nas redes sociais, com comentários abertos, criticando, ou melhor, ofendendo o movimento LGBT, por exemplo, é natural que receba críticas, construtivas ou não, de membros ou simpatizantes do referido movimento, em sua caixa de comentários. O mesmo vale para os posts de supremacistas brancos contra os negros e para os de outros grupos que atacam minorias e adeptos de crenças diferentes, apenas por serem diferentes. É o preço a pagar por dizer o que se pensa. Sobretudo quando o que se pensa não é social ou politicamente aceitável. 
Não existe uma visão única, é claro. O único modo de evitar críticas é ficar calado ou então compartilhar suas opiniões apenas na esfera privada, com pessoas que comungam do mesmo pensamento que o seu. O que se deve coibir, no entanto, é o radicalismo. Há uma linha tênue e difusa entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio. Não é raro ultrapassá-la. O problema consiste precisamente em saber onde termina a legítima liberdade de expressão e começa o discurso de ódio propriamente dito. É um lago de águas turvas onde abundam pescadores inescrupulosos e demagógicos, sempre prontos a pescar uma oportunidade para ascender ao poder, através da exploração dos medos e preconceitos populares. Já vimos este filme antes. E o final não foi feliz. 
Já no que se refere ao movimento LGBT, por exemplo, na minha modesta opinião é de que a vida sexual alheia, desde que não me faça mal ou não fira a lei, é um assunto que não me diz respeito. Que cada um viva sua vida da forma que melhor lhe aprouver e tente ser feliz ao seu próprio modo.
E também não julgo os indivíduos pela cor de sua pele ou pela fé que professam. O caráter é minha régua. E o único modo de julgar corretamente, na medida do possível, o caráter de alguém, é observar suas ações, mais do que suas palavras.
Meros acidentes, como cor de pele, credo religioso ou opção sexual não são indicadores válidos. Não traduzem a verdadeira essência de um ser humano. E a pessoa que leva apenas tais fatores em conta e quer dividir a humanidade em categorias distintas e estanques, com base apenas em critérios tão vis e insignificantes como os supramencionados, não merece o mínimo respeito intelectual. Para falar a verdade, não merece senão desprezo.
Foi o que escrevi em meu comentário ao "desabafo" da bela hater. Ela me bloqueou.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Porcos sem Pérolas

Capa de uma edição de "Animal Farm" ("A Revolução dos Bichos"), de George Orwell. 
Mote perfeito para uma crônica machadiana: em fevereiro deste ano, o Corpo de Bombeiros do condado de Wiltshire, na Inglaterra, salvou uma ninhada de vinte porcos de um incêndio numa fazenda da região. Seis meses depois, a proprietária da referida fazenda decidiu oferecer, como agradecimento aos profissionais de resgate, por seu excelente trabalho, um churrasco de linguiça, feita, acredite o leitor, com a carne dos mesmos porcos que eles outrora salvaram (1).
Percebe a ironia, amado leitor? Nada tenho contra quem come carne de porco, afinal, eu mesmo sou um grande apreciador desta iguaria. Mas não posso deixar de sentir uma certa pena dos pobres animais a que aludo neste artigo. Pena e, confesso, uma certa vontade de rir, ainda que se trate de um riso frio, cínico e amargo. Pois que triste e, ao mesmo tempo, por que não dizer, hilário, terrivelmente hilário e cruel destino tiveram: salvos de, num primeiro momento, morrer pelo fogo, acabaram por servir de alimento para seus próprios salvadores, que fizeram uso do fogo para assá-los! Há algo de kafkiano nesta história. A realidade pode, muitas vezes, ser mais absurda do que a ficção.
De todo modo, agora ocorre-me pensar que é melhor comer um porco do que dar-lhe pérolas. As Escrituras nos advertem a não fazê-lo. Oxalá, porém, não promovam a classe suína e outros animais, uma revolução contra os homens, nos moldes daquela imaginada na clássica obra de George Orwell! Há quem diga que já ocorreu algo parecido, em plagas russas. Mas há controvérsias sobre a natureza verdadeiramente suína de tipos como Stálin e congêneres. Eu, por meu lado, não tenho a menor dúvida de que os porcos levariam vantagem na comparação. São muito menos sujos.  
Guardadas as devidas proporções, a história dos infelizes porquinhos, que não é da carochinha, mas tem seu quê de fantástico, apresenta certa analogia, ainda que não de todo perceptível à uma primeira vista, com a da mulher que foi morta por uma equipe de polícia, nos Estados Unidos, enquanto ameaçava cometer suicídio (2). Seu objetivo inicial era morrer pelas próprias mãos. Acabou por morrer pelas mãos de outrem. Não deixa de ser, embora trágica, uma história de sucesso. Afinal, ela alcançou seu intento, morreu. O meio é o que menos importa nesta história.
É possível, porém, que, ao ameaçar matar-se, a pobre mulher quisesse, na verdade, viver (dizem os psicólogos e demais profissionais do campo da saúde mental, que os suicidas, embora queiram [ou afirmem querer] morrer, na verdade, não o querem, de fato). Mas a SWAT parece ter levado a sério o que ela referiu como seu propósito original, perder a vida, e decidiu auxiliá-la, matando-a. Curioso ato de generosidade de sua parte!
Falei em carochinha. Lembro-me agora de que nos antigos contos de fadas, havia sempre, ao final das histórias, uma moral. Ora, aqui temos duas histórias e, portanto, duas morais. Ou a mesma moral para ambas as histórias. Ou melhor, duas morais que valem tanto para a primeira quanto para a segunda história.
A primeira, e mais óbvia: não se pode fugir da morte. Fato concreto e irrefutável. Podemos evitar morrer de uma determinada forma ou num dado momento, seja qual for, mas vamos morrer, ainda assim, uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, faça chuva ou faça sol, tenhamos cinco ou cinquenta anos, e nada podemos fazer a respeito, apenas torcer para que não soframos muito, quando chegar a hora.


E a segunda: a diferença entre um herói e um vilão, é, ou pode ser, no mais das vezes, apenas uma diferença de perspectiva ou de cronologia. Aquele que nos salva de um incêndio, hoje, pode comer nossa carne, amanhã - esperemos que não literalmente, é claro, a não ser que se trate de um legítimo canibal dos rincões da Amazônia Profunda, ou um curandeiro antropófago de alguma aldeia inóspita da África do Sul (3), por exemplo - ou (hipótese válida apenas para os suicidas) nos matar, para evitar que nos matemos.
Mas, morais à parte, nenhuma destas histórias é um conto de fadas. Ninguém viveu feliz. Nem para sempre.
Fim.          

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Direito ao Silêncio

Umberto Eco (1932-2016)
Não gosto de polêmicas. Absolutamente. Fujo delas como o diabo, da cruz e os sonegadores, do fisco. Abomino-as. Simplesmente não as suporto. Nunca as suportei. Jamais as suportarei. Sofro do mesmo mal de que o inigualável Machado de Assis dizia sofrer o célebre conselheiro Aires: "tédio à controvérsia". E há tempos, adotei como lema, um velho adágio, também citado por outro famoso personagem machadiano: "mais vale uma onça de paz do que uma libra de vitória". Acho de uma tolice e infantilidade extremas, o hábito de provocar celeumas apenas pelo prazer de provocá-las. Ou, em linguagem facebookiana, "tretar" por "tretar". Por isso, tenho evitado, o quanto posso, entrar em discussões, nos últimos tempos, sobretudo as políticas, tanto na vida real, quanto na virtual - principalmente nesta última.
Não significa isto, porém, que eu não me interesse por política. Pelo contrário, interesso-me profundamente. Tanto que desejo, inclusive, graduar-me na área. Considero-a um tema de vital importância e não pretendo deixar de emitir meus humildes comentários sobre a matéria, uma vez ou outra. E é claro, outrossim, que tenho as minhas opiniões políticas e minhas preferências partidárias particulares, como qualquer outro cidadão deste país. Não me sinto, porém, obrigado a expressá-las, o tempo todo, neste espaço. O direito à liberdade de expressão é um bem de extrema importância, base do Estado Democrático de Direito e deve ser constantemente defendido e aprimorado para salvaguardar nossa cidadania. Mas o direito ao silêncio é igualmente importante e precioso e deve, penso eu, ter o mesmo respeito e proteção que o direito à liberdade de expressão. Numa autêntica democracia, é preciso respeitar tanto o direito que Fulano tem de expressar o que pensa, quanto o direito que Beltrano tem de não expor suas opiniões.
Sim, conheço perfeitamente aquele célebre ditado que diz: "quem cala, consente". E também a famosa cantilena de Brecht sobre o "analfabeto político", com a qual, diga-se, de passagem, concordo inteiramente. Mas não se trata, aqui, Deus me livre, nem de consentimento tácito para com nossas mazelas atuais, nem de puro e simples analfabetismo político. Quando julgo absolutamente indispensável fazê-lo, eu não hesito em expressar clara e abertamente minhas posições e críticas a atos governamentais que considero nocivos aos interesses da sociedade brasileira (raros não o são) e não meço palavras ao tecê-las. Apenas não tenho a mesma compulsão opinativa de que sofre a imensa maioria dos comentaristas do Facebook e de outras redes sociais, além da blogosfera, sobretudo quando se trata de assuntos que não domino inteiramente (e são muitos, inumeráveis, os assuntos que não domino). Sem contar que a política brasileira contemporânea encontra-se, na presente quadra histórica, num tal estado de confusão e complexidade, que chego a desconfiar seriamente de que até quem é do ramo ou se dedica ao seu estudo, nada ou muito pouco consegue entender da atual situação do país. Quanto menos eu, que, embora tenha lido alguns livros sobre o tema, não passo de um profundo ignorante! Além do mais, há tanta gente a escrever sobre política, nos últimos tempos, na blogosfera, na grande e pequena mídia e nas redes sociais, que não penso que vá fazer grande diferença no panorama geral, o que eu vier a dizer a respeito. Minha voz seria apenas mais uma a clamar no deserto. Mesmo porque ninguém parece estar disposto a ouvir o que o outro têm para falar. Estão todos tão preocupados em expressar, alto e bom som, suas verdades absolutas, que permanecem com os ouvidos absolutamente fechados para as opiniões alheias e sequer param para pensar, ainda que por um mísero segundo, que tais verdades absolutas podem não ser tão absolutamente verdadeiras, como gostariam. A internet é, hoje, uma imensa assembléia de surdos. Todos falam, mas ninguém escuta.
Sempre que me ponho a refletir sobre o nível abissal das discussões políticas do momento - principalmente, mas não apenas, no Brasil - não me posso furtar à triste e amarga conclusão de que, apesar de todo o progresso científico, tecnológico e educacional que experimentamos nas últimas décadas, neste quesito, especificamente, o debate público, ainda não saímos da Idade da Pedra. O sombrio diagnóstico de Umberto Eco sobre o predomínio dos "idiotas da aldeia" na era das redes sociais revelou-se, infelizmente, verdadeiro.
Ao contrário da quase totalidade dos usuários do Facebook e afins, não tenho fumos de juiz, não me atrai a ideia de julgar ninguém, seja quem for. Procuro sempre seguir, na medida do possível, a sábia máxima bíblica: "não julgueis para não serdes julgados". Estou sempre, como se diz, "em cima do muro", e pessoalmente considero ser esta a melhor posição para vislumbrar, de forma minimamente equilibrada e objetiva, todos os lados e ângulos possíveis de uma determinada questão, antes de tomar partido sobre ela. É uma posição bastante confortável, no final das contas. Meus críticos de esquerda, muitas vezes, acusam-me de ser um "fascista mascarado", meus críticos de direita, por sua vez, chamam-me de "comunista enrustido", quando não de coisas ainda piores.  
Enganam-se e ao mesmo tempo acertam meus críticos de ambos os lados. A verdade é que não gosto de rótulos ideológicos, tenho-lhes verdadeiro horror, acho-os verdadeiras camisas de força intelectuais, antolhos mentais que só servem para esterilizar e paralisar o livre pensamento e não levam a lugar algum, a não ser ao inferno, quase no sentido mais literal da expressão. E o fato é que sou uma espécie de ornitorrinco político, uma criatura híbrida, incongruente e inexplicável, um verdadeiro elo perdido entre Hobbes e Rousseau, ou, mais modernamente, entre Adam Smith e Karl Marx - ao mesmo tempo, um progressista conservador e um reacionário revolucionário - se tal coisa for possível debaixo do sol. Creio, como Aristóteles, que a verdade está no meio termo.
Uma boa amostra deste meu hibridismo ideológico, é meu pensamento com relação ao que julgo que deve ser o verdadeiro papel do Estado em nosso país. Nossas deficiências em inúmeras áreas (econômicas, educacionais, estruturais, sociais) são tão profundas e gritantes e estão de tal forma incorporadas nas próprias bases de nossa vida nacional, que chega a ser pura ingenuidade acreditar que a simples ausência do Estado, com a delegação de suas funções para a iniciativa privada, poderá saná-las. Acreditar que se pode prescindir totalmente do Estado, no Brasil, é tão utópico e irrealista quanto crer que o Estado, por si só, pode resolver todos os nossos problemas.
Sou, no entanto, plenamente favorável ao Estado mínimo. Com a devida ressalva, porém, de que nosso Estado mínimo não poderá ser e provavelmente jamais será tão mínimo quanto o Estado de Hong Kong, Singapura e outros bastiões neoliberais. No Brasil, Estado mínimo é, invariavelmente, sinônimo de Estado ausente, e ausente onde justamente ele se faz mais necessário, onde a iniciativa privada não tem interesse em atuar, por não ser lucrativo. O que fazer com a população que é, ao mesmo tempo, desassistida pelo Estado e desprezada pela iniciativa privada? Relegá-la à própria sorte? Deixá-la morrer à míngua?
Mas, frisemos, este blog não tem nenhum objetivo específico a conquistar, nem para o bem, nem para o mal. Não levanta nenhuma bandeira. É apenas um espaço criado para servir como o repositório virtual de alguns dos meus achismos e pensamentos sobre a vida e o cotidiano e auxiliar minha memória, quando necessário. Não tem o objetivo de salvar o mundo (como tantos outros blogs e perfis em redes sociais parecem ter) nem de influenciar o ponto de vista de ninguém. Não me peçam respostas. Eu não as tenho nem para as minhas próprias perguntas.  
Então por que o escrevo? Ora, escrevo-o apenas para exercer o meu direito constitucional à liberdade de expressão - pois o direito que não se exerce é um direito que não existe. Não deixa de ser um ato de cidadania, de minha parte - um ato político, em suma. 

domingo, 7 de maio de 2017

Evolução Francesa

Emmanuel Macron, o novo Presidente da França
Embora não conheça com profundidade a política francesa e tenha acompanhado o embate eleitoral entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron de forma apenas circunstancial e periférica, tenho eu a forte impressão de que a França, berço da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, foi fiel ao seu legado histórico, ao eleger Macron e defenestrar Le Pen. Pois Le Pen, pelo menos ao meu ver, é a perfeita antítese dos valores revolucionários franceses. É o exato avesso da França cosmopolita e sofisticada que todos conhecemos e respeitamos, o centro cultural de nossa civilização. 
Oxalá, Macron faça jus aos votos que recebeu dos franceses. É o que não apenas a França quer, mas o que o mundo espera. 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Guerras nas Estrelas

Neil deGrasse Tyson
Concordo plenamente com o ponto de vista de Neil deGrasse Tyson, neste vídeo, sobre a possibilidade de ocorrerem guerras espaciais no futuro. Enquanto não acabarmos com as guerras na Terra - e a hipótese da eclosão de uma nova guerra terrestre de proporções planetárias parece, a cada dia, mais provável - não poderemos ter sequer a mais vaga e remota esperança de evitá-las no espaço, quando tivermos a tecnologia necessária para executá-las - supondo-se, é claro, que nós, a raça humana, ainda estejamos vivos para fazê-las, até lá. O progresso científico não leva, necessariamente, ao progresso moral. E verdadeira viagem que o homem precisa fazer, não é para o espaço, mas para dentro de si mesmo. A alma humana é o mais inexplorado e misterioso de todos os universos.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O Grau Zero da Crítica

Anton Ego
Negativa ou positiva, construtiva ou destrutiva, o importante é que a crítica literária - como a crítica de qualquer outra forma de criação artística, aliás - seja bem fundamentada e o crítico tenha o conhecimento necessário e imprescindível para o exercício de seu mister. Assim como existem muitos maus autores que se consideram o verdadeiro suprassumo da literatura contemporânea, embora não sejam mais do que meros produtores de lixo impresso, há muitos maus críticos que se julgam portadores da infalibilidade papal, sem qualquer base teórica consistente e válida, para emitir seus julgamentos. Limitam-se ao puro achismo e confundem criticar livros com ofender autores.
Apenas depreciar uma obra, sem verdadeiramente estudá-la, ressaltando tão somente seus aspectos negativos, talvez, suspeito, pelo atávico e obscuro prazer de falar mal do trabalho alheio, como uma fofoqueira de janela fala mal dos vizinhos, não é crítica literária, na verdadeira acepção do termo. É puro e simples esnobismo intelectual. E não deixa de ter o seu quê de ridículo, uma vez que a crítica, digna do nome, requer estudo e reflexão isenta. A crítica que só deprecia, pode até ser "crítica" (no sentido popular, ou seja, negativo, da palavra), mas não é realmente Crítica, na plena acepção do termo. É, no máximo, recalque de escritores frustrados. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Última Flor do Lácio e a Internet

Um internauta brasileiro.
Há a norma padrão da língua portuguesa. Necessária e imprescindível para a redação de artigos científicos, acadêmicos, jornalísticos e empresariais. Escrever fora da norma padrão nessas áreas, é errado, não importa o que digam os adeptos da famosa e ridícula tese do "preconceito linguístico", tese que para mim, foi inventada apenas para justificar, com ar doutoral, e pseudocientífico, a pura e simples preguiça de aprender a escrever corretamente. 
Há também os usos coloquiais da língua portuguesa, que variam de região para região e de grupo para grupo, adotados na comunicação falada no dia-a-dia, sem a pretensão da correção gramatical. Forma válida somente para essas situações. 
O Facebook, creio, como as demais redes sociais, com exceção, talvez, do Linkedin, encaixa-se nesta segunda categoria, ou seja, pede o uso coloquial da língua, por se tratar, essencialmente, de uma ferramenta de comunicação entre amigos. Pode-se, neste caso, escrever como se fala. Afinal, nem todas as conversas podem ser como os diálogos platônicos. 
No entanto, perfis de empresas e instituições devem procurar seguir a norma padrão em suas postagens, por se tratar de comunicações impessoais.
De todo modo, ninguém espera que os usuários das redes sociais, ou mesmo da blogosfera, escrevam todos como Machado de Assis. É obviamente impossível. Mas um pouco mais de cuidado com a gramática da língua de Camões e Fernando Pessoa e de todos nós que vivemos nos países lusófonos, seria muito bem-vindo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O Bloco do Eu Sozinho

"Sunday" - Edward Hopper
Eu sempre saio sozinho. Gosto de visitar lugares aos quais a maioria das pessoas não gosta de ir. Nada de excepcional. Museus, bibliotecas, monumentos históricos, galerias de arte, etc. Mas as pessoas de meu círculo social - basicamente parentes, uma vez que amigos, só os tenho virtuais - não apreciam tais locais. Pelo contrário, elas abominam completamente o silêncio e a cultura predominantes nesses ambientes, justamente o que para mim constitui o melhor motivo para visitá-los. Preferem lugares repletos de barulho e multidões, coisas que eu abomino completamente, por minha vez. Mas, entre deixar de conhecer um lugar que me interessa, por falta de companhia, ou conhecê-lo sozinho, escolho a segunda opção. Claro que eu gostaria de estar acompanhado, seria bom ter alguém com quem trocar minhas impressões do passeio, mas nem sempre é possível, e é raro encontrar alguém minimamente sensível e inteligente o bastante, sobretudo neste país, para apreciar e sustentar uma conversa de alto nível sobre arte, cultura e temas afins. Com o tempo, e a muito custo, aprendi a gostar de minha própria companhia. É a única que nunca me faltou.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Civilização e Barbárie

Fernando Botero
Sou contra a pena de morte. Não por "amor aos bandidos", como soem acusar os acéfalos zumbis bolsonarianos e afins, mas pela mesma razão pela qual sou contra o aborto voluntário: porque, mesmo não sendo um homem religioso, acredito no princípio da inviolabilidade da vida humana, de sua concepção ao seu término natural, e que não cabe a ninguém interferir neste processo - embora, como certa vez escrevi, a propósito de Marieke Vervoort, defenda o direito à eutanásia, em casos de doença terminal. Pela mesma razão, não comemoro massacres em penitenciárias. Pelo contrário, vejo-as com extremo horror e profunda tristeza. Primeiro, por suas famílias. Segundo, e sobretudo, pelo avançado estado de degradação moral e civilizacional em que se encontra a sociedade brasileira, a ponto de até mesmo pessoas tidas de boa índole e reputação ilibada, celebrarem a apoteose do barbarismo no sistema prisional. 
Não menosprezo, em absoluto, a justa indignação e o sentimento geral de revolta da população brasileira para com a insegurança e violência que tomaram conta de nossas cidades, nos últimos anos. É, até certo ponto, natural, que vítimas de atos violentos e perversos nas mãos de criminosos, desejem a instauração da velha Lei de Talião no Brasil. Mas não podemos esquecer daquela célebre máxima de Ghandi: "olho por olho, o mundo acabará cego". Matar assassinos só irá fazer o número de assassinos vivos permanecer o mesmo. Vingança não é o mesmo que justiça.
Sei que os criminosos que seriam diretamente atingidos pelo impacto de uma eventual implementação da pena capital não pensam da mesma forma que eu e não hesitariam em tirar minha vida ou a de meus entes queridos, se julgassem que isto poderia lhes propiciar algum benefício ou vantagem, ou até por pura e simples maldade. Mas penso que instituir a pena de morte não nos tornaria melhores do que eles. Pelo contrário, apenas nos rebaixaríamos ao seu nível. Seríamos todos igualmente criminosos.
Lembremo-nos do alerta de Nietzche. Em nossa ânsia por combater e destruir os monstros que ora nos assediam e afligem, temos que procurar tomar o máximo cuidado para não nos tornarmos igualmente monstruosos. Não podemos encarar muito fixamente o abismo, sem que ele nos encare de volta. 
Além de quê, já houve inúmeros casos de condenações erradas nos países que adotam a pena capital, falhas de investigação ou de julgamento, que ocasionaram a morte de pessoas inocentes e só foram descobertas depois que o estrago já estava feito. Que fazer, então? Não é possível ressuscitar os mortos e restituí-los à liberdade. Portanto, o risco de matar um inocente, na ânsia de matar um culpado, é um risco que não devemos correr.
O que se deve fazer é encontrar uma forma eficiente e objetiva de fazer os criminosos cumprirem integralmente as sentenças às quais são condenados, reduzir o número de recursos legais disponíveis para facilitar sua soltura ou evitar seu julgamento - sem, obviamente, violar os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição - e investir mais e melhor na área de segurança pública, para reduzir drasticamente a criminalidade. A adoção de penas de cunho socioeducativo, como a prestação de serviços comunitários para crimes leves, por sua vez, evitaria a superlotação do sistema prisional e a mistura de simples ladrões de galinhas com criminosos de alta periculosidade, diminuindo, assim o poder e o número de integrantes das facções que controlam os presídios brasileiros. 
Claro, investimentos e melhorias em áreas como saúde e educação também são necessários e devem ser feitos, o mais urgentemente possível, para evitar que as novas gerações caiam nas malhas do submundo do crime. É um trabalho complexo e penoso, mas necessário.
Não sou especialista em segurança pública, tampouco em direito penal. Mas tenho certeza de que a pura e simples execução sumária de bandidos está longe de ser uma solução efetiva para a onda de violência que estamos a viver. É apenas um claro e inequívoco atestado de nossa falência social e espiritual. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Em Defesa de Meryl Streep

Meryl Streep como Donald Trump
" Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei, até a morte, o seu direito de dizê-las" - Evelyn Beatrice Hall (frase erroneamente atribuída a Voltaire).

Nas redes sociais, a atriz Meryl Streep vem sofrendo severas críticas de certos setores - os mais obscuros e retrógrados - da direita conservadora brasileira e americana por ter discursado contra Donald Trump na cerimônia de entrega do prêmio Globo de Ouro. Não faltaram adjetivos esdrúxulos para desqualificá-la. Até seu talento dramático foi questionado. Como se fosse verdadeiramente possível questionar o talento da maior atriz americana viva! Santo Deus! A que ponto chegamos!
O que me parece é que estão a querer condená-la por delito de opinião, crime só existente em regimes totalitários. Ora, até o momento, ao que eu saiba, a liberdade de expressão continua em plena vigência nos Estados Unidos e a constituição americana garante que todos os cidadãos do país podem falar livremente o que pensam sobre o assunto que for, sem medo de represálias e sem pedir autorização a ninguém. Meryl Streep é cidadã americana e tem exatamente o mesmo direito de seus conterrâneos, de expressar suas próprias opiniões e ideias, na hora e no local que bem desejar. Se tais opiniões são infundadas ou mentirosas, como estão a afirmar seus detratores, tese com a qual não concordo, caberá somente a ela, arcar com os ônus de suas mentiras e de seus erros de julgamento. Não nos compete cassar-lhe o direito à palavra. 
Um ponto comum das críticas ao discurso de Meryl Streep, quando não à sua própria pessoa, e que mais perplexidade e estupefação me provoca, é o estúpido - para dizer o mínimo - argumento (?) de que atores (e artistas em geral) não devem opinar sobre política, devem apenas limitar-se a representar seus papeis, sem dar a conhecer suas opiniões partidárias e ideológicas. Ora, mas porquê? Artistas não são cidadãos? Não têm o mesmo direito à liberdade de expressão que todas as outras pessoas? Ou perderam sua cidadania por dedicar-se à arte? Por que a opinião deles não deve ser levada em conta? Ela vale menos do que a opinião dos não artistas? Serão os artistas uma espécie de sub-raça ou subclasse, sem direito a fazer ouvir sua própria voz?
Um fantasma assombra os Estados Unidos (e o mundo, o Brasil incluído). O fantasma do fascismo. É preciso exorcizá-lo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os Grandes Homens

Thomas Carlyle (1795-1881)
Vivemos numa era de homens de palha. De anões morais e intelectuais. A democracia moderna, com todas as suas virtudes, além da promoção da liberdade individual, paradoxalmente produziu, como um amargo e doloroso efeito colateral, o triste e nefasto fenômeno do "homem-massa" (na feliz terminologia de Ortega y Gasset e Fulton Sheen) ou "homem medíocre" (na também muito apropriada definição de José Ingenieros), o tipo de homem ideal para construir e consolidar sistemas totalitários de governo, pois só sabe pensar coletivamente e de acordo apenas com os seus instintos mais básicos e primitivos. 
A moda da época é a uniformização. Cultural, comportamental, sentimental. Em última instância, ideológica e política. 
Thomas Carlyle pensava de forma diametralmente oposta aos atuais arautos e apologistas da mediocridade coletiva. Dizia ele que o mundo não anda senão pela ação dos grandes homens, e que a massa não é mais do que um instrumento passivo de que eles se utilizam para atingir os seus objetivos. Pode-se, é claro, discordar desta posição (os marxistas, por motivos óbvios, discordam), mas eu, pessoalmente, acho muito difícil imaginar como seria o mundo, hoje, se não tivesse sido moldado pelas mãos de homens como Alexandre, César, Napoleão, Bismarck, Churchill, e outros grandes homens que já caminharam sobre a face deste planeta, e deixaram suas marcas na história, membros representativos de uma espécie que se encontra sob grave risco de extinção nos dias atuais, se é que já não foi completamente extinta, o Homem Superior. 
Há anos, não vejo um grande homem. Nem no Brasil, nem alhures. Apenas homens grandes em altura. Sim, as instituições, principalmente numa democracia, são superiores aos indivíduos e assim devem permanecer. Mas, pergunto, de que valem grandes instituições quando comandadas por homens pequenos? Homens pequenos tudo apequenam. O Brasil de hoje é um vivído e triste exemplo deste fenômeno.
Os grandes homens fazem a história. Os homens pequenos apenas a vivem.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Coro dos Insensatos

Lembrar para não repetir.
Não considero que a democracia brasileira contemporânea seja socialista, como dizem alguns conservadores mais raivosos e reacionários, a começar pelos arruaceiros que ontem invadiram a Câmara dos Deputados, a clamar pelo retorno dos militares ao poder e que se autoproclamam "intervencionistas". A menos que por socialista, neste caso, se queira significar estatista, com o que concordo inteiramente. Mas não creio que precisemos de uma "intervenção militar" para dar cabo deste problema. Mesmo porque o estatismo não é uma exclusividade da esquerda. O regime de 1964 foi um dos mais estatizantes da nossa história e não se pode considerá-lo, em sã consciência, um regime socialista. 
Acho, no mínimo, curioso, que a pretexto de salvar o Brasil de uma suposta ditadura (comunista / de esquerda), queira-se substitui-la por outra (militar / de direita). Ditadura por ditadura, prefiro viver sob aquela em que eu próprio seja o ditador. Do contrário, prefiro continuar a viver sob o atual regime democrático, ainda que corrupto e imperfeito.
O discurso dos intervencionistas de hoje, é exatamente o mesmo que o dos intervencionistas de 1964: precisamos salvar o Brasil do comunismo, deixem os militares limparem a bagunça dos civis e devolverem o governo ao povo - naturalmente depois de expurgado dos corruptos que hoje o controlam - através da convocação de novas eleições gerais!... 
Pois bem. Os militares de 1964 tomaram o poder com a promessa de devolvê-lo aos civis no prazo correspondente ao restante do mandato de João Goulart. O que aconteceu, porém? Vinte e um anos de autoritarismo, ao fim dos quais, uma classe política ainda pior e mais viciada do que a anterior ao golpe, ascendeu ao poder. Vamos cometer o mesmo erro em 2016? Confirmaremos a célebre tese de Burke e Santayana e repetiremos a história, por não conhecê-la? Continuará a ser o Brasil um eterno museu de velhas novidades? Será mesmo verdade o que, já há algumas décadas, disse Roberto Campos: "a burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor"? Espero, sinceramente, que não. Veremos. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Último Grande Poeta

Leonard Cohen (1934-2016)
O mundo, hoje, amanheceu mais triste e vazio. Leonard Cohen morreu. Cessem todos os cantos. Calem-se todas as vozes. Que importam todas as grandes e pequenas mazelas deste nosso infeliz e atribulado planeta, toda a sua miséria, todo o seu ódio, toda a sua violência, toda sua vilania, aspereza, hostilidade e hipocrisia, que importa tudo isso, pergunto eu, diante desta cruel e devastadora notícia: Leonard Cohen morreu? O último grande poeta da música contemporânea se foi. É verdade que ainda temos Bob Dylan, mas Cohen, ao meu ver, era imensamente superior. Penso, inclusive, que ele é que deveria ter ganho o Nobel de Literatura deste ano, em vez de Dylan. Não por falta de méritos de Dylan, é claro, mas pela superabundância de talento de Cohen.
Para mim, pessoalmente, o mundo perdeu grande parte de seu valor e beleza, no dia de hoje. As canções de Leonard Cohen marcaram várias passagens importantes e inesquecíveis de minha vida. Ele, de certa forma, fez parte desses momentos. Há vários aspectos de sua biografia com os quais me identifico profundamente. Sua depressão crônica, por exemplo (que, aliás, foi o que primeiro chamou minha atenção para sua obra, quando a descobri, através de uma matéria veiculada pela revista Veja, por ocasião do lançamento de "Ten New Songs", o melhor de todos os seus discos) além de sua obsessão por temas religiosos, sempre presentes em suas músicas. Agora que ele morreu, sinto como se eu tivesse perdido um amigo íntimo e de longa data. Dói. Dói muito.
Para tentar aplacar um pouco a minha tristeza, conforto-me, ou ao menos tento confortar-me, com a vaga e tênue esperança de que Cohen, ao partir, tenha finalmente encontrado a paz que tanto buscou em vida. Espero que um dia eu também possa encontrá-la.
   

domingo, 30 de outubro de 2016

O Presente de uma Ilusão

O Bezerro de Ouro
Outra ilusão, esta mais antiga do que a apontada no artigo anterior, em nome da qual, milhões de vidas foram violentamente ceifadas ao longo dos séculos, é a ilusão religiosa. A ideia de que há uma entidade suprema a controlar os acontecimentos e os caminhos do mundo e à qual devemos prestar obediência e vassalagem absolutas através de representantes humanos supostamente eleitos pela própria divindade para interpretar sua vontade superior, é a responsável direta por assombrosos morticínios e crimes atrozes contra a humanidade, como a Noite de São Bartolomeu, as Cruzadas, a Inquisição, a execução de Giordano Bruno, etc. No fundo, a diferença entre Torquemada e Hitler ou Stálin, é apenas numérica (em termos de quantidade de vítimas). Em essência, todas as tiranias se parecem, sejam elas teocêntricas ou antropocêntricas.

sábado, 29 de outubro de 2016

Uma Ideia Nefasta

O culto do Super Homem
Deve-se abolir, de uma vez por todas e para sempre, penso eu, a nefasta ideia de que o homem é algo a ser superado ou transcendido, a equivocada e fatídica crença de que ele pode tornar-se algo maior ou mais perfeito do que já é, ou seja, a velha ilusão nietzcheana do "super homem", além da sua irmã gêmea ideológica, a macabra teoria do "homem novo", na terminologia comunista. Esta fatídica ideia, da superação do homem, base de doutrinas tão díspares e funestas, como o nazi-fascismo e o próprio comunismo, foi e continua a ser diretamente responsável por provocar todos os tipos de calamidades e holocaustos ao longo da história, e seus defensores e arautos, como se já não estivessem com as mãos suficientemente sujas de sangue inocente, permanecem insaciáveis, querem ainda mais vítimas para imolar no altar do Homem Superior.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pelo Direito de Morrer

Marieke Vervoort
A atleta paralímpica belga Marieke Vervoort chocou o público e acendeu uma polêmica mundial, ao anunciar que, após encerrar sua carreira nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, pretende submeter-se à eutanásia, em data ainda a ser definida. Ela sofre de uma cruel e devastadora doença degenerativa (tetraplegia progressiva com distrofia miopática reflexiva) que, aos poucos, acabará por paralisar completamente seu corpo, condenando-a a uma vida puramente vegetativa e extremamente dolorosa. Para fugir a esse destino, ela decidiu optar pelo suicídio assistido, prática legal na Bélgica e ainda cercada de tabus em vários países, inclusive no Brasil. Ela já tem, em mãos, todos os documentos necessários para autorizá-lo, obtidos após uma longa e extenuante via-crúcis burocrática. Antes de realizar o procedimento, porém, ela afirmou que deseja viver intensamente cada dia que ainda lhe resta, "como se fosse o último", o que realmente é o caso. E ela merece que esses dias sejam felizes e prazerosos, o máximo possível.
Quem poderá criticá-la? Há quem se posicione contra a eutanásia, por questões de religião e tenha criticado acerbamente Marieke, por recorrer a este procedimento para libertar-se de seu sofrimento. Mas com que direito, tais pessoas pensam que podem dizer a alguém que sofre uma doença da gravidade da de Marieke, doença esta que não tem cura e só a maltrata, e lhe provoca as mais excruciantes dores, com que direito, pergunto eu, tais pessoas podem dizer-lhe que ela não tem o direito de livrar-se, como queira, de seus tormentos físicos, se o modo como ela escolheu fazê-lo, em nada prejudica a ninguém e só a ela diz respeito? Como não sou um homem religioso e Deus não entra ou só entra mui raramente em minhas cogitações, penso diferentemente. Penso pelo ângulo dos direitos civis. Penso que cada indivíduo tem o direito total e absoluto de dispor da sua vida, como bem lhe aprouver, inclusive de tirá-la, se julgar necessário, desde que não prejudique ou coloque em risco, a vida e a segurança de outras pessoas. Ora, a quem a eutanásia de Marieke Vervoort pode prejudicar? 
E digo mais: está na hora de começar a discutir seriamente a possibilidade de legalizar a eutanásia no Brasil. Por uma simples questão de humanidade. 
Falta um pouco mais de amor humano nos corações dos que apregoam o amor divino. Em compensação, sobra intolerância.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Floresta Morta



Um cão negro e feroz devora meu coração. A depressão me domina. Sofro de ansiedade e tenho crises periódicas de pânico. Fico noites inteiras sem dormir. Tenho o pavio curto e meu temperamento não é dos mais fáceis, pelo contrário. Em sociedade, sou como um touro, solto numa loja de louças. Não tenho absolutamente nenhuma paciência ou capacidade de tolerância para com pessoas burras, arrogantes, ou fanáticas. Mando-as ao inferno, na primeira oportunidade, seja na vida real, seja na virtual. Nesta última, por exemplo, adoro usar o botão "bloquear" do Facebook. É um de meus maiores e mais malignos prazeres. Não hesito em usá-lo, quando a pessoa me aborrece.
Sou completamente avesso a reuniões sociais. Sou o típico chato de festa. Quando bebo, ao invés de me alegrar, fico ainda mais soturno e espectral do que de hábito. Tenho uma baixíssima, praticamente nula, quase inexistente, resistência à frustração. Desejo nada menos do que a destruição do universo, quando sou contrariado. Isso, obviamente, implica na triste e amarga constatação de que o Brasil não é o melhor lugar para eu viver. Pois não há, caros amigos - posso chamá-los assim? - não há sobre a face deste pobre e atribulado planeta, país que mais decepcione seus cidadãos. Infelizmente, sou obrigado a permanecer aqui, por uma série de razões, que estão além do meu controle. A maior delas, um profundo, intenso, desesperado, quase masoquista amor pela minha pátria natal, que me impede de traí-la, por mais que ela insista em maltratar-me.
Há quanto tempo, já, se arrasta a nossa crise política, econômica, social e moral? Quanto tempo? Haverá uma luz, no fim do túnel? Conseguiremos atravessar esta penosa e sombria quadra histórica, sem sangue, nem dor? Nossa frágil e enfermiça democracia conseguirá sobreviver à tentação totalitária que ronda os donos do poder e aos constantes ataques de que é o indefeso alvo eternamente deitado em berço esplêndido? Conseguiremos evitar a produção de novos cadáveres para preencher as estatísticas históricas? O que será de nós e de nossos filhos? O que será de ti, meu filho amado, meu querido Dudu? Conseguirei proteger-te da tempestade de aço que se aproxima, com passos cada vez mais velozes? Terei forças para tanto? Sou apenas um homem. Minha carne pode ser cortada. Minhas veias podem ser abertas. Balas podem me matar. Meu amor bastará para salvar-te?
Deus, quisera eu ser uma pessoa mais alegre e otimista! Mas a verdadeira alegria é uma arte. Uma arte que não sei exercer. Para meu desalento e opróbrio.
Invejo as pessoas que conseguem sempre adotar e manter uma postura leve, sorridente e otimista diante das turbulências da vida. Pessoas que permanecem sempre à altura dos acontecimentos e não se deixam abater por eles. Pessoas que não perdem o sono, nem o apetite, a pensar nas agruras do porvir. Pessoas para quem o amanhã não é um imenso e voraz buraco negro, como é para mim, mas um caleidoscópio mágico, cheio de esperanças sempre renovadas e inesgotáveis.
Mas tal não é o meu caso. Não por falta de vontade. Por falta de fé? Penso que sim. E também não, ao mesmo tempo. Não sou inteiramente ateu. Não creio que o universo tenha nascido, por obra pura e simples, do mero e irracional acaso. Já disse o rei Lear; "Do nada, nada vem". Mas tenho sérias dúvidas sobre a pretensa bondade de seu criador e é-me imensamente difícil acreditar em milagres.
Tal como Michel Leiris, exceto quando estou com medo - o que tem sido cada vez mais frequente - sinto-me sempre debater na mais profunda, densa e obscura irrealidade. Domina-me uma sensação de crônico e indissolúvel alheamento com relação à vida e ao mundo, o que fatalmente erige entre mim e os que me cercam, até mesmo a minha família, um muro intransponível, feito de estranhamento, desencanto e incompletude. Mesmo os que me amam, muitas vezes não me compreendem. Julgam-me frio, distante, apático, quando, na verdade, eu quisera poder corresponder à altura, o amor que me devotam, e com a mesma intensidade. Mas falta-me o talento necessário para exercer a reciprocidade no amor. Sou, como Bukowski, um bloco de granito, impermeável ao carinho alheio. Por isso, estou sempre só. Há alguma mola quebrada no meu coração, talvez uma floresta morta, como no poema de Kilkerry.
Um dia, esta floresta morta esteve cheia de vida. Suas árvores eram verdejantes e repletas de frutos, e era incessante o cantar dos pássaros em seus galhos. Mas a tempestade veio e não restou um arbusto em pé. Ficaram somente algumas ervas daninhas, os maus sentimentos, que hoje me assombram e governam.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Má Educação

Pawel Kuczynski
Não, não tenho boas lembranças do meu tempo de escola. As escolas em que estudei, foram, para mim, verdadeiras antecâmaras do Inferno. Numa época em que a palavra bullying era ainda desconhecida ou pouco utilizada nos meios escolares brasileiros, eu já o sofria, cotidianamente, dia após dia, em todos os estabelecimentos em que fui matriculado. Vivi horrores dentro de suas salas de aula. Não raras vezes, cogitei seriamente a possibilidade de praticar uma atitude extrema, como a deste pobre menino. Nada aprendi dentro delas, a não ser a desprezar a humanidade, especialmente os profissionais da área da educação, sobretudo os professores. Tudo o que hoje sei ou suponho saber, aprendi-o fora de seus muros, em casa e nas bibliotecas públicas, sozinho, sem o auxílio de colegas, nem, obviamente, a orientação de qualquer mestre. Sou um autodidata, em toda a plenitude do termo. 
Nunca concluí o ensino médio. Não tenho, portanto, um diploma universitário pendurado em minha parede. Pois para cursar uma universidade e receber, após quatro longos e tediosos anos, um pedaço de papel pintado, é necessário, primeiro, ter outro pedaço de papel pintado, para poder prestar o vestibular, para, só então, cursá-la, caso aprovado nesse mesmo vestibular. Por conseguinte, minhas opiniões nada valem, porque não têm nenhuma chancela acadêmica, para embasá-las. Nada do que eu digo e ainda vier a dizer, seja aqui ou alhures, portanto, vai exercer qualquer influência sobre o rumo dos acontecimentos contemporâneos e não vai alterar em um milímetro, sequer, o atual estado de coisas, seja no Brasil ou no mundo. Mesmo assim, vou dizer claramente o que penso. O que digo, pode até não ter importância nenhuma, mas vou exercer plenamente meu direito constitucional à liberdade de expressão, mesmo que ninguém esteja disposto a ler-me, pois o direito que não se exerce, é um direito que não existe. Como Nietzche, cantarei a minha música, mesmo que eu seja o único a ouvi-la. No mais, às favas com quem não gostar! Basta mudar de site. Meu blog não é uma prisão de leitores desavisados. Todos que por acaso vierem a ler estas páginas, estão livres para abandoná-las, quando bem lhes aprouver. 
Não tendo um diploma universitário, claro está que também não sou especialista em pedagogia. Mas não é preciso sê-lo para constatar a inegável e catastrófica falência de nosso modelo educacional atual. Nossas escolas não cumprem sua função, não ensinam, nem educam. pelo contrário, só emburrecem e aviltam nossas crianças, transformam-nas em meras ferramentas para linhas de produção, úteis, por certo, mas vazias, como belas embalagens sem conteúdo, mais próximas da animalidade, ou melhor, da mecanicidade pura e simples, do que da humanidade.   
Para mim, os grandes problemas educacionais de nosso tempo, podem ser imediatamente resolvidos, de forma simples e eficaz, por meio de um único e barato instrumento: a abolição das escolas. E por que não? O modelo escolar, tal como o conhecemos hoje, só veio a se desenvolver à partir do século XII, uma época relativamente tardia, em comparação com o todo da história humana pregressa. Como diz Luiz Fujita: "A palavra 'escola' vem do grego scholé, que significa, acredite se quiser, 'lugar do ócio'. Isso porque as pessoas iam à escola, em seu tempo livre, para refletir. Vários centros de ensino pipocaram pela Grécia, por iniciativa de diferentes filósofos. As escolas geralmente eram levadas adiante pelos discípulos do filósofo-fundador e cada uma valorizava uma área do conhecimento. A escola de Isócrates, um exímio orador, por exemplo, era muito forte no ensino da eloquência, que é a arte de se expressar bem. Mas as escolas multi-temáticas, que contemplam as disciplinas básicas que temos hoje, como matemática, ciências, história e geografia, só surgiram entre os séculos XIX e XX".
Ou seja: a escola, como instituição, é um fenômeno relativamente recente e não é o único modelo possível de transmissão do conhecimento. Por que não valorizar o homeschooling, por exemplo?
É claro que não possuo a chave do enigma, ou seja, não tenho sequer a mais vaga ideia de como superar o atual modelo educacional, que, para mim, como já disse, está obsoleto e ultrapassado, e em completo descompasso com as reais exigências do mundo moderno. Mas lanço a questão e espero que ela possa render bons debates. Provavelmente não renderão, pois ninguém lê este blog além de mim.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Retorno

Neve de 1975 em Curitiba.

Sê bem-vindo de volta, bom e velho frio curitibano! Que saudades tive de ti! Não te vás tão cedo! Curitiba não é Curitiba, quando tu aqui não estás. Não te vás, fica ao menos o tempo suficiente para que eu possa saborear um bom mate quente, ao pé da lareira, enquanto teu hálito gelado embranquece o vidro de minha janela.

sábado, 19 de setembro de 2015

O Cão Negro


Hoje o cão negro que há longos anos habita as profundezas obscuras e recônditas de minha mente resolveu sair de sua toca e morder-me. Não foi uma mordida muito grave, pelo contrário, não me arrancou nenhum pedaço, foi apenas o simples roçar de suas presas em meu coração. Mas bastou para contaminar minha alma com o vírus da apatia e a bactéria do desencanto e acabar com meu ânimo pelo resto do dia.
Esse cão negro, vive a espreitar meus passos, silenciosa e obstinadamente. Para onde quer que eu vá, lá está ele, a me observar. É seu espectro que se oculta, sorrateiro e sinistro, atrás de cada revés que sofro, atrás de cada negativa que ouço, atrás de cada rasteira que a vida me dá. Ele se esconde entre os troncos calcinados da floresta morta que trago no meu peito - como no poema de Kilkerry - e mistura-se com as frias e nuas sombras das ruínas que restaram de meus sonhos destruídos, apenas aguardando, pacientemente, a hora certa para me devorar, de uma vez por todas.
O que talvez não seja de todo mau, afinal de contas. Pois, se é verdade que, como disse outro poeta, viver é lutar, então eu estou quase a ponto de ser nocauteado e a ideia de jogar a toalha torna-se, a cada dia, mais e mais tentadora.
Viver é cansativo. E eu, confesso, já estou no limite da exaustão.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Contra a Sinceridade

Dedicado especialmente a B., G., N. e T. M., as quatro amazonas do apocalipse, involuntárias musas inspiradoras deste texto.



Palavras são armas. Armas infinitamente mais poderosas e letais do que as utilizadas no conflito em curso na Síria. Armas de fogo podem ferir e até mesmo destruir, por completo, e irremediavelmente, o corpo de quem estiver na linha de tiro, mas palavras podem matar uma alma. Quantos sonhos já não foram completamente destruídos e soterrados por uma palavra cruel ou simplesmente inoportuna, dita num momento crucial, definidor de toda uma trajetória de vida? Quantos corações já não foram irremediavelmente partidos e aniquilados por conta de uma palavra ferina e amarga, pronunciada sob o soturno influxo da dor e da mágoa? Quantas crianças já não tiveram o sublime e imponente castelo de cartas de sua idílica e multicolorida infância, brutalmente desmantelado pelo gélido e espectral sopro de uma palavra atroz e devastadora?
Porque as palavras possuem um poder imenso, absolutamente avassalador, cuja grandeza e magnitude são incomensuráveis, difíceis de imaginar, até mesmo para o artista mais prolífico e criativo. Elas são capazes tanto de construir impérios quanto de reduzi-los a escombros, podem tanto encher um coração de esperanças quanto precipitá-lo inexoravelmente no mais profundo e absoluto abismo do desespero, podem tanto propagar a verdade quanto disseminar a mentira, e, porque elas são também amorais, ou seja, não possuem valor por si mesmas, mas pelo modo como as utilizamos, podem perfeitamente servir a mais do que a dois senhores ao mesmo tempo, ser tanto portadoras da paz quanto propagadoras do ódio e da tirania. 
Penso que as pessoas deveriam procurar tomar o máximo cuidado com as palavras que pronunciam ou escrevem ao longo de suas breves e frágeis vidas, não apenas por uma questão estética, como soem fazer os escritores, mas sobretudo por uma questão da mais alta relevância moral, como soem fazer os pregadores e os teólogos. Nossas línguas são metralhadoras e as palavras que delas brotam são a munição com a qual alvejamos aqueles que nos cercam. Talvez seja por isso que o mundo moderno tenda a se tornar cada vez mais violento e caótico, porque esquecemos do poder altamente devastador das palavras, e quiçá, também por isso, nos dias que correm, torna-se uma tarefa cada vez mais difícil e hercúlea sustentar um diálogo minimamente equilibrado e civilizado com nossos oponentes, sem precipitações e com ao menos uma pequena dose de bom senso.
Há pessoas que confundem sinceridade com incivilidade. Pessoas que, sob o maravilhoso, encantador, idílico, celestial pretexto de cultivar as heróicas e sumamente nobres virtudes da sinceridade e da firmeza de caráter, não hesitam em expressar claramente - e sem "papas na língua", como diz a velha figura de linguagem, muito em voga nos meios midiáticos e culturais oficiais - tudo o que verdadeiramente lhes passa pelo cérebro febril e ébrio, sem antes submeter suas ideias e opiniões ao filtro depurador do bom senso e também, em última instância, da boa educação. São pessoas que, mesmo sem você pedir, não se furtam a expressar, em alto e bom som, e para todos os infelizes basbaques ao seu redor, sem atentar, sequer por um segundo, para as mais básicas e elementares leis da etiqueta, suas opiniões - reveladas como verdades absolutas e inquestionáveis - sobre tudo e todos. E também não medem palavras na hora de tecer comentários sobre sua aparência ou seu comportamento, mesmo que você não tenha sequer cogitado a mais remota possibilidade  de solicitar tais comentários.
Conheço pelo menos quatro pessoas dessa estirpe - por sinal, as musas inspiradoras deste artigo - que têm o nefando, execrável hábito, de dizer àqueles com quem convivem, mesmo sem para tanto terem sido solicitadas, tudo que pensam sobre eles, na lata, sem misericórdia, sem medirem, sequer por uma fração de segundo, as consequências nefastas de seu descalabro retórico, dizendo sempre o quão cheias de defeitos e ruins os outros - sempre os outros - são, não deixando de evidenciar, por tabela, e sob uma máscara de falsa modéstia, sua própria perfeição, e isso com a professa intenção de ajudá-los a se aperfeiçoarem por sua vez, e quando alguém as contesta e critica sua grosseria, dão a clássica resposta: "eu só estou sendo sincera", como se sinceridade fosse sinônimo de falta de educação. Mas elas próprias não conseguem enxergar suas próprias deficiências, e se alguém comete a temeridade de apontá-los, torna-se, ex abrupto, o infeliz e preferencial alvo de seus petardos verbais. Chamam sinceridade ao que é apenas a mais pura e simples grosseria. 
Nada há que me irrite e desgoste mais profundamente do que a verborréia insípida e autossuficiente dos que se julgam os monopolistas da verdade. Aos ouví-los discorrer, de alto de sua ilusória onisciência, com tamanha soberba e tão prolixamente, sobre tudo que há entre o céu e a terra, no fundo dos mares, e nas alcovas ministeriais, tenho, juro-o com o coração nas mãos, a infernal e quase irreprimível tentação de lançar sobre eles a maldição que Latona lançou contra os camponeses da Lícia que lhe negaram água para saciar sua sede e a de seus filhos. Mas das rãs eles já tem o coaxar incompreensível, só lhes falta o corpo de anfíbios.
Reconheço que a sinceridade, em si mesma, como valor e ideal, é, de fato, uma virtude. Mas a urbanidade também o é.
Como diz  Machado de Assis:
"Tudo pede certa elevação. Conheci dous velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: 'Caro major!' -'Pronto, comendador!' — Variavam às vezes: — 'Caro comendador!' -'Aí vou, Major' . Tudo pede certa elevação".
Sim, tudo pede certa elevação. Na verdade, a elevação que Machado julga tão necessária nas relações humanas, parece cada vez mais ausente da vida em sociedade. A começar pelos pequenos, simples gestos de incivilidade explícita praticados no conturbado cotidiano de nossas atribuladas metrópoles: uma fila no supermercado em que um cidadão mais afoito rouba nosso lugar sob a desculpa do atraso para voltar ao trabalho ou pegar o filho na escola; o jovem fisicamente perfeito que ocupa o assento preferencial no ônibus e finge dormir enquanto uma gestante ou idosa fica em pé ao seu lado, sendo jogada de um lado para outro da grande lata de sardinha sobre rodas (pois o que são nossos ônibus urbanos senão isto?), enquanto o motorista da dita lata, que mais parece ser um condutor de um vagão de gado, reflexo direto da bovinização acelerada de nossa sociedade, já em curso, infringe todas as leis da boa educação para com seus passageiros e às vezes até as de trânsito, impunemente; o policial que abusa dos direitos que lhe confere a farda e passa a agir exatamente como aqueles a quem ele deveria, em tese, combater, ultrajando, de forma truculenta e irresponsável, a cidadania de pessoas de bem, enquanto os verdadeiros criminosos continuam soltos, muitos deles lotados nos gabinetes de seus superiores hierárquicos; o jornalista que humilha garis em rede nacional; todos são  exemplos claros e inequívocos do estado anêmico, periclitante, moribundo, terminal, em que se encontra a civilidade, o único escudo capaz de nos proteger de nosso monstro interior.
A profissão da sinceridade não pode ser pretexto para a falta de educação.
Falando agora em causa própria, quero alertar aos que porventura estiverem a ler este singelo texto, que dispenso e quero que fique longe de mim a dita sinceridade daqueles que estufam o peito, empinam o nariz e enchem a boca para dizer a quem estiver por perto, o quão honestos e íntegros são (logo chamando a todos que não comungam de seus preconceitos e achismos, de desonestos e prostituídos), e acusam os outros pelos seus próprios defeitos, pois estas mesmas sinceridade e integridade muitas vezes não passam de máscaras, artifícios usados para encobrir a mais absoluta falta de civilidade (e também inocuidade mental) da parte de seus cultores. Exemplo clássico do que afirmo é um certo comentarista esportivo que adora falar o que pensa e faz dos ouvidos de sua audiência a cuba sem fundo de suas sandices conspiratórias.
Não quero que me digam o que pensam ao meu respeito sem que eu o solicite. Não quero que me falem do sol e da lua se eu nada quiser ouvir do sol e da lua. Já tenho plena consciência de minha calvície crescente e de minha adiposidade já bastante pronunciada, não preciso que me lancem ao rosto, diretamente, o quão calvo e gordo estou, como o faz uma certa pessoa, sempre que me vê.
Entendamo-nos: logicamente não estou a fazer aqui uma espécie de apologia da hipocrisia, como pode parecer a um leitor mais superficial e apressado (como é, aliás, a imensa maioria dos comentaristas atuantes na blogosfera brasileira). Pelo contrário. reputo a hipocrisia como o mais hediondo e nefasto dos vícios humanos, embora fundamental para a existência da vida em sociedade. Mas a honestidade é vital. De todo modo, faço apenas uma singela defesa do decoro por parte daqueles que dizem professá-la, pois, como já disse no princípio deste artigo, e o célebre Confúcio já frisou, muitos séculos antes de mim,"a honestidade, sem as regras do decoro, transforma-se em grosseria". 
Verdade seja dita, o Marquês de Maricá estava coberto de razão, quando afirmou:
"Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade".
Vã criatura é o homem! Ama a verdade mas não pode viver sem a mentira. Melhor seria que nunca tivesse sido criado. Mas já que o foi, o melhor que tem a fazer é viver com uma máscara pregada ao rosto. Do contrário, restar-lhe-á tão somente fazer como Espurina, conforme o relatado por Montaigne: rasgar a própria face - o que não seria nada agradável, sejamos francos.
  

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Odisséia Noturna


A noite de ontem, como previ, foi extremamente longa e cruel. Tive que correr em busca de um hospital, por causa de atrozes e excruciantes dores em minha vesícula biliar, provocadas por uma imensa pedra, que, de tempos em tempos, resolve me torturar, com requintes de crueldade.
Aliás, há meses, mesmo em momentos de intensa alegria, mesmo quando nada de estranho sinto em meu organismo ou em minha alma - e Deus sabe como estes momentos têm sido cada vez mais raros e fugazes! - tenho a nítida e funesta impressão de estar a viver perpetuamente coberto pela sombra densa e inexorável da Grande Dor - como os californianos vivem sob a sombra do "Big One", o grande terremoto que irá separar a Califórnia dos Estados Unidos, num futuro incerto mas não muito distante - a última e a maior de todas as dores, que pode surgir, de uma hora para outra, sorrateiramente, das profundezas recônditas de meu frágil e perecível corpo humano, para me levar consigo, para a eternidade do túmulo. 
O medo de sofrer novas dores tornou-se-me um hábito, a ferro e fogo entranhado em meu comportamento, quase uma segunda pele, de natureza psicológica, que me envolve e limita meus movimentos, uma prisão espiritual, infinitamente mais sombria e terrível do que um milhão de Alcatrazes. Pois tudo o que tenho feito nos últimos tempos, é ditado por ele. Alimentos, companhias, atividades, tudo é regido pela tirania da pedra que carrego comigo.
Há meses, corrói-me uma sensação semelhante a que deve sentir um rato amedrontado por entre as patas de um gato, prestes a devorá-lo, gato, este, que se diverte, imensamente, com o sofrimento de sua presa, antes de comê-la. 
Para quem não entende metáforas: a figura do gato representa a pedra na minha vesícula. O rato sou eu.
Mas o pior de tudo que sofri na noite passada, ainda não foi a dor na minha vesícula, foi o profundo desleixo com que fui tratado pela saúde pública de São José dos Pinhais, onde atualmente moro. 
Imagine o leitor que o primeiro hospital ao qual me dirigi (de táxi, uma vez que o SAMU estava indisponível; valor da corrida: R$ 23,60), o Hospital São José (antigo Atílio Tallamini), no centro da cidade, tal como o SAMU, se recusou a me atender, mesmo com todo meu sofrimento, visível mesmo a olhos leigos em medicina, pelo fato de meu estado representar um quadro clínico, e o referido hospital só atender a quadros traumatológicos. (Mas, pergunto, o Hospital São José não é uma instituição de saúde vinculada ao SUS e administrada pela prefeitura? Não é, portanto, um hospital público? A Lei faculta-lhe o direito de recusar pacientes? E se ele trata apenas de casos de traumatologia, então porque a propaganda governamental municipal o elogia como centro de referência em diversas outras especialidades médicas, não traumatológicas? Mistério típico do Brasil. Do Brasil real, não do Brasil de faz-de-conta das campanhas eleitorais.)
Tentei falar sobre isso com o obeso e entediado burocrata de olhos glaciais, responsável pelo atendimento aos pacientes que lá chegavam, mas foi em vão. Ele apenas me olhou com uma expressão de profundo desprezo, senão com um leve ar de sarcasmo, perceptível, apenas, por um quase sorriso, mal esboçado em seu lábio inferior, oculto por uma densa e maltratada barba grisalha, e disse-me que eu até poderia tentar o atendimento no local, mas acabaria, inevitavelmente, sendo encaminhado pela triagem, para a UPA Rui Barbosa ou para o atual posto Afonso Pena (pergunta que não quer calar: quando finalmente ficará pronta a nova e mais moderna UPA Afonso Pena?). Ou seja, de nada adiantaria minha espera por atendimento no Hospital São José.  
Contrariado com o grande acinte à minha cidadania e com as minhas dores aumentando exponencialmente, lá fui eu, com minha mulher, chamar mais um táxi para me levar à UPA Rui Barbosa, para onde decidi ir primeiro, antes de tentar o Afonso Pena. Chorando de dor, sentei-me sobre um banco de pedra, fronteiro ao Hospital São José, e fiquei a observar uma escola de dança localizada no outro lado da rua. Vislumbrei, através das janelas, alguns pares a dançar, cheios de volúpia e alegria, rodopiando intensamente. Não pude deixar de pensar comigo que se este mundo é, realmente, como diz o autor bíblico, um vale de lágrimas, é também um grande tablado, onde se desenvolvem danças de todos os gêneros e feitios, da cracoviana ao tango, e onde os que não podem dançar, choram. Em latim: quis non saltastis lamentavimus et ploravit.
Bem-aventurados os que dançam, porque eles terão os olhos enxutos. Dou de graça este novo versículo, aos futuros revisores da Vulgata. 
Veio o táxi e pusemo-nos a caminho da UPA Rui Barbosa. Lá chegando, senti o chão abrir-se sob os meus pés, assustei-me com o tamanho monstruoso da fila de pacientes aguardando por atendimento. Cheguei a ver um grupo de pessoas visivelmente enfurecidas (deviam estar aguardando há horas por atendimento médico), a discutir acrimoniosamente com o segurança da unidade, provavelmente cobrando providências para minorar a agonia em que se encontravam naquele momento.
Pergunta: por que têm de ser, sempre, os seguranças das unidades de saúde, os bodes expiatórios para as frustrações dos pacientes - com toda a razão, é claro, revoltados contra o escárnio diário a que seus direitos são submetidos pelo poder público - se os verdadeiros culpados pelas agruras que sofrem estão a quilômetros de distância, encastelados em suas torres de marfim, principalmente em Brasília, e não dão a mínima atenção para o que eles passam, a não ser em época de corrida eleitoral? Os seguranças das unidades de saúde são, o mais das vezes, tão vítimas quanto os pacientes, do sistema fratricida que vivemos neste inóspito e retrógrado rincão do globo terrestre, que atende pelo nome de Brasil.
Ainda a bordo do táxi, decidi tomar outro rumo e seguimos caminho em direção ao 24 horas Afonso Pena que, felizmente, estava bem menos movimentado do que a UPA Rui Barbosa (valor da corrida: R$ 30,00).
Quando lá cheguei, minha dor estava no auge de sua intensidade, cascatas de lágrimas brotavam de meus olhos e em lugar de palavras, só conseguia responder com monossílabos e gritos guturais ao que as pessoas ao meu redor, com inclusão de minha mulher, me perguntavam. A enfermeira que fez minha triagem, bastante solícita e prestativa, priorizou meu atendimento, e eu fui logo me consultar com uma excelente médica, que me prescreveu os medicamentos adequados para tratar minha crise, por via venal. Não demorou muito e finalmente pude sentir o alívio que tanto procurei em meu périplo noturno pelos prontos-socorros de São José dos Pinhais. Mas ainda me encontrava extremamente agitado e logo que o soro com os medicamentos acabou, encaminhei-me, com o acesso pingando sangue, para o consultório da médica que havia me atendido, para pedir-lhe um calmante para minorar minha ansiedade. Assim que o tomei, adormeci imediatamente. E depois fui liberado para voltar para casa. Mais uma vez, de táxi. (valor da corrida: R$ 25,00).
Valor total das corridas de táxi: R$ 78,60 na bandeira 2 (soma verdadeiramente estratosférica para quem, como eu, encontra-se desempregado). Preço pago pelo recurso à saúde pública de São José dos Pinhais: minha dignidade.
E o pior é que ainda faltam dois longos e dolorosos meses para poder operar minha vesícula! Quantas vezes mais terei de suportar tamanho sofrimento?