Páginas

2 de dezembro de 2016

Política e Antipolítica

Esquerda e direita: a ilusão da livre escolha.
Um dos raros porém fieis leitores deste blog perguntou-me, recentemente, porque não escrevo sobre política nestas páginas. Perguntou-me ele se não tenho opiniões políticas a expressar e qual era o meu posicionamento diante do atual quadro de grave crise política e institucional que está a assolar o Brasil desde pelo menos 2013, senão antes. E, fazendo uma curiosa analogia gastrônomo-ideológica, indagou-me, por fim, se eu me considerava "coxinha" ou "mortadela", isto é, de direita ou de esquerda. 
Seguindo o método argumentativo cruelmente estabelecido por um célebre estripador inglês, há muitos anos, vamos responder por partes.
A principal razão pela qual eu nada ou pouco escrevo sobre política nestas páginas, é simplesmente o fato de que este não é um blog político, embora não seja, necessariamente, um blog apolítico, afinal, sou um filho desta época e a época é política. Apenas não é seu propósito tratar de temas políticos, embora, uma vez ou outra, eles marquem presença por aqui, mas sempre de modo marginal e secundário em relação a outros assuntos mais de meu interesse pessoal. É claro que tenho as minhas opiniões políticas e minhas preferências partidárias, mas não me sinto obrigado a expressá-las neste espaço. O direito à liberdade de expressão é um bem de extrema importância, base do Estado Democrático de Direito e deve ser constantemente defendido e aprimorado para salvaguardar nossa cidadania. Mas o direito ao silêncio é igualmente importante e precioso e deve ter o mesmo respeito e proteção que o direito à liberdade de expressão. Numa autêntica democracia, é preciso respeitar igualmente o direito que Fulano tem de expressar o que pensa, quanto o direito que Beltrano tem de não expressar o que pensa.
Sim, existe aquele célebre ditado: "quem cala, consente". E também a célebre cantilena de Brecht sobre o "analfabeto político". Mas não se trata, aqui, de consentimento tácito, nem de analfabetismo político, puro e simples. Quando julgo absolutamente indispensável fazê-lo, eu não hesito em expressar clara e abertamente minhas posições e críticas a atos governamentais que considero nocivos aos interesses da sociedade brasileira e não meço palavras ao tecê-las. Apenas não tenho a mesma compulsão opinativa de que sofre a imensa maioria dos comentaristas do Facebook e outras redes sociais, além da blogosfera.     
Para falar com a devida franqueza e de modo a pelo menos tentar esclarecer definitivamente quaisquer dúvidas que ainda possam vir a pairar sobre este assunto, este blog, na verdade, não tem nenhum objetivo específico a conquistar, nem para o bem, nem para o mal. É apenas um espaço criado para servir de repositório de algumas de minhas opiniões e pensamentos sobre a vida e o cotidiano e auxiliar minha memória, quando necessário. Não tem o objetivo de salvar o mundo, nem de influenciar o ponto de vista de ninguém. Há tanta gente a escrever sobre política, nos últimos tempos, na blogosfera, na mídia e nas redes sociais, que não penso que vá fazer grande diferença no panorama atual, o que eu vier a dizer a respeito. Minha voz seria apenas mais uma a clamar no deserto. Mesmo porque ninguém parece estar disposto a ouvir o que o outro tem para falar. Estão todos tão preocupados em expressar, alto e bom som, suas verdades absolutas, que permanecem com os ouvidos fechados para as opiniões alheias e sequer param para pensar, ainda que por um mísero segundo, que tais verdades absolutas podem não ser tão absolutamente verdadeiras, como gostariam. A internet é, hoje, uma imensa assembléia de surdos. Todos falam, mas ninguém escuta. 
Sem contar que sempre que me ponho a refletir sobre o nível abissal das discussões políticas do momento, principalmente, mas não apenas, no Brasil, não me posso furtar à triste e amarga conclusão de que, apesar de todo o progresso científico, tecnológico e educacional que experimentamos nas últimas décadas, neste quesito, especificamente, o debate público, ainda não saímos da Idade da Pedra.
Quanto a ser "mortadela" ou "coxinha", a verdade é que não tenho bandeiras a defender. Sequer professo uma ideologia específica. Se alguma ideologia tenho, ela pode ser chamada, digamos assim, de anti-ideologismo. Sou um cético político. 
Para falar a verdade, meu ceticismo não se restringe tão somente à política, abrange toda a humanidade. Faço inteiramente minhas as célebres e amargas palavras de António Gedeão: 
"Eu não acredito nos seres humanos. Não acredito na capacidade de os homens fazerem qualquer coisa socialmente boa. Só são capazes de fazer qualquer coisa segundo os seus interesses pessoais. Ou seja fascismo ou seja democracia, ou seja o que for, os homens ou aproveitam a dureza do fascismo para obrigarem os outros a fazerem aquilo que desejam, ou aproveitam a liberdade da democracia para fazerem o que podem em seu proveito". 
Fica claro, portanto, o porquê de não acreditar em ideologias, sejam de esquerda, sejam de direita. Ideologias são falsificações da realidade, meros instrumentos de poder sobre as massas, pretextos úteis para justificar morticínios. O mal de nossa época é o extremismo ideológico. Não conseguimos mais pensar, nem agir, fora dos padrões de nossas ideologias. E isso é grave, gravíssimo. Não pensamos mais por nós mesmos, mas pelo que ditam os manuais redigidos por nossos ideólogos. E vivemos a repetir ideias que não são nossas. Somos uma geração de ventríloquos. E o que é pior: ventríloquos que acreditam falar com suas próprias vozes, quando, na verdade, falam com vozes de empréstimo.  
Longe daqui, a política, portanto. Outros temas nos chamam. Ars longa, vita brevis!     

10 de novembro de 2016

O Último Grande Poeta

Leonard Cohen (1934-2016)
O mundo, hoje, amanheceu mais triste e vazio. Leonard Cohen morreu. Cessem todos os cantos. Calem-se todas as vozes. Que importam todas as grandes e pequenas mazelas deste nosso infeliz e atribulado planeta, toda a sua miséria, todo o seu ódio, toda a sua violência, toda a sua vilania, toda a sua aspereza, hostilidade e hipocrisia, que importa tudo isso, pergunto, diante desta cruel e devastadora notícia: Leonard Cohen morreu? O último grande poeta da música contemporânea se foi. É verdade que ainda temos Bob Dylan, mas Cohen, ao meu ver, era imensamente superior. Penso, inclusive, que ele é que deveria ter ganho o Nobel de Literatura deste ano, em vez de Dylan. Não por falta de méritos de Dylan, mas pela superabundância de talento de Cohen.
Para mim, pessoalmente, o mundo perdeu grande parte de seu valor e beleza, no dia de hoje. As canções de Leonard Cohen marcaram várias passagens importantes e inesquecíveis de minha vida. Ele, de certa forma, fez parte desses momentos. Há vários aspectos de sua biografia com os quais identifico-me profundamente. Sua depressão crônica, por exemplo, além de sua obsessão por temas religiosos, sempre presentes em suas músicas. Agora que ele morreu, sinto como se eu tivesse perdido um amigo íntimo e de longa data. Dói, dói muito.
Para tentar aplacar um pouco a minha tristeza, conforto-me, ao menos quero confortar-me, com a vaga e tênue esperança de que Cohen, ao partir, tenha finalmente encontrado a paz que tanto buscou e ansiou em vida.
   

2 de novembro de 2016

Dia de Finados

Nossa última morada
Não acredito na imortalidade da alma, nem no Céu, nem no Inferno, ou coisas correlatas. Para mim, a morte nada mais é do que um eterno sono sem sonhos. Claro que posso estar errado, mas só saberei depois de exalar meu derradeiro suspiro. Se Deus existir e depois que eu estiver morto, ficarmos frente a frente, terei uma conversa deveras franca com Sua Divindade e lhe farei algumas perguntas bastante desagradáveis, que estão, há muito tempo, entaladas na minha garganta. Mas até lá, fico na dúvida sobre Sua existência. 
Porém, embora incrédulo, respeito as crenças alheias. Hoje, Dia de Finados, não vou orar para os que se foram, porque não creio que eles possam me ouvir ou se beneficiar com as minhas orações, mas respeito os que oram e me solidarizo com sua dor e sua saudade. Para os que creem e sofrem com a sua ausência, é um grande conforto pensar que os entes queridos de outrora, estão no paraíso, a desfrutar da bem-aventurança eterna. Há momentos em que chego, confesso, até a sentir uma certa inveja de tal crença, mas não sou capaz de tê-la. A fé é uma dádiva que Deus não me concedeu.
Além do mais, para que rezar aos mortos? Eles estão melhor, muito melhor do que nós, os vivos ou quase vivos. Deveríamos, na verdade, invejá-los. A luta acabou para eles. Para nós, cada dia é e será uma nova e dolorosa batalha, sem trégua, nem misericórdia, até que finalmente chegue o momento de soar o último gongo.

30 de outubro de 2016

O Presente de uma Ilusão

O Bezerro de Ouro
Outra ilusão, esta mais antiga do que a apontada no artigo anterior, em nome da qual, milhões de vidas foram violentamente ceifadas ao longo dos séculos, é a ilusão religiosa. A ideia de que há uma entidade suprema a controlar os acontecimentos e os caminhos do mundo e à qual devemos prestar obediência e vassalagem absolutas através de representantes humanos supostamente eleitos pela própria divindade para interpretar sua vontade superior, é a responsável direta por assombrosos morticínios e crimes atrozes contra a humanidade, como a Noite de São Bartolomeu, as Cruzadas, a Inquisição, a execução de Giordano Bruno, etc. No fundo, a diferença entre Torquemada e Hitler ou Stálin, é apenas numérica (em termos de quantidade de vítimas). Em essência, todas as tiranias se parecem, sejam elas teocêntricas ou antropocêntricas.

29 de outubro de 2016

Uma Ideia Nefasta

O culto do Super Homem
O que se deve abolir, de uma vez por todas e para sempre, penso eu, é a nefasta ideia de que o homem é algo a ser superado ou transcendido, a equivocada e fatídica crença de que ele pode tornar-se algo maior ou mais perfeito do que já é, ou seja, a velha ilusão nietzcheana do "super homem", além da sua irmã gêmea ideológica, a macabra teoria do "homem novo", na terminologia comunista. Esta fatídica ideia, da superação do homem, base de doutrinas tão díspares e funestas, como o nazi-fascismo e o próprio comunismo, foi e continua a ser diretamente responsável por provocar todos os tipos de calamidades e holocaustos ao longo da história, e seus defensores e arautos, como se já não estivessem com as mãos suficientemente sujas de sangue inocente, permanecem insaciáveis, querem ainda mais vítimas para imolar no altar do Homem Superior.

13 de setembro de 2016

Pelo Direito de Morrer

Marieke Vervoort
A atleta paralímpica belga Marieke Vervoort chocou o público e acendeu uma polêmica mundial, ao anunciar que, após encerrar sua carreira nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, e em data ainda a ser definida, pretende submeter-se à eutanásia. Ela sofre de uma cruel e devastadora doença degenerativa que, aos poucos, acabará por paralisar completamente seu corpo, condenando-a a uma vida puramente vegetativa e extremamente dolorosa. Para fugir a esse destino, ela decidiu optar pelo suicídio assistido, prática legal na Bélgica e ainda cercada de tabus em vários países, inclusive no Brasil. Ela já tem, em mãos, todos os documentos necessários para autorizá-lo, obtidos após uma longa e extenuante via-crúcis burocrática. Antes de realizar o procedimento, porém, ela afirmou que deseja viver intensamente cada dia que ainda lhe resta, "como se fosse o último", o que realmente é o caso. E ela merece que esses dias sejam felizes e prazerosos, o máximo possível.
Quem poderá criticá-la? Há quem se posicione contra a eutanásia, por questões de religião e tenha criticado acerbamente Marieke, por recorrer a este procedimento, para libertar-se de seu sofrimento. Mas com que direito, tais pessoas pensam que podem dizer a alguém que sofre uma doença com a gravidade da que Marieke porta, doença esta que não tem cura e só a maltrata, e lhe provoca as mais excruciantes dores, com que direito, pergunto eu, tais pessoas podem dizer-lhe que ela não tem o direito de livrar-se, como queira, de seus tormentos físicos, se o modo como ela escolheu fazê-lo, em nada prejudica a ninguém e só a ela diz respeito? Como não sou um homem religioso e Deus não entra ou só entra mui raramente em minhas cogitações, penso diferentemente. Penso pelo ângulo dos direitos civis. Penso que cada indivíduo tem o direito total e absoluto de dispor da sua vida, como bem lhe aprouver, inclusive de tirá-la, se julgar necessário, desde que não prejudique ou coloque em risco, a vida e a segurança de outras pessoas. Ora, a quem a eutanásia de Marieke Vervoort pode prejudicar? 
E digo mais: está na hora de começar a discutir seriamente a possibilidade de legalizar a eutanásia no Brasil. Por uma simples questão de humanidade. 
Falta um pouco mais de amor humano nos corações dos que apregoam o amor divino. Em compensação, sobra intolerância.

8 de setembro de 2016

A Floresta Morta


Um cão negro e feroz devora meu coração. A depressão me domina. Sofro de ansiedade e tenho crises periódicas de pânico. Fico noites inteiras sem dormir. Tenho o pavio curto e meu temperamento não é dos mais fáceis, pelo contrário. Em sociedade, sou como um touro, solto numa loja de louças. Não tenho absolutamente nenhuma paciência ou capacidade de tolerância para com pessoas burras, arrogantes, ou fanáticas. Mando-as ao inferno, na primeira oportunidade, seja na vida real, seja na virtual. Por exemplo: adoro usar o botão "bloquear" do Facebook. É um de meus maiores e mais malignos prazeres. Não hesito em usá-lo, quando a pessoa me aborrece. Sou completamente avesso a reuniões sociais. Sou o típico chato de festa. Quando bebo, ao invés de me alegrar, fico ainda mais soturno e espectral, do que de hábito. Tenho uma baixíssima, praticamente nula, quase inexistente, resistência à frustração. Desejo nada menos do que a destruição do universo, quando sou contrariado. Isso, obviamente, implica na triste constatação de que o Brasil não é o melhor lugar para eu viver. Pois não há, sobre a face deste pobre e atribulado planeta, país que mais decepcione seus cidadãos. Infelizmente, sou obrigado a permanecer aqui, por uma série de razões, que estão além do meu controle. A maior delas, um desesperado, quase masoquista amor pela minha pátria natal, que me impede de traí-la, por mais que ela insista em maltratar-me.
Há quanto tempo, se arrasta a nossa crise política, econômica, social e moral? Quanto tempo? Haverá uma luz, no fim do túnel? Conseguiremos atravessar esta penosa e sombria quadra histórica, sem sangue, nem dor? Nossa frágil e enfermiça democracia conseguirá sobreviver à tentação totalitária que ronda os donos do poder e aos constantes ataques de que é o indefeso alvo? Conseguiremos evitar a produção de novos cadáveres para preencher as estatísticas históricas? O que será de nós e de nossos filhos? O que será de ti, meu filho amado? Conseguirei proteger-te da tempestade de aço que se aproxima, com passos cada vez mais velozes? Terei forças para tanto? Sou apenas um homem. Minha carne pode ser cortada. Minhas veias podem ser abertas. Balas podem me matar. Meu amor bastará para salvar-te?
Quisera eu ser uma pessoa mais alegre. Mas a verdadeira alegria é uma arte. Uma arte que não sei exercer.
Invejo as pessoas que conseguem sempre adotar e manter uma postura leve, sorridente e otimista diante das turbulências da vida. Pessoas que permanecem sempre à altura dos acontecimentos e não se deixam abater por eles. Pessoas que não perdem o sono, nem o apetite, a pensar nas agruras do porvir. Pessoas para quem o copo está sempre mais cheio do que vazio. Pessoas para quem o amanhã não é um imenso e voraz buraco negro, como é para mim, mas um caleidoscópio mágico, cheio de esperanças sempre renovadas.
Mas tal não é o meu caso. Não por falta de vontade. Por falta de fé? Penso que sim. E também não, ao mesmo tempo. Não sou ateu. Não creio que o universo tenha nascido, por obra pura e simples, do mero e irracional acaso. Já disse o rei Lear; "Do nada, nada vem". Mas tenho sérias dúvidas sobre a pretensa bondade de seu criador e é-me imensamente difícil acreditar em milagres.
Tal como Michel Leiris, exceto quando estou com medo, sinto-me sempre debater na mais profunda, densa e obscura irrealidade. Domina-me uma sensação de crônico e indissolúvel alheamento com relação à vida e ao mundo, o que erige entre mim e os que me cercam, um muro intransponível, feito de estranhamento, desencanto e incompletude. Mesmo os que me amam, muitas vezes não me compreendem. Julgam-me frio, distante, apático, quando, na verdade, eu quisera poder corresponder à altura, o amor que me devotam e com a mesma intensidade. Mas falta-me o talento necessário para exercer a reciprocidade no amor. Sou um bloco de granito, impermeável ao carinho alheio. Por isso, estou sempre só. Há alguma mola quebrada no meu coração, talvez uma floresta morta, como no poema de Kilkerry.
Um dia, esta floresta morta esteve cheia de vida. Suas árvores eram verdejantes e repletas de frutos, e era incessante o cantar dos pássaros em seus galhos. Mas a tempestade veio e não restou um arbusto em pé. Ficaram somente algumas ervas daninhas, os maus sentimentos, que hoje me assombram e governam.

18 de agosto de 2016

Má Educação

Pawel Kuczynski
Não, não tenho boas lembranças do meu tempo de escola. As escolas em que estudei, foram, para mim, verdadeiras antecâmaras do Inferno. Numa época em que a palavra bullying era ainda desconhecida ou pouco utilizada nos meios escolares brasileiros, eu já o sofria, cotidianamente, dia após dia, em todos os estabelecimentos em que fui matriculado. Vivi horrores dentro de suas salas de aula. Não raras vezes, cogitei seriamente a possibilidade de praticar uma atitude extrema, como a deste pobre menino. Nada aprendi dentro delas, a não ser a desprezar a humanidade, especialmente os profissionais da área da educação, sobretudo os professores. Tudo o que hoje sei ou suponho saber, aprendi-o fora de seus muros, em casa e nas bibliotecas públicas, sozinho, sem o auxílio de colegas, nem, obviamente, a orientação de qualquer mestre. Sou um autodidata, em toda a plenitude do termo. 
Nunca concluí o ensino médio. Não tenho, portanto, um diploma universitário pendurado em minha parede. Pois para cursar uma universidade e receber, após quatro longos e tediosos anos, um pedaço de papel pintado, é necessário, primeiro, ter outro pedaço de papel pintado, para poder prestar o vestibular, para, só então, cursá-la, caso aprovado nesse mesmo vestibular. Por conseguinte, minhas opiniões nada valem, porque não têm nenhuma chancela acadêmica, para embasá-las. Nada do que eu digo e ainda vier a dizer, seja aqui ou alhures, portanto, vai exercer qualquer influência sobre o rumo dos acontecimentos contemporâneos e não vai alterar em um milímetro, sequer, o atual estado de coisas, seja no Brasil ou no mundo. Mesmo assim, vou dizer claramente o que penso. O que digo, pode até não ter importância nenhuma, mas vou exercer plenamente meu direito constitucional à liberdade de expressão, mesmo que ninguém esteja disposto a ler-me, pois o direito que não se exerce, é um direito que não existe. Como Nietzche, cantarei a minha música, mesmo que eu seja o único a ouvi-la. No mais, às favas com quem não gostar! Basta mudar de site. Meu blog não é uma prisão de leitores desavisados. Todos que por acaso vierem a ler estas páginas, estão livres para abandoná-las, quando bem lhes aprouver. 
Não tendo um diploma universitário, claro está que também não sou especialista em pedagogia. Mas não é preciso sê-lo para constatar a inegável e catastrófica falência de nosso modelo educacional atual. Nossas escolas não cumprem sua função, não ensinam, nem educam. pelo contrário, só emburrecem e aviltam nossas crianças, transformam-nas em meras ferramentas para linhas de produção, úteis, por certo, mas vazias, como belas embalagens sem conteúdo, mais próximas da animalidade, ou melhor, da mecanicidade pura e simples, do que da humanidade.   
Para mim, os grandes problemas educacionais de nosso tempo, podem ser imediatamente resolvidos, de forma simples e eficaz, por meio de um único e barato instrumento: a abolição das escolas. E por que não? O modelo escolar, tal como o conhecemos hoje, só veio a se desenvolver à partir do século XII, uma época relativamente tardia, em comparação com o todo da história humana pregressa. Como diz Luiz Fujita: "A palavra 'escola' vem do grego scholé, que significa, acredite se quiser, 'lugar do ócio'. Isso porque as pessoas iam à escola, em seu tempo livre, para refletir. Vários centros de ensino pipocaram pela Grécia, por iniciativa de diferentes filósofos. As escolas geralmente eram levadas adiante pelos discípulos do filósofo-fundador e cada uma valorizava uma área do conhecimento. A escola de Isócrates, um exímio orador, por exemplo, era muito forte no ensino da eloquência, que é a arte de se expressar bem. Mas as escolas multi-temáticas, que contemplam as disciplinas básicas que temos hoje, como matemática, ciências, história e geografia, só surgiram entre os séculos XIX e XX".
Ou seja: a escola, como instituição, é um fenômeno relativamente recente e não é o único modelo possível de transmissão do conhecimento. Por que não valorizar o homeschooling, por exemplo?
É claro que não possuo a chave do enigma, ou seja, não tenho sequer a mais vaga ideia de como superar o atual modelo educacional, que, para mim, como já disse, está obsoleto e ultrapassado, e em completo descompasso com as reais exigências do mundo moderno. Mas lanço a questão e espero que ela possa render bons debates. Provavelmente não renderão, pois ninguém lê este blog além de mim.

25 de abril de 2016

O Retorno

Neve de 1975 em Curitiba.

Sê bem-vindo de volta, bom e velho frio curitibano! Que saudades tive de ti! Não te vás tão cedo! Curitiba não é Curitiba, quando tu aqui não estás. Não te vás, fica ao menos o tempo suficiente para que eu possa saborear um bom mate quente, ao pé da lareira, enquanto teu hálito gelado embranquece o vidro de minha janela.

11 de setembro de 2014

Odisséia Noturna


Ontem à noite, tive que correr em busca de um hospital, por causa de atrozes e excruciantes dores em minha vesícula biliar, provocadas por uma imensa pedra, que, de tempos em tempos, resolve me torturar, com requintes de crueldade.
Aliás, há meses, mesmo em momentos de intensa alegria, quando nada de estranho sinto em meu organismo ou em minha alma - e Deus sabe como estes momentos têm sido cada vez mais raros e fugazes! - tenho a nítida e funesta impressão de estar a viver perpetuamente coberto pela sombra densa e inexorável da Grande Dor - como os californianos vivem sob a sombra do "Big One", o grande terremoto que irá separar a Califórnia dos Estados Unidos - a última e a maior de todas as dores, que pode surgir, de uma hora para outra, sorrateiramente, das profundezas recônditas de meu frágil e perecível corpo humano, para me levar consigo, para a eternidade do túmulo. 
O medo de sofrer novas dores tornou-se-me um hábito, a ferro e fogo entranhado em meu comportamento, como uma segunda pele, de natureza psicológica, que me envolve e limita meus movimentos, uma prisão espiritual, infinitamente mais sombria e terrível do que um milhão de Alcatrazes. Pois tudo o que tenho feito nos últimos tempos, é ditado por ele. Alimentos, companhias, atividades, tudo é regido pela tirania da pedra que carrego comigo.
Há meses, corrói-me uma sensação semelhante a que deve sentir um rato amedrontado por entre as patas de um gato, prestes a devorá-lo, gato, este, que se diverte, imensamente, com o sofrimento de sua presa, antes de comê-la. 
Para quem não entende metáforas: a figura do gato representa a pedra na minha vesícula. O rato sou eu.
Mas o pior de tudo que sofri na noite passada, ainda não foi a dor na minha vesícula, foi o profundo desleixo com que fui tratado pela saúde pública de São José dos Pinhais, onde moro. 
Imagine o leitor que o primeiro hospital ao qual me dirigi (de táxi, uma vez que o SAMU estava indisponível; valor da corrida: R$ 23,60), o Hospital São José, no centro da cidade, tal como o SAMU, se recusou a me atender, mesmo com todo meu sofrimento, visível mesmo a olhos leigos em medicina, pelo fato de meu estado representar um quadro clínico, e o hospital só atender a quadros traumatológicos. (Mas o Hospital São José não é uma instituição de saúde vinculada ao SUS e administrada pela prefeitura de São José dos Pinhais? Não é, portanto, um hospital público? A Lei faculta-lhe o direito de recusar pacientes? E se ele trata apenas casos de traumatologia, então porque a propaganda governamental municipal o elogia como centro de referência em diversas outras especialidades médicas, não traumatológicas? Mistério típico do Brasil. Do Brasil real, não do Brasil de faz-de-conta das campanhas eleitorais.)
Tentei falar sobre isso com o obeso e entediado burocrata de olhos glaciais, responsável pelo atendimento aos pacientes que lá chegavam, mas foi em vão. Ele apenas me olhou com uma expressão de profundo desprezo, senão com um leve ar de sarcasmo, perceptível, apenas, por um quase sorriso, mal esboçado em seu lábio inferior, oculto por uma densa e maltratada barba grisalha, e disse-me que eu até poderia tentar o atendimento no local, mas acabaria, inevitavelmente, sendo encaminhado pela triagem, para a UPA Rui Barbosa ou para o atual posto Afonso Pena (pergunta que não quer calar: quando finalmente ficará pronta a nova e mais moderna UPA Afonso Pena?). Ou seja, de nada adiantaria minha espera por atendimento no Hospital São José.  
Contrariado com o acinte à minha cidadania e com as minhas dores aumentando exponencialmente, lá fui eu, com minha mulher, chamar mais um táxi para me levar à UPA Rui Barbosa, para onde decidi ir primeiro, antes de tentar o Afonso Pena. Chorando de dor, sentei-me sobre um banco de pedra, fronteiro ao Hospital São José, e fiquei a observar uma escola de dança localizada no outro lado da rua. Vislumbrei, através das janelas, alguns pares, dançando, cheios de volúpia e alegria, que rodopiavam intensamente. Não pude deixar de pensar comigo que se este mundo é, realmente, como diz o autor bíblico, um vale de lágrimas, é também um grande tablado, onde se desenvolvem danças de todos os gêneros e feitios, da cracoviana ao tango, e onde os que não podem dançar, choram. Em latim: quis non saltastis lamentavimus et ploravit.
Bem-aventurados os que dançam, porque eles terão os olhos enxutos. Dou de graça este novo versículo, aos futuros revisores da Vulgata. 
Veio o táxi e pusemo-nos a caminho da UPA Rui Barbosa. Lá chegando, senti o chão abrir-se sob os meus pés, assustei-me com o tamanho monstruoso da fila de pacientes aguardando por atendimento. Cheguei a ver um grupo de pessoas visivelmente enfurecidas (deviam estar aguardando há horas por atendimento médico), a discutir acrimoniosamente com o segurança da unidade, provavelmente cobrando providências para minorar a agonia em que se encontravam naquele momento.
Pergunta: por que têm de ser, sempre, os seguranças das unidades de saúde, os bodes expiatórios para as frustrações dos pacientes - com toda a razão, revoltados contra o escárnio diário a que seus direitos são submetidos pelo poder público - se os verdadeiros culpados pelas agruras que sofrem estão a quilômetros de distância, encastelados em suas torres de marfim, em Brasília, e não dão a mínima atenção para o que eles passam, a não ser em época de corrida eleitoral? Os seguranças das unidades de saúde são, o mais das vezes, tão vítimas quanto os pacientes, do sistema fratricida que vivemos neste inóspito e retrógrado rincão do globo terrestre, que atende pelo nome de Brasil.
Ainda a bordo do táxi, decidi tomar outro rumo e seguimos caminho em direção ao 24 horas Afonso Pena que, felizmente, estava bem menos movimentado do que a UPA Rui Barbosa (valor da corrida: R$ 30,00).
Quando lá cheguei, minha dor estava no auge de sua intensidade, cascatas de lágrimas brotavam de meus olhos e em lugar de palavras, só conseguia responder com monossílabos e gritos guturais ao que as pessoas ao meu redor, com inclusão de minha mulher, me perguntavam. A enfermeira que fez minha triagem, bastante solícita e prestativa, priorizou meu atendimento, e eu fui logo me consultar com uma excelente médica, que me prescreveu os medicamentos adequados para tratar minha crise, por via venal. Não demorou muito e finalmente pude sentir o alívio que tanto procurei em meu périplo noturno pelos prontos-socorros de São José dos Pinhais. Mas ainda me encontrava extremamente agitado e logo que o soro com os medicamentos acabou, encaminhei-me, com o acesso pingando sangue, para o consultório da médica que havia me atendido, para pedir-lhe um calmante para minorar minha ansiedade. Assim que o tomei, adormeci imediatamente. E depois fui liberado para voltar para casa. Mais uma vez, de táxi. (valor da corrida: R$ 25,00).
Valor total das corridas de táxi: R$ 78,60 na bandeira 2 (soma verdadeiramente estratosférica para quem, como eu, encontra-se desempregado). Preço pago pelo recurso à saúde pública de São José dos Pinhais: minha dignidade.
E o pior é que ainda faltam dois longos e dolorosos meses para poder operar minha vesícula!         

2 de fevereiro de 2014

The End

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)
Sinto como se um véu de profunda tristeza e devastador desespero tivesse subitamente descido sobre o mundo, agora que leio, consternado, e ainda incrédulo, com lágrimas nos olhos, a estarrecedora e acachapante notícia do súbito e estúpido falecimento do magnífico e inigualável ator Phillip Seymour Hoffman, ganhador do Oscar de 2005, por sua brilhante e verdadeiramente inesquecível atuação no filme "Capote", de Bennett Miller, atuação superada, apenas, em minha modesta opinião, pelo seu magistral e emocionante desempenho no belíssimo e comovente "Com Amor, Liza" (2002), de Todd Louiso. 
Informações preliminares dão conta de que seu corpo foi encontrado na banheira do apartamento em que morava, em Greenwich Village, Nova York, afirmam fontes anônimas que com uma agulha espetada no braço. Segundo um famoso tablóide norte-americano, a causa da morte teria sido overdose, possivelmente de heroína. O ator, certa vez, reconheceu, publicamente, enfrentar problemas com substâncias ilícitas, e teria sido internado, em maio passado, em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. 
A ser verdade, Hoffman será então a mais nova vítima de talento a ter sua vida prematuramente ceifada pelo flagelo das drogas, mais uma entre tantas outras que nos deixaram tão precocemente e de forma tão abrupta e inexplicável, como Elis Regina, Jimi Hendrix, Jim Morrison, River Phoenix, Heath Ledger, Amy Winehouse, e tantos, tantos outros... A contagem seria longa e pesarosa, efetuá-la seria o mesmo que contar os corpos espalhados sobre um campo de batalha, encharcado de sangue, após o fim de um combate, atividade que, além de inútil, é propícia somente aos que têm estômagos fortes. Não é o meu caso, já que sofro de dispepsia.
Por ora, limitemo-nos a lamentar, lamentar profundamente, esta perda irreparável, e ponhamo-nos a rever suas representações primorosas, para aplacar um pouco a dor que nos está a fustigar o coração. É o que vou fazer. Trago o "Capote" comigo.        
     

13 de janeiro de 2012

Homens e Mitos

"A Balsa da Medusa" (1819) - Theodore Guéricault (1791 - 1824)
A propósito da profunda e dolorosa comoção nacional que ora assola as plagas italianas por conta do aterrador e espetacular desastre ocorrido com o navio transatlântico "Costa Concórdia", naufragado após colidir com rochas na ilha de Giglio, na paradisíaca Toscana, a constatação maior a ser feita é de que o referido naufrágio é verdadeiramente notável, não apenas por suas proporções e pelo número de vítimas fatais que ocasionou, mas, sobretudo, pelo contraste gritante e infinitamente absurdo, que as circunstâncias e os fatos relativos a este fatídico evento acabaram por instaurar entre o que poderíamos classificar como duas visões de mundo diametralmente opostas e dois modos de ser e de agir frente às adversidades da vida, inteiramente distintos entre si. Graças ao modo extremamente tendencioso e maniqueísta com que a mídia italiana e internacional têm tratado aqueles que por ela foram definidos como sendo os personagens principais dessa trama, o que parece haver ocorrido, naquele momento supremo, em solo toscano, teria sido uma batalha épica de titãs entre o supremo bem e o supremo mal, cada lado nitidamente representado por uma figura que, embora de carne e osso, parece haver saído das turbulentas e vertiginosas páginas de um romance náutico do século XIX.
Do lado das hostes animalescas e horroríficas do Mal, temos aquele, que muitos, mesmo os que não têm o menor conhecimento da arte de comandar navios, adjetivam como o "incompetente" capitão do "Costa Concórdia", Francesco Schettino, e, do lado das falanges puras e translúcidas do Bem, o oficial da Guarda Costeira italiana, o comandante Gregorio De Falco, o célebre autor do novo lema nacional italiano: "Vada a bordo, cazzo".
A dicotomia estrita, quase cartesiana, que a mídia, e, por causa dela, o povo da clássica, heróica, longeva e sempre espalhafatosa e férvida Itália, criou entre um homem do mar que, na hora derradeira, diante do colapso iminente da embarcação que comandava, optou, qual encarnação mal-acabada de Lord Jim, por abdicar de seu dever sagrado como capitão para guiar-se pelo primordial e irrevogável instinto de sobrevivência, que de comum todos temos e que o levou a salvar primeiro sua própria pele, em detrimento de seus comandados e dos passageiros do transatlântico a afundar, e outro homem do mar, que, apenas por cumprir estritamente suas obrigações profissionais, acabou por ser alçado aos píncaros da glória nacional (triste sintoma de uma época degenerada, heroicizar um homem apenas por ele cumprir o papel que lhe cabe, sinal de que, até nos mínimos afazeres do cotidiano, a ordem natural das coisas há muito deixou de ser a norma, para tornar-se a exceção), além de falsa, é também o fruto peco e indigesto de uma irresponsabilidade midiática de proporções hercúleas, para novamente usar uma imagem mitológica.
Com todo o respeito devido às vítimas do naufrágio e aos seus familiares, vilanizar Schettino por preferir salvar sua vida, ao invés de sacrificá-la por um quimérico e altissonante ideal de marinha e glorificar De Falco por, no calor e no aconchego de sua cabine, ordenar-lhe pô-la novamente em risco através do reembarque em um navio em processo de afundamento, parece-me, no mínimo, precipitado e algo desonesto. Ocorre-me perguntar o que verdadeiramente faria De Falco, caso estivesse ele, naquele momento soturno, na mesma posição de Schettino e fosse ele a ouvir "Vada a bordo, cazzo".  No caso do malfadado capitão, eis o dilema que se lhe apresentou: preservar a vida ou a honra do ofício. Ele escolheu a primeira altrnativa. Escolha vergonhosa, sem dúvida, mas quantos de nós não teríamos feito exatamente a mesma opção? Lembremo-nos da passagem da adúltera apedrejada no Novo Testamento: "quem nunca pecou..." Quem poderá condenar Schettino por escolher viver?
Porém não é a intenção deste breve e despretensioso artigo, erigir-se em documento de defesa de quem quer que seja. Não vou tomar qualquer partido, seja dos detratores de Schettino, seja dos apologistas de De Falco, mesmo porque não possuo sequer um décimo das credenciais técnicas e científicas necessárias para julgar este caso com um mínimo de objetividade e isenção, e nem é minha função fazê-lo. Parece haver fortes evidências de negligência da parte de Schettino para com a segurança do "Costa Concordia", mas deixemos que as autoridades competentes julguem o caso.
O grande objetivo deste artigo, na verdade, é apenas chamar a atenção do leitor para o elevado e aparentemente irreversível grau de degeneração a que chegou o processo cada vez mais acelerado e, digamos assim, espetaculoso, de "novelização da realidade", pelo qual o jornalismo mundial vem passando nestes primeiros anos do século XXI. As notícias são, para o público contemporâneo, o que os folhetins foram para o público do século XIX e o que as telenovelas foram para o público do século XX.
De fato, a julgar pelo alto pendor para a dramatização, ao estilo mexicano, com que a mídia internacional e especialmente a que vigora aqui, em plagas tupiniquins, tem tratado, não só o naufrágio do "Costa Concordia", mas também outros eventos de grande impacto emocional junto às massas, parece-me ter sido o jornalismo, outrora centrado nos fatos e na objetividade das reportagens, inapelavelmente substituído por um jornalismo de fundo de quintal, altamente propenso a promover uma espécie de ficcionalização da vida real, como que para competir, em pé de igualdade, com a dramaturgia televisiva e os reality-shows.    
Dia haverá em que assistiremos aos telejornais como assistimos a uma telenovela, e, nesse dia, tudo em torno de nós não passará de um gigantesco e sombrio filme de terror, sem final feliz. 

23 de julho de 2011

A Vulgaridade da Morte


Amy Winehouse (1983-2011)

Se há algo de que ninguém, em sã consciência, pode acusar a morte, é de parcialidade ou esnobismo. A morte é, indubitavelmente, o mais democrático e igualitário dos fenômenos naturais. Diante dela, todos se equivalem, todas as sutis e complexas distinções humanas, que tanto complicam e tornam atribulado e, por vezes, infernal, este pobre e pequeno mundo em que vivemos, se desvanecem, tornam-se completamente inúteis, desprovidas de qualquer sentido. Diante dela, todos prostram-se de joelhos, e clamam, em vão, por mais alguns segundos de vida. Não importa que sejam reis, papas, imperadores, generais, presidentes, primeiros-ministros, personalidades de mídia (seja o que for que isto signifique), celebridades instantâneas e outras não tão instantâneas, comendadores, diplomatas, desembargadores, petistas ou tucanos, republicanos ou democratas, flamenguistas ou vascaínos, carnívoros ou vegetarianos, a morte nada vê diante de si, a não ser a alma a ser ceifada. Ela não tem absolutamente nenhum preconceito de qualquer espécie, não segue nenhum critério fixo na hora de exercer seu ofício imemorial, não há uma ordem específica para ela respeitar em seu trabalho, ela não liga a mínima, para coisas tão vãs e fúteis, como idade, sexo, nacionalidade, raça, classe social, e coisas que tais. Todas essas superficialidades mundanas, que tanta aporrinhação e fadiga trazem à melancólica e desvalida raça humana, para ela, a "indesejada das gentes", nada significam. Penso que muito poderíamos aprender com ela, no tocante à velha e tempestuosa questão da igualdade. Paradoxalmente, se pensássemos mais sobre a morte, talvez aprendêssemos mais sobre a vida.
Mas há diversos momentos em que gostaríamos, eu pelo menos gostaria, que ela fosse menos democrática e um pouco mais seletiva em seu ofício, que adotasse critérios mais rígidos e claros para o desempenho de sua função, que fosse, enfim, um pouco mais aristocrática e um pouco menos vulgar.
Se me for perdoada a ousadia de lhe fazer sugestões, eu opinaria que uma boa regra de conduta a ser tomada pela morte, de agora em diante, seria a de não mais levar consigo, crianças. Outro grupo de pessoas que ela deveria se abster de ceifar, seria o das mães, que, de fato, deveriam ser imortalizadas, por meio de um decreto divino, a ser publicado no Diário Oficial do Céu, com todos os artigos e parágrafos a que o dito decreto teria direito, sem o esquecimento de uma vírgula. Seria o Treze de Maio das mães: "Artigo Primeiro: Fica abolida a morte das mães. Artigo Segundo: Revogam-se todas as disposições em contrário".
Ainda um terceiro grupo a ser privado do contato com a morte, seria o dos artistas, seres especiais, quase divinos, que tornam este remoto e desolado vale de lágrimas, senão um lugar menos lacrimejante e hostil, ao menos, um recanto mais confortável para viver, porque mais compreensível. Pois este é o real papel da arte, neste mundo: dar um sentido à vida, um sentido que ela não tem, em si mesma. E nada há mais trágico sobre a face da Terra, do que a perda abrupta e irreversível de um grande talento artístico, ainda em formação, subitamente cortado pela raiz antes de amadurecer por completo, tal como uma flor, ainda por desabrochar, repentinamente arrancada do solo, pela mão inábil de um jardineiro principiante.
Claro está que me refiro à súbita, mas não de todo surpreendente notícia da morte da talentosa e polêmica Amy Winehouse, a quem muitos veneravam por sua voz magnífica e outros repudiavam por seu comportamento assaz espalhafatoso e autodestrutivo. Muito já foi dito e redito a respeito deste evento fatídico, indubitavelmente catastrófico para seus fãs e os que verdadeiramente a amavam, mas, com certeza, infinitamente lucrativo para sua gravadora e os demais envolvidos com a comercialização de sua imagem - pois é uma verdade, já universalmente estabelecida, que nada é mais vantajoso para um artista, do ponto de vista financeiro do termo, do que a morte ainda nos píncaros da fama (vide o caso de Michael Jackson.). O único problema é que não é o artista que obtém os lucros advindos de seu passamento, esta cláusula não está prevista em qualquer contrato.
Nada mais poderia fazer aqui a não ser repetir, com outras palavras, tudo que vi, li e ouvi sobre a infeliz Amy, ao longo do dia, desde seu envolvimento com o obscuro e tétrico mundo das drogas (mal que já se abateu sobre outras figuras, tão ou até mais célebres e talentosas do que ela), até sua entrada no tão famoso, quanto sinistro, "Clube dos 27", o que muito me fez lembrar da histeria coletiva reinante quando da chamada "Maldição de Tutâncamon", que nada mais era, do que uma série de coincidências notáveis, envolvendo a morte de membros da equipe arqueológica responsável pela exumação do lendário faraó-menino. Coincidências notáveis, eu disse, mas ainda, coincidências. Assim como a idade em que morreram os integrantes do tal "Clube dos 27". 
Há pessoas que gostam e até se orgulham, de enxergar conexões ocultas em tudo, até entre coisas as mais díspares e inconciliáveis; pessoas que vêem, numa série de simples coincidências fortuitas, os claros e inequívocos sinais de um diabólico plano de dominação mundial, proclamando-se visionários homens de sabedoria a quem o resto da humanidade deveria adotar como sumos guias rumo ao mundo do porvir, e que, para todos os males que afligem a humanidade, têm a solução miraculosa e infalível, basta o fiel trouxa, digo, seguidor, depositar alguns gordos maços de cédulas, novas em folha, em suas sacrossantas algibeiras proféticas, para tomar conhecimento dela. A atual balbúrdia em relação ao hipotético apocalipse de 2012, por exemplo, motivada por uma errônea e superficial interpretação do calendário maia, é o mais novo e fértil campo de atuação de tais "gurus". 
Há também os que estão sempre prontos a apontar, com o dedo em riste, sem pejo, nem cuidado, os reais e únicos responsáveis pelas atuais mazelas do mundo, vociferando, como cães danados, contra todos os que se atrevem a contestá-los com um pouco mais de clareza. Ora é a maçonaria, ora são os Illuminati, ora são os templários, ora é o projeto eurasiano, ora são os reptilianos de Nebiru, isto, quando não são todos eles, juntos, agrupados sob a vaga e solene denominação de "Nova Ordem Mundial" ou "Governo Oculto do Mundo".
Mas voltemos à realidade. Era sobre Amy Winehouse que falávamos. 
O que mais podemos falar sobre ela que já não tenha sido dito, à exaustão, em outras paragens? Que ela foi a infeliz e atormentada protagonista da história trágica de um talento genuíno e inigualável, desperdiçado por um vício monstruoso, vício que, por fim, acabou por irremediavelmente jogá-la no abismo? Um enredo simples, sem grande originalidade, com um desfecho vulgar, vulgaríssimo. E esta é a maior acusação que podemos fazer contra a morte, talvez a única: ela é vulgar, tristemente vulgar.
                  
           

21 de julho de 2011

A Última Viagem

Insígnia da Missão "Apollo 11", desenhada pelo astronauta Michael Collins

Hoje, o ônibus espacial Atlantis encerrou oficialmente sua longa e brilhante trajetória astronáutica. Sua aposentadoria marca o fim, algo melancólico, é verdade, e, no meu ponto de vista, deveras frustrante, de uma era gloriosa e epopeica, a era dos ônibus espaciais, fruto quase utópico e verdadeiramente idílico, de um belo e majestoso sonho, que desde os primórdios da história, habita os mais íntimos e profundos recantos do coração humano: a libertação, ou, falando de um modo, digamos, mais metafísico - ou teológico - do que de ordinário nestas páginas tão ínfimas e prosaicas, a transcendência, do que alguns constantemente denominam nossa "prisão terrestre", a conquista plena e definitiva da última fronteira que ainda resta ao homem explorar: a vastidão incomensurável, indescritível e vertiginosa do cosmos.
É também um sinal claro e inequívoco do acentuado e, cada vez mais, acelerado, talvez irreversível, grau de declínio, não apenas econômico, mas sobretudo espiritual, e também civilizacional, em que se encontram, hoje, os Estados Unidos da América do Norte.
Símbolo histórico gritante e inquestionável da grave patologia, de nebulosas origens, que agora corrói e enfraquece o organismo norte-americano, é a nefasta decisão do presidente Obama, de entregar aos russos, a condução dos astronautas dos Estados Unidos, rumo à Estação Espacial Internacional.
É, no mínimo, irônico: o programa espacial norte-americano começou como uma resposta, que se pretendia espetacular e irrefutável, ao programa espacial soviético, que desferiu um grande golpe contra a vaidade yankee, ao alçar Yuri Gagarin ao espaço, antes que o próprio Tio Sam conseguisse fazê-lo com um de seus próprios astronautas. Façanha espetacular, sem dúvida, apenas suplantada, heroicamente, pela mítica marca do pé de Neil Armstrong, na superfície lunar. Eram anos loucos e perigosos, anos de um delicado, ambíguo e potencialmente explosivo relacionamento geopolítico entre as duas maiores potências mundiais à época, e a corrida espacial entre os dois grandes "impérios", era uma peça extremamente importante do jogo de xadrez internacional da Guerra Fria, por ser, sobretudo, uma grave questão de genuíno "orgulho nacional" para ambos os lados.
Daí ser uma espécie de "tapa com luva de pelica" - para ficarmos numa metáfora leve - no orgulho nacional norte-americano, a supramencionada decisão obâmica, tomada por conta da grave crise financeira que ora assola os Estados Unidos. Grosso modo - agora uma metáfora um pouco mais pesada e violenta - é como se a Rússia, herdeira direta da finada União Soviética, tivesse obtido, no "tapetão", a vitória que não obteve no período regulamentar de jogo. Trapaça pura e simples. E o mais curioso, é que o grande trapaceiro da história sequer é russo (alguns dizem que não é nem mesmo americano).
Mas deixemos o campo minado da política internacional, que de política, não cuida este blog. Abordemos o aspecto humano, puramente humano, das viagens espaciais, o último que nos faltou comentar, e o mais importante de todos. Por "aspecto humano", naturalmente que me refiro aos astronautas, essa classe heroica de homens e mulheres de uma coragem ímpar, que têm o privilégio, simplesmente inefável, de fazer o que os outros sete bilhões de habitantes deste planeta, jamais puderam ou poderão fazer no curso de uma vida inteira! Que prodígios alguns poucos "macacos nus" - como um velho e ressentido misantropo uma vez nos chamou a nós, pobres criaturas humanas - foram capazes de realizar, a que alturas estonteantes conseguiram alçar-se! Às vezes, ponho-me a pensar no quão mesquinhas e insignificantes podem parecer as coisas terrenas para quem já esteve em contato direto, como que face-a-face, com a imensidão cósmica, e pôde ter a constatação, real, não apenas metafórica, da pequenez extrema de nosso planeta, quando comparado com a infinitude do espaço... Guardadas as devidas proporções, deve sentir-se como se sentiria alguém que tivesse sido subitamente transportado ao paraíso e conseguido contemplar, por uma mera fração de segundo, o rosto de Deus, para depois ser novamente precipitado para a mesquinhez terrestre. 
Um entusiasta da astronáutica poderia objetar o uso de metáforas religiosas em referência a um tema de caráter tão estritamente científico e tecnológico como as viagens espaciais. Mas não sou o primeiro a lançar mão de paralelismos entre o misticismo e a exploração do cosmos. Michael Collins, o terceiro tripulante da lendária missão Apollo 11 - os outros dois tripulantes eram Edwin "Buzz" Aldrin e Neil Armstrong, o primeiro ser humano a caminhar sobre a superfície lunar - e o único dos três a não descer do módulo espacial, homem de uma inteligência imensa e cujo compromisso com a ciência é incontestável, também o fez, ao dar à sua magistral autobiografia, o título de "Carrying the Fire", "Transportando o Fogo" (título da tradução brasileira: "O Fogo Sagrado"), numa feliz alusão ao carro em que o deus Apolo - qualquer semelhança com o nome da clássica missão espacial não é mera coincidência - transportava o sol, na mitologia grega. Também o prefácio do referido livro, escrito por Charles Lindbergh, o célebre aviador, traz ecos de uma visão mística da exploração espacial. Nele, Lindbergh , o primeiro piloto a sobrevoar o Atlântico sem escalas - na época, uma façanha quase tão incrível e gloriosa quanto a própria chegada do homem à lua - relata a experiência transcendental de comunhão com o universo que experimentou, a bordo do "The Spirit of Saint Louis", enquanto realizava seu histórico voo. 
Verdade seja dita: viajar pelo universo deve ser uma experiência muito boa, embora tenha lá seus transtornos. Quisera eu ter, um dia, tal privilégio! Infelizmente, só astronautas treinados e bilionários russos podem tê-lo. Como não sou nem uma, nem outra coisa, terei de me conformar em continuar prisioneiro do solo terrestre. Mas o nosso planeta, embora pequeno e turbulento, hostil e violento, e caótico e atribulado, ainda é belo. E jovem, imensamente jovem, em comparação com a totalidade do universo. E é o nosso lar comum. É dele que devemos cuidar. É para ele que os astronautas voltam, depois de peregrinar pelo cosmos, como velhos soldados, cansados de guerra. É nele, que repousam seus e nossos antepassados. É sua atmosfera que abriga nossos mais caros sonhos e ideais. É nele que transcorre nossa história. É ele o palco do drama perene de nossa existência humana, demasiado humana. É nele, enfim, que repousaremos quando chegar nosso derradeiro momento, como agora descansará o Atlantis. Em paz. Pelo menos, até algum arqueólogo intrometido escavar nossos ossos e expô-los num museu de preciosidades históricas, daqui a algumas centenas ou milhares de anos.