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2 de maio de 2015

O Bloco do Eu Sozinho

"Escritório em Uma Cidade Pequena" (1953) - Edward Hopper (1882-1967) 

Começo a pensar seriamente na possibilidade de desistir de continuar a escrever neste blog. Confesso que estou um tanto quanto cansado de escrever para ninguém. Porque sei, não preciso que me digam o contrário, sei que ninguém me lê. Até algum tempo atrás, eu me contentava perfeitamente em escrever apenas para mim mesmo, numa espécie de despudorado e sumamente arrogante e soberbo onanismo intelectual. Mas, francamente, chega uma hora em que dançar sozinho na pista já não satisfaz, é preciso ter alguém para dançar conosco. Afinal de que vale a um ator representar para uma platéia inexistente? Ou a um músico tocar seu instrumento para uma assembléia de surdos? Ou a um pintor expor sua tela numa galeria vazia?
Quando criei este blog, não tinha, é claro, a ilusão de alcançar um grande sucesso de público. Afinal, os assuntos sobre os quais eu normalmente escrevo nestas páginas virtuais e o estilo com que escrevo não são de molde a atrair os leitores contemporâneos, bem o sei. Os temas que aqui ventilo estão longe, deveras longe de interessar aos homens de hoje, regidos pela férrea e imperiosa lei do time is money. São temas que exigem mais do que cinco minutos de reflexão, de todo modo mais do que uma olhadela rápida e superficial, bem mais, com certeza, do que os poucos segundos de leitura e análise de que dispõem os homens contemporâneos, sempre apressados, ofegantes, com os olhos fixos no relógio, sequiosos de lucro e apavorados pelo risco constante de perder seu status. São temas que pedem uma leitura atenta, vagarosa, pormenorizada. Uma leitura ruminante, ao modo machadiano. E para ruminar, é preciso tempo. E coragem, também.
Ruminar é um hábito que cultivo desde longa data. Neste quesito, sigo rigorosamente o exemplo de meu venerável mestre Machado de Assis: 
"Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a idéia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a idéia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também." 
Com raras exceções, não costumo escrever sobre assuntos modernos. Não escrevo pautado pela mídia. Também não costumo frequentar redes sociais ou fóruns de discussão na internet, embora, por injunções familiares, tenha criado um perfil no facebook, hoje praticamente às moscas, e tido outro no finado orkut. Posso perfeitamente dizer, sem medo de pecar pelo exagero, que este blog é, praticamente, o meu único canal de comunicação com o mundo exterior. Para falar com franqueza, o mundo moderno pouco me interessa. Ou melhor, interessa-me apenas na medida em que me afeta diretamente, pois também sou filho deste século medíocre, embora bastardo. Bastardo e inglório. Não tenho um sobrenome ilustre, meus antepassados não figuram numa árvore genealógica nobre, não nasci em berço de ouro, não sou herdeiro de nenhum império, não uso perfumes importados nem black tie e ando de ônibus não por ser defensor da redução do número de automóveis em nossas metrópoles congestionadas mas pelo motivo, muito mais prosaico e nada edificante, de não possuir um carro. "Eu sou apenas um rapaz / latino-Americano / sem dinheiro no banco / sem parentes importantes / e vindo do interior."* Minha vida é uma batalha diária, sem trégua, pela sobrevivência, todas as manhãs tenho que ganhar o pão, não só com o suor do meu rosto, como do meu corpo inteiro, ao contrário do célebre defunto Brás Cubas. E a maioria das vezes é o pão que o diabo amassou. 
Talvez meu pouco interesse pelo chamado mundo moderno seja justamente o que me separa das pessoas ao meu redor e erige uma imensa e impenetrável muralha entre o restante da humanidade e eu. ("Os muros de solidão que crescem em torno de nós, sempre que desistimos de ter fé, são como muralhas de castelo que nos impossibilitam de ser o que realmente somos, que impedem que o nosso amor chegue aos outros ... abortando-nos."**) Mas a culpa será minha ou do mundo? Este é um mundo sem alma, demasiado turbulento, caótico e espalhafatoso. É uma embalagem vazia, muito bonita e atraente mas descartável. É um mundo isento de dignidade e completamente desprovido de quaisquer valores mais sólidos e elevados do que os meramente materiais. "Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicômio: a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação."***
Prefiro orientar meus pensamentos e, em grande medida, também meus sentimentos, para mundos mais recuados no tempo e no espaço, mundos onde um ser humano ainda poderia ser, e era efetivamente, mais do que um simples instrumento de trabalho para o enriquecimento de outros, mais do que uma mera roda numa engrenagem, mais do que uma reles ferramenta numa linha de produção, mais, enfim, do que um número numa tela de computador.
Nasci no século errado. Ou cedo demais ou tarde demais. Não me sinto em casa dentro de minha própria pele.   
Exilado numa terra hostil. Um peixe fora da água. Um corpo estranho no grande organismo universal. É como eu me sinto na maior parte do tempo.            
A solidão sempre foi minha mais fiel e dedicada companheira. Carcereira talvez fosse uma definição melhor. Ela nunca me abandonou. Está sempre comigo e em volta de mim e segue em meu encalço para onde quer que eu vá. Faça eu o que fizer para tentar afastá-la, todo esforço é inútil, todo clamor é vão, ela permanece irremediavelmente incrustada em meu coração e nas mais recônditas e ignotas profundezas da minha alma e não dá qualquer sinal de querer me libertar tão cedo de suas garras frias e soturnas. 
Mas talvez eu esteja sendo um tanto quanto injusto com ela. Afinal de contas, a solidão já me serviu muito e de muitas formas. Já me livrou de uma série de maçadas ao longo da vida. Posso fazer minhas as palavras de Eugénio Andrade: 
"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável."
A solidão é também de crucial importância para o exercício da escrita. Diz Marguerite Duras:
"Na vida, chega um momento - e penso que ele é fatal - ao qual não é possível escapar, em que tudo é posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a criança. A criança nunca é posta em dúvida. E essa dúvida cresce à sua volta. Essa dúvida, esta só, é a da solidão. Nasce dela, da solidão. Podemos já nomear a palavra. Creio que há muita gente que não poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa razão que nem todos os homens são escritores. Sim. Essa é a diferença. Essa é a verdade. Mais nada. A dúvida é escrever. É, portanto, também, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. É algo que sempre se soube. Creio também que sem esta dúvida primeira do gesto em direcção à escrita não existe solidão. Nunca ninguém escreveu a duas vozes. Foi possível cantar a duas vozes, ou fazer música também, e jogar ténis, mas escrever, não. Nunca."
Mas escrever não é tão simples quanto parece. Dá um enorme trabalho. Eu não conheço ofício mais complexo e hercúleo. Nem mais prazeroso e gratificante.
Escrever é uma necessidade vital para mim. Pode parecer exagero - e tudo o que eu mais receio é soar enfático ou hiperbólico - mas a verdade é que eu só me sinto plenamente vivo quando estou escrevendo. O resto do tempo sinto-me como um sonâmbulo entre os que estão em vigília, um zumbi entre os vivos. Escrever para mim é tão ou até mais importante do que respirar. E para um asmático, fazer uma confissão como esta é dizer muito, é dizer quase tudo.
É por isto que ainda insisto em escrever. Mesmo que ninguém me leia além de mim mesmo.
Talvez um dia alguém esteja a navegar a esmo pela internet e visite esta página por acidente. Pode começar a ler as palavras iniciais desta postagem por mera curiosidade, a princípio, mas depois, conforme for avançando na leitura, pode, quem sabe, acabar por se deixar envolver e até se apaixonar pelo texto e encontrar através dele uma alma irmã; pode ser que o texto desperte em seu coração alguma ressonância espiritual, toque em alguma tecla sensível de seu ser, que o faça sentir-se como que uno e integrado ao pensamento e à sensibilidade de seu autor. E o que mais um escritor ou, como no meu caso, um simples blogueiro pode desejar, senão isto, um leitor apaixonado com quem possa compartilhar sua alma e seu coração e aliviar a imensa solidão com que Deus circundou tão impiedosamente a existência humana?
Nesse dia, pode ser que eu já tenha deixado de existir há muito tempo. Eu já terei deixado de existir há muito tempo. Mas minhas palavras, quem sabe, aqui permanecerão, como os últimos e inequívocos sinais, ainda que intangíveis e esquivos, de que um dia caminhei sobre a Terra. E talvez ainda dêem algum fruto, ainda que amargo e podre. É a única forma possível de imortalidade.
        
*Belchior
**José Luís Nunes Martins
***Fernando Pessoa

10 de fevereiro de 2015

Gado Humano

"Vagão de Terceira Classe" - ( Honoré Daumier, 1808-1879)

A propósito da recente e ardente controvérsia suscitada pelo abrupto e exponencial aumento da tarifa do transporte coletivo em Curitiba, ocorreu-me, de imediato, pensar no cada vez mais evidente e acelerado, talvez irreversível, processo de "bovinização" intelectual , que, nos últimos anos, sobretudo nesta última década, tem afetado a quase totalidade da sociedade curitibana, fenômeno sociológico sem precedentes, cuja característica principal é repousar sobre o mito da "Cidade Modelo", da cidade que se erigiu como um nobre e incontestável exemplo de planejamento urbano, eficácia administrativa, desenvolvimento econômico e bem-estar social, uma verdadeira cidade de primeiro mundo em pleno Brasil, imagem que, há muito tempo, deixou de corresponder a realidade tal como ela efetivamente é. A cidade (quase) perfeita, que chegou a ser elecanda como a terceira melhor do mundo para se viver e apontada por uma célebre publicação norte-americana como o município com a melhor qualidade de vida do Brasil, hoje ocupa a triste séptuagésima-quinta colocação no ranking das melhores cidades brasileiras da FIRJAN
Tal processo de "bovinização" pode ser claramente visto nos ônibus da célebre Rede Integrada de Transportes. Verdadeiros vagões de gado, repletos de pessoas que todos os dias precisam travar batalhas épicas para alcançar um lugar onde sentar ou pelo menos respirar dentro do ônibus, trabalhadores que só o que desejam é simplesmente descansar da fadiga que lhes pesa sobre os ombros durante o dia, mas que são tratadas pior do que se fossem lucrativas cabeças de gado conduzidas para o matadouro, sendo constantemente alvo do total desrespeito e despreparo de muitos (não todos, obviamente) motoristas inexperientes ou até, em alguns casos extremos, sádicos, que não têm, na maioria dos casos, a menor noção de civilidade ou boa educação para com seus passageiros. Eu mesmo, assíduo usuário do transporte coletivo, já fui vítima e também testemunha de muitas situações absolutamente absurdas e extremamente vexatórias que envolveram passageiros, motoristas e cobradores. Braços e pernas que ficam de fora do ônibus, prensados pelas portas automáticas, motoristas que não aguardam a descida de passageiros idosos e pisam no acelerador já quando eles mal tocam  na calçada, colocando em sério risco a integridade física e até a própria vida desses passageiros, e de outras atitudes que colocam os passageiros numa situação humilhante. Refiro-me a postura de alguns motoristas de ônibus biarticulados ou ligeirinhos, que aguardam o passageiro passar a catraca e se dirigir a porta do veículo para imediatamente fechá-la em sua cara e partir deixando atrás de si a fumaça e o passageiro com uma expressão apalermada no rosto.
Poderia citar ainda muitos outros exemplos das pequenas humilhações diárias a que o usuário do transporte coletivo de Curitiba é todos os dias submetido pelos seus operadores mas não o faço agora para não alongar demais a presente postagem, o tempo de que disponho é curto para escrever tudo o que desejo. Fiquemos por ora, com o mais recente acinte que nos foi infligido pelo sacrossanto e onisciente poder municipal curitibano: o "tarifaço", o aumento estratosférico da passagem do ônibus a que aludi nas linhas iniciais deste artigo.
O que mais me espanta no aumento da tarifa - não de todo inesperado, é verdade - não é, necessariamente, o seu percentual extorsivo, já por si suficientemente absurdo e grotesco - para dizer o mínimo - mas o modo, por assim dizer, discreto, quase clandestino, com que ele foi decretado, justamente às vésperas do carnaval, como para evitar qualquer oposição mais veemente e vigilante contra ele. Quase como se a prefeitura e a imperial URBS estivessem com medo de ser descobertos fazendo alguma estripulia indevida, preferindo ocultar-se sob o denso véu da noite e sob os confetes e serpentinas do carnaval. O cálculo é óbvio: decretemos o tarifaço agora, enquanto o povo está ocupado com a folia, assim ele não terá tempo para protestar. Depois que os curitibanos voltarem das festas, de ressaca e cansados, não terão mais vontade de fazê-lo, o aumento já será um fato consumado contra o qual será inútil lutar.
Mas parece ter havido um erro crasso no cálculo da prefeitura, os primeiros sinais de insatisfação popular já começam a se fazer notar.
Oxalá eu esteja certo!
Bela quarta-feira de cinzas teremos!                

31 de dezembro de 2014

Infeliz Ano Velho


Seja qual for a visão que tenha sobre os inúmeros acontecimentos de envergadura histórica que ocorreram em 2014, tenham eles sido funestos ou alegres, sérios ou cômicos, não há como o eventual leitor desta postagem negar uma verdade insofismável: este foi, deveras, um ano intenso e atribulado, cheio de som e fúria, lágrimas e risos, agruras e delícias, como são, aliás, todos os anos. Começou, como, aliás, começam todos os anos, prenhe de promessas gloriosas, que depois não cumpriu, passou com a velocidade de um raio e terminou, de forma deveras soturna e melancólica, deixando, atrás de si, uma amarga sensação de desapontamento e pesar, estranhamente mesclada com um profundo e irreprimível alívio por finalmente haver se extinguido.
Quanto a mim, considero que este ano, ano que, no princípio, me pareceu assaz auspicioso - agora que chegou ao fim, vejo que não passou de um grande engodo - poderia ter sido muito melhor do que foi, não fossem a malignidade congênita da raça humana e a própria natureza das coisas.
Infeliz 2014! Triste, pobre e doente você me encontrou. Triste, pobre e doente você agora me deixa. Já vai tarde! Que venha 2015, com todas as suas novas-velhas promessas e futuras ilusões desfeitas! Que pelo menos seja um pouco, só um pouco, melhor do que foi 2014!
É uma esperança frívola, bem o sei, mas ainda assim, cara ao coração. Eu talvez mereça o desprezo de Ájax.
Feliz ano novo!

11 de novembro de 2014

A Sabedoria das Ruas


Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Confesso que sou ou posso bem ser considerado um autêntico e perfeito espécime daquilo que se convencionou chamar, desde os tempos do ébrio e soturno Baudelaire, um flâneur, no melhor estilo do termo, um convicto e incurável andarilho da urbe curitibana. Cultivo o salutar e agradável hábito de caminhar, durante horas e horas, a fio, sem destino, nem hora marcada, pelas silenciosas e melancólicas, aprazíveis e poéticas ruas curitibanas, com os olhos constantemente em alerta para tudo que existe ou se movimenta ao meu redor, sempre prontos a captar e guardar, no arquivo labiríntico e multifacetado de minha memória, a beleza fugaz de instantes e gestos que, justamente por conta dessa mesma fugacidade, por não poderem jamais repetir-se, possuem um valor simplesmente inestimável, maior do que o de qualquer pepita de ouro já encontrada ou por encontrar em Serra Pelada, ainda que não devidamente reconhecido pela esmagadora maioria dos tecno-escravos de nossa opulenta e pretensamente progressista sociedade moderna, cujo tempo é quase que integralmente dedicado à busca desenfreada por lucro e status, pouco sobrando para o cultivo do espírito e do coração.
Estou sempre em busca de algo, dentro da frenética e vertiginosa selva urbana, que me emocione ou me seduza com sua novidade e seu esplendor, por mais insignificante e medíocre que aparente ser na superfície. Já descobri e vivenciei inúmeras coisas, deveras belas e inusitadas, em minhas perambulações. Coisas que os tecno-escravos que mencionei julgariam completamente sem importância porque desprovidas de real valor monetário. Desde a visão singularmente sublime e encantadora, quase paradisíaca, de uma singela e desgastada estatueta negra perdida no fundo de um jardim solitário e inóspito, com um estranho e comovente sorriso a lembrar exóticos ares orientais estampado em sua face de ébano, até a aspiração, profunda e enlanguescedora, do sutil e inebriante aroma proveniente de um vaso de flores multicoloridas e luxuriantes postado sobre o peitoril de uma janela adornada com esfarrapadas cortinas de renda, cheias de furos e marcas de cigarro, e na qual, um homem de cabelos austeramente encanecidos, fumava um cachimbo preto, com um ar ao mesmo tempo, grave e nostálgico, pensando, sabe Deus em que passagens longínquas de seus sonhos de antanho, talvez pressagiando a chegada iminente da cláusula de seus dias; de crianças jogando "bafo" (não há o que estranhar, a modernidade ainda não soterrou, por completo, nas dunas velozes do esquecimento e da desilusão, o verdadeiro significado da infância e o real valor da instituição familiar em alguns raros e heroicos lares curitibanos - eu próprio já participei de verdadeiros campeonatos improvisados deste já bastante raro esporte infantil, no qual sempre fui, confesso-o com pesar, uma gigantesca nulidade) na calçada fronteira a uma velha casa de madeira de inspiração ucraniana, sob o olhar terno e vigilante de seus pais; carrinheiros de semblante fatigado, cruelmente flagelados pela inclemência do clima e constantemente acossados pelo olhar gélido dos mais afortunados, enquanto realizam seu trabalho e procuram a sobrevivência naquilo que facilmente descartamos quando não mais nos apetece conservar; os engraxates onipresentes da Boca Maldita, tagarelas e presunçosos como somente eles sabem ser; as estátuas vivas da Rua das Flores que formam como que um museu a céu aberto, com figuras de carne e osso em exposição, e que, em troca de alguns mirrados centavos, dados, às vezes, de não muito bom grado pelos passantes, adquirem movimento e desenvoltura ante seus olhos e lhes saúdam, reverentemente, como dignos e solícitos anfitriões de um fantástico e caleidoscópico espetáculo de variedades urbanas (jamais esquecerei do olhar maravilhosamente deslumbrado de uma garotinha que recebeu um beijo na mão dos lábios de um singular e elegante "Apolo de Belvedere" e que ficou literalmente sem palavras, ao ver-se imersa em tamanho encantamento, não conseguindo acreditar que estava a ver uma estátua movimentar-se de verdade diante de si); figuras já de todo presentes no imaginário coletivo da cidade e que se tornaram características do folclore moderno curitibano, como um certo senhor com um rabo de cavalo, um pouco fora de forma, é verdade, que caminha pela rua com uma bicicleta a tiracolo, de sunga, e com o corpo todo besuntado de óleo, como se fora um corcel prestes a galopar num haras de extensão ilimitada, e a multicolorida e gentil Rainha do Papel, que transforma insignificantes embalagens de plástico em obras de arte de rara e magistral beleza; as mercadoras do amor da rua Cruz Machado, modernas sacerdotisas do mais antigo e secreto dos cultos, muitas a exalar ares lascivos de todos os poros de seus corpos desnudos, outras com uma deprimente e angustiante expressão de profundo tédio a marcar seus rostos berrantemente pintados, e que, ao cair a noite, apregoam, fazendo uso das milenares técnicas conhecidas apenas pelas legítimas descendentes da Mulher Primordial, dotes de duvidosa eficácia, e, por quantias previamente determinadas, dão aos clientes a vaga e efêmera sensação de serem verdadeiramente amados e desejados, sensação que não vale um cêntimo de um afeto real; tudo isto e mais ainda, eu vi com os olhos ávidos e perspicazes de um apaixonado escrutinador do cotidiano desta, ao mesmo tempo, cosmopolita e provinciana metrópole, sempre disposto a queimar a sola dos sapatos e pôr o cérebro para trabalhar, à procura do oculto, que nem sempre se desvela a um toque de mágica intelectual mas só depois de uma extenuante labuta aflora à superfície, e do imperceptível, que só se traduz em conhecimento quando nos esforçamos por ultrapassar e reduzir a cinzas, o soturno e teoricamente inexpugnável muro de nossos próprios preconceitos e ilusões.
Para mim, o caminhar serve sobretudo de pretexto à reflexão. A ponto de quase poder, não sem uma certa ponta de vaidade, fazer meus os célebres versos de Paulo Leminski:

Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
    Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
    Aonde vão dar esses passos?
Acima, abaixo?
    Além? Ou acaso
se desfazem no vento
    sem deixar nenhum traço?

Flanar é hábito de cronistas. De gente da estirpe de um Machado de Assis, um Rubem Braga, um João do Rio. De filósofos como Nietzche. É absorver as múltiplas facetas da vida, no que ela tem de mais puro e sublime, até nos seus aspectos mais sórdidos e execráveis. É contemplar a beleza elegante e sofisticada do Batel e a decrepitude intoxicante e pecaminosa da Vila das Torres. É saborear o drama (ou a comédia) humano até o último gole da taça do infortúnio ou do cálice da felicidade. É tomar contato com a glória e vislumbrar a podridão. É entoar panegíricos à virtude severa e um pouco triste dos franciscanos da avenida Manoel Ribas, que palmilham as ruas com os pés descalços e esfolados, pedindo donativos para suas obras de caridade, e ao mesmo tempo, vituperar a mesquinharia e baixeza inerentes ao espírito de porco do povaréu incrédulo, que enxameia as vias urbanas com seus monstros resfolegantes, a sujar o céu e a asfixiar os infelizes transeuntes que não têm a sorte de contribuir com seu pequeno quinhão para a destruição da camada de ozônio e da paz de espírito dos homens bons - se é que ainda os há neste mundo atribulado. Em suma, flanar é não apenas caminhar sem rumo pela selva urbana, mas viver, e viver mais intensamente do que quem apenas caminha em direção a um objetivo específico. O verdadeiro flâneur não se confunde com os atarefados corredores do dia-a-dia que estão sempre com os olhos voltados para o relógio (time is money!) e não têm tempo nem paciência para contemplar aspectos da vida da cidade que somente quem tem olhos experientes e isentos de qualquer vestígio de pressa ou preocupação mundana, pode efetivamente reconhecer e admirar.
Eu pertenço ao time dos que não só amam mas sobretudo enxergam este pequeno pedaço da Terra em que nos coube, por sorte, viver. E praza a Deus que eu nunca perca o desejo (ou o talento?) de continuar a flanar, pelo menos enquanto estiver com as pernas em perfeito estado - sem embargo de nos últimos tempos, senti-las cada vez mais fatigadas e até um pouco doloridas - e puder levar meus olhos para cada vez mais distantes e aparentemente inacessíveis caminhos nesta que é uma das mais belas e também turbulentas metrópoles que hoje existem sobre a face deste mundo conturbado. Assim seja.

À Guisa de Apêndice


Tencionava esboçar neste texto um amplo e objetivo panorama histórico da arte do flâneur, mas admito, compungido, que sinto-me hoje preguiçoso demais para fazê-lo. Mas para não ficar com a consciência de todo sobrecarregada por conta de mais uma entre tantas outras culpas que já me assolam o espírito, opto por recomendar ao leitor curioso e que ainda não esteja perfeitamente familiarizado e sintonizado com a bela e sublime arte de flanar, a leitura atenta e minunciosa de um breve porém esclarecedor artigo de autoria de Fernanda Passos (sem trocadilhos), Mariana Gouvêa, Raphael Tosti e Rodrigo Polito, publicado na revista Eclética (edição semestral de julho/dezembro de 2003). É um excelente trabalho e vale a pena ser examinado com mais atenção do que é de hábito nestes tempos marcados pelo imediatismo interpretativo e pela superficialidade intelectual. Talvez que uma ou outra ideia ou hipótese não esteja lá muito bem colocada, pois a perfeição não é deste mundo. Não obstante, creio que cumpre a contento a tarefa a que se propôs: deslindar as origens históricas da figura do flâneur no imaginário contemporâneo. Basta acessar o link: “O Novo Flâneur”.
Boa leitura!

11 de setembro de 2014

Odisséia Noturna


Ontem à noite, tive que correr em busca de um hospital por causa de atrozes e excruciantes dores em minha vesícula biliar, provocadas por uma imensa pedra, que, de tempos em tempos, resolve me fazer lembrar de sua existência dentro de mim. 
Aliás, há meses, mesmo em momentos de intensa alegria, quando nada de estranho sinto em meu organismo ou em minha alma - e Deus sabe que estes momentos têm sido cada vez mais raros e fugazes - tenho a nítida e funesta impressão de estar a viver perpetuamente coberto pela sombra onipresente da Grande Dor - como os californianos vivem sob a sombra do "Big One", o grande terremoto que irá separar a Califórnia dos Estados Unidos - a última e a maior de todas, que pode surgir, de uma hora para outra, sorrateiramente, das profundezas recônditas de meu frágil e perecível corpo humano, para me levar consigo, inexoravelmente, para a eternidade do túmulo. 
O medo de sofrer novas dores tornou-se-me um hábito, a ferro e fogo entranhado em meu comportamento, como uma segunda pele, de natureza psicológica, que me envolve e limita meus movimentos, uma prisão espiritual, infinitamente mais sombria e terrível do que um milhão de Alcatrazes. Pois tudo o que tenho feito nos últimos tempos é ditado por ele. Alimentos, companhias, atividades, tudo é regido pela tirania da pedra que carrego comigo.
Há meses corrói-me uma sensação semelhante a que deve sentir um rato amedrontado por entre as patas de um gato prestes a devorá-lo, gato, este, que se diverte, imensamente, com o sofrimento de sua presa, antes de comê-la. 
Para quem não entende metáforas: a figura do gato representa a pedra na minha vesícula. O rato sou eu.
Mas o pior de tudo que sofri na noite passada ainda não foi a dor na minha vesícula, foi o profundo desleixo com que fui tratado pela saúde pública de São José dos Pinhais. 
Imagine o leitor que o primeiro hospital ao qual me dirigi (de táxi; valor da corrida: R$ 23,60), o Hospital São José, antigo Hospital Atillio Talamini, no centro da cidade, se recusou a me atender, mesmo com todo meu sofrimento, visível mesmo a olhos leigos em medicina, pelo fato de meu estado representar um quadro clínico, e o hospital só atender a quadros traumatológicos. (Mas espere um pouco: o Hospital São José não é uma instituição de saúde vinculada ao SUS e administrada pela prefeitura de São José dos Pinhais? Não é, portanto, um hospital público? A Lei faculta-lhe o direito de recusar pacientes? E se ele trata apenas casos de traumatologia, então porque a propaganda governamental o elogia como centro de referência em diversas outras especialidades médicas, não traumatológicas? Mistério típico do Brasil. Do Brasil real, não do Brasil de faz-de-conta das campanhas eleitorais.)
Tentei argumentar isto com o obeso e entediado burocrata de olhos glaciais responsável pelo atendimento aos pacientes que lá chegavam, mas foi em vão. Ele apenas me olhou com um ar de profundo desprezo, senão com um leve ar de sarcasmo, meramente perceptível por um quase sorriso, mal esboçado em seu lábio inferior, oculto por uma densa e maltratada barba grisalha, e disse-me que eu até poderia tentar o atendimento no local, mas acabaria, inevitavelmente, sendo encaminhado pela triagem, ou para a UPA Rui Barbosa, ou para a unidade 24 horas do Afonso Pena (pergunta que não quer calar: quando finalmente ficará pronta a nova UPA Afonso Pena?). Ou seja, de nada adiantaria minha espera por atendimento no Hospital São José.  
Contrariado com o acinte à minha cidadania e com as minhas dores aumentando exponencialmente, lá fui eu, com minha mulher, chamar mais um táxi para me levar a UPA Rui Barbosa, para onde decidi ir primeiro, antes de tentar o Afonso Pena. Chorando de dor, sentei-me sobre um banco de pedra fronteiro ao Hospital São José, e fiquei a observar uma escola de dança localizada no outro lado da rua, onde vislumbrei, através das janelas, alguns pares, cheios de volúpia, que rodopiavam intensamente. Não pude deixar de pensar comigo que se este mundo é, como diz o autor bíblico, um vale de lágrimas, é também um grande tablado, onde se desenvolvem danças de todos os gêneros e feitios, da cracoviana ao tango, e onde os que não podem dançar, choram. Em latim: quis non saltastis lamentavimus et ploravit.
Bem-aventurados os que dançam, porque eles terão os olhos enxutos. 
Veio o táxi e pusemo-nos a caminho da UPA Rui Barbosa. Lá chegando, senti o chão abrir-se sob os meus pés, assustei-me com o tamanho monstruoso da fila de pacientes aguardando por atendimento. Cheguei a ver um grupo de pessoas visivelmente enfurecidas (deviam estar aguardando há horas por atendimento médico), discutindo acrimoniosamente com o segurança da unidade, provavelmente cobrando providências para minorar a agonia em que se encontravam naquele momento (Pergunta: por que têm de ser sempre os seguranças das unidades de saúde os bodes expiatórios para as frustrações dos pacientes, com toda a razão revoltados contra o escárnio diário a que seus direitos são submetidos pelo poder público, se os verdadeiros culpados pelas agruras que sofrem estão a quilômetros de distância, encastelados em suas torres de marfim, em Brasília, e não dão a mínima atenção para o que eles passam, a não ser em época de corrida eleitoral? Os seguranças das unidades de saúde são, o mais das vezes, tão vítimas quanto os pacientes, do sistema fratricida que vivemos neste inóspito e retrógado rincão do globo terrestre, chamado Brasil).
Ainda a bordo do táxi, decidi tomar outro rumo e seguimos caminho em direção ao 24 horas do Afonso Pena que, felizmente, estava bem menos movimentado do que a UPA Rui Barbosa (valor da corrida: R$ 30,00).
Quando lá cheguei, minha dor estava no auge de sua intensidade, cascatas de lágrimas brotavam de meus olhos e em lugar de palavras, só conseguia responder com monossílabos e gritos guturais ao que as pessoas ao meu redor, com inclusão de minha mulher, me perguntavam. A enfermeira que fez minha triagem, bastante solícita e prestativa, priorizou meu atendimento, e eu fui logo me consultar com uma excelente médica, que me prescreveu os medicamentos adequados para tratar minha crise, por via venal. Não demorou muito e finalmente pude sentir o alívio que tanto procurei em meu périplo noturno pelos prontos-socorros de São José dos Pinhais. Mas ainda me encontrava extremamente agitado e logo que o soro com os medicamentos acabou, encaminhei-me, com o acesso pingando sangue, para o consultório da médica que havia me atendido, para pedir-lhe um calmante para minorar minha ansiedade. Assim que o tomei, adormeci imediatamente. E depois fui liberado para voltar para casa. Mais uma vez, de táxi. (valor da corrida: R$ 25,00).
Valor total das corridas de táxi: R$ 78,60 na bandeira 2 (soma verdadeiramente estratosférica para quem, como eu, encontra-se desempregado). Preço pago pelo recurso à saúde pública de São José dos Pinhais: minha dignidade.
Ainda faltam dois longos e dolorosos meses para poder operar minha vesícula.  



          

28 de junho de 2014

O Peso da História

O assassinato de Francisco Ferdinando

Há cem anos, um tiro foi disparado em Sarajevo. Um tiro fatal e histórico, o tiro que matou o príncipe herdeiro do trono austro-húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando, disparado, de modo certeiro e inexorável, pelo terrorista sérvio Gavrilo Princip, tiro, este, que provocou, por uma vertiginosa e verdadeiramente apocalíptica avalanche de absurdos diplomáticos, os mais disparatados e incongruentes, a eclosão da Primeira Guerra Mundial, e mudou, radicalmente, o rumo da história da humanidade, rumo que - fruto do otimismo intenso e ingênuo dos primeiros anos do século XX - até aquela data fatídica, acreditava-se que levaria a um futuro glorioso de paz e progresso ilimitados.
Pelo contrário – veja o leitor como pequenos gestos, aparentemente insignificantes e despropositados, podem, muitas vezes, desencadear grandes eventos históricos - por conta de um simples disparo de uma arma de fogo, efetuado por um ilustre desconhecido de um inóspito rincão do leste europeu, disparo que acendeu o estopim do grande barril de pólvora balcânico - ainda hoje aceso a intervalos mais ou menos regulares – a otimista e alegre sociedade dos albores do vigésimo século depois de Cristo - leia-se o primeiro capítulo da magistral autobiografia de Stefan Zweig - acabaria por sofrer as agruras e as excruciantes dores de quatro longos e tempestuosos anos cheios de lama e sangue nas trincheiras européias.
A Primeira Guerra Mundial findou em 1918. Mas ainda sentimos seus efeitos. Ela foi a precursora direta da Segunda Guerra Mundial. O tratado de Versalhes que a selou, prostrando a Alemanha aos pés de seus inimigos, acabou por gerar o nazismo e seu principal artífice, Hitler, que levaria o mundo a enfrentar a agonia de um novo morticínio, numa escala de maldade e brutalidade ainda maior do que a experimentada na Primeira Guerra ou em qualquer outro período da história humana.
O mundo caótico e violento de hoje é a infeliz e turbulenta herança da grande catástrofe de 1914. Inúmeros conflitos armados, extremamente sangrentos, atualmente espalhados pelo mundo, sobretudo nos rincões do oriente Médio que restaram após o esfacelamento do império otomano, tiveram sua semente plantada durante a Primeira Grande Guerra. O Estado Islâmico, com seus cortadores de cabeças e violentadores de mulheres, é um de seus mais monstruosos e indigestos frutos - senão o mais monstruoso e indigesto.  A geração de 1914 há muito já não caminha sobre a Terra, mas o peso da História que ela nos legou, ainda se faz sentir sobre os ombros da nossa geração. Dolorosamente.      

25 de junho de 2014

Apocalipse Zumbi



Acabo de descobrir que estou com uma imensa pedra na vesícula, aparente causa imediata e funesta das dores atrozes e terrificantes que venho sofrendo nos últimos tempos, dores que, inúmeras vezes, ao longo deste ano, me levaram ao hospital e me fizeram chorar lágrimas extremamente amargas. Péssima notícia, indubitavelmente. Mas receio que o exame a que me submeti para detectá-la tenha errado o órgão em que a pedra está alojada. Suspeito estar com ela no coração, ao invés de na vesícula, tamanho o peso que sinto carregar dentro do meu peito. Mas tal não parece ser o caso. Pelo menos, por enquanto.
Por enquanto, o que há no meu peito, é uma floresta morta, como no poema de Kilkerry. E que pesa muito mais do que uma simples pedra, mesmo que drummondiana. 
Mas neste mundo, tão imensamente hostil e desolado, há não apenas pessoas que carregam gigantescas pedras em seus corações - por conta disto, extremamente pesados e cheios de amargor - como há também aquelas cujo próprio coração, em si, já se encontra completamente petrificado, e sem o mínimo sinal de vida; pessoas que, embora caminhem sobre a terra, respirem profundamente, paguem seus impostos em dia, e despreocupadamente tomem seu desjejum pela manhã, estão mortas, irremediavelmente mortas, por dentro, com o único detalhe de que se esqueceram de se fazer sepultar. Não se deram, ainda, conta de que morreram. Simplesmente "não lhes caiu a ficha".
Posso apontar uma meia dúzia de cadáveres errantes, vistos in loco, nos mais variados lugares e ofícios, desempenhando as mais diversas funções, falando e gesticulando, até efusivamente, como se vivos estivessem.
Mas o "apocalipse zumbi" já começou. Há mortos-vivos entre nós. Não é mais necessário assistir aos seriados norte-americanos para vê-los. Basta manter os olhos abertos para observá-los, pois estão em todos os lugares: nas filas dos caixas, nos bancos das praças, nas reuniões de condomínio, nas repartições públicas (principalmente nas repartições públicas), nos cultos dominicais, etc. Um deles pode até estar ao seu lado neste momento, e devorá-lo, sem você nem perceber.
À diferença dos seriados e filmes hollywoodianos e congêneres, os zumbis a que me refiro não têm os corpos putrefatos e desmembrados, apenas a alma. Não deixam, atrás de si, um rastro fétido de sangue e destruição, mas um ambiente carregado de profunda tristeza e solidão, como o que emana das telas magistrais de Edward Hopper - o que é ainda pior do que ser devorado por um zumbi cinematográfico.  
Tenhamos medo. Muito medo.   

17 de junho de 2014

Durante o Intervalo


Antes do reinício da pífia partida entre Brasil e México, e a tempo de que o leitor possa tranquilamente encaminhar-se à cozinha para refrescar-se com um copioso gole de água, ou uma boa cerveja gelada (isto nos tórridos rincões do norte; no sul, o melhor é recorrer a um bom "quentão" com gemada, para aguentar o frio), permita-me fazer-lhe apenas uma breve e algo irreverente pergunta: será que não há nada mais relevante acontecendo no mundo - e principalmente no Brasil - do que a Copa do Mundo? Nenhuma guerra fratricida, nenhuma grande catástrofe ecológica, nenhuma grave crise econômica, nenhum hediondo esquema criminoso? Se há, a mídia não tem mostrado. E como só existe o que ela diz que existe, não passando de pura ficção o que ela se recusa a reconhecer como real, e a julgar pela espalhafatosa, multicolorida, e, seja-me permitido dizê-lo, um tanto boçal alegria dos milhares de sorridentes e barulhentos torcedores que vemos, em todos os jogos deste mundial, a gritar, em uníssono, diante das câmeras, o glorioso nome de nosso amado (e ingrato) país, demonstrando, algo histericamente, seu intenso orgulho patriótico, então finalmente a grande utopia brasileira se materializou, todos os graves problemas nacionais subitamente desapareceram, como num passe de mágica, e estamos a viver no melhor dos mundos. 
Pelo menos até o mundial acabar e o grande circo eleitoral começar.

3 de abril de 2014

Contra a Sinceridade

Dedicado especialmente a B., G., N. e T. M., as quatro amazonas do apocalipse, involuntárias musas inspiradoras deste texto.


Palavras são armas. Armas infinitamente mais poderosas e letais do que as utilizadas no conflito em curso na Síria. Armas de fogo podem ferir, e até mesmo destruir, por completo, e irremediavelmente, o corpo de quem estiver na linha de tiro, mas palavras podem matar uma alma. Quantos rocambolescos e quixotescos e ainda assim, caros  e generosos sonhos já não foram completamente destruídos e soterrados por uma palavra cruel ou simplesmente inoportuna, dita num momento crucial, definidor de toda uma trajetória de vida? Quantos pobres e ardorosos corações já não foram irremediavelmente partidos e aniquilados por conta de uma palavra ferina e amarga, pronunciada sob o soturno influxo da dor e da mágoa? Quantas crianças já não tiveram o sublime e imponente castelo de cartas de sua idílica e multicolorida infância, brutalmente desmantelado pelo gélido e espectral sopro de uma palavra atroz e devastadora?
Porque as palavras possuem um poder imenso, absolutamente avassalador, cuja grandeza e magnitude são incomensuráveis, difíceis de imaginar, até mesmo para o artista mais prolífico e criativo. Elas são capazes tanto de construir impérios quanto de reduzi-los a escombros, podem tanto encher um coração de esperanças quanto precipitá-lo inexoravelmente no mais profundo e absoluto abismo do desespero, podem tanto propagar a verdade quanto disseminar a mentira, e, porque elas são também amorais, podem perfeitamente servir a mais do que a dois senhores ao mesmo tempo, ser tanto portadoras da paz quanto propagadoras do ódio e da tirania. 
Penso que as pessoas deveriam procurar tomar o máximo cuidado com as palavras que pronunciam ou escrevem ao longo de suas breves e frágeis vidas, não apenas por uma questão estética, como soem fazer os escritores, mas sobretudo por uma questão da mais alta relevância moral, como soem fazer os pregadores e os teólogos. Nossas línguas são metralhadoras e as palavras que delas brotam são a munição com a qual alvejamos aqueles que nos cercam. Talvez seja por isso que o mundo moderno tenda a se tornar cada vez mais violento e caótico, porque esquecemos do poder altamente devastador das palavras, e quiçá, também por isso, nos dias que correm, torna-se uma tarefa cada vez mais difícil e hercúlea sustentar um diálogo minimamente equilibrado e civilizado com nossos oponentes, sem precipitações e com ao menos uma pequena dose de bom senso.
Há pessoas que confundem sinceridade com incivilidade. Pessoas que, sob o lindo, maravilhoso, encantador, idílico e celestial pretexto de cultivar as heroicas e sumamente nobres virtudes da sinceridade e da firmeza de caráter, não hesitam em expressar claramente - e sem "papas na língua", como diz a velha figura de linguagem, muito em voga nos meios midiáticos e culturais oficiais - tudo o que verdadeiramente lhes passa pelo cérebro febril e ébrio, sem antes submeter suas ideias e opiniões ao filtro depurador do bom senso e também, em última instância, da boa educação. São pessoas que, mesmo sem você pedir, não se furtam a expressar, em alto e bom som, e para todos os infelizes basbaques ao seu redor, sem atentar, sequer por um segundo, para as mais básicas e elementares leis da etiqueta, suas opiniões - reveladas como verdades absolutas e inquestionáveis - sobre tudo e todos, desde a aurora boreal até o gol-contra marcado no jogo do fim-de-semana, passando pelo figurino estrambótico de Lady Gaga, a renúncia de Bento XVI, as brigas no Big Brother e a tetraplegia do leão Ariel. E também não medem palavras na hora de tecer comentários sobre sua aparência ou seu comportamento, mesmo que você não tenha sequer cogitado a mais remota possibilidade  de solicitar tais comentários.
Conheço pelo menos quatro pessoas dessa estirpe - por sinal, as musas inspiradoras deste artigo - (na verdade, bem mais do que quatro, mas não vou falar sobre elas, agora, por falta de tempo e economia de espaço) que têm o péssimo, nefando, execrável hábito, de dizer àqueles com quem convivem, mesmo sem para tanto terem sido solicitadas, tudo que pensam e sentem, sem medirem, sequer por uma fração de segundo, as consequências nefastas de seu descalabro retórico, dizendo sempre o quão cheias de defeitos e ruins os outros - sempre os outros - são, não deixando de evidenciar, por tabela, e sob uma máscara de falsa modéstia, sua própria perfeição, e isso com a professa intenção de ajudá-los a se aperfeiçoarem por sua vez. Mas elas próprias não conseguem enxergar suas próprias deficiências, e se alguém comete a temeridade de apontá-los, torna-se, ex abrupto, o infeliz alvo preferencial de seus petardos verbais. Chamam sinceridade ao que é apenas a mais pura e simples grosseria. 
Nada há que me irrite e desgoste mais profundamente do que a verborréia insípida e autossuficiente dos que se julgam os monopolistas da verdade. Aos ouví-los discorrer, de alto de sua ilusória onisciência, com tamanha soberba e tão prolixamente, sobre tudo que há entre o céu e a terra, no fundo dos mares, e nas alcovas ministeriais, tenho, juro-o com o coração nas mãos, a infernal e quase irreprimível tentação de lançar sobre eles a maldição que Latona lançou contra os camponeses da Lícia que lhe negaram água para saciar sua sede e a de seus filhos, pois das rãs eles já tem o coaxar incompreensível, só lhes falta o corpo de anfíbios.
Reconheço que a sinceridade, em si mesma, como valor e ideal, é, de fato, uma virtude. Mas a urbanidade também o é.
Como diz  Machado de Assis:
"Tudo pede certa elevação. Conheci dous velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: 'Caro major!' -'Pronto, comendador!' — Variavam às vezes: — 'Caro comendador!' -'Aí vou, Major' . Tudo pede certa elevação".
Sim, tudo pede certa elevação. Na verdade, a elevação que Machado julga tão necessária nas relações humanas, parece cada vez mais ausente da vida em sociedade. A começar pelos pequenos, simples gestos de incivilidade explícita praticados no conturbado cotidiano de nossas atribuladas metrópoles: uma fila no supermercado em que um cidadão mais afoito rouba nosso lugar sob a desculpa do atraso para voltar ao trabalho ou pegar o filho na escola; o jovem fisicamente perfeito que ocupa o assento preferencial no ônibus e finge dormir enquanto uma gestante ou idosa fica em pé ao seu lado, sendo jogada de um lado para outro da grande lata de sardinha sobre rodas (pois o que são nossos ônibus urbanos senão isto?), enquanto o motorista da dita lata, que mais parece ser um condutor de um vagão de gado, reflexo direto da bovinização acelerada de nossa sociedade, já em curso, infringe todas as leis da boa educação para com seus passageiros e às vezes até as de trânsito, impunemente; o policial que abusa dos direitos que lhe confere a farda e passa a agir exatamente como aqueles a quem ele deveria, em tese, combater, ultrajando, de forma truculenta e irresponsável, a cidadania de pessoas de bem, enquanto os verdadeiros criminosos continuam soltos, muitos deles lotados nos gabinetes de seus superiores hierárquicos; o jornalista que humilha garis em rede nacional; todos são  exemplos claros e inequívocos do estado anêmico, periclitante, moribundo, terminal, em que se encontra a civilidade, o único escudo capaz de nos proteger de nosso monstro interior.
A profissão da sinceridade não pode ser pretexto para a falta de educação.
Falando agora em causa própria, quero alertar aos que porventura estiverem a ler este singelo texto, que dispenso e quero que fique longe de mim a dita sinceridade daqueles que estufam o peito, empinam o nariz e enchem a boca para dizer a quem estiver por perto, o quão honestos e íntegros são (logo chamando a todos que não comungam de seus preconceitos e achismos, de desonestos e prostituídos), pois estas mesmas sinceridade e integridade muitas vezes não passam de máscaras, artifícios usados para encobrir a mais absoluta falta de civilidade (e também inocuidade mental) da parte de seus cultores. Exemplo clássico do que afirmo é um certo comentarista esportivo que adora falar o que pensa e faz dos ouvidos de sua audiência a cuba sem fundo de suas sandices conspiratórias.
Não quero que me digam o que pensam ao meu respeito sem que eu o solicite. Não quero que me falem do sol e da lua se eu nada quiser ouvir do sol e da lua. Já tenho plena e absoluta consciência de minha calvície crescente e minha adiposidade já bastante pronunciada, não preciso que me lancem ao rosto o quão calvo e gordo estou, como o faz uma certa pessoa, sempre que me vê.
Entendamo-nos: logicamente não estou a fazer aqui uma espécie de apologia da hipocrisia, como pode parecer a um leitor mais superficial e apressado (como é a maioria dos comentaristas atuantes na blogosfera brasileira). Pelo contrário. reputo a hipocrisia como o mais hediondo e nefasto dos vícios humanos. A honestidade é vital. Faço apenas uma singela defesa do decoro por parte daqueles que dizem professá-la, pois "a honestidade, sem as regras do decoro, transforma-se em grosseria" (Confúcio). 
Verdade seja dita, o Marquês de Maricá estava coberto de razão, quando afirmou:
"Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade".

Vã e triste criatura é o homem! Ama a verdade mas não pode viver sem a mentira. Melhor seria que nunca tivesse sido criado. Mas já que o foi, o melhor que tem a fazer é viver com uma máscara pregada ao rosto. Do contrário, resta-lhe fazer como Espurina, em Montaigne: rasgar a própria face.
  

2 de fevereiro de 2014

Phillip Seymour Hoffman (1967-2014)


Sinto como se um véu de profunda tristeza e devastador desespero tivesse subitamente descido sobre o mundo, agora que leio, consternado, e ainda incrédulo, a estarrecedora notícia do súbito e estúpido falecimento do magnífico e inigualável ator Phillip Seymour Hoffman, ganhador do Oscar de 2005, por sua brilhante e verdadeiramente inesquecível atuação no filme "Capote", de Bennett Miller, atuação superada, apenas, em minha modesta opinião, pelo seu magistral e emocionante desempenho no belíssimo "Com Amor, Liza" (2002), de Todd Louiso. 
Informações preliminares dão conta de que seu corpo foi encontrado na banheira do apartamento em que morava, em Greenwich Village, Nova York. Afirmam fontes anônimas que com uma agulha espetada no braço. Segundo um famoso tablóide norte-americano, a causa da morte teria sido overdose, possivelmente de heroína. O ator, certa vez, reconheceu, publicamente, enfrentar problemas com substâncias ilícitas, e teria sido internado em maio passado em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. 
A ser verdade, Hoffman seria então a mais nova vítima de talento a ter sua vida prematuramente ceifada pelas "fleurs du mal", mais uma entre tantas outras que nos deixaram tão precocemente e de forma tão abrupta e inexplicável, como Elis Regina, Jimi Hendrix, Jim Morrison, River Phoenix, Heath Ledger, Amy Winehouse, e tantos, tantos outros... A contagem seria longa e pesarosa, efetuá-la seria o mesmo que contar os corpos espalhados sobre um campo de batalha, encharcado de sangue, após o fim de um combate, atividade que, além de inútil - pois que é a guerra, senão o mais inútil dos fenômenos humanos? - é propícia somente aos que têm estômagos fortes. Não é o meu caso, já que sofro de dispepsia.
Por ora, limitemo-nos a lamentar esta perda irreparável, e ponhamo-nos a rever suas representações primorosas para aplacar um pouco a dor. É o que vou fazer. Trago o "Capote" comigo.        
     

19 de janeiro de 2014

A Escolha Certa

Brasão de Armas Maior do Reino da Suécia

Hoje acordei com uma grande vontade de virar sueco.
Isto porque li, ontem, a grata notícia de que Estocolmo, a bela e nobre capital da Suécia, por decisão praticamente unânime dos partidos políticos suecos, com o apoio, inclusive, do próprio primeiro-ministro do país, o senhor Fredrik Reinfeldt, optou por desistir de tentar sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, por considerar demasiado altos os custos com os quais teria de arcar caso a cidade fosse escolhida para organizá-los. Em comunicado à imprensa, o prefeito de Estocolmo, Sten Nordin, afirmou que não poderia recomendar à Assembléia Municipal que desse prioridade ao projeto de sediar os jogos, porque - note bem o leitor o que estou a ponto de escrever - em suas próprias palavras: "precisamos priorizar outras necessidades, como a construção de mais moradias na cidade."
Belíssimo exemplo para nossas autoridades locais, não?
Referem folhas suecas que três fatores foram de crucial importância para a tomada da decisão de cancelar a candidatura de Estocolmo junto ao Comitê Olímpico Internacional. 
O primeiro: de acordo com os políticos suecos (morram de inveja os desvalidos cidadãos brasileiros!), a cidade tem prioridades infinitamente mais importantes e urgentes do que meramente servir de cenário a um evento que, apesar de sua magnitude, é tão efêmero e fugaz, que simplesmente não vale a pena investir nele a quantia necessária para sua realização. Os benefícios não compensam os custos.
O segundo: "a conta dos gastos para realizar o evento na cidade seria alta demais" - mesmo para os bolsos suecos, mais cheios e profundos do que os nossos. 
O terceiro (e para este ponto peço um pouco mais da atenção do leitor): "um eventual prejuízo com a organização dos Jogos teria que ser coberto com o dinheiro dos contribuintes". 
Eis o ponto nevrálgico da questão: o dinheiro dos contribuintes. Eis que, finalmente, o milagre supremo, pelo qual todos tão ansiosamente esperávamos, aconteceu: não somente um exemplar deste estranho e misterioso ser, a que se dá o nome de "homo políticus", mas toda uma classe de membros dessa enigmática espécie, genuinamente preocupada com o bom uso do dinheiro dos contribuintes!
De imediato, mal pude acreditar no que lia. Pus-me a esfregar os olhos uma, duas, três vezes para ver se não seria algum defeito da minha visão que me levasse a ler no jornal o que de fato não estava ali escrito. Mas estava. Não foi uma ilusão, tampouco um defeito de visão, a coisa era real, tão real quanto a cadeira em que estou agora sentado, tão real como são reais os boletos de janeiro que agora estão a assoberbar minha escrivaninha.  
Dei um salto da cadeira e comecei a pular pela casa, de pura alegria. Entoei em alta voz, um Te Deum laudamos, em homenagem ao maravilhoso acontecimento, mas um súbito pensamento veio pôr água na fervura, o pensamento de que minha alegria talvez não se justificasse plenamente, porque não se tratava de políticos brasileiros e, sim, suecos, e eu não moro na Suécia.   
Fiquei consternado com esta constatação, pois cumpre saber que, antes de me dar conta desta triste realidade, por algum misterioso e incompreensível dessaranjo no maquinismo vagaroso e truncado de meu cérebro, de ordinário tão inerte e confuso como as votações no Congresso Nacional, inadvertidamente troquei os termos da matéria: onde estava escrito "Estocolmo", li "Rio de Janeiro"  e onde havia os dizeres "Jogos Olímpicos de Inverno", meus olhos simplesmente não apreenderam a última palavra, lendo apenas "Jogos Olímpicos".
A nós, brasileiros, resta-nos apenas morrer na fila dos hospitais públicos enquanto o jogo rola nas arenas durante a Copa e os atletas olímpicos disputam suas medalhas de ouro na Cidade "Maravilhosa".
Ah! Por que não nasci sueco?
          

14 de janeiro de 2012

Homens e Mitos

"A Balsa da Medusa" (1819) - Théodore Guéricault (1791-1824) 
A propósito da profunda e dolorosa comoção nacional que ora assola as plagas italianas por conta do aterrador desastre ocorrido com o navio transatlântico "Costa Concórdia", naufragado após colidir com rochas na ilha de Giglio, na paradisíaca Toscana, a constatação maior a ser feita é de que o referido naufrágio é verdadeiramente notável, não apenas por suas proporções e pelo número de vítimas fatais que ocasionou, mas, sobretudo, pelo contraste gritante e infinitamente absurdo, que as circunstâncias e os fatos relativos a este fatídico evento acabaram por instaurar entre o que poderíamos classificar como duas visões de mundo diametralmente opostas e dois modos de ser e de agir frente às adversidades da vida, inteiramente distintos entre si. Graças ao modo extremamente tendencioso e maniqueísta com que a mídia italiana e internacional têm tratado aqueles que por ela foram definidos como sendo os personagens principais dessa trama, o que parece haver ocorrido, naquele momento supremo, em solo toscano, teria sido uma batalha épica de titãs entre o supremo bem e o supremo mal, cada lado nitidamente representado por uma figura que, embora de carne e osso, parece haver saído das turbulentas e vertiginosas páginas de um romance náutico do século XVIII.
Do lado das hostes animalescas e horroríficas do Mal, temos aquele, que muitos, mesmo os que não têm o menor conhecimento da arte de comandar navios, adjetivam como "o incompetente capitão" do "Costa Concórdia", Francesco Schettino, e do lado das falanges puras e translúcidas do Bem, o oficial da Guarda Costeira italiana, o comandante Gregorio De Falco, o célebre autor do novo lema nacional italiano: "Vada a bordo, cazzo".
A dicotomia estrita, quase cartesiana, que a mídia, e, por causa dela, o povo da clássica, heróica, longeva e sempre espalhafatosa Itália, criou entre um homem do mar que, na hora derradeira da embarcação que comandava, optou, qual encarnação mal-acabada de Lord Jim, por abdicar de seu dever sagrado como capitão para guiar-se pelo primordial e irrevogável instinto de sobrevivência, que de comum todos temos, que o levou a salvar primeiro sua própria pele, em detrimento de seus comandados e dos passageiros do transatlântico a afundar, e outro homem do mar, que, apenas por cumprir estritamente suas obrigações profissionais, acabou por ser alçado aos píncaros da glória nacional (triste sintoma de uma época degenerada, heroicizar um homem apenas por ele cumprir o papel que lhe cabe, sinal de que, até nos mínimos afazeres do cotidiano, a ordem natural das coisas há muito deixou de ser a norma para tornar-se a exceção), além de falsa, é também o fruto peco e indigesto de uma irresponsabilidade midiática de proporções hercúleas.
Com todo o respeito devido às vítimas do naufrágio e aos seus familiares, vilanizar Schettino por preferir salvar sua vida ao invés de sacrificá-la por um quimérico e altissonante ideal de marinha e glorificar De Falco por, no calor e no aconchego de sua cabine, ordenar-lhe pô-la novamente em risco através do reembarque em um navio em processo de afundamento, parece-me, no mínimo, precipitado e algo desonesto. Ocorre-me perguntar o que verdadeiramente faria De Falco, caso estivesse ele, naquele momento soturno, na mesma posição de Schettino. No caso do malfadado capitão, eis o dilema que se lhe apresentou: preservar a vida ou a honra do ofício. Ele escolheu a primeira altrnativa. Escolha vergonhosa, sem dúvida, mas quantos de nós não teríamos feito exatamente a mesma opção? Lembremo-nos da passagem da adúltera apedrejada no Novo Testamento: "quem nunca pecou..." Quem poderá condenar Schettino por escolher viver?
Porém longe está de ser a intenção principal deste breve e despretensioso artigo, erigir-se em documento de defesa de quem quer que seja. Não vou tomar qualquer partido, seja dos detratores de Schettino, seja dos apologistas de De Falco, mesmo porque não possuo sequer um décimo das credenciais técnicas e científicas necessárias para julgar este caso com um mínimo de objetividade e isenção, e nem é minha função fazê-lo. Quero apenas chamar a atenção do leitor para o elevado e aparentemente irreversível grau de extrema degeneração a que chegou o processo cada vez mais acelerado e espetaculoso de "novelização da realidade" pelo qual o jornalismo mundial vem passando nestes primeiros anos do século XXI.
De fato, a julgar pelo alto pendor para a dramatização ao estilo mexicano com que a mídia internacional e especialmente a que vigora aqui, em plagas tupiniquins, tem tratado não só o naufrágio do "Costa Concordia", mas também outros eventos de grande impacto emocional junto às massas, parece-me ter sido o jornalismo, outrora centrado nos fatos e na objetividade das reportagens, inapelavelmente substituido por um jornalismo de fundo de quintal, altamente propenso a promover uma espécie de ficcionalização da vida real, como que para competir, em pé de igualdade, com a dramaturgia televisiva e os reality-shows.    
Dia haverá em que assistiremos aos telejornais como assistimos a uma telenovela, e, nesse dia, tudo em torno de nós não passará de um gigantesco e sombrio circo de horrores.               

23 de julho de 2011

Amy Winehouse (1984-2011)



Se há algo de que ninguém, em sã consciência, pode acusar a morte, é de parcialidade ou esnobismo. A morte é, indubitavelmente, o mais democrático e igualitário dos fenômenos naturais. Diante dela, todos se equivalem, todas as sutis e complexas distinções humanas, que tanto complicam e tornam atribulado e, por vezes, infernal, o pobre e pequeno mundo em que vivemos, se desvanecem, tornam-se completamente inúteis, desprovidos de qualquer sentido. Diante dela, todos prostram-se de joelhos, e clamam, em vão, por mais alguns segundos de vida. Não importa se reis, papas, imperadores, generais, presidentes, primeiros-ministros, personalidades de mídia (seja o que for que isto signifique), celebridades instantâneas e outras não tão instantâneas, comendadores, diplomatas, desembargadores, petistas ou tucanos, republicanos ou democratas, flamenguistas ou vascaínos, carnívoros ou vegetarianos, a morte nada vê diante de si, a não ser a alma a ser ceifada. Ela não tem absolutamente nenhum preconceito de qualquer espécie, ela não segue nenhum critério fixo na hora de exercer seu ofício imemorial, não há uma ordem específica para ela seguir em seu trabalho, ela não liga a mínima para coisas tão vãs e fúteis, como idade, sexo, nacionalidade, raça, classe social, e coisas que tais. Todas essas superficialidades mundanas, que tanta aporrinhação e fadiga trazem à melancólica e desvalida raça humana, para ela, a "indesejada das gentes", nada significam. Penso que muito poderíamos aprender com ela no tocante à velha e tempestuosa questão da igualdade. Paradoxalmente, se pensássemos mais sobre a morte, talvez aprendêssemos mais sobre a vida.
Mas há diversos momentos em que verdadeiramente gostaríamos que ela fosse menos democrática e um pouco mais seletiva em seu ofício, que adotasse critérios mais rígidos e claros para o desempenho de sua função, que fosse, enfim, um pouco mais aristocrática e um pouco menos vulgar.
Se me for relevada a ousadia de lhe fazer sugestões, eu opinaria que uma boa regra de conduta a ser tomada pela morte, de agora em diante, seria a de não mais levar consigo crianças. Outro grupo de pessoas que ela deveria se abster de ceifar, seria o das mães, que, de fato, deveriam ser imortalizadas por meio de um decreto divino, a ser publicado no Diário Oficial do Céu, com todos os artigos e parágrafos a que o dito decreto teria direito, sem o esquecimento de uma vírgula. Seria o treze de maio das mães: "Artigo Primeiro: Fica abolida a morte das mães. Artigo Segundo: Revogam-se todas as disposições em contrário".
Ainda um terceiro grupo a ser privado do contato com a morte seria o dos artistas, seres especiais, quase divinos, que tornam este remoto e desolado vale de lágrimas, senão um lugar menos lacrimejante, um recanto mais confortável para viver, porque mais compreensível. Pois este é o real papel da Arte neste mundo: dar um sentido à vida, um sentido que ela não tem em si mesma. E nada há mais trágico sobre a face da Terra do que a perda abrupta e irreversível de um grande talento artístico, ainda em formação, subitamente cortado pela raiz antes de amadurecer por completo, tal como uma flor, ainda por desabrochar, repentinamente arrancada do solo pela mão inábil de um jardineiro principiante.
Claro está que me refiro, aqui, à súbita, mas não, de todo, surpreendente notícia da morte da talentosa, porém estrambótica e polêmica Amy Winehouse, a quem muitos veneravam por sua voz magnífica e outros repudiavam por seu comportamento assaz espalhafatoso e autodestrutivo. Muito já foi dito e redito a respeito deste evento fatídico, indubitavelmente catastrófico para seus fãs e os que verdadeiramente a amavam, mas, com certeza, infinitamente lucrativo para sua gravadora e os demais envolvidos com a comercialização de sua imagem - pois é uma verdade, já universalmente estabelecida, que nada é mais vantajoso para um artista, do ponto de vista financeiro do termo, do que a morte ainda nos píncaros da fama. (Vide o caso de Michael Jackson.) O único problema é que não é o artista que obtém os lucros advindos de seu passamento, esta cláusula não está prevista em qualquer contrato.
Nada mais poderia fazer aqui a não ser repetir, com outras palavras, tudo que vi, li e ouvi sobre a infeliz Amy, ao longo do dia, desde seu envolvimento com o obscuro e tétrico mundo das drogas (mal que já se abateu sobre outras figuras célebres tão ou até mais talentosas do que ela), até sua entrada no tão famoso quanto sinistro "Clube dos 27" , o que muito me fez lembrar da histeria coletiva reinante quando da chamada "maldição de Tutâncamon", que nada mais era do que uma série de coincidências notáveis envolvendo a morte de membros da equipe arqueológica responsável pela exumação do lendário faraó-menino. Coincidências notáveis eu disse, mas ainda coincidências. Assim como a idade em que morreram os integrantes do tal "Clube dos 27". 
Há pessoas que gostam e até se orgulham de enxergar conexões ocultas em tudo, até entre coisas as mais díspares e inconciliáveis, que vêem, numa série de simples coincidências fortuitas, os claros e inequívocos sinais de um diabólico plano de dominação mundial, proclamando-se visionários homens de sabedoria a quem o resto da humanidade deveria adotar como sumos guias rumo ao mundo do porvir, e que, para todos os males que afligem a humanidade, têm a solução miraculosa e infalível, basta o trouxa, digo, o fiel seguidor, depositar alguns gordos maços de cédulas, novas em folha, em suas sacrossantas algibeiras proféticas, para tomar conhecimento dela. A atual balbúrdia em relação ao hipotético apocalipse de 2012, motivada por uma errônea e superficial interpretação do calendário maia, é o mais novo e fértil campo de atuação de tais "gurus". 
Há também os que estão sempre prontos a apontar, com o dedo em riste, sem pejo, os reais e únicos responsáveis pelas atuais mazelas do mundo, vociferando, como cães danados, contra todos os que se atrevem a contestá-los com um pouco mais de clareza. Ora é a maçonaria, ora são os Illuminati, ora são os templários, ora é o projeto eurasiano, ora são os reptilianos de Nebiru, isto, quando não são todos eles juntos, agrupados sob a vaga e solene denominação "Nova Ordem Mundial" ou "Governo Oculto do Mundo".
Mas voltemos à realidade. Era sobre Amy Winehouse que falávamos. 
O que mais podemos falar sobre ela que já não tenha sido dito, à exaustão, em outras paragens? Que ela foi a infeliz e atormentada protagonista da história trágica de um talento genuíno, inigualável, desperdiçado por um vício monstruoso, que, por fim, acabou por jogá-la no abismo? Um enredo simples, sem grande originalidade, com um desfecho vulgar, vulgaríssimo. 
E esta é a maior acusação que podemos fazer contra a morte, talvez a única: ela é vulgar. 
                
                     
            

21 de julho de 2011

A Última Viagem

Insígnia da missão "Apollo 11", desenhada por Michael Collins

Hoje o ônibus espacial Atlantis encerrou oficialmente sua longa e brilhante trajetória astronáutica. Sua aposentadoria marca o fim, algo melancólico, é verdade, e, no meu ponto de vista, deveras frustrante, de uma era gloriosa e epopéica, a era dos ônibus espaciais, fruto quase utópico e verdadeiramente idílico de um belo e majestoso sonho que desde os primórdios da história, habita os mais íntimos e profundos recantos do coração humano: a libertação, ou, falando de um modo, digamos, mais metafísico ou teológico do que de ordinário nestas páginas tão ínfimas e prosaicas, a transcendência, do que alguns constantemente denominam nossa "prisão terrestre", a conquista plena e definitiva da última fronteira que ainda resta ao homem explorar: a vastidão incomensurável, indescritível e vertiginosa do cosmos.
É também um sinal claro e inequívoco do acentuado e, cada vez mais, acelerado, talvez irreversível, grau de declínio, não apenas econômico, mas sobretudo espiritual, e também civilizacional, em que se encontram hoje os Estados Unidos.
Símbolo histórico gritante e inquestionável da grave patologia de nebulosas origens que agora corrói e enfraquece o organismo norte-americano é, também, a nefasta decisão do presidente Obama, de entregar aos russos a condução dos astronautas dos Estados Unidos rumo à Estação Espacial Internacional.
É, no mínimo, irônico: o programa espacial norte-americano começou como uma resposta, que se pretendia espetacular e irrefutável, ao programa espacial soviético, que desferiu um grande golpe contra a vaidade yankee, ao alçar Yuri Gagarin ao espaço antes que o Tio Sam conseguisse fazê-lo com um de seus próprios astronautas. Façanha espetacular, sem dúvida, apenas suplantada, heroicamente, pela mítica marca do pé de Neil Armstrong na superfície lunar. Eram anos loucos e perigosos, anos de um delicado, ambíguo e potencialmente explosivo relacionamento geopolítico entre as duas maiores potências mundiais à época, e a corrida espacial entre os dois grandes "impérios" era uma peça extremamente importante do jogo de xadrez internacional da Guerra Fria, por ser, sobretudo, uma grave questão de genuíno "orgulho nacional" para ambos os lados.
Daí ser uma espécie de "tapa com luva de pelica" - para ficarmos numa metáfora leve - no orgulho nacional norte-americano, a supramencionada decisão obâmica, tomada por conta da grave crise financeira que ora assola os Estados Unidos. Grosso modo - agora uma metáfora um pouco mais pesada e violenta - é como se a Rússia, herdeira direta da finada União Soviética, tivesse obtido, no "tapetão", a vitória que não obteve no período regulamentar de jogo. Trapaça pura e simples. E o mais curioso é que o grande trapaceiro da história sequer é russo (alguns dizem que não é nem mesmo americano).
Mas deixemos o campo minado da política internacional. Abordemos agora o aspecto humano, puramente humano, das viagens espaciais, o último que nos faltou comentar, e o mais importante de todos. Por "aspecto humano", naturalmente que me refiro aos astronautas, essa classe heróica de homens e mulheres de uma coragem ímpar, que têm o privilégio, simplesmente inefável, de fazer o que os outros sete bilhões de habitantes deste planeta jamais puderam ou poderão fazer no curso de uma vida inteira. Que prodígios alguns macacos nus - como um velho misantropo uma vez nos chamou a nós, pobres criaturas humanas - foram capazes de realizar, a que alturas estonteantes conseguiram alçar-se! Ás vezes ponho-me a pensar no quão mesquinhas e insignificantes podem parecer as coisas terrenas para quem já esteve em contato direto, como que face-a-face, com a imensidão cósmica, e pôde ter a constatação real, não apenas metafórica, da pequenez extrema de nosso planeta, quando comparado com a infinitude do espaço. Pudera! Como se sentiria alguém que tivesse sido subitamente transportado ao paraíso e conseguido contemplar, por uma mera fração de segundo, o rosto de Deus, para depois ser novamente precipitado para a mesquinhez terrestre? 
Um entusiasta da astronáutica poderia objetar o uso de metáforas religiosas em referência a um tema de caráter tão estritamente científico e tecnológico como as viagens espaciais. Mas não sou o primeiro a lançar mão de paralelismos entre o misticismo e a exploração do cosmos. Michael Collins, o terceiro tripulante da lendária missão Apollo 11 - os outros dois tripulantes eram Edwin "Buzz" Aldrin e Neil Armstrong, o primeiro ser humano a caminhar sobre a superfície lunar - o único dos três a não descer do módulo espacial, homem de uma inteligência imensa e cujo compromisso com a ciência é incontestável, também o fez, ao dar à sua magistral autobiografia, o título de "Carrying the Fire", "Transportando o Fogo" (título da tradução brasileira: "O Fogo Sagrado"), numa feliz alusão ao carro em que o deus Apolo - qualquer semelhança com o nome da clássica missão espacial não é mera coincidência - transportava o sol na mitologia grega. Também o prefácio do referido livro, escrito por Charles Lindbergh, o célebre aviador, traz ecos de uma visão mística da exploração espacial. Nele, Lindbergh , o primeiro piloto a sobrevoar o Atlântico sem escalas - na época, uma façanha quase tão incrível e gloriosa quanto a própria chegada do homem à lua - relata a experiência transcendental de comunhão com o universo que experimentou a bordo do "The Spirit of Saint Louis", enquanto realizava seu histórico voo. 
Verdade seja dita: viajar pelo universo é muito bom. Quisera eu ter um dia tal privilégio! Infelizmente, só astronautas treinados e bilionários russos podem tê-lo. Como não sou nem uma nem outra coisa, terei de me conformar em continuar prisioneiro do solo terrestre. Mas o nosso planeta, embora pequeno e turbulento, além de hostil e violento,  caótico e atribulado,  ainda é belo. E jovem. É o nosso lar comum. É dele que devemos cuidar. É para ele que os astronautas voltam, depois de peregrinar pelo cosmos, como velhos soldados, cansados de guerra. É nele que repousam nossos antepassados. É sua atmosfera que abriga nossos mais caros sonhos e ideais. É nele que transcorre nossa história. É ele o palco do drama perene de nossa existência humana, demasiado humana. É nele, enfim, que repousaremos quando chegar nosso derradeiro momento, como agora descansará o Atlantis. Em paz. Pelo menos até algum arqueólogo intrometido escavar nossos ossos e expô-los num museu de preciosidades históricas  - milhares de  anos depois do fim de nossa civilização.