segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Último Grande Poeta

Leonard Cohen (1934-2016).
Hoje, o mundo amanheceu mais triste e vazio. Leonard Cohen morreu. Cessem todos os cantos. Calem-se todas as vozes. Que importam todas as grandes e pequenas mazelas deste nosso infeliz e atribulado planeta, toda a sua miséria, todo o seu ódio, toda a sua violência, toda a sua vilania, toda a sua aspereza, toda a sua hostilidade, toda a sua hipocrisia, que importa tudo isso, pergunto eu, diante desta cruel e devastadora notícia: Leonard Cohen morreu? O último grande poeta da música se foi. É verdade que ainda temos Bob Dylan. Mas Cohen, era, ao meu ver, imensamente superior a ele. Penso, inclusive, que o bardo canadense é que deveria ter ganho o Nobel de Literatura deste ano, ao invés do trovador americano. Não pela falta de méritos de Dylan, é claro, mas pela superabundância do talento poético de Cohen.
Para mim, pessoalmente, o mundo perdeu grande parte de seu valor e beleza, no dia de hoje. As canções de Leonard Cohen marcaram várias passagens importantes e inesquecíveis de minha vida. Ele, de certa forma, fez parte desses momentos. Há vários aspectos de sua biografia com os quais me identifico profundamente. Sua depressão crônica, por exemplo (o que mais chamou minha atenção para sua obra, quando a descobri, através de uma matéria veiculada pela revista "Veja", por ocasião do lançamento de "Ten New Songs", o melhor de todos os seus discos, e o que eu primeiro ouvi), além de sua obsessão por metáforas religiosas, sempre presentes em suas canções. Agora que ele morreu, sinto como se eu tivesse perdido um amigo íntimo e de longa data. Dói. Dói muito.
Para tentar aplacar um pouco a minha tristeza, conforto-me - ou pelo menos tento confortar-me - com a vaga e tênue esperança de que Leonard Cohen, ao partir, tenha finalmente encontrado a paz que tanto buscou em vida. Espero que um dia eu também possa encontrá-la.
   

domingo, 2 de fevereiro de 2014

The End

Philip Seymour Hoffman (1967-2014).
Sinto como se um véu de profunda tristeza e devastador desespero tivesse subitamente descido sobre o mundo, agora que leio, consternado, e ainda incrédulo, com lágrimas nos olhos, a estarrecedora e acachapante notícia do súbito e estúpido falecimento do magnífico ator Philip Seymour Hoffman, ganhador do Oscar de 2005, por sua brilhante e verdadeiramente inesquecível atuação no filme "Capote", de Bennett Miller, atuação superada, apenas, em minha modesta opinião, pelo seu magistral e emocionante desempenho no belíssimo e comovente "Com Amor, Liza" (2002), de Todd Louiso. Não podemos esquecer também do magnífico "Dúvida" (2008), de John Patrick Shanley. 
Informações preliminares dão conta de que seu corpo foi encontrado na banheira do apartamento em que morava, em Greenwich Village, Nova York. Afirmam fontes anônimas que com uma agulha espetada no braço. Segundo um famoso tablóide norte-americano, a causa da morte teria sido overdose, possivelmente de heroína e anfetaminas. O ator, certa vez, reconheceu, publicamente, enfrentar problemas com substâncias ilícitas, e teria sido internado, em maio passado, em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. 
Caso seja confirmado tal diagnóstico, Hoffman tornar-se-á, então, a mais nova vítima de talento a ter sua vida prematuramente ceifada pelo flagelo das drogas, mais uma entre tantas outras que nos deixaram tão precocemente e de forma tão abrupta e inexplicável, como Elis Regina, Jimi Hendrix, Jim Morrison, River Phoenix, Heath Ledger, Amy Winehouse, e tantos, tantos outros... A contagem seria longa e pesarosa, efetuá-la seria o mesmo que contar os corpos espalhados sobre um campo de batalha, encharcado de sangue, após o fim de um combate, atividade que, além de inútil, é propícia somente aos que têm estômagos fortes. Não é o meu caso, já que sofro de dispepsia. Física e psicológica.
Por ora, limitemo-nos a lamentar, lamentar profundamente, esta perda irreparável, e ponhamo-nos a rever suas representações primorosas, para aplacar um pouco a dor que nos está (ou melhor, que me está) a fustigar o coração. É o que vou fazer. Trago seus filmes comigo.



     

sábado, 23 de julho de 2011

A Vulgaridade da Morte


Amy Winehouse (1983-2011), na adolescência.

Se há algo de que ninguém, em sã consciência, pode acusar a morte, mesmo quando nos cumes do desespero e da dor, é de parcialidade ou esnobismo. A morte é, indubitavelmente, o mais democrático e igualitário dos fenômenos naturais. Diante dela, todos se equivalem, todas as fúteis  e complexas distinções humanas, das mais sutis às mais explícitas, que tanto complicam e às vezes fazem deste pobre e pequeno mundo em que vivemos, um verdadeiro inferno, se desvanecem, tornam-se completamente vazias, desprovidas de qualquer sentido. Diante dela, todos se ajoelham e clamam - em vão - por mais alguns segundos de vida. Não importa que sejam reis, papas, imperadores, generais, presidentes, primeiros-ministros, celebridades, subcelebridades, comendadores, diplomatas, desembargadores, petistas ou tucanos, republicanos ou democratas, flamenguistas ou vascaínos, carnívoros ou vegetarianos, a morte nada vê diante de si, a não ser a alma a ser ceifada. Ela não tem absolutamente nenhum preconceito de qualquer espécie, não segue nenhum critério fixo na hora de exercer seu ofício imemorial, não há uma ordem específica para ela respeitar em seu trabalho, ela não dá o mínimo valor para coisas tão vãs e fúteis, como idade, sexo, nacionalidade, raça, classe social, e coisas que tais, às quais damos tanta importância quando vivos. Todas essas superficialidades mundanas, que tanta aporrinhação e fadiga trazem à melancólica e desvalida raça humana, enquanto respiramos, para ela, a "indesejada das gentes", nada significam. Penso que muito poderíamos aprender com ela, no tocante à velha e tempestuosa questão da igualdade. Paradoxalmente, se pensássemos mais sobre a morte, talvez aprendêssemos mais sobre a vida.
Mas há diversos momentos em que gostaríamos - eu, pelo menos, gostaria - que ela fosse menos democrática e um pouco mais seletiva em seu ofício, que adotasse critérios mais rígidos e claros para o desempenho de sua atemporal função, que fosse, enfim, um pouco mais aristocrática e um pouco menos igualitária. 
Se me for perdoada a ousadia de lhe fazer sugestões, eu opinaria que uma boa regra de conduta a ser tomada pela morte, de agora em diante, seria a de não mais levar consigo, crianças. Outro grupo de pessoas que ela deveria se abster de ceifar, seria o das mães. Elas, de fato, deveriam ser imortalizadas, por meio de um decreto divino, a ser publicado no Diário Oficial do Céu, com todos os artigos e parágrafos a que o dito decreto teria direito, sem o esquecimento de uma vírgula. Seria o treze de maio das mães: "Artigo Primeiro: Fica abolida a morte das mães. Artigo Segundo: Revogam-se todas as disposições em contrário".
Ainda um terceiro grupo a ser privado do contato com a morte, seria o dos artistas, seres especiais, quase divinos - sem embargo de serem humanos, demasiado humanos, até - que tornam este remoto e desolado vale de lágrimas, senão um lugar menos lacrimejante e hostil, ao menos, um recanto mais confortável para viver, porque mais compreensível e belo. Pois este é o real papel da arte, neste mundo: dar um sentido à vida, um sentido que ela não tem, em si mesma. E nada há mais cruel e trágico sobre a face da Terra, ao meu ver, do que a perda abrupta e irreversível de um grande talento artístico, ainda em formação, subitamente cortado pela raiz antes de amadurecer por completo, tal como uma flor, ainda por desabrochar, que é repentinamente arrancada do solo, pela mão inábil de um jardineiro principiante.
Foi o que ocorreu com a talentosa e polêmica Amy Winehouse, sublime cantora, a quem muitos - entre eles, eu - veneravam por sua voz magnífica e outros repudiavam por seu comportamento assaz espalhafatoso e autodestrutivo, estupidamente morta, hoje, pelo seu vício em álcool. Muito já foi dito e redito a respeito deste evento fatídico, indubitavelmente catastrófico para seus fãs e os que verdadeiramente a amavam, mas, com certeza, infinitamente lucrativo para sua gravadora e os demais envolvidos com a comercialização de sua imagem - pois é uma verdade, já universalmente estabelecida, que nada é mais vantajoso para um artista, do ponto de vista financeiro do termo, do que a morte ainda nos píncaros da fama (vide o caso de Michael Jackson.). O único problema é que não é o próprio artista que obtém os lucros advindos de seu passamento.
Eu nada mais poderia fazer aqui a não ser repetir, com outras palavras, tudo que vi, li e ouvi sobre a infeliz Amy, ao longo do dia, desde seu envolvimento com o obscuro e tétrico mundo das drogas (mal que já se abateu sobre outras figuras, tão ou até mais célebres e talentosas do que ela), até sua entrada no tão famoso, quanto sinistro e lendário, "Clube dos 27". 
O que mais eu poderia falar sobre Amy Winehouse que já não tenha sido dito, à exaustão, em outras paragens? Que ela foi a infeliz e atormentada protagonista da história trágica de um talento genuíno e inigualável, desperdiçado por um vício monstruoso, vício que, por fim, acabou por irremediavelmente jogá-la no abismo? Um enredo simples, sem grande originalidade, com um desfecho vulgar, vulgaríssimo. E esta é, no final das contas, a maior - senão a única - acusação que podemos fazer contra a morte: ela é vulgar.