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10 de abril de 2014

Depois dos Escombros


O mundo não é tão plano e pequeno como o afirmam, ou desejam, alguns frenéticos e pretensamente bem-intencionados entusiastas do fim das nações e da dissolução das fronteiras geográficas através do avanço constante e ininterrupto da tecnologia e do crescimento dos sistemas de comunicação em massa, além da mundialização das finanças. A célebre globalização nossa de cada dia, ainda não soterrou por completo, e de forma irremediável, sob os mefíticos e asfixiantes escombros da desagregação e do esquecimento, valores seculares (não seria melhor dizer milenares?), profundamente enraizados no próprio interior da consciência humana, como o sentimento patriótico, e o orgulho de pertencer a determinada etnia ou nação, valores ou sentimentos hoje tão ferrenhamente combatidos e desprezados pela chamada classe intelectual multinacional e pelos bem-pensantes de plantão, que quase chegam a ser abertamente considerados indícios claros e inequívocos de um grave e perigosíssimo distúrbio mental, quando não de puro e simples mau-caratismo. Samuel Johnson já não disse: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”?
Mas a “canalhice” patriótica nunca esteve tão em voga como nos dias atuais, malgrado a militância intensa e sistemática dos mais diversos e combativos grupos apátridas de defesa da desfronteirização do mundo, muitos deles generosamente subsidiados e alimentados por grandes organizações econômicas e empresariais transnacionais, muitas delas, senão todas, com interesses diretos e inconfessáveis na instituição de um mundo sem limites territoriais, governado por um único grande órgão supraestatal, ou um único grande império global. Há “canalhas” cada vez mais ativos na Abcásia (suas ambições separatistas ganharam um notável impulso depois das recentes ações russas na Criméia), na Bavária, no País Basco (o fato de o ETA ter cessado a violência não significa que os bascos tenham deixado de aspirar pela independência em relação a Espanha e a França, felizmente agora defendida por meios pacíficos), na Catalunha, na Córsega, na Flandres (caso obtenham sucesso os defensores de sua independência em relação a Valônia, isto praticamente decretaria o fim da Bélgica, pois a Valônia já deu sinais mais do que claros de que, caso a independência flamenga efetivamente ocorra, pode ela vir a incorporar-se ao território da França), na Groelândia, na Lombardia, em Nagorno-Karabakh (que chegou a declarar formalmente sua independência em relação ao Azerbaijão, embora não reconhecida pela ONU, e encontra-se militarmente ocupada pela Armênia), na Escócia, na Ossétia do Sul, no Tirol do Sul, na Transnistria (potencial barril de pólvora, dada sua proximidade com a Ucrânia, e, pior do que isso, a semelhança de sua situação política com a da Criméia), no Chipre do Norte, no Vêneto, no Curdistão, em Quebec, na Caxemira, no Tibete, em Cabília, na Somalilândia, e, mais do que nunca, é claro, na Ucrânia, fomentada diretamente pelo governo russo.  
No caso específico dos movimentos independentistas europeus, eis o que diz um famoso diário do velho continente:

“(...) foi avançando sem ter em conta as fronteiras e o nacionalismo que a Europa se tornou próspera e viveu em segurança. Teremos de fazer o mesmo para superar as crises bancárias, econômicas e financeiras que submergiram países pequenos como a Irlanda. Apenas uma comunidade ampla tem condições para ajudar a resolver problemas que um Estado não pode enfrentar sozinho. Os separatistas perceberam bem isso: os catalães gostariam de se separar de Espanha, solicitando ao mesmo tempo a ajuda financeira de Madrid. Mas não é possível reivindicar para si os sucessos e as riquezas e delegar os problemas e os custos ao Estado central ou à União Européia. A Europa deve preservar a sua diversidade regional, sem no entanto proclamar uma vez e outra um Estado independente. Isso serviria apenas para minar as capacidades da Europa de resolver os problemas a longo prazo".

Mas Estados nacionais e territórios soberanos continuam a ser uma realidade inescapável. Passaportes e vistos de entrada estão aí para prová-lo. Orçamentos para o setor de defesa e inteligência militar, cada vez mais vastos, e crescendo numa escala verdadeiramente astronômica, também. Pelo andar da carruagem, notoriamente tardo e turbulento, podemos perfeitamente afirmar, sem receio de incorrer em erro, que o velho sonho humano de união universal de todos os povos sob a égide benévola e onipresente de um só governo de proporções planetárias, permanece a anos-luz de distância de sua plena concretização.
Algum leitor mais afoito e superficial, pode vir em socorro dos defensores do globalismo para dizer que o que acabei de afirmar carece completamente de qualquer fundamentação no plano da realidade concreta, porque os fatos políticos de maior evidência midiática da atualidade apontam exatamente para o oposto de minhas conclusões. Nunca houve em toda a história terrestre, tamanha desnacionalização da política como a que a segunda metade do século passado e a primeira década deste, testemunharam, desde o advento da Liga das Nações, até a criação de organismos político-econômicos internacionais de âmbito regional e continental, como a União Européia, o Mercado Comum do Sul, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa e a própria Organização das Nações Unidas.
De fato, a seguir o que dizem os conspiracionistas de praxe, e os sacrossantos e oniscientes analistas de programas de auditório dominicais, as evidências mais claras e impactantes sugerem-nos, de imediato, e quase sem deixar margens a quaisquer dúvidas, que o mundo moderno encontra-se já num acelerado e bastante avançado processo de unificação política e econômica, conduzida, por meios os mais díspares, e, digamos, um tanto quanto heterodoxos, por uma elite pequena, e extremamente poderosa, de capitalistas, políticos e burocratas sediados nos países centrais do hemisfério ocidental, cujo objetivo supremo e inconfessável, é, nada menos do que o controle total da humanidade, com vistas à perpetuação de seu poder e de sua riqueza, mesmo que para alcançar tal objetivo funesto, seja necessário, até mesmo, exterminar uma boa parte da população do planeta, ou por meio de uma nova guerra em escala global, ou através de pandemias artificialmente criadas.
Caro e perspicaz leitor, concordo plenamente consigo quando se refere ao modo como as coisas parecem estar caminhando no mundo atual, também eu já as vi pelo mesmo ângulo que o senhor, mas, permita-me salientar, muito humildemente, e com todo o respeito, que, como é fartamente sabido desde épocas imemoriais, há e sempre haverá, por definição, um abismo deveras profundo, e  muitas vezes intransponível, entre a aparência e a essência de um determinado fato ou objeto. Raramente nossos meramente humanos e pouco agudos olhos conseguem vislumbrá-las e discerni-las com o mínimo de clareza e circunspecção.
Digamo-lo em outras e mais simples palavras: nem sempre o que parece ser, é-o de fato.
Explico-me.
Desde que abandonei, em definitivo, os brinquedos e folguedos de criança, e enverguei - pura força de expressão, já que este louvável e ancestral costume romano foi, há muito, desastrosamente abandonado por nossa civilização pouco cerimoniosa e demasiado irreverente - a toga viril, ouço falar de algo chamado imperialismo, e seu antípoda, o nacionalismo, sem nunca conseguir entender completamente a verdadeira dinâmica de tão conturbado relacionamento ao longo da história.
Ora eu ouvia que o imperialismo era algo mau, que deveria ser ardentemente combatido, com todas as forças e instrumentos de que se pudesse dispôr, preferencialmente panfletos marxistas e charutos cubanos, sem esquecer das metralhadoras de fabricação soviética e  ostentando uma pose legitimamente guevariana (de grande utilidade para efeitos de confabulação com as militantes esquerdistas do sexo feminino), protestando energicamente nas ruas, contra tudo que fosse determinado pela cúpula partidária, e execrando, ferozmente, tudo que representasse a mínima presença de nosso pretensos colonizadores do Norte, em terras tropicais; ora, e principalmente depois de começar a travar um conhecimento mais íntimo, quase no sentido bíblico do termo, com a história, percebia que o imperialismo não era tão mau quando visto sob uma perspectiva cultural e filosófica mais vasta e abrangente do que de ordinário, pois que nossa própria civilização é, inequivocamente, o fruto claro e direto do imperialismo romano, por vias tortuosas herdeiro do imperialismo macedônico, que legou ao Ocidente, seu caráter essencialmente helênico, depois mesclado com a visão cristã do mundo, por sua vez, legada pelo que se poderia talvez chamar de imperialismo católico, filho dileto da estrutura imperial romana.
Confuso? De acordo. Mas a história nunca é tão simples e esquemática como nos fazem crer na escola. É bem o contrário. (Nota Bene: Posteriormente, em um ensaio de maior extensão, pretendo discorrer mais longa e pormenorizadamente sobre o que se poderia chamar de processo de "ocidentalização" do Ocidente, principalmente sobre os dois alicerces fundamentais de sua constituição: o helenismo e o cristianismo.)
A maioria absoluta das pessoas tem o péssimo e nefando hábito de só enxergar o mundo e a vida à partir de uma perspectiva vaga, superficial e monocromática, sem parar, ainda que um por um breve e fugaz segundo, para refletir sobre o que se lhes depara no decurso do cotidiano, classificando e rotulando os diversos objetos e fatos com que entram em contato apenas de acordo com suas aparências mais imediatas e tangíveis, sem se importar em conferir, na sua integridade, a verdadeira essência dos mesmos. Enxergam o mundo apenas em preto e branco, ignorando as demais cores do espectro solar. Agem como os cavalos que têm seus olhos tampados para não enxergar o fogo à sua volta, embora sintam seu calor sem saber de onde provém.
E é justamente essa maioria cega e ignorante da fonte real de seus agudos problemas, que detém o poder de modificar o rumo do mundo mas não sabe para que sentido fazê-lo.
A este propósito, devo dizer que eu, como aliás, toda gente de boa fé - e ainda melhores intenções - considerei verdadeiramente belíssimas e emocionantes as manifestações ocorridas em várias partes do mundo contra a atual crise econômica por que estão a passar diversas nações ocidentais, e, no Brasil, contra a cleptocracia que ora nos governa (manifestações que nossos amados governantes estão a correr para cercear através de dispositivos legais criados ex abrupto). Também eu aplaudi de pé e entusiasticamente, as imprecações mais do que justas das hordas estudantis e de trabalhadores que tomaram de assalto as praças e ruas de nossas cidades e dos países centrais mais afetados pelo descalabro financeiro que ora assombra a humanidade com sua horripilante figura, capaz de absorver o mundo inteiro em suas entranhas famintas, contra o que elas chamam, na falta de melhor ou mais original designação, o "sistema".
Não fossem minha idade que, embora não por demais avançada, já não comporta a possibilidade de servir de abrigo a quaisquer histriônicos rompantes de rebeldia cívica, ainda que sob o melhor dos pretextos, e com o mais puro dos propósitos, e minha quase patológica aversão as multidões, essas criaturas vorazes e anômalas que tudo devastam diante de si, sem remorso nem piedade, e só param quando contidas por uma força superior e mais violenta, confesso que teria apreciado ilustrar, com minha gloriosa presença, alguma de tais manifestações. Mesmo que fosse segurando um cartaz cheio de erros gramaticais contra a globalização.
Mas há ocasiões em que me assaltam sérias e renitentes dúvidas sobre a real eficácia e o verdadeiro alcance das ações reinvidicatórias e afirmativas dos ditos movimentos sociais e "anti-sistema" que hoje tanto combatem aqueles que acusam de serem os inequívocos culpados pela débâcle internacional.
Para começar, é preciso definir com clareza e sem dar margem a quaisquer equívocos: o que é o tão famoso e odiado "sistema", e quem de fato o controla?
Respondidas as perguntas acima, necessário se faz refletir sobre o que será construido em seu lugar, caso a luta contra o capitalismo e o imperialismo seja decidida a favor dos revolucionários de passeata e o "sistema" seja derrubado.
Mas faça o leitor - eu não o farei porque tenho coisa melhor com que gastar meu cada vez mais precioso e escasso tempo - uma breve pesquisa entre os participantes das épicas manifestações anti-crise ocorridas não só em plagas gregas como também portuguesas, espanholas e até norte-americanas, e também nas que se deram contra os "vinte centavos" no ano passado e ainda se darão no Brasil por ocasião dos jogos da Copa do Mundo, e constatará, por si mesmo, a total ausência de respostas concretas e minimamente satisfatórias para as indagações formuladas acima.
De comum, o que todos querem é derrubar a outrora inexpugnável, e ora aparentemente frágil e periclitante fortaleza capitalista mundial. Mas a pergunta incoveniente e politicamente incorreta a responder é: o que fazer depois que nada mais houver, além de escombros?

             
               



1 de abril de 2014

Contra a Sinceridade

Dedicado especialmente a B., N. e T. M., involuntárias musas inspiradoras deste texto.


Palavras são armas. Armas infinitamente mais poderosas e letais do que as utilizadas no conflito em curso na Síria. Armas de fogo podem ferir, e até mesmo destruir, por completo, e irremediavelmente, o corpo de quem estiver na linha de tiro, mas palavras podem matar uma alma. Quantos rocambolescos, quixotescos e ainda assim, caros  e generosos sonhos já não foram completamente destruídos e soterrados por uma palavra cruel ou simplesmente inoportuna, dita num momento crucial, definidor de toda uma trajetória de vida? Quantos pobres e ardorosos corações já não foram irremediavelmente partidos e aniquilados por conta de uma palavra ferina e amarga, pronunciada sob o soturno influxo da dor e da mágoa? Quantas crianças já não tiveram o sublime e imponente castelo de cartas de sua idílica e multicolorida infância, brutalmente desmantelado pelo gélido e espectral sopro de uma palavra atroz e devastadora?
Porque as palavras possuem um poder imenso, absolutamente avassalador, cuja grandeza e magnitude são incomensuráveis, difíceis de imaginar até mesmo para o artista mais prolífico e criativo. Elas são capazes tanto de construir impérios quanto de reduzi-los a escombros, podem tanto encher um coração de esperanças quanto precipitá-lo inexoravelmente no mais profundo e absoluto abismo do desespero, podem tanto propagar a verdade quanto disseminar a mentira, e, porque elas são também amorais, podem perfeitamente servir a mais do que a dois senhores ao mesmo tempo, ser tanto portadoras da paz quanto propagadoras do ódio e da tirania. 
Penso que as pessoas deveriam procurar tomar o máximo cuidado com as palavras que pronunciam ou escrevem ao longo de suas breves e frágeis vidas, não apenas por uma questão estética, como soem fazer os escritores, mas sobretudo por uma questão da mais alta relevância moral, como soem fazer os pregadores e os teólogos. Nossas línguas são metralhadoras e as palavras que delas brotam são a munição com a qual alvejamos aqueles que nos cercam. Talvez seja por isso que o mundo moderno tende a se tornar cada vez mais violento e caótico, porque esquecemos do poder altamente devastador das palavras, e quiçá também por isso, nos dias que correm, torna-se uma tarefa cada vez mais difícil e hercúlea sustentar um diálogo minimamente equilibrado e civilizado com nossos oponentes, sem precipitações e com ao menos uma pequena dose de bom senso.
Há pessoas que confundem sinceridade com incivilidade. Pessoas que, sob o lindo, maravilhoso, encantador, quase idílico e celestial pretexto de cultivar as celebremente heróicas e sumamente nobres virtudes da sinceridade e da firmeza de caráter, não hesitam em expressar claramente - e sem "papas na língua", como diz a velha figura de linguagem, muito em voga nos meios midiáticos e culturais oficiais - tudo o que verdadeiramente lhes passa pelo cérebro febril e ébrio, sem antes submeter suas ideias e opiniões ao filtro depurador do bom senso e também, em última instância, da boa educação. São pessoas que, mesmo sem você pedir, não se furtam a expressar, em alto e bom som, e para todos os infelizes basbaques ao seu redor, sem atentar, sequer por um segundo, para as mais básicas e elementares leis da etiqueta, suas opiniões - reveladas como verdades absolutas e inquestionáveis - sobre tudo e todos, desde a aurora boreal até o gol-contra marcado no jogo do fim-de-semana, passando pelo figurino estrambótico de Lady Gaga, a renúncia de Bento XVI, as brigas no Big Brother e a tetraplegia do leão Ariel. E também não medem palavras na hora de tecer comentários sobre sua aparência ou seu comportamento, mesmo que você não tenha sequer cogitado a mais remota possibilidade  de solicitar tais comentários.
Conheço pelo menos três pessoas dessa estirpe - por sinal, as musas inspiradoras deste artigo - (na verdade, bem mais do que três, mas não vou falar sobre elas, agora, por falta de tempo e economia de espaço) que têm o péssimo, nefando, execrável hábito, de dizer àqueles com quem convivem, mesmo sem para tanto terem sido solicitadas, tudo que pensam e sentem, sem medirem, sequer por uma fração de segundo, as consequências nefastas de seu descalabro retórico, dizendo sempre o quão cheias de defeitos e ruins os outros - sempre os outros - são, não deixando de evidenciar, por tabela, e sob uma máscara de falsa modéstia, sua própria perfeição, e isso com a professa intenção de ajudá-los a se aperfeiçoarem por sua vez. Mas elas próprias não conseguem enxergar suas próprias deficiências, e se alguém comete a temeridade de apontá-los, torna-se, ex abrupto, o infeliz alvo preferencial de seus petardos verbais. Chamam sinceridade ao que é apenas a mais pura e simples grosseria. 
Nada há que me irrite e desgoste mais profundamente do que a verborréia insípida e autossuficiente dos que se julgam os monopolistas da verdade. (Talvez apenas os autoproclamados guardiões da virtude pertencentes à intelligentsia esquerdopata nacional e certos pseudoatores consigam fazê-lo.) Aos ouví-los discorrer, de alto de sua ilusória onisciência, com tamanha soberba e tão prolixamente, sobre tudo que há entre o céu e a terra, no fundo dos mares, e nas alcovas ministeriais, tenho, juro-o com o coração nas mãos, a infernal e quase irreprimível tentação de lançar sobre eles a maldição que Latona lançou contra os camponeses da Lícia que lhe negaram água para saciar sua sede e a de seus filhos, pois das rãs eles já tem o coaxar incompreensível, só lhes falta o corpo de anfíbios.
Reconheço que a sinceridade, em si mesma, como valor e ideal, é, de fato, uma virtude. Mas a urbanidade também o é.
Como diz  Machado de Assis:
"Tudo pede certa elevação. Conheci dous velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: 'Caro major!' -'Pronto, comendador!' — Variavam às vezes: — 'Caro comendador!' -'Aí vou, Major' . Tudo pede certa elevação".
Sim, tudo pede certa elevação. Na verdade, a elevação que Machado julga tão necessária nas relações humanas, hoje parece cada vez mais ausente da vida em sociedade. A começar pelos pequenos, simples gestos de incivilidade explícita praticados no conturbado cotidiano de nossas atribuladas metrópoles: uma fila no supermercado em que um cidadão mais afoito rouba nosso lugar sob a desculpa do atraso para voltar ao trabalho ou pegar o filho na escola; o jovem fisicamente perfeito que ocupa o assento preferencial no ônibus e finge dormir enquanto uma gestante ou idosa fica em pé ao seu lado, sendo jogada de um lado para outro da grande lata de sardinha sobre rodas (pois o que são nossos ônibus urbanos senão isto?), enquanto o motorista da dita lata, que mais parece ser um condutor de um vagão de gado, reflexo direto da bovinização acelerada de nossa sociedade, já em curso, infringe todas as leis da boa educação para com seus passageiros e às vezes até as de trânsito, impunemente; o policial que abusa dos direitos que lhe confere a farda e passa a agir exatamente como aqueles a quem ele deveria, em tese, combater, ultrajando, de forma truculenta e irresponsável, a cidadania de pessoas de bem, enquanto os verdadeiros criminosos continuam soltos, muitos deles lotados nos gabinetes de seus superiores hierárquicos; o jornalista que humilha garis em rede nacional; todos são  exemplos claros e inequívocos do estado anêmico, periclitante, moribundo, em que se encontra a civilidade, o único escudo capaz de nos proteger de nosso monstro interior.
A profissão da sinceridade não pode ser pretexto para a falta de educação. Falando agora em causa própria, quero alertar aos que porventura estiverem a ler este singelo texto, que dispenso e quero que fique longe de mim a dita sinceridade daqueles que estufam o peito, empinam o nariz e enchem a boca para dizer a quem estiver por perto, o quão honestos e íntegros são (logo chamando a todos que não comungam de seus preconceitos e achismos, de desonestos e prostituídos), pois estas mesmas sinceridade e integridade muitas vezes não passam de máscaras, artifícios usados para encobrir a mais absoluta falta de civilidade (e também inocuidade mental) da parte de seus cultores. Exemplo clássico do que afirmo é um certo comentarista esportivo que adora falar o que pensa e faz dos ouvidos de sua audiência a cuba sem fundo de suas sandices conspiratórias.
Não quero que me digam o que pensam ao meu respeito sem que eu o solicite. Não quero que me falem do sol e da lua se eu nada quiser ouvir do sol e da lua. Já tenho plena e absoluta consciência de minha calvície crescente e minha adiposidade já bastante pronunciada, não preciso que me lancem ao rosto, o quão calvo e gordo estou.
Entendamo-nos: logicamente não estou a fazer aqui uma espécie de apologia da hipocrisia, como pode parecer a um leitor mais superficial e apressado (como é a maioria dos comentaristas atuantes na blogosfera brasileira). Pelo contrário. reputo a hipocrisia como o mais hediondo e nefasto dos vícios humanos. A honestidade é vital. Faço apenas uma singela defesa do decoro da parte daqueles que dizem professá-la, pois "a honestidade, sem as regras do decoro, transforma-se em grosseria" (Confúcio). 
Verdade seja dita, o Marquês de Maricá estava coberto de razão, quando afirmou:
"Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade".

Vã e triste criatura é o homem! Ama a verdade mas não pode viver sem a mentira. Melhor seria que nunca tivesse sido criado. Mas já que o foi, o melhor que tem a fazer é viver com uma máscara pregada ao rosto. Ou fazer como Espurina, e rasgar a própria face.
  

14 de março de 2014

Terrores Noturnos

Henry Fuseli



Para início de conversa, amado leitor, permita-me ser franco, e confessar, com a máxima clareza, e sem maiores delongas, que meu pobre e pequeno cérebro encontra-se, no presente momento, completamente desprovido de ideias ou pensamentos verdadeiramente dignos de serem expressos por meio de palavras escritas. Mesmo assim, não sei que espécie de sorrateiro e perseverante demônio grafomaníaco e algo beligerante, agora toma conta de meu ser e me obriga, com mão de ferro e a espada em riste, a escrever, mesmo sem ter nada de realmente útil ou valioso para transmitir através destas linhas. Talvez o mesmo que Faulkner dizia apoderar-se de si no momento da redação de suas obras magistrais ou talvez um primo distante daquele que acompanhava Sócrates em seu diálogos em plagas atenienses. Demasiada presunção? Pode ser. A modéstia nunca esteve entre minhas maiores virtudes.
A razão principal, senão a única, da súbita e avassaladora esterilidade intelectual e criativa que assola e deprime minha mente nesta terrivelmente cálida e assustadoramente vazia madrugada curitibana é, indubitavelmente, o estrondo verdadeiramente apocalíptico - para dizer o mínimo - que há cerca de duas horas, aproximadamente, abateu-se sobre o telhado de minha casa e provocou meu imediato e inapelável despertar, como que através de um choque de alta intensidade, provavelmente semelhante àquele que Jonathan Noel sentiu no quarto de hotel em que se refugiou da pomba que outrora tanto terror lhe provocara em Paris.
Mas o que produziu tamanho barulho, tão inexoravelmente ensurdecedor e enregelante? Um gato notívago, de colossais e apocalípticas proporções, em uma corrida desabalada e implacável em busca de alimento nos desvãos sombrios e tétricos dos quintais cobertos com a densa, mas não de todo impenetrável, capa da escuridão noturna da vampiresca e daltônica capital da Província das Araucárias, sendo tal alimento, talvez um rato desagradavelmente brincalhão, portador dos genes do gigantismo? Um duende intrépido que decidiu escapar da imperiosa e imutável lei do anonimato coletivo que por séculos  garantiu a sobrevivência e a perpetuação de sua microssociedade utópica e correr pelo mundo hostil dos seres humanos em busca de quixotescas aventuras e felicidade autêntica? (Se acaso a encontrar, favor avisar o autor deste blogue.) Um alienígena curioso, talvez oriundo dos confins de Zeta Reticuli, provavelmente integrante do mesmo grupo que abduziu o casal Hill, encarregado de realizar uma profunda e minunciosa investigação sobre o paradeiro atual de seus irmãos perdidos em Rosswel e Varginha, com uma breve escala em Curitiba? (Aliás, quem ignora que nossa célebre Loira Fantasma, terror dos taxistas e pedestres insones da capital paranaense nada mais é do que uma criatura extraterrestre exilada de Sirius, perenemente a ocultar-se, de modo assaz ignóbil, sob o hábil disfarce de uma entidade sobrenatural apenas para escapar da perseguição implacável dos Homens de Preto e limitar-se a ficar na mira apenas dos parapsicólogos autodidatas e discípulos do padre Quevedo, infinitamente mais inofensivos e condescendentes do que os agentes yankees, pois o ceticismo absoluto do ilustre sacerdote é justamente a maior proteção que ela poderia obter?) Ou terá sido o tropel furioso e insano de exércitos inumeráveis de berserkers rumo ao Ragnarök, seguidos por uma multidão de valkyrjas em uma cavalgada frenética em busca dos corpos dos guerreiros nórdicos mortos em batalha no crepúsculo dos deuses?  
Ou, falando de modo mais prosaico: seria algum ladrão tentando invadir minha residência?
A simples menção de tal possibilidade põe-me em pânico.
Em suma: ignoro a causa imediata e correta do lúgubre som que ocasionou meu despertar, apenas sei que ele afastou de meus olhos, para milhares de quilômetros de distância, sem deixar sequer um mínimo vestígio de sua presença, o solícito e benfazejo Morfeu, deus do sono, generosa entidade mítica que através dos milênios, concede aos homens a mais preciosa dádiva que pode existir sobre este pequeno e atribulado grão de poeira cósmica azul que ora habitamos: a faculdade de esquecer, ao menos por algumas breves horas, ainda que pelo simples espaço de uma noite, a sordidez, a frieza e a brutalidade do mundo com que somos diariamente obrigados a conviver, quando em vigília. Lá se foi ela, a bondosa deidade que até há poucos instantes tão encantadoramente me embalava em seus braços tépidos e suaves, diferentes dos braços frios e pétreos de seu irmão gêmeo, a morte, com o qual não tenho simplesmente o menor desejo de entrar em contato tão cedo.
Em outras e mais claras palavras: o misterioso estrondo tornou-me, sem apelação, ou a menor chance de defesa, angustiado e triste prisioneiro da insônia, o inflexível e tirânico carcereiro dos amantes desenganados e dos poetas notívagos.
Por muito tempo, padeci de insônia crônica, fruto de pesadelos recorrentes que me atormentavam o sono e tornavam extremamente longas e penosas minhas noites, a ponto de, muitas vezes, assim que percebia estar o sono a aproximar-se, o medo de um novo pesadelo já me tomar de assalto, impedindo-me de dormir e angustiando-me profundamente. Não possuo grandes habilidades descritivas, portanto só posso dar aqui uma vaga ideia de como eram tais pesadelos, dizendo ao leitor que eram como que uma espécie de perturbadora, incongruente e diabólica mistura das telas de Fuseli e H. R. Giger com as de Zdzislaw Beksinski e Edvard Munch, com uma leve pitada de Goya.
Este último dizia que o sono da razão produz monstros. No meu caso, a privação de sono é que os trouxe das trevas para atormentar meus pensamentos. 


H.R. Giger



Ao acordar com o barulho, levei uma verdadeira infinidade de tempo para tomar plena consciência da realidade ao meu redor. Meu coração batia tão descompassada e violentamente que por um momento, julguei estar quase às portas do além-túmulo. Meus olhos arregalados e impacientes esquadrinharam minunciosamente até o mais ínfimo detalhe de meu quarto, na esperança de encontrar algum sinal, por mais vago e superficial que aparentasse ser, que pudesse fornecer-me qualquer indicação minimamente clara sobre o que provocou o cataclísmico ruído que, fosse eu um pecador impenitente e não um trabalhador honrado e consciencioso, com o espírito repleto de amor pela nossa melancólica humanidade e fé no trabalho, na igreja e nas instituições de nosso glorioso país, far-me-ia sucumbir de vez perante as garras demoníacas do medo.
Nada de estranho ou fora do comum em toda a quase infinita extensão de meus aposentos palacianos. Tudo na mais perfeita ordem e na mais santa paz.
Para concluir minha busca, abri meu velho e já bastante empoeirado baú de memórias e vi que todos meus esqueletos continuavam perfeitamente acomodados lá dentro, junto dos últimos pedaços que restavam de meu coração dilacerado. Separadas em compartimentos estanques, marcadas por etiquetas correspondentes a cada fase de minha vida, lá estavam as camadas de identidade que fui perdendo ao longo dos anos, para hoje estar em carne viva, aqui, diante do leitor. Pois os seres humanos são como laranjas que o tempo e o mundo vão se encarregando de descascar, camada por camada, até não sobrar mais do que a essência última de nosso ser, o mais secreto rincão de nossa alma, legando as cascas que se perderam pelo caminho, aos vermes soberanos, os últimos que triunfarão quando não formos mais do que carne morta. 
Lá estava, recuperando-se de sua asma crônica, o menino franzino, cabisbaixo e sempre doentio que passou um terço de sua infância confinado em hospitais; em outro compartimento, o adolescente casmurro e extremamente frágil que era o alvo preferencial da chacota de seus colegas e do escárnio cruel da primeira garota que lhe despertou a chama agridoce do amor; em outro compartimento, ainda, este com uma data mais recente, o aspirante a ator que fez do palco um prolongamento de sua existência, e que, à exemplo de Ícaro, tentou alcançar o céu com asas de cera e despencou das nuvens na mais triste, sombria e miserável realidade; todos atendendo pelo mesmo nome mas com personalidades totalmente distintas e até mesmo antagônicas - obra do tempo e dos homens.
Voltei-me para o espelho e contemplei, longa e fixamente, a face amarga e envelhecida que se apresentava de maneira assaz impudica, quase pornográfica, ao meu olhar perplexo. Tal como na célebre canção dos Titãs, não consegui reconhecer o semblante monstruoso que via diante de mim. Séculos se passaram enquanto minhas pálpebras permaneciam cerradas. Recuei alguns passos e não consegui articular eficazmente as idéias, assaz confusas e indiscerníveis, que se embaralhavam em minha mente obtusa. Não podia crer que aquele fosse meu rosto real: uma pálida máscara de tristeza e dor, por onde a vida passou como um furacão, sem deixar nada em pé. Escombros sobre escombros, nada mais.
 
Zdzislaw Beksinski


- Deve ser o efeito da privação de sono - pensei comigo - Se eu voltar a dormir, esta sensação de total isolamento e desolação passará e poderei voltar a sorrir como antes.
Com esse intuito, voltei para a cama e fechei fortemente os olhos. Tentei contar carneirinhos mas eles não queriam atender ao meu chamado e não pulavam a cerca. Pelo contrário, ficavam a pastar no campo alheio, sem notar minha presença. Nem mesmo um lobo por perto para movimentar um pouco as coisas.
Bem se vê que a solução matemática estava longe de poder ser aplicada ao meu problema. Nunca fui muito bom com números - confissão fatal para quem trabalha na minha área (finanças).
Virava-me de um lado para outro e o sono não vinha. o relógio parecia zombar de meu esforço inútil, com o ritmo impassível de seus ponteiros. Cada segundo sentia-me como se uma navalha em brasa estivesse a rasgar minha carne e dedos de ferro triturassem meus ossos.



Edvard Munch

- Basta! - bradei, exasperado - Não vou mais tentar adormecer. Vou escrever um pouco para ver se me acalmo.
Levantei-me e sentei-me em frente ao computador para exorcizar meus demônios através da escrita. Antes porém, à cata de inspiração, murmurei em um tom quase inaudível alguns versos do heterônimo pessoano Álvaro de Campos:


"Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, não posso escrever quando acordo de noite, não posso pensar quando acordo de noite — Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite"!

Diz o imperador Adriano em sua longa e sábia missiva a Marco Aurélio (na verdade, a autoria é de Marguerite Yourcenar, mas gosto de imaginar que seu autor é o próprio imperador Adriano, tamanha a profundidade e também a destreza com que Marguerite conseguiu penetrar na mentalidade e na alma de uma das maiores figuras da história universal) : "Que é nossa insônia senão a obstinação maníaca de nossa inteligência em manufaturar pensamentos e formular uma série de silogismos, raciocínios e definições que lhe são próprios? Ou ainda a a recusa em abdicar em favor da divina estupidez dos olhos fechados ou da sensata loucura dos sonhos? O homem que não dorme (...) recusa-se mais ou menos conscientemente a confiar no fluxo das coisas."
Montaigne, em certo trecho de seus "Ensaios" enumerou uma série de exemplos de grandes personagens históricos que, ao contrário de mim nesta noite enigmática, entregaram-se completamente ao sono em circunstâncias as mais inapropriadas e fatídicas e cita Catão como um modelo ímpar de coragem e abnegação, pois não se permitiu dominar pelos tentáculos vorazes da insônia, mesmo estando sua vida sob sério risco.
Proust, ao contrário de Catão, um grande notívago, sofria em sua infância sempre um colossal martírio por ser diariamente obrigado a dormir cedo sem estar com sono. A passagem de "O Caminho de Swann" em que ele relata pormenorizadamente e com uma linguagem verdadeiramente sublime, cada etapa do complexo ritual psicológico que envolvia seu adormecer e a lenta penetração do sono em seus olhos é uma das mais preciosas e cintilantes jóias da literatura universal, sobretudo quando narra com cores vívidas e cativantes, o momento em que prorrompeu em lágrimas nos braços de sua mãe, em uma noite de insônia. Dele são estas palavras: "O sono é como uma outra casa que poderíamos ter, e onde, deixando a nossa, iríamos dormir".
- Mas qual é o real propósito deste artigo, Marcos? - o leitor pergunta, impaciente - Por acaso, pretende me fazer perder meu precioso tempo falando sobre sua insônia e não me deixar dormir com toda essa conversa fiada? Pois saiba que se você não está com sono, eu estou. Termine logo este texto e volte para a cama!
Pois eu respondo, e com maior polidez do que o brutal leitor que agora me interpelou: estas palavras são apenas um meio de passar o tempo, enquanto Morfeu não volta para fechar novamente minhas pálpebras, um meio que encontrei para matar o tempo enquanto ele não me enterra, mas... Espere! Ei-lo aqui de novo em minha presença, já começo a sentir de novo a moleza no corpo típica do gradual e profundo adormecimento que me é peculiar, e principio a dar meus primeiros bocejos. Viva! Vou colocar um ponto final neste artigo e finalmente me entregar ao sono que agora retorna, e dar o meu mergulho na eternidade, como diria Coelho Neto. Preciso trabalhar amanhã e contribuir com meu pequeno e suado quinhão, para o pleno funcionamento da impessoal e desumana roda do capitalismo internacional, e estar perfeitamente alerta, para servir com civilidade e diligência, o onipotente e temível Cliente, essa obscura e intolerante força motriz do comércio e arcanjo indômito do Deus Lucro.
Mas antes permita-me citar ainda uma outra frase de Adriano que vem bem a calhar neste instante: "(...) o sono mais perfeito é necessariamente um complemento do amor: repouso tranqüilo, refletido sobre dois corpos".
E para comprovar esta teoria, lá está minha amada, esperando-me, para juntos repousarmos, tranquilamente.


Francisco Goya

Boa noite, leitor.


2 de fevereiro de 2014

Phillip Seymour Hoffman (1967-2014)


Sinto como se um véu de profunda tristeza e exasperante melancolia tivesse descido sobre o mundo, agora que leio, consternado, e ainda incrédulo, a devastadora e acabrunhante notícia do súbito e estúpido falecimento do magnífico e inigualável ator Phillip Seymour Hoffman, ganhador do Oscar, em 2005, por sua nada menos do que brilhante e verdadeiramente inesquecível atuação no filme "Capote", de Bennett Miller, atuação superada apenas, em minha modesta opinião, pelo seu magistral e emocionante desempenho no belíssimo "Com Amor, Liza" (2002), de Todd Louiso. 
Informações preliminares dão conta de que seu corpo foi encontrado na banheira do apartamento em que morava, em Greenwich Village, Nova York. Afirmam fontes anônimas que com uma agulha espetada no braço. Segundo um famoso tablóide norte-americano, a causa da morte teria sido overdose, possivelmente de heroína. O ator, certa vez, reconheceu, publicamente, ter problemas com substâncias ilícitas, e teria sido internado em maio passado em uma clínica de reabilitação para dependentes dessa mesma droga. 
A ser verdade, Phillip seria então a mais nova vítima de talento a ter sua vida aniquilada pelas fleurs du mal, mais uma entre tantas outras que nos deixaram tão precocemente e de forma tão abrupta e inexplicável, como Elis Regina, Jimi Hendrix, Jim Morrison, River Phoenix, Heath Ledger, Amy Winehouse, e tantos, tantos outros... A contagem seria longa e pesarosa, efetuá-la seria o mesmo que contar os corpos espalhados sobre um campo de batalha encharcado de sangue após o fim do combate, atividade que, além de inútil - pois que é a guerra, senão o mais inútil dos fenômenos humanos? - é propícia somente aos que têm estômagos fortes. Não é o meu caso, já que sofro de dispepsia.
Por ora, limitemo-nos a lamentar esta perda imensurável, e ponhamo-nos a rever suas representações primorosas. É o que vou fazer. Trago o "Capote" comigo.        
     

27 de janeiro de 2014

Meninos e Meninas

Edvard Munch

Há um ano, o país chora. Chora pela perda estúpida e completamente desprovida de sentido de tantas jovens e exuberantes vidas, vidas de meninos e meninas ainda na flor da idade, meninos e meninas que tanto prometiam e tanto sonhos acalentavam, vidas que ainda estavam no pleno desabrochar de suas potencialidades, vidas que foram tão brutal e prematuramente ceifadas, não apenas pelo fogo e pela fumaça negra que se alastraram pelo trágico antro de morte que se tornou a boate Kiss, de Santa Maria, mas, sobretudo, pela incúria manifesta não somente dos proprietários do estabelecimento que o projetaram sem as condições de segurança adequadas para comportar grande acúmulo de pessoas (a pecar, principalmente, pela ausência de portas de emergência em número suficiente para evacuar as vítimas do incêndio quando ele começou); mas também dos órgãos de fiscalização do poder público que parecem, no caso em questão, e como já é a norma no Brasil, não ter feito seu trabalho da forma correta e a tempo de evitar essa tragédia de tão graves e impactantes proporções; dos seguranças da boate que retardaram a saída dos que estavam lá dentro quando da eclosão das chamas, por conta do não-pagamento da consumação; e dos integrantes da banda gauchesca que resolveram fazer pirotecnia em um local que não era o mais correto para fazê-la.
Mas, embora seja perfeitamente natural e legítimo que as famílias enlutadas e aqueles que as apoiam e consolam nesse momento de imensa dor e de pesarosa celebração da memória de seus entes queridos, procurem a quem culpar para assim minorar seu sofrimento e fazer justiça pelo incomensurável dano que lhes foi causado, este momento em que o pesar reina, soberano, não é o mais adequado para fazê-lo. Primeiro é preciso investigar profundamente o que de fato aconteceu naquele local, de forma racional e lúcida, para que não pairem dúvidas sobre o assunto e os verdadeiros culpados, sejam eles quais forem, sejam exemplarmente punidos, na forma da lei. Não façamos justiçamento, mas verdadeira justiça.
De qualquer forma, o ponto crucial sobre que temos de nos debruçar agora é o apoio e a solidariedade que devemos todos prestar aos que estão a sofrer com esta perda irreparável, mesmo já tendo passado um ano depois daquele trágico dia. Que nossas orações os confortem e que Deus lhes dê forças para suportar tamanho fardo.


  
       

25 de janeiro de 2014

Fim de Jogo



A propósito da recente controvérsia provocada no meio esportivo mundial pela notícia do suposto desvio de dinheiro ocorrido quando da contratação de Neymar para atuar no Barcelona, notícia esta que teria ocasionado, segundo referem folhas catalãs, a demissão do próprio presidente do clube espanhol, o senhor Sandro Rosell, nada tenho para dizer, já que nada entendo de futebol, muito menos de finanças, e menos ainda de leis, sobretudo espanholas - aliás, da Espanha pouco mais sei e conheço do que o que há escrito nas gloriosas páginas de Cervantes e nas movimentadas e idílicas cenas de Lope de Vega, e talvez, se cavar fundo nos surrados alforjes de minha memória, um ou outro verso de algum poeta da terra, como estes de Garcia Lorca: 
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte
.
El aire es inmortal. La piedra inerte
Ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.
(Etc., etc., etc.)
Mas, sem embargo de minha colossal e já proverbial ignorância sobre os temas supracitados, uma ou duas palavras creio que não será de todo descabido escrever sobre este curioso episódio.
A primeira palavra diz respeito à fabulosa, estratosférica quantia de 120 milhões de reais que, segundo afirmam as mesmas folhas catalãs, teriam sido mascarados durante as negociações para a compra de Neymar, e pagos como comissão a seu pai: fiquei um pouco confuso com esta informação, talvez por falta de maior clareza no modo como foi relatada, ou de neurônios em meu cérebro, porque - isto segundo o que penso haver compreendido do que li a respeito - o agora ex-presidente do Barcelona está sendo acusado de desviar para si, justamente os mesmos 120 milhões de reais, utilizando-se para tal, do mistério e de certa aura conspiratória que, desde o princípio, marcaram os trâmites da ida de Neymar para a Espanha. Trata-se do mesmo dinheiro com todos os zeros à direita? Ou são valores distintos? Questão para averiguação posterior.  
Mas leio agora que o valor da comissão de Neymar Pai pode ter sido ainda maior. Que imbróglio! Quem poderá deslindá-lo? 
Por esta bem pode ver o leitor a enormidade de minha ignorância.
Ainda segundo as ditas publicações, Neymar teria sido comprado por um valor substancialmente superior ao que foi oficialmente divulgado por ocasião de sua contratação. Superior até mesmo ao pago por Messi, várias vezes consecutivas eleito o melhor jogador do mundo.
Um minuto de silêncio para a consternação do leitor.
A ser verdade o que se cogita sobre os contratos secretos de Neymar, sobretudo no que diz respeito a comissão paga a seu pai, bem podemos dizer que nada disto é novo em plagas brasileiras, embora seja, como é de praxe em países minimamente civilizados, objeto de imenso escândalo em solo europeu.
Afinal, por aqui, de praxe é sempre pagar um valor a mais do que o oficial, por tudo, desde um saco de cimento para a construção de uma escola (ainda se constroem escolas no Brasil, ou apenas estádios?) até um quilo de açúcar para a alimentação dos detentos do sistema carcerário. Os estrangeiros que pretendem fazer negócios em nossos tristes trópicos, a primeira coisa que aprendem - às vezes, a duras penas - é que a propina é a mola mestra, a força motriz de nossa economia, ela é que faz com que as coisas andem - verdade é que muitas vezes faz com que permaneçam inertes.
Sem a boa e velha propina nossa de cada dia, a indústria nacional talvez nem existisse.
A primeira propina já veio a bordo da nau de Cabral - pois o que era o escambo praticado com os ingênuos silvícolas, senão uma forma de propina em troca da escravização de suas almas? Cá ela aportou junto com os colonizadores, cá ela ficou depois que eles partiram, aclimatou-se, viveu uma vida longa e próspera, e deixou numerosa e ainda mais próspera descendência, até hoje indissoluvelmente ligada ao organismo estatal, como uma solitária a um intestino doente.
A segunda palavra versa sobre a renúncia do presidente do Barcelona.
Com efeito, surpreendeu-me esta notícia pelo que ela tem de inusitado, e deveras extraordinário, para olhos que se acostumaram a ver, em plagas brasileiras, dirigentes de clubes de futebol aferrarem-se a seus cargos por tantos anos que, mesmo depois de mortos, esquecem-se de se fazerem enterrar, simplesmente para não largarem o osso ou melhor, as tetas dos times que presidem e nas quais vivem a mamar copiosamente. Na Espanha, a simples suspeita de corrupção bastou para provocar a renúncia do presidente de um dos maiores clubes do mundo. Aqui, na terra onde canta não só o sabiá, mas também fazem ouvir sua voz as balas perdidas nos tiroteios dos morros cariocas e das ruas maranhenses, mesmo a comprovação da prática de corrupção não é capaz de apear um cartola de seu trono.
O exemplo salutar de Sandro Rosell bem poderia servir de inspiração a certos dirigentes brasileiros, como o senhor Mario Celso Petraglia, que, após deixar o futebol, poderia perfeitamente passar a dedicar-se ao cultivo de batatas, ele mesmo, ao invés da torcida atleticana a qual ele mandou plantá-las.
Aliás, o oceano de dinheiro já gasto na Arena da Baixada também poderia ser bem melhor aproveitado na distribuição de batatas reais, não puramente metafóricas, a famílias pobres. Matar a fome de crianças desnutridas é um investimento infinitamente melhor e mais lucrativo - do ponto de vista moral - do que torrar milhões na construção de um estádio que até corre o risco de não receber jogos da Copa do Mundo, digam o que disserem figuras de tão alto gabarito intelectual como os senhores Pelé e Ronaldo "Fenômeno".      
"Ao vencedor, as batatas". Ao perdedor, cabe descascá-las.            
        
   

19 de janeiro de 2014

A Escolha Certa


Hoje acordei sentindo uma grande vontade de naturalizar-me cidadão sueco.
Isto porque li ontem, a grata notícia de que Estocolmo, a bela e nobre capital da Suécia, por decisão praticamente unânime dos partidos políticos suecos, com o apoio, inclusive, do próprio primeiro ministro do país, o senhor Fredrik Reinfeldt, optou por desistir de tentar sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, por considerar demasiado altos os custos com os quais teria de arcar caso a cidade fosse escolhida para organizá-los. Em comunicado à imprensa, o prefeito de Estocolmo, Sten Nordin, afirmou que não poderia recomendar à Assembléia Municipal que desse prioridade ao projeto de sediar os jogos, porque - note bem o leitor o que estou a ponto de escrever - em suas próprias palavras, "precisamos priorizar outras necessidades, como a construção de mais moradias na cidade."
Belíssimo exemplo para nossas autoridades locais, não?
Referem folhas suecas que três fatores foram de crucial importância para a tomada da decisão de cancelar a candidatura de Estocolmo junto ao Comitê Olímpico Internacional. 
O primeiro: de acordo com os políticos suecos (morram de inveja os desvalidos cidadãos brasileiros!), a cidade tem prioridades infinitamente mais importantes e urgentes do que meramente servir de cenário a um evento que, apesar de sua magnitude, é tão efêmero e fugaz, que simplesmente não vale a pena investir nele a quantia necessária para sua realização. Os benefícios não compensam os custos.
O segundo: "a conta dos gastos para realizar o evento na cidade seria alta demais" - mesmo para os bolsos suecos, mais cheios e profundos do que os nossos. 
O terceiro (e para este ponto peço um pouco mais da atenção do leitor): "um eventual prejuízo com a organização dos Jogos teria que ser coberta com o dinheiro dos contribuintes". 
Eis o ponto nevrálgico da questão: o dinheiro dos contribuintes. Eis que, finalmente, o milagre supremo, pelo qual todos tão ansiosamente esperávamos, aconteceu: não somente um exemplar deste estranho e misterioso ser, a que se dá o nome de "homo políticus", mas toda uma classe de membros dessa enigmática espécie, genuinamente preocupada com o bom uso do dinheiro dos contribuintes!
De imediato, mal pude acreditar no que lia. Pus-me a esfregar os olhos uma, duas, três vezes para ver se não seria algum defeito da minha visão que me levasse a ler no jornal o que de fato não estava ali escrito. Mas estava. Não foi uma ilusão, tampouco um defeito de visão, a coisa era real, tão real quanto a cadeira em que estou agora sentado, tão real como são reais os boletos de janeiro que agora estão a assoberbar minha escrivaninha, tão real como é real o nariz estranhamente vermelho de Dilma Rousseff (será de constipação?).  
Dei um salto da cadeira e comecei a pular pela casa, de pura alegria. Entoei em alta voz, um Te Deum laudamos, em homenagem ao maravilhoso acontecimento, mas um súbito pensamento veio pôr água na fervura, o pensamento de que minha alegria talvez não se justificasse plenamente, porque não se tratava de políticos brasileiros e, sim, suecos e eu não moro na Suécia.   
Fiquei consternado com esta constatação, pois cumpre saber que, antes de me dar conta desta triste realidade, por algum misterioso e incompreensível dessaranjo no maquinismo vagaroso e truncado de meu cérebro, de ordinário tão inerte e confuso como as votações no Congresso Nacional, inadvertidamente troquei os termos da matéria: onde estava escrito "Estocolmo", li "Rio de Janeiro"  e onde havia os dizeres "Jogos Olímpicos de Inverno", meus olhos simplesmente não apreenderam a última palavra.
A nós resta-nos apenas morrer na fila dos hospitais públicos enquanto o jogo rola nas arenas durante a Copa e os atletas olímpicos disputam suas medalhas de ouro na Cidade "Maravilhosa".
Ah! Por que não nasci sueco?