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1 de janeiro de 2015

Infeliz Ano Velho


Seja qual for a visão do leitor sobre os inúmeros acontecimentos de envergadura histórica que ocorreram em 2014, tenham eles sido funestos ou alegres, sérios ou cômicos, não há como negar uma verdade insofismável: este foi, deveras, um ano intenso e atribulado, cheio de som e fúria, lágrimas e risos, agruras e delícias, um ano que começou, como começam todos os anos, prenhe de promessas gloriosas que depois não cumpriu, passou com a velocidade de um raio e terminou de forma melancólica, deixando atrás de si uma amarga sensação de desapontamento e pesar, estranhamente mesclada com um profundo e irreprimível alívio por finalmente haver se extinguido.
Quanto a mim, considero que 2014 - ano que, no princípio, me pareceu que seria assaz auspicioso, e agora que chegou ao fim, vejo que não passou de um grande engodo - poderia ter sido muito melhor do que foi, não fossem a malignidade congênita da raça humana e a própria natureza das coisas.
Infeliz 2014! Triste, pobre e doente você me encontrou, triste, pobre e doente você agora me deixa. Já vai tarde! Que venha 2015, com todas as suas novas velhas promessas e futuras ilusões desfeitas! Que pelo menos seja um pouco, só um pouco, melhor do que foi 2014!
É uma esperança frívola, bem o sei, mas ainda assim, cara ao coração. Eu talvez mereça o desprezo de Ájax.
Feliz ano novo!

11 de novembro de 2014

A Sabedoria das Ruas


Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Confesso que sou ou posso bem ser considerado um autêntico e perfeito espécime daquilo que se convencionou chamar, desde os tempos do ébrio e soturno Baudelaire, um flâneur, no melhor estilo do termo, um convicto e incurável andarilho da urbe curitibana. Cultivo o salutar e agradável hábito de caminhar, durante horas e horas, a fio, sem destino, nem hora marcada, pelas silenciosas e melancólicas, aprazíveis e poéticas ruas curitibanas, com os olhos constantemente em alerta para tudo que existe ou se movimenta ao meu redor, sempre prontos a captar e guardar, no arquivo labiríntico e multifacetado de minha memória, a beleza fugaz de instantes e gestos que, justamente por conta dessa mesma fugacidade, por não poderem jamais repetir-se, possuem um valor simplesmente inestimável, maior do que o de qualquer pepita de ouro já encontrada ou por encontrar em Serra Pelada, ainda que não devidamente reconhecido pela esmagadora maioria dos tecno-escravos de nossa opulenta e pretensamente progressista sociedade moderna, cujo tempo é quase que integralmente dedicado à busca desenfreada por lucro e status, pouco sobrando para o cultivo do espírito e do coração.
Estou sempre em busca de algo, dentro da frenética e vertiginosa selva urbana, que me emocione ou me seduza com sua novidade e seu esplendor, por mais insignificante e medíocre que aparente ser na superfície. Já descobri e vivenciei inúmeras coisas, deveras belas e inusitadas, em minhas perambulações. Coisas que os tecno-escravos que mencionei julgariam completamente sem importância porque desprovidas de real valor monetário. Desde a visão singularmente sublime e encantadora, quase paradisíaca, de uma singela e desgastada estatueta negra perdida no fundo de um jardim solitário e inóspito, com um estranho e comovente sorriso a lembrar exóticos ares orientais estampado em sua face de ébano, até a aspiração, profunda e enlanguescedora, do sutil e inebriante aroma proveniente de um vaso de flores multicoloridas e luxuriantes postado sobre o peitoril de uma janela adornada com esfarrapadas cortinas de renda, cheias de furos e marcas de cigarro, e na qual, um homem de cabelos austeramente encanecidos, fumava um cachimbo preto, com um ar ao mesmo tempo, grave e nostálgico, pensando, sabe Deus em que passagens longínquas de seus sonhos de antanho, talvez pressagiando a chegada iminente da cláusula de seus dias; de crianças jogando "bafo" (não há o que estranhar, a modernidade ainda não soterrou, por completo, nas dunas velozes do esquecimento e da desilusão, o verdadeiro significado da infância e o real valor da instituição familiar em alguns raros e heroicos lares curitibanos - eu próprio já participei de verdadeiros campeonatos improvisados deste já bastante raro esporte infantil, no qual sempre fui, confesso-o com pesar, uma gigantesca nulidade) na calçada fronteira a uma velha casa de madeira de inspiração ucraniana, sob o olhar terno e vigilante de seus pais; carrinheiros de semblante fatigado, cruelmente flagelados pela inclemência do clima e constantemente acossados pelo olhar gélido dos mais afortunados, enquanto realizam seu trabalho e procuram a sobrevivência naquilo que facilmente descartamos quando não mais nos apetece conservar; os engraxates onipresentes da Boca Maldita, tagarelas e presunçosos como somente eles sabem ser; as estátuas vivas da Rua das Flores que formam como que um museu a céu aberto, com figuras de carne e osso em exposição, e que, em troca de alguns mirrados centavos, dados, às vezes, de não muito bom grado pelos passantes, adquirem movimento e desenvoltura ante seus olhos e lhes saúdam, reverentemente, como dignos e solícitos anfitriões de um fantástico e caleidoscópico espetáculo de variedades urbanas (jamais esquecerei do olhar maravilhosamente deslumbrado de uma garotinha que recebeu um beijo na mão dos lábios de um singular e elegante "Apolo de Belvedere" e que ficou literalmente sem palavras, ao ver-se imersa em tamanho encantamento, não conseguindo acreditar que estava a ver uma estátua movimentar-se de verdade diante de si); figuras já de todo presentes no imaginário coletivo da cidade e que se tornaram características do folclore moderno curitibano, como um certo senhor com um rabo de cavalo, um pouco fora de forma, é verdade, que caminha pela rua com uma bicicleta a tiracolo, de sunga, e com o corpo todo besuntado de óleo, como se fora um corcel prestes a galopar num haras de extensão ilimitada, e a multicolorida e gentil Rainha do Papel, que transforma insignificantes embalagens de plástico em obras de arte de rara e magistral beleza; as mercadoras do amor da rua Cruz Machado, modernas sacerdotisas do mais antigo e secreto dos cultos, muitas a exalar ares lascivos de todos os poros de seus corpos desnudos, outras com uma deprimente e angustiante expressão de profundo tédio a marcar seus rostos berrantemente pintados, e que, ao cair a noite, apregoam, fazendo uso das milenares técnicas conhecidas apenas pelas legítimas descendentes da Mulher Primordial, dotes de duvidosa eficácia, e, por quantias previamente determinadas, dão aos clientes a vaga e efêmera sensação de serem verdadeiramente amados e desejados, sensação que não vale um cêntimo de um afeto real; tudo isto e mais ainda, eu vi com os olhos ávidos e perspicazes de um apaixonado escrutinador do cotidiano desta, ao mesmo tempo, cosmopolita e provinciana metrópole, sempre disposto a queimar a sola dos sapatos e pôr o cérebro para trabalhar, à procura do oculto, que nem sempre se desvela a um toque de mágica intelectual mas só depois de uma extenuante labuta aflora à superfície, e do imperceptível, que só se traduz em conhecimento quando nos esforçamos por ultrapassar e reduzir a cinzas, o soturno e teoricamente inexpugnável muro de nossos próprios preconceitos e ilusões.
Para mim, o caminhar serve sobretudo de pretexto à reflexão. A ponto de quase poder, não sem uma certa ponta de vaidade, fazer meus os célebres versos de Paulo Leminski:

Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
    Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
    Aonde vão dar esses passos?
Acima, abaixo?
    Além? Ou acaso
se desfazem no vento
    sem deixar nenhum traço?

Flanar é hábito de cronistas. De gente da estirpe de um Machado de Assis, um Rubem Braga, um João do Rio. De filósofos como Nietzche. É absorver as múltiplas facetas da vida, no que ela tem de mais puro e sublime, até nos seus aspectos mais sórdidos e execráveis. É contemplar a beleza elegante e sofisticada do Batel e a decrepitude intoxicante e pecaminosa da Vila das Torres. É saborear o drama (ou a comédia) humano até o último gole da taça do infortúnio ou do cálice da felicidade. É tomar contato com a glória e vislumbrar a podridão. É entoar panegíricos à virtude severa e um pouco triste dos franciscanos da avenida Manoel Ribas, que palmilham as ruas com os pés descalços e esfolados, pedindo donativos para suas obras de caridade, e ao mesmo tempo, vituperar a mesquinharia e baixeza inerentes ao espírito de porco do povaréu incrédulo, que enxameia as vias urbanas com seus monstros resfolegantes, a sujar o céu e a asfixiar os infelizes transeuntes que não têm a sorte de contribuir com seu pequeno quinhão para a destruição da camada de ozônio e da paz de espírito dos homens bons - se é que ainda os há neste mundo atribulado. Em suma, flanar é não apenas caminhar sem rumo pela selva urbana, mas viver, e viver mais intensamente do que quem apenas caminha em direção a um objetivo específico. O verdadeiro flâneur não se confunde com os atarefados corredores do dia-a-dia que estão sempre com os olhos voltados para o relógio (time is money!) e não têm tempo nem paciência para contemplar aspectos da vida da cidade que somente quem tem olhos experientes e isentos de qualquer vestígio de pressa ou preocupação mundana, pode efetivamente reconhecer e admirar.
Eu pertenço ao time dos que não só amam mas sobretudo enxergam este pequeno pedaço da Terra em que nos coube, por sorte, viver. E praza a Deus que eu nunca perca o desejo (ou o talento?) de continuar a flanar, pelo menos enquanto estiver com as pernas em perfeito estado - sem embargo de nos últimos tempos, senti-las cada vez mais fatigadas e até um pouco doloridas - e puder levar meus olhos para cada vez mais distantes e aparentemente inacessíveis caminhos nesta que é uma das mais belas e também turbulentas metrópoles que hoje existem sobre a face deste mundo conturbado. Assim seja.

À Guisa de Apêndice


Tencionava esboçar neste texto um amplo e objetivo panorama histórico da arte do flâneur, mas admito, compungido, que sinto-me hoje preguiçoso demais para fazê-lo. Mas para não ficar com a consciência de todo sobrecarregada por conta de mais uma entre tantas outras culpas que já me assolam o espírito, opto por recomendar ao leitor curioso e que ainda não esteja perfeitamente familiarizado e sintonizado com a bela e sublime arte de flanar, a leitura atenta e minunciosa de um breve porém esclarecedor artigo de autoria de Fernanda Passos (sem trocadilhos), Mariana Gouvêa, Raphael Tosti e Rodrigo Polito, publicado na revista Eclética (edição semestral de julho/dezembro de 2003). É um excelente trabalho e vale a pena ser examinado com mais atenção do que é de hábito nestes tempos marcados pelo imediatismo interpretativo e pela superficialidade intelectual. Talvez que uma ou outra ideia ou hipótese não esteja lá muito bem colocada, pois a perfeição não é deste mundo. Não obstante, creio que cumpre a contento a tarefa a que se propôs: deslindar as origens históricas da figura do flâneur no imaginário contemporâneo. Basta acessar o link: “O Novo Flâneur”.
Boa leitura!

11 de setembro de 2014

Odisséia Noturna


Ontem à noite, tive que correr em busca de um hospital por causa de atrozes e excruciantes dores em minha vesícula biliar, provocadas por uma imensa pedra, que, de tempos em tempos, resolve me fazer lembrar de sua existência dentro de mim. 
Aliás, há meses, mesmo em momentos de intensa alegria, quando nada de estranho sinto em meu organismo ou em minha alma - e Deus sabe que estes momentos têm sido cada vez mais raros e fugazes - tenho a nítida e funesta impressão de estar a viver perpetuamente coberto pela sombra onipresente da Grande Dor - como os californianos vivem sob a sombra do "Big One", o grande terremoto que irá separar a Califórnia dos Estados Unidos - a última e a maior de todas, que pode surgir, de uma hora para outra, sorrateiramente, das profundezas recônditas de meu frágil e perecível corpo humano, para me levar consigo, inexoravelmente, para a eternidade do túmulo. 
O medo de sofrer novas dores tornou-se-me um hábito, a ferro e fogo entranhado em meu comportamento, como uma segunda pele, de natureza psicológica, que me envolve e limita meus movimentos, uma prisão espiritual, infinitamente mais sombria e terrível do que um milhão de Alcatrazes. Pois tudo o que tenho feito nos últimos tempos é ditado por ele. Alimentos, companhias, atividades, tudo é regido pela tirania da pedra que carrego comigo.
Há meses corrói-me uma sensação semelhante a que deve sentir um rato amedrontado por entre as patas de um gato prestes a devorá-lo, gato, este, que se diverte, imensamente, com o sofrimento de sua presa, antes de comê-la. 
Para quem não entende metáforas: a figura do gato representa a pedra na minha vesícula. O rato sou eu.
Mas o pior de tudo que sofri na noite passada ainda não foi a dor na minha vesícula, foi o profundo desleixo com que fui tratado pela saúde pública de São José dos Pinhais. 
Imagine o leitor que o primeiro hospital ao qual me dirigi (de táxi; valor da corrida: R$ 23,60), o Hospital São José, antigo Hospital Atillio Talamini, no centro da cidade, se recusou a me atender, mesmo com todo meu sofrimento, visível mesmo a olhos leigos em medicina, pelo fato de meu estado representar um quadro clínico, e o hospital só atender a quadros traumatológicos. (Mas espere um pouco: o Hospital São José não é uma instituição de saúde vinculada ao SUS e administrada pela prefeitura de São José dos Pinhais? Não é, portanto, um hospital público? A Lei faculta-lhe o direito de recusar pacientes? E se ele trata apenas casos de traumatologia, então porque a propaganda governamental o elogia como centro de referência em diversas outras especialidades médicas, não traumatológicas? Mistério típico do Brasil. Do Brasil real, não do Brasil de faz-de-conta das campanhas eleitorais.)
Tentei argumentar isto com o obeso e entediado burocrata de olhos glaciais responsável pelo atendimento aos pacientes que lá chegavam, mas foi em vão. Ele apenas me olhou com um ar de profundo desprezo, senão com um leve ar de sarcasmo, meramente perceptível por um quase sorriso, mal esboçado em seu lábio inferior, oculto por uma densa e maltratada barba grisalha, e disse-me que eu até poderia tentar o atendimento no local, mas acabaria, inevitavelmente, sendo encaminhado pela triagem, ou para a UPA Rui Barbosa, ou para a unidade 24 horas do Afonso Pena (pergunta que não quer calar: quando finalmente ficará pronta a nova UPA Afonso Pena?). Ou seja, de nada adiantaria minha espera por atendimento no Hospital São José.  
Contrariado com o acinte à minha cidadania e com as minhas dores aumentando exponencialmente, lá fui eu, com minha mulher, chamar mais um táxi para me levar a UPA Rui Barbosa, para onde decidi ir primeiro, antes de tentar o Afonso Pena. Chorando de dor, sentei-me sobre um banco de pedra fronteiro ao Hospital São José, e fiquei a observar uma escola de dança localizada no outro lado da rua, onde vislumbrei, através das janelas, alguns pares, cheios de volúpia, que rodopiavam intensamente. Não pude deixar de pensar comigo que se este mundo é, como diz o autor bíblico, um vale de lágrimas, é também um grande tablado, onde se desenvolvem danças de todos os gêneros e feitios, da cracoviana ao tango, e onde os que não podem dançar, choram. Em latim: quis non saltastis lamentavimus et ploravit.
Bem-aventurados os que dançam, porque eles terão os olhos enxutos. 
Veio o táxi e pusemo-nos a caminho da UPA Rui Barbosa. Lá chegando, senti o chão abrir-se sob os meus pés, assustei-me com o tamanho monstruoso da fila de pacientes aguardando por atendimento. Cheguei a ver um grupo de pessoas visivelmente enfurecidas (deviam estar aguardando há horas por atendimento médico), discutindo acrimoniosamente com o segurança da unidade, provavelmente cobrando providências para minorar a agonia em que se encontravam naquele momento (Pergunta: por que têm de ser sempre os seguranças das unidades de saúde os bodes expiatórios para as frustrações dos pacientes, com toda a razão revoltados contra o escárnio diário a que seus direitos são submetidos pelo poder público, se os verdadeiros culpados pelas agruras que sofrem estão a quilômetros de distância, encastelados em suas torres de marfim, em Brasília, e não dão a mínima atenção para o que eles passam, a não ser em época de corrida eleitoral? Os seguranças das unidades de saúde são, o mais das vezes, tão vítimas quanto os pacientes, do sistema fratricida que vivemos neste inóspito e retrógado rincão do globo terrestre, chamado Brasil).
Ainda a bordo do táxi, decidi tomar outro rumo e seguimos caminho em direção ao 24 horas do Afonso Pena que, felizmente, estava bem menos movimentado do que a UPA Rui Barbosa (valor da corrida: R$ 30,00).
Quando lá cheguei, minha dor estava no auge de sua intensidade, cascatas de lágrimas brotavam de meus olhos e em lugar de palavras, só conseguia responder com monossílabos e gritos guturais ao que as pessoas ao meu redor, com inclusão de minha mulher, me perguntavam. A enfermeira que fez minha triagem, bastante solícita e prestativa, priorizou meu atendimento, e eu fui logo me consultar com uma excelente médica, que me prescreveu os medicamentos adequados para tratar minha crise, por via venal. Não demorou muito e finalmente pude sentir o alívio que tanto procurei em meu périplo noturno pelos prontos-socorros de São José dos Pinhais. Mas ainda me encontrava extremamente agitado e logo que o soro com os medicamentos acabou, encaminhei-me, com o acesso pingando sangue, para o consultório da médica que havia me atendido, para pedir-lhe um calmante para minorar minha ansiedade. Assim que o tomei, adormeci imediatamente. E depois fui liberado para voltar para casa. Mais uma vez, de táxi. (valor da corrida: R$ 25,00).
Valor total das corridas de táxi: R$ 78,60 na bandeira 2 (soma verdadeiramente estratosférica para quem, como eu, encontra-se desempregado). Preço pago pelo recurso à saúde pública de São José dos Pinhais: minha dignidade.
Ainda faltam dois longos e dolorosos meses para poder operar minha vesícula.  



          

28 de junho de 2014

O Peso da História

O assassinato de Francisco Ferdinando

Há cem anos, um tiro foi disparado em Sarajevo. Um tiro fatal e histórico, o tiro que matou o príncipe herdeiro do trono austro-húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando, disparado, de modo certeiro e inexorável, pelo terrorista sérvio Gavrilo Princip, tiro, este, que provocou, por uma vertiginosa e verdadeiramente apocalíptica avalanche de absurdos diplomáticos, os mais disparatados e incongruentes, a eclosão da Primeira Guerra Mundial, e mudou, radicalmente, o rumo da história da humanidade, rumo que - fruto do otimismo intenso e ingênuo dos primeiros anos do século XX - até aquela data fatídica, acreditava-se que levaria a um futuro glorioso de paz e progresso ilimitados.
Pelo contrário – veja o leitor como pequenos gestos, aparentemente insignificantes e despropositados, podem, muitas vezes, desencadear grandes eventos históricos - por conta de um simples disparo de uma arma de fogo, efetuado por um ilustre desconhecido de um inóspito rincão do leste europeu, disparo que acendeu o estopim do grande barril de pólvora balcânico - ainda hoje aceso a intervalos mais ou menos regulares – a otimista e alegre sociedade dos albores do vigésimo século depois de Cristo - leia-se o primeiro capítulo da magistral autobiografia de Stefan Zweig - acabaria por sofrer as agruras e as excruciantes dores de quatro longos e tempestuosos anos cheios de lama e sangue nas trincheiras européias.
A Primeira Guerra Mundial findou em 1918. Mas ainda sentimos seus efeitos. Ela foi a precursora direta da Segunda Guerra Mundial. O tratado de Versalhes que a selou, prostrando a Alemanha aos pés de seus inimigos, acabou por gerar o nazismo e seu principal artífice, Hitler, que levaria o mundo a enfrentar a agonia de um novo morticínio, numa escala de maldade e brutalidade ainda maior do que a experimentada na Primeira Guerra ou em qualquer outro período da história humana.
O mundo caótico e violento de hoje é a infeliz e turbulenta herança da grande catástrofe de 1914. Inúmeros conflitos armados, extremamente sangrentos, atualmente espalhados pelo mundo, sobretudo nos rincões do oriente Médio que restaram após o esfacelamento do império otomano, tiveram sua semente plantada durante a Primeira Grande Guerra. O Estado Islâmico, com seus cortadores de cabeças e violentadores de mulheres, é um de seus mais monstruosos e indigestos frutos - senão o mais monstruoso e indigesto.  A geração de 1914 há muito já não caminha sobre a Terra, mas o peso da História que ela nos legou, ainda se faz sentir sobre os ombros da nossa geração. Dolorosamente.      

25 de junho de 2014

Apocalipse Zumbi



Acabo de descobrir que estou com uma imensa pedra na vesícula, aparente causa imediata e funesta das dores atrozes e terrificantes que venho sofrendo nos últimos tempos, dores que, inúmeras vezes, ao longo deste ano, me levaram ao hospital e me fizeram chorar lágrimas extremamente amargas. Péssima notícia, indubitavelmente. Mas receio que o exame a que me submeti para detectá-la tenha errado o órgão em que a pedra está alojada. Suspeito estar com ela no coração, ao invés de na vesícula, tamanho o peso que sinto carregar dentro do meu peito. Mas tal não parece ser o caso. Pelo menos, por enquanto.
Por enquanto, o que há no meu peito, é uma floresta morta, como no poema de Kilkerry. E que pesa muito mais do que uma simples pedra, mesmo que drummondiana. 
Mas neste mundo, tão imensamente hostil e desolado, há não apenas pessoas que carregam gigantescas pedras em seus corações - por conta disto, extremamente pesados e cheios de amargor - como há também aquelas cujo próprio coração, em si, já se encontra completamente petrificado, e sem o mínimo sinal de vida; pessoas que, embora caminhem sobre a terra, respirem profundamente, paguem seus impostos em dia, e despreocupadamente tomem seu desjejum pela manhã, estão mortas, irremediavelmente mortas, por dentro, com o único detalhe de que se esqueceram de se fazer sepultar. Não se deram, ainda, conta de que morreram. Simplesmente "não lhes caiu a ficha".
Posso apontar uma meia dúzia de cadáveres errantes, vistos in loco, nos mais variados lugares e ofícios, desempenhando as mais diversas funções, falando e gesticulando, até efusivamente, como se vivos estivessem.
Mas o "apocalipse zumbi" já começou. Há mortos-vivos entre nós. Não é mais necessário assistir aos seriados norte-americanos para vê-los. Basta manter os olhos abertos para observá-los, pois estão em todos os lugares: nas filas dos caixas, nos bancos das praças, nas reuniões de condomínio, nas repartições públicas (principalmente nas repartições públicas), nos cultos dominicais, etc. Um deles pode até estar ao seu lado neste momento, e devorá-lo, sem você nem perceber.
À diferença dos seriados e filmes hollywoodianos e congêneres, os zumbis a que me refiro não têm os corpos putrefatos e desmembrados, apenas a alma. Não deixam, atrás de si, um rastro fétido de sangue e destruição, mas um ambiente carregado de profunda tristeza e solidão, como o que emana das telas magistrais de Edward Hopper - o que é ainda pior do que ser devorado por um zumbi cinematográfico.  
Tenhamos medo. Muito medo.   

17 de junho de 2014

Durante o Intervalo


Antes do reinício da pífia partida entre Brasil e México, e a tempo de que o leitor possa tranquilamente encaminhar-se à cozinha para refrescar-se com um copioso gole de água, ou uma boa cerveja gelada (isto nos tórridos rincões do norte; no sul, o melhor é recorrer a um bom "quentão" com gemada, para aguentar o frio), permita-me fazer-lhe apenas uma breve e algo irreverente pergunta: será que não há nada mais relevante acontecendo no mundo - e principalmente no Brasil - do que a Copa do Mundo? Nenhuma guerra fratricida, nenhuma grande catástrofe ecológica, nenhuma grave crise econômica, nenhum hediondo esquema criminoso? Se há, a mídia não tem mostrado. E como só existe o que ela diz que existe, não passando de pura ficção o que ela se recusa a reconhecer como real, e a julgar pela espalhafatosa, multicolorida, e, seja-me permitido dizê-lo, um tanto boçal alegria dos milhares de sorridentes e barulhentos torcedores que vemos, em todos os jogos deste mundial, a gritar, em uníssono, diante das câmeras, o glorioso nome de nosso amado (e ingrato) país, demonstrando, algo histericamente, seu intenso orgulho patriótico, então finalmente a grande utopia brasileira se materializou, todos os graves problemas nacionais subitamente desapareceram, como num passe de mágica, e estamos a viver no melhor dos mundos. 
Pelo menos até o mundial acabar e o grande circo eleitoral começar.

3 de abril de 2014

Contra a Sinceridade

Dedicado especialmente a B., G., N. e T. M., as quatro amazonas do apocalipse, involuntárias musas inspiradoras deste texto.


Palavras são armas. Armas infinitamente mais poderosas e letais do que as utilizadas no conflito em curso na Síria. Armas de fogo podem ferir, e até mesmo destruir, por completo, e irremediavelmente, o corpo de quem estiver na linha de tiro, mas palavras podem matar uma alma. Quantos rocambolescos e quixotescos e ainda assim, caros  e generosos sonhos já não foram completamente destruídos e soterrados por uma palavra cruel ou simplesmente inoportuna, dita num momento crucial, definidor de toda uma trajetória de vida? Quantos pobres e ardorosos corações já não foram irremediavelmente partidos e aniquilados por conta de uma palavra ferina e amarga, pronunciada sob o soturno influxo da dor e da mágoa? Quantas crianças já não tiveram o sublime e imponente castelo de cartas de sua idílica e multicolorida infância, brutalmente desmantelado pelo gélido e espectral sopro de uma palavra atroz e devastadora?
Porque as palavras possuem um poder imenso, absolutamente avassalador, cuja grandeza e magnitude são incomensuráveis, difíceis de imaginar, até mesmo para o artista mais prolífico e criativo. Elas são capazes tanto de construir impérios quanto de reduzi-los a escombros, podem tanto encher um coração de esperanças quanto precipitá-lo inexoravelmente no mais profundo e absoluto abismo do desespero, podem tanto propagar a verdade quanto disseminar a mentira, e, porque elas são também amorais, podem perfeitamente servir a mais do que a dois senhores ao mesmo tempo, ser tanto portadoras da paz quanto propagadoras do ódio e da tirania. 
Penso que as pessoas deveriam procurar tomar o máximo cuidado com as palavras que pronunciam ou escrevem ao longo de suas breves e frágeis vidas, não apenas por uma questão estética, como soem fazer os escritores, mas sobretudo por uma questão da mais alta relevância moral, como soem fazer os pregadores e os teólogos. Nossas línguas são metralhadoras e as palavras que delas brotam são a munição com a qual alvejamos aqueles que nos cercam. Talvez seja por isso que o mundo moderno tenda a se tornar cada vez mais violento e caótico, porque esquecemos do poder altamente devastador das palavras, e quiçá, também por isso, nos dias que correm, torna-se uma tarefa cada vez mais difícil e hercúlea sustentar um diálogo minimamente equilibrado e civilizado com nossos oponentes, sem precipitações e com ao menos uma pequena dose de bom senso.
Há pessoas que confundem sinceridade com incivilidade. Pessoas que, sob o lindo, maravilhoso, encantador, idílico e celestial pretexto de cultivar as heroicas e sumamente nobres virtudes da sinceridade e da firmeza de caráter, não hesitam em expressar claramente - e sem "papas na língua", como diz a velha figura de linguagem, muito em voga nos meios midiáticos e culturais oficiais - tudo o que verdadeiramente lhes passa pelo cérebro febril e ébrio, sem antes submeter suas ideias e opiniões ao filtro depurador do bom senso e também, em última instância, da boa educação. São pessoas que, mesmo sem você pedir, não se furtam a expressar, em alto e bom som, e para todos os infelizes basbaques ao seu redor, sem atentar, sequer por um segundo, para as mais básicas e elementares leis da etiqueta, suas opiniões - reveladas como verdades absolutas e inquestionáveis - sobre tudo e todos, desde a aurora boreal até o gol-contra marcado no jogo do fim-de-semana, passando pelo figurino estrambótico de Lady Gaga, a renúncia de Bento XVI, as brigas no Big Brother e a tetraplegia do leão Ariel. E também não medem palavras na hora de tecer comentários sobre sua aparência ou seu comportamento, mesmo que você não tenha sequer cogitado a mais remota possibilidade  de solicitar tais comentários.
Conheço pelo menos quatro pessoas dessa estirpe - por sinal, as musas inspiradoras deste artigo - (na verdade, bem mais do que quatro, mas não vou falar sobre elas, agora, por falta de tempo e economia de espaço) que têm o péssimo, nefando, execrável hábito, de dizer àqueles com quem convivem, mesmo sem para tanto terem sido solicitadas, tudo que pensam e sentem, sem medirem, sequer por uma fração de segundo, as consequências nefastas de seu descalabro retórico, dizendo sempre o quão cheias de defeitos e ruins os outros - sempre os outros - são, não deixando de evidenciar, por tabela, e sob uma máscara de falsa modéstia, sua própria perfeição, e isso com a professa intenção de ajudá-los a se aperfeiçoarem por sua vez. Mas elas próprias não conseguem enxergar suas próprias deficiências, e se alguém comete a temeridade de apontá-los, torna-se, ex abrupto, o infeliz alvo preferencial de seus petardos verbais. Chamam sinceridade ao que é apenas a mais pura e simples grosseria. 
Nada há que me irrite e desgoste mais profundamente do que a verborréia insípida e autossuficiente dos que se julgam os monopolistas da verdade. Aos ouví-los discorrer, de alto de sua ilusória onisciência, com tamanha soberba e tão prolixamente, sobre tudo que há entre o céu e a terra, no fundo dos mares, e nas alcovas ministeriais, tenho, juro-o com o coração nas mãos, a infernal e quase irreprimível tentação de lançar sobre eles a maldição que Latona lançou contra os camponeses da Lícia que lhe negaram água para saciar sua sede e a de seus filhos, pois das rãs eles já tem o coaxar incompreensível, só lhes falta o corpo de anfíbios.
Reconheço que a sinceridade, em si mesma, como valor e ideal, é, de fato, uma virtude. Mas a urbanidade também o é.
Como diz  Machado de Assis:
"Tudo pede certa elevação. Conheci dous velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: 'Caro major!' -'Pronto, comendador!' — Variavam às vezes: — 'Caro comendador!' -'Aí vou, Major' . Tudo pede certa elevação".
Sim, tudo pede certa elevação. Na verdade, a elevação que Machado julga tão necessária nas relações humanas, parece cada vez mais ausente da vida em sociedade. A começar pelos pequenos, simples gestos de incivilidade explícita praticados no conturbado cotidiano de nossas atribuladas metrópoles: uma fila no supermercado em que um cidadão mais afoito rouba nosso lugar sob a desculpa do atraso para voltar ao trabalho ou pegar o filho na escola; o jovem fisicamente perfeito que ocupa o assento preferencial no ônibus e finge dormir enquanto uma gestante ou idosa fica em pé ao seu lado, sendo jogada de um lado para outro da grande lata de sardinha sobre rodas (pois o que são nossos ônibus urbanos senão isto?), enquanto o motorista da dita lata, que mais parece ser um condutor de um vagão de gado, reflexo direto da bovinização acelerada de nossa sociedade, já em curso, infringe todas as leis da boa educação para com seus passageiros e às vezes até as de trânsito, impunemente; o policial que abusa dos direitos que lhe confere a farda e passa a agir exatamente como aqueles a quem ele deveria, em tese, combater, ultrajando, de forma truculenta e irresponsável, a cidadania de pessoas de bem, enquanto os verdadeiros criminosos continuam soltos, muitos deles lotados nos gabinetes de seus superiores hierárquicos; o jornalista que humilha garis em rede nacional; todos são  exemplos claros e inequívocos do estado anêmico, periclitante, moribundo, terminal, em que se encontra a civilidade, o único escudo capaz de nos proteger de nosso monstro interior.
A profissão da sinceridade não pode ser pretexto para a falta de educação.
Falando agora em causa própria, quero alertar aos que porventura estiverem a ler este singelo texto, que dispenso e quero que fique longe de mim a dita sinceridade daqueles que estufam o peito, empinam o nariz e enchem a boca para dizer a quem estiver por perto, o quão honestos e íntegros são (logo chamando a todos que não comungam de seus preconceitos e achismos, de desonestos e prostituídos), pois estas mesmas sinceridade e integridade muitas vezes não passam de máscaras, artifícios usados para encobrir a mais absoluta falta de civilidade (e também inocuidade mental) da parte de seus cultores. Exemplo clássico do que afirmo é um certo comentarista esportivo que adora falar o que pensa e faz dos ouvidos de sua audiência a cuba sem fundo de suas sandices conspiratórias.
Não quero que me digam o que pensam ao meu respeito sem que eu o solicite. Não quero que me falem do sol e da lua se eu nada quiser ouvir do sol e da lua. Já tenho plena e absoluta consciência de minha calvície crescente e minha adiposidade já bastante pronunciada, não preciso que me lancem ao rosto o quão calvo e gordo estou, como o faz uma certa pessoa, sempre que me vê.
Entendamo-nos: logicamente não estou a fazer aqui uma espécie de apologia da hipocrisia, como pode parecer a um leitor mais superficial e apressado (como é a maioria dos comentaristas atuantes na blogosfera brasileira). Pelo contrário. reputo a hipocrisia como o mais hediondo e nefasto dos vícios humanos. A honestidade é vital. Faço apenas uma singela defesa do decoro por parte daqueles que dizem professá-la, pois "a honestidade, sem as regras do decoro, transforma-se em grosseria" (Confúcio). 
Verdade seja dita, o Marquês de Maricá estava coberto de razão, quando afirmou:
"Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade".

Vã e triste criatura é o homem! Ama a verdade mas não pode viver sem a mentira. Melhor seria que nunca tivesse sido criado. Mas já que o foi, o melhor que tem a fazer é viver com uma máscara pregada ao rosto. Do contrário, resta-lhe fazer como Espurina, em Montaigne: rasgar a própria face.
  

2 de fevereiro de 2014

Phillip Seymour Hoffman (1967-2014)


Sinto como se um véu de profunda tristeza e devastador desespero tivesse subitamente descido sobre o mundo, agora que leio, consternado, e ainda incrédulo, a estarrecedora notícia do súbito e estúpido falecimento do magnífico e inigualável ator Phillip Seymour Hoffman, ganhador do Oscar de 2005, por sua brilhante e verdadeiramente inesquecível atuação no filme "Capote", de Bennett Miller, atuação superada, apenas, em minha modesta opinião, pelo seu magistral e emocionante desempenho no belíssimo "Com Amor, Liza" (2002), de Todd Louiso. 
Informações preliminares dão conta de que seu corpo foi encontrado na banheira do apartamento em que morava, em Greenwich Village, Nova York. Afirmam fontes anônimas que com uma agulha espetada no braço. Segundo um famoso tablóide norte-americano, a causa da morte teria sido overdose, possivelmente de heroína. O ator, certa vez, reconheceu, publicamente, enfrentar problemas com substâncias ilícitas, e teria sido internado em maio passado em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. 
A ser verdade, Hoffman seria então a mais nova vítima de talento a ter sua vida prematuramente ceifada pelas "fleurs du mal", mais uma entre tantas outras que nos deixaram tão precocemente e de forma tão abrupta e inexplicável, como Elis Regina, Jimi Hendrix, Jim Morrison, River Phoenix, Heath Ledger, Amy Winehouse, e tantos, tantos outros... A contagem seria longa e pesarosa, efetuá-la seria o mesmo que contar os corpos espalhados sobre um campo de batalha, encharcado de sangue, após o fim de um combate, atividade que, além de inútil - pois que é a guerra, senão o mais inútil dos fenômenos humanos? - é propícia somente aos que têm estômagos fortes. Não é o meu caso, já que sofro de dispepsia.
Por ora, limitemo-nos a lamentar esta perda irreparável, e ponhamo-nos a rever suas representações primorosas para aplacar um pouco a dor. É o que vou fazer. Trago o "Capote" comigo.        
     

19 de janeiro de 2014

A Escolha Certa

Brasão de Armas Maior do Reino da Suécia

Hoje acordei com uma grande vontade de virar sueco.
Isto porque li, ontem, a grata notícia de que Estocolmo, a bela e nobre capital da Suécia, por decisão praticamente unânime dos partidos políticos suecos, com o apoio, inclusive, do próprio primeiro-ministro do país, o senhor Fredrik Reinfeldt, optou por desistir de tentar sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, por considerar demasiado altos os custos com os quais teria de arcar caso a cidade fosse escolhida para organizá-los. Em comunicado à imprensa, o prefeito de Estocolmo, Sten Nordin, afirmou que não poderia recomendar à Assembléia Municipal que desse prioridade ao projeto de sediar os jogos, porque - note bem o leitor o que estou a ponto de escrever - em suas próprias palavras: "precisamos priorizar outras necessidades, como a construção de mais moradias na cidade."
Belíssimo exemplo para nossas autoridades locais, não?
Referem folhas suecas que três fatores foram de crucial importância para a tomada da decisão de cancelar a candidatura de Estocolmo junto ao Comitê Olímpico Internacional. 
O primeiro: de acordo com os políticos suecos (morram de inveja os desvalidos cidadãos brasileiros!), a cidade tem prioridades infinitamente mais importantes e urgentes do que meramente servir de cenário a um evento que, apesar de sua magnitude, é tão efêmero e fugaz, que simplesmente não vale a pena investir nele a quantia necessária para sua realização. Os benefícios não compensam os custos.
O segundo: "a conta dos gastos para realizar o evento na cidade seria alta demais" - mesmo para os bolsos suecos, mais cheios e profundos do que os nossos. 
O terceiro (e para este ponto peço um pouco mais da atenção do leitor): "um eventual prejuízo com a organização dos Jogos teria que ser coberto com o dinheiro dos contribuintes". 
Eis o ponto nevrálgico da questão: o dinheiro dos contribuintes. Eis que, finalmente, o milagre supremo, pelo qual todos tão ansiosamente esperávamos, aconteceu: não somente um exemplar deste estranho e misterioso ser, a que se dá o nome de "homo políticus", mas toda uma classe de membros dessa enigmática espécie, genuinamente preocupada com o bom uso do dinheiro dos contribuintes!
De imediato, mal pude acreditar no que lia. Pus-me a esfregar os olhos uma, duas, três vezes para ver se não seria algum defeito da minha visão que me levasse a ler no jornal o que de fato não estava ali escrito. Mas estava. Não foi uma ilusão, tampouco um defeito de visão, a coisa era real, tão real quanto a cadeira em que estou agora sentado, tão real como são reais os boletos de janeiro que agora estão a assoberbar minha escrivaninha.  
Dei um salto da cadeira e comecei a pular pela casa, de pura alegria. Entoei em alta voz, um Te Deum laudamos, em homenagem ao maravilhoso acontecimento, mas um súbito pensamento veio pôr água na fervura, o pensamento de que minha alegria talvez não se justificasse plenamente, porque não se tratava de políticos brasileiros e, sim, suecos, e eu não moro na Suécia.   
Fiquei consternado com esta constatação, pois cumpre saber que, antes de me dar conta desta triste realidade, por algum misterioso e incompreensível dessaranjo no maquinismo vagaroso e truncado de meu cérebro, de ordinário tão inerte e confuso como as votações no Congresso Nacional, inadvertidamente troquei os termos da matéria: onde estava escrito "Estocolmo", li "Rio de Janeiro"  e onde havia os dizeres "Jogos Olímpicos de Inverno", meus olhos simplesmente não apreenderam a última palavra, lendo apenas "Jogos Olímpicos".
A nós, brasileiros, resta-nos apenas morrer na fila dos hospitais públicos enquanto o jogo rola nas arenas durante a Copa e os atletas olímpicos disputam suas medalhas de ouro na Cidade "Maravilhosa".
Ah! Por que não nasci sueco?