terça-feira, 20 de junho de 2017

O Direito ao Silêncio

Umberto Eco (1932-2016)
Não gosto de polêmicas. Absolutamente. Fujo delas como o diabo, da cruz e os sonegadores, do fisco. Abomino-as. Simplesmente não as suporto. Nunca as suportei. Jamais as suportarei. Sofro do mesmo mal de que o inigualável Machado de Assis dizia sofrer o célebre conselheiro Aires: "tédio à controvérsia". E há tempos, adotei como lema, um velho adágio, também citado por outro famoso personagem machadiano: "mais vale uma onça de paz do que uma libra de vitória". Acho de uma tolice e infantilidade extremas, o hábito de provocar celeumas apenas pelo prazer de provocá-las. Ou, em linguagem facebookiana, "tretar" por "tretar". Por isso, tenho evitado, o quanto posso, entrar em discussões, nos últimos tempos, sobretudo as políticas, tanto na vida real, quanto na virtual - principalmente nesta última.
Não significa isto, porém, que eu não me interesse por política. Pelo contrário, interesso-me profundamente. Tanto que desejo, inclusive, graduar-me na área. Considero-a um tema de vital importância e não pretendo deixar de emitir meus humildes comentários sobre a matéria, uma vez ou outra. E é claro, outrossim, que tenho as minhas opiniões políticas e minhas preferências partidárias particulares, como qualquer outro cidadão deste país. Não me sinto, porém, obrigado a expressá-las, o tempo todo, neste espaço. O direito à liberdade de expressão é um bem de extrema importância, base do Estado Democrático de Direito e deve ser constantemente defendido e aprimorado para salvaguardar nossa cidadania. Mas o direito ao silêncio é igualmente importante e precioso e deve, penso eu, ter o mesmo respeito e proteção que o direito à liberdade de expressão. Numa autêntica democracia, é preciso respeitar tanto o direito que Fulano tem de expressar o que pensa, quanto o direito que Beltrano tem de não expor suas opiniões.
Sim, conheço perfeitamente aquele célebre ditado que diz: "quem cala, consente". E também a famosa cantilena de Brecht sobre o "analfabeto político", com a qual, diga-se, de passagem, concordo inteiramente. Mas não se trata, aqui, Deus me livre, nem de consentimento tácito para com nossas mazelas atuais, nem de puro e simples analfabetismo político. Quando julgo absolutamente indispensável fazê-lo, eu não hesito em expressar clara e abertamente minhas posições e críticas a atos governamentais que considero nocivos aos interesses da sociedade brasileira (raros não o são) e não meço palavras ao tecê-las. Apenas não tenho a mesma compulsão opinativa de que sofre a imensa maioria dos comentaristas do Facebook e de outras redes sociais, além da blogosfera, sobretudo quando se trata de assuntos que não domino inteiramente (e são muitos, inumeráveis, os assuntos que não domino). Sem contar que a política brasileira contemporânea encontra-se, na presente quadra histórica, num tal estado de confusão e complexidade, que chego a desconfiar seriamente de que até quem é do ramo ou se dedica ao seu estudo, nada ou muito pouco consegue entender da atual situação do país. Quanto menos eu, que, embora tenha lido alguns livros sobre o tema, não passo de um profundo ignorante! Além do mais, há tanta gente a escrever sobre política, nos últimos tempos, na blogosfera, na grande e pequena mídia e nas redes sociais, que não penso que vá fazer grande diferença no panorama geral, o que eu vier a dizer a respeito. Minha voz seria apenas mais uma a clamar no deserto. Mesmo porque ninguém parece estar disposto a ouvir o que o outro têm para falar. Estão todos tão preocupados em expressar, alto e bom som, suas verdades absolutas, que permanecem com os ouvidos absolutamente fechados para as opiniões alheias e sequer param para pensar, ainda que por um mísero segundo, que tais verdades absolutas podem não ser tão absolutamente verdadeiras, como gostariam. A internet é, hoje, uma imensa assembléia de surdos. Todos falam, mas ninguém escuta.
Sempre que me ponho a refletir sobre o nível abissal das discussões políticas do momento - principalmente, mas não apenas, no Brasil - não me posso furtar à triste e amarga conclusão de que, apesar de todo o progresso científico, tecnológico e educacional que experimentamos nas últimas décadas, neste quesito, especificamente, o debate público, ainda não saímos da Idade da Pedra. O sombrio diagnóstico de Umberto Eco sobre o predomínio dos "idiotas da aldeia" na era das redes sociais revelou-se, infelizmente, verdadeiro.
Ao contrário da quase totalidade dos usuários do Facebook e afins, não tenho fumos de juiz, não me atrai a ideia de julgar ninguém, seja quem for. Procuro sempre seguir, na medida do possível, a sábia máxima bíblica: "não julgueis para não serdes julgados". Estou sempre, como se diz, "em cima do muro", e pessoalmente considero ser esta a melhor posição para vislumbrar, de forma minimamente equilibrada e objetiva, todos os lados e ângulos possíveis de uma determinada questão, antes de tomar partido sobre ela. É uma posição bastante confortável, no final das contas. Meus críticos de esquerda, muitas vezes, acusam-me de ser um "fascista mascarado", meus críticos de direita, por sua vez, chamam-me de "comunista enrustido", quando não de coisas ainda piores.  
Enganam-se e ao mesmo tempo acertam meus críticos de ambos os lados. A verdade é que não gosto de rótulos ideológicos, tenho-lhes verdadeiro horror, acho-os verdadeiras camisas de força intelectuais, antolhos mentais que só servem para esterilizar e paralisar o livre pensamento e não levam a lugar algum, a não ser ao inferno, quase no sentido mais literal da expressão. E o fato é que sou uma espécie de ornitorrinco político, uma criatura híbrida, incongruente e inexplicável, um verdadeiro elo perdido entre Hobbes e Rousseau, ou, mais modernamente, entre Adam Smith e Karl Marx - ao mesmo tempo, um progressista conservador e um reacionário revolucionário - se tal coisa for possível debaixo do sol. Creio, como Aristóteles, que a verdade está no meio termo.
Uma boa amostra deste meu hibridismo ideológico, é meu pensamento com relação ao que julgo que deve ser o verdadeiro papel do Estado em nosso país. Nossas deficiências em inúmeras áreas (econômicas, educacionais, estruturais, sociais) são tão profundas e gritantes e estão de tal forma incorporadas nas próprias bases de nossa vida nacional, que chega a ser pura ingenuidade acreditar que a simples ausência do Estado, com a delegação de suas funções para a iniciativa privada, poderá saná-las. Acreditar que se pode prescindir totalmente do Estado, no Brasil, é tão utópico e irrealista quanto crer que o Estado, por si só, pode resolver todos os nossos problemas.
Sou, no entanto, plenamente favorável ao Estado mínimo. Com a devida ressalva, porém, de que nosso Estado mínimo não poderá ser e provavelmente jamais será tão mínimo quanto o Estado de Hong Kong, Singapura e outros bastiões neoliberais. No Brasil, Estado mínimo é, invariavelmente, sinônimo de Estado ausente, e ausente onde justamente ele se faz mais necessário, onde a iniciativa privada não tem interesse em atuar, por não ser lucrativo. O que fazer com a população que é, ao mesmo tempo, desassistida pelo Estado e desprezada pela iniciativa privada? Relegá-la à própria sorte? Deixá-la morrer à míngua?
Mas, frisemos, este blog não tem nenhum objetivo específico a conquistar, nem para o bem, nem para o mal. Não levanta nenhuma bandeira. É apenas um espaço criado para servir como o repositório virtual de alguns dos meus achismos e pensamentos sobre a vida e o cotidiano e auxiliar minha memória, quando necessário. Não tem o objetivo de salvar o mundo (como tantos outros blogs e perfis em redes sociais parecem ter) nem de influenciar o ponto de vista de ninguém. Não me peçam respostas. Eu não as tenho nem para as minhas próprias perguntas.  
Então por que o escrevo? Ora, escrevo-o apenas para exercer o meu direito constitucional à liberdade de expressão - pois o direito que não se exerce é um direito que não existe. Não deixa de ser um ato de cidadania, de minha parte - um ato político, em suma. 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Guerras nas Estrelas

Neil deGrasse Tyson
Concordo plenamente com o ponto de vista de Neil deGrasse Tyson sobre a possibilidade de ocorrerem guerras espaciais no futuro. Enquanto não acabarmos com as guerras na Terra - e a hipótese da eclosão de uma nova guerra terrestre de proporções planetárias parece, a cada dia, mais provável, levando-se em conta, por exemplo, o recente e exponencial aumento dos gastos militares das principais potências mundiais contemporâneas - não poderemos ter sequer a mais vaga e remota esperança de evitá-las no espaço, quando tivermos a tecnologia necessária para executá-las - supondo-se, é claro, que nós, a raça humana, ainda estejamos vivos para guerrearmos entre as estrelas, num futuro não tão distante assim.
O progresso científico não leva, necessariamente, ao progresso moral. A verdadeira viagem que o homem precisa fazer, não é para o espaço, mas para dentro de si mesmo. A alma humana continua a ser o mais inexplorado e misterioso de todos os universos.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Ferro e Sangue

Otto von Bismarck (1815-1898)
Parece que a moda do momento na mídia politicamente correta, é postar denúncias de "maus tratos" a soldados no interior dos quarteis do Exército. Alguns jornalistas (civis, é claro, e, na sua grande maioria, talvez na sua totalidade, de esquerda) indignados com os rigores da vida na caserna, escrevem longos e virulentos editoriais e matérias contra o que qualificam como "violações aos direitos humanos dos jovens recrutas". 
Ora, senhores jornalistas, supremos portadores da Verdade, da Luz e da Justiça, perdoem-me a franqueza, não é minha intenção chocar a sensibilidade de ninguém, afinal, odeio ser desagradável - sem falar que nutro um imenso e profundo respeito e admiração pelo ofício que os senhores exercem - mas não posso deixar de apontar para o triste e cruel fato de que a vida militar é diferente da vida civil. O que vale para a vida civil, não vale para a vida militar. O que a mídia dos contos de fadas tão espalhafatosamente denuncia como "abusos" contra os novos soldados, é, na verdade, parte crucial da formação militar. Um soldado tem que estar preparado para suportar estoicamente a dor e o sofrimento e, sobretudo, dominar o medo. Não se pode treinar soldados com as mesmas técnicas com que se treinam modelos de passarela. O ofício do soldado é matar, não distribuir acenos e beijinhos para a multidão. As forças armadas são uma escola de virilidade. Crescit in egregios parva juventa virus. Homens de fibra, naturalmente. Homens de geleia não podem ser autênticos soldados. Um soldado de verdade, mesmo em tempos de paz, tem que estar sempre preparado para a guerra, tem que viver, a cada dia, como se fosse matar e morrer no dia seguinte. 
Naturalmente, casos extremos como este, devem ser prontamente combatidos e evitados. No entanto, é preciso lembrar que humilhações e torturas estão presentes em todas as guerras, sem exceção, e os soldados têm que estar preparados para enfrentá-las. (Os soldados de elite dos Estados Unidos, por exemplo, sofrem torturas em seus treinamentos, para aprender a controlar a dor e não passar informações estratégicas aos seus inimigos, em caso de captura.) Não quer isto, porém. dizer que eu esteja a defender a humilhação e a tortura como táticas válidas de guerra. Pelo contrário, abomino-as, tal como abomino a guerra e tudo o que com ela se relaciona. Não, eu não amo a guerra. Como Tolkien, "não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem". Mas não fecho meus olhos diante da realidade. Guerras, às vezes, são necessárias. Como disse John Stuart Mill: 
"A guerra é uma coisa feia, mas não é a coisa mais feia: o estado deteriorado e degradado do sentimento patriótico e moral, onde se pensa que nada vale uma guerra, é muito pior. Uma guerra em que as pessoas são utilizadas pelo serviço militar em função do egoísmo de um líder, como mero instrumento humano para disparar canhões ou empunhar baionetas, é uma guerra que degrada este povo. Já na guerra em que se luta para proteger outras pessoas da injustiça tirânica, onde se busca a vitória em razão do que se crê ser o certo e bom, onde a batalha é tomada como causa própria, exercida por um propósito honesto e por sua escolha livre, é, muitas vezes, o meio da regeneração deste povo. O homem que não tem algo pelo qual esteja disposto a lutar, nada que seja mais importante do que sua própria segurança pessoal, é uma criatura miserável e não tem qualquer chance de ser livre, a não ser que o seja em consequência da grandeza e dos esforços de homens melhores do que ele. Enquanto não cessa essa luta diária entre justiça e injustiça que faz a humanidade avançar em suas relações, as pessoas devem se dispor, sempre que necessário, a batalhar umas contra as outras".
Infelizmente, é assim que o mundo funciona. A base de guerras. E guerras - desculpem-me os horrorizados jornalistas de esquerda que, mesmo na idade adulta, ainda enxergam o mundo com o óculos cor-de-rosa da infância - não se vencem com flores e discursos, mas com ferro e sangue, como já disse Bismarck. É uma triste verdade, mas assim é o mundo. Cão come cão. É adaptar-se ou perecer, ignobilmente.



quarta-feira, 5 de abril de 2017

Guerra Civil na Marvel (Pós-Escrito)

John Cassaday
Ainda a propósito das polêmicas palavras de David Gabriel, sobre a queda nas vendas das revistas da Marvel, quero deixar, mais uma vez, claro, que nada tenho contra a diversidade. Não sou negro e um dos meus heróis favoritos é o Pantera Negra. Outro que aprecio muito, é Luke Cage. E também gosto de Miles Morales, embora, até hoje, discorde da morte de Peter Parker. Na vida real, admiro profundamente figuras como Martin Luther King, Nelson Mandela, Barack Obama (embora critique severamente seus erros na condução da política externa dos Estados Unidos), etc.
Não tenho, portanto, o menor problema em admirar, seguir ou, até mesmo, me inspirar, em heróis e ídolos negros, como de qualquer outra raça ou etnia. Esta não é a questão. A questão é dar espaço a novos ícones, sem que os clássicos percam sua identidade já consolidada. Não faço qualquer objeção a heróis homossexuais, negros, muçulmanos, mulheres, etc, seja nos quadrinhos, seja em qualquer outra mídia. O mundo é plural e é natural que as editoras de revistas de histórias em quadrinhos, a TV, o cinema e outras mídias reflitam esta pluralidade em seus produtos. E concordo plenamente com a asserção de muitos internautas e ditos formadores de opinião, de que a nossa civilização atual ainda precisa evoluir muito, em termos de tolerância e representatividade das minorias. Meu ponto de vista é, tão somente, que há suficiente espaço dentro do chamado Universo Marvel, para representar todos os segmentos populacionais da sociedade (mais diretamente, num primeiro momento, a americana, principal público da editora, mas, também, global) sem, necessariamente, tirar ou reduzir o espaço dos heróis já existentes, que já têm seu público cativo e seu lugar assegurado nas mentes e corações de toda uma geração. Nem sempre o novo precisa derrubar o velho, para se estabelecer.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Guerra Civil na Marvel

Marvel Comics
Discordo do diagnóstico de David Gabriel, sobre a queda nas vendas de histórias em quadrinhos da Marvel. Na minha humilde visão de mero leitor - ou seja, consumidor - das publicações da editora, o problema não é a diversidade, em si (como esta matéria bem apontou, há outros fatores que podem ter influído nos maus resultados da Casa das Ideias, neste ano). É, na verdade, uma questão mercadológica. Há uma óbvia e clara dissincronia entre os produtos oferecidos pela Marvel e o seu público-alvo (lembremo-nos de que a Marvel é uma empresa, e, como qualquer outra empresa, seu objetivo é o lucro, e as histórias em quadrinhos são seus produtos). A diversidade, pelo contrário, pode ser lucrativa. Há um público para ela. Heróis negros, gays, muçulmanos, etc., são necessários e muito bem-vindos. O problema está, ao meu ver, na inexplicável desfiguração de personagens icônicos, que fazem parte do imaginário popular, há décadas. Querem criar uma Mulher de Ferro? Criem, mas mantenham Tony Stark, como o Homem de Ferro original. Miles Morales é um bom personagem, mas para que matar Peter Parker? Miles não poderia usar outro uniforme e ter outros poderes, com sua própria revista, quem sabe, e até sua própria equipe, ao estilo dos Vingadores? Para que substituir Thor? O que pensariam os antigos vikings - os reais criadores do deus do trovão - sobre tal mudança? (Para quem não entende ironias: esta última frase foi uma brincadeira. Convém explicar, uma vez que nem todos os internautas - a maioria - sabem interpretar corretamente um texto.)
Com o perdão do mau trocadilho, o que falta é criatividade aos criadores da Marvel. Respeite-se a diversidade, criem-se novos heróis "politicamente corretos", mas mantenha-se a identidade e a tradição de nossos heróis clássicos.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O Grau Zero da Crítica

Anton Ego
Negativa ou positiva, construtiva ou destrutiva, o importante é que a crítica literária - como a crítica de qualquer outra forma de criação artística - seja bem fundamentada e o crítico tenha o mínimo do conhecimento necessário e imprescindível para o exercício de seu mister. Assim como existem muitos maus autores que se acham o suprassumo da literatura contemporânea, embora não sejam mais do que meros produtores de lixo impresso, há muitos maus críticos que se julgam portadores da infalibilidade papal, sem qualquer base teórica consistente e válida, para emitir seus julgamentos. Limitam-se ao puro achismo e confundem criticar livros com ofender autores.
Apenas "detonar" uma obra, sem estudá-la, ressaltando tão somente seus aspectos negativos, talvez, suspeito, pelo atávico e obscuro prazer de falar mal do trabalho alheio, como uma fofoqueira de janela fala mal dos vizinhos, não é crítica literária, na verdadeira acepção do termo. É puro e simples esnobismo intelectual. E não deixa de ter o seu quê de ridículo, uma vez que a crítica, digna do nome, requer estudo e reflexão isenta. A crítica que só "detona", pode até ser "crítica" (no sentido popular, negativo, da palavra), mas não é crítica literária. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Flor do Lácio e a Internet

Um internauta brasileiro.
Há a norma padrão da língua portuguesa. Necessária e imprescindível para a redação de artigos científicos, acadêmicos, jornalísticos e empresariais. Escrever fora da norma padrão nessas áreas, é errado, não importa o que digam os adeptos da famosa e ridícula tese do "preconceito linguístico", tese que para mim, foi inventada apenas para justificar, com ar doutoral, e pseudocientífico, a pura e simples preguiça de aprender a escrever corretamente. 
Há também os usos coloquiais da língua portuguesa, que variam de região para região e de grupo para grupo, adotados na comunicação falada no dia-a-dia, sem a pretensão da correção gramatical. Forma válida somente para essas situações. 
O Facebook, creio, como as demais redes sociais, com exceção, talvez, do Linkedin, encaixa-se nesta segunda categoria, ou seja, pede o uso coloquial da língua, por se tratar, essencialmente, de uma ferramenta de comunicação entre amigos. Pode-se, neste caso, escrever como se fala. Afinal, nem todas as conversas podem ser como os diálogos platônicos. 
No entanto, perfis de empresas e instituições devem procurar seguir a norma padrão em suas postagens, por se tratar de comunicações impessoais.
De todo modo, ninguém espera que os usuários das redes sociais, ou mesmo da blogosfera, escrevam todos como Machado de Assis. É obviamente impossível. Mas um pouco mais de cuidado com a gramática da língua de Camões e Fernando Pessoa e de todos nós que vivemos nos países lusófonos, seria muito bem-vindo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O Bloco do Eu Sozinho

Edward Hopper
Eu sempre saio sozinho. Gosto de visitar lugares aos quais a maioria das pessoas não gosta de ir. Nada de excepcional. Museus, bibliotecas, monumentos históricos, galerias de arte, etc. Mas as pessoas de meu círculo social (basicamente parentes, uma vez que amigos, só os tenho virtuais) não apreciam tais locais. Pelo contrário, elas abominam completamente o silêncio e a cultura predominantes nesses ambientes, justamente o que para mim constitui o melhor motivo para visitá-los. Preferem lugares repletos de barulho e multidões, coisas que eu abomino completamente, por minha vez. Mas, entre deixar de conhecer um lugar que me interessa, por falta de companhia, ou conhecê-lo sozinho, escolho a segunda opção. Claro que eu gostaria de estar acompanhado, seria bom ter alguém com quem trocar minhas impressões do passeio, mas nem sempre é possível, é raro encontrar alguém minimamente sensível e inteligente o bastante, sobretudo neste país, para apreciar e sustentar uma conversa de alto nível sobre arte, cultura e temas afins e, a muito custo, aprendi a gostar de minha própria companhia. É a única que nunca me faltou.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Civilização e Barbárie

Fernando Botero
Sou contra a pena de morte. Não por "amor aos bandidos", como no caso de Maria do Rosário e seus correligionários dos "direitos dos manos", mas pela mesma razão pela qual sou contra o aborto voluntário, porque, mesmo não sendo um homem religioso, acredito no princípio da inviolabilidade da vida humana, da concepção ao seu término natural, e que não cabe a ninguém interferir neste processo - a não ser em casos extremos, como a eutanásia. Pela mesma razão, não comemoro massacres em penitenciárias. Pelo contrário, vejo-as com profunda tristeza, não necessariamente pelos criminosos mortos, enquanto indivíduos, mas por suas famílias, que não cometeram crime algum, e pelo avançado estado de degradação moral e civilizacional em que se encontra a sociedade brasileira, a ponto de até mesmo pessoas tidas de boa índole e reputação ilibada, celebrarem a apoteose do barbarismo no sistema prisional. 
Não menosprezo a indignação e o sentimento geral de revolta da população para com a insegurança e violência que tomaram conta das cidades brasileiras nos últimos anos. É, até certo tempo, natural, que vítimas de atos violentos nas mãos de bandidos - e com as quais também me solidarizo - queiram ver ser-lhes aplicada a velha Lei de Talião. Mas não podemos esquecer daquela célebre máxima de Ghandi: "olho por olho, o mundo acabará cego". Matar assassinos só irá fazer o número de assassinos vivos permanecer o mesmo.
Sei que os criminosos que seriam diretamente atingidos pelo impacto de uma eventual implementação da pena capital não pensam da mesma forma que eu e não hesitariam em tirar minha vida, ou a de meus entes queridos, se julgassem que isto poderia lhes propiciar algum benefício ou vantagem, ou até por pura e simples maldade. Mas penso que instituir a pena de morte não nos tornaria melhores do que eles. Pelo contrário, apenas nos rebaixaríamos ao seu nível. Seríamos todos igualmente criminosos.
Lembremos do alerta de Nietzche. Em nossa ânsia por combater e destruir os monstros que ora nos assediam e afligem, temos que procurar tomar o máximo cuidado para não nos tornarmos igualmente monstruosos. Não podemos encarar muito fixamente o abismo, sem que ele nos encare de volta. 
Além de quê, já houve inúmeros casos de condenações erradas nos países que adotam a pena capital, falhas de investigação ou de julgamento, que ocasionaram a morte de pessoas inocentes e só foram descobertas depois que o estrago já estava feito. Que fazer, então? Não é possível ressuscitar os mortos e restituí-los à liberdade. Portanto, é um risco que não devemos correr.
O que se deve fazer é encontrar uma forma eficiente e objetiva de fazer os criminosos cumprirem integralmente as sentenças às quais são condenados, reduzir o número de recursos legais disponíveis para facilitar sua soltura ou evitar seu julgamento - sem, obviamente, violar os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição - e investir mais e melhor na área de segurança pública, para reduzir drasticamente a criminalidade. A adoção de penas de cunho socioeducativo, como a prestação de serviços comunitários para crimes leves, por sua vez, evitaria a superlotação do sistema prisional e a mistura de simples ladrões de galinhas com criminosos de alta periculosidade, diminuindo, assim o poder e o número de integrantes das facções que controlam os presídios brasileiros. 
Claro, investimentos e melhorias em áreas como saúde e educação também são necessários e devem ser feitos, mas seus resultados são mais lentos e de mais longo prazo e do que se precisa agora, são medidas mais duras e enérgicas para acabar ou ao menos diminuir significativamente os alarmantes índices de violência que tanto nos assustam todos os dias. Mas a pura e simples execução sumária de bandidos está longe de ser uma solução efetiva. Sobretudo no que concerne ao tráfico de drogas. Mata-se um traficante, logo aparece outro para dominar o território deixado em aberto pelo anterior. 
De todo modo, é irrelevante e algo despropositado, defender a adoção da pena de morte no Brasil, principalmente porque ela já existe, de fato, em nosso país, mesmo sem base legal, e é aplicada todos os dias, independentemente da culpa ou inocência dos sentenciados, principalmente quando os referidos sentenciados fazem parte do grupo populacional conhecido pela sigla PPP: pretos, putas e pobres.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A Democracia nos Trópicos


A democracia brasileira ainda é extremamente frágil e imatura. Aperfeiçoá-la é um trabalho para várias gerações. Demanda séculos de esforços e perseverança. Não o veremos terminado. Mas precisamos iniciá-lo. O quanto antes, possível.
A democracia, aliás, é e será sempre, uma obra em progresso.   
O tempo histórico corre numa velocidade e num ritmo diferentes daqueles em que transcorre o tempo meramente cronológico. As instituições e os regimes políticos têm períodos de duração e de desenvolvimento infinitamente maiores do que o período de duração mesmo da mais longeva vida individual. A república não nasceu ontem e creio que ainda não será hoje o dia de sua extinção. Podemos voltar ao império ou adotar uma forma de governo ainda inédita para nós.
Falta aos que observam a cena política contemporânea, um pouco mais de senso de história. O imediatismo frenético da vida moderna não lhes permite apreender com suficiente profundidade e clareza, a real essência e dimensão dos acontecimentos com que se defrontam no transcorrer de seus dias. Daí a chocante superficialidade e lamentável frivolidade de seus prognósticos sobre o atual panorama político brasileiro, prognósticos esses, em que o preconceito sobrepõe-se à reflexão, e o necessário esforço intelectual acaba por ceder seu lugar para a mais abjeta e estagnante indolência mental e o mais rasteiro e superficial dogmatismo ideológico. Somos os cegos da fábula, que ficam a examinar um elefante, sem conhecê-lo, tentando descrever o todo pela parte.  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Em Defesa de Meryl Streep

Meryl Streep como Donald Trump
" Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei, até a morte, o seu direito de dizê-las" - Evelyn Beatrice Hall (frase erroneamente atribuída a Voltaire).

Nas redes sociais, a atriz Meryl Streep vem sofrendo severas críticas de certos setores - os mais obscuros e retrógrados - da direita conservadora brasileira e americana por ter discursado contra Donald Trump na cerimônia de entrega do prêmio Globo de Ouro. Não faltaram adjetivos esdrúxulos para desqualificá-la. Até seu talento dramático foi questionado. Como se fosse verdadeiramente possível questionar o talento da maior atriz americana viva! Santo Deus! A que ponto chegamos!
O que me parece é que estão a querer condenar Meryl por delito de opinião, crime só existente em regimes totalitários. Ora, até o momento, ao que eu saiba, a liberdade de expressão continua em plena vigência nos Estados Unidos e a constituição americana garante que todos os cidadãos do país podem falar livremente o que pensam sobre o assunto que for, sem medo de represálias e sem pedir autorização a ninguém. Meryl Streep é cidadã americana e tem exatamente o mesmo direito de seus conterrâneos, de expressar suas próprias opiniões e ideias, na hora e no local que bem desejar. Se tais opiniões são infundadas ou mentirosas, como estão a afirmar seus detratores, tese com a qual não concordo, caberá somente a ela, arcar com os ônus de suas mentiras e de seus erros de julgamento. Não nos compete cassar-lhe o direito à palavra. 
Um ponto comum das críticas ao discurso de Meryl, quando não à sua própria pessoa, e que mais perplexidade e estupefação me provoca, é o estúpido - para dizer o mínimo - argumento de que atores (e artistas em geral) não devem opinar sobre política, devem apenas limitar-se a representar seus papeis, sem dar a conhecer suas opiniões partidárias e ideológicas. Ora, mas porquê? Artistas não são cidadãos? Não têm o mesmo direito à liberdade de expressão que todas as outras pessoas? Ou perderam sua cidadania por dedicar-se à arte? Por que a opinião deles não deve ser levada em conta? Ela vale menos do que a opinião dos não artistas? Serão os artistas uma espécie de sub-raça ou subclasse, sem direito a fazer ouvir sua própria voz?
Um fantasma assombra os Estados Unidos (e o mundo, o Brasil incluído). O fantasma do fascismo. É preciso exorcizá-lo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os Grandes Homens

Thomas Carlyle (1795-1881)
Vivemos numa era de homens de palha. De anões morais e intelectuais. A democracia moderna, com todas as suas virtudes, além da promoção da liberdade individual, paradoxalmente produziu, como um amargo e doloroso efeito colateral, o triste e nefasto fenômeno do "homem-massa" (na feliz terminologia de Ortega y Gasset e Fulton Sheen) ou "homem medíocre" (na também muito apropriada definição de José Ingenieros), o tipo de homem ideal para construir e consolidar sistemas totalitários de governo, pois só sabe pensar coletivamente e de acordo apenas com os seus instintos mais básicos e primitivos. 
A moda da época é a uniformização. Cultural, comportamental, sentimental. Em última instância, ideológica e política. 
Carlyle pensava de forma diametralmente oposta aos atuais arautos e apologistas da mediocridade coletiva. Dizia ele que o mundo não anda senão pela ação dos grandes homens, e que a massa não é mais do que um instrumento passivo de que eles se utilizam para atingir os seus objetivos. Pode-se, é claro, discordar desta posição (os marxistas, por motivos óbvios, discordam), mas eu, pessoalmente, acho muito difícil imaginar como seria o mundo, hoje, se não tivesse sido moldado pelas mãos de homens como Alexandre, César, Napoleão, Bismarck, Churchill, e outros grandes homens que já caminharam sobre a face deste planeta, e deixaram suas marcas na história, membros representativos de uma espécie que se encontra sob grave risco de extinção nos dias atuais, se é que já não foi completamente extinta, o Homem Superior. 
Há anos, não vejo um grande homem. Nem no Brasil, nem alhures. Apenas homens grandes em altura. Sim, as instituições, principalmente numa democracia, são superiores aos indivíduos e assim devem permanecer. Mas, pergunto, de que valem grandes instituições quando comandadas por homens pequenos? Homens pequenos tudo apequenam. O Brasil de hoje é um vivído e triste exemplo deste fenômeno.
Os grandes homens fazem a história. Os homens pequenos apenas a vivem.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Coro dos Insensatos

Lembrar para não repetir.
Não considero que a democracia brasileira contemporânea seja socialista, como dizem alguns conservadores mais raivosos e reacionários, a começar pelos arruaceiros que ontem invadiram a Câmara dos Deputados, a clamar pelo retorno dos militares ao poder e que se autoproclamam "intervencionistas". A menos que por socialista, neste caso, se queira significar estatista, com o que concordo inteiramente. Mas não creio que precisemos de uma "intervenção militar" para dar cabo deste problema. Mesmo porque o estatismo não é uma exclusividade da esquerda. O regime de 1964 foi um dos mais estatizantes da nossa história e não se pode considerá-lo, em sã consciência, um regime socialista. 
Acho, no mínimo, curioso, que a pretexto de salvar o Brasil de uma suposta ditadura (comunista / de esquerda), queira-se substitui-la por outra (militar / de direita). Ditadura por ditadura, prefiro viver sob aquela em que eu próprio seja o ditador. Do contrário, prefiro continuar a viver sob o atual regime democrático, ainda que corrupto e imperfeito.
O discurso dos intervencionistas de hoje, é exatamente o mesmo que o dos intervencionistas de 1964: precisamos salvar o Brasil do comunismo, deixem os militares limparem a bagunça dos civis e devolverem o governo ao povo - naturalmente depois de expurgado dos corruptos que hoje o controlam - através da convocação de novas eleições gerais. 
Pois bem. Os militares de 1964 tomaram o poder com a promessa de devolvê-lo aos civis no prazo correspondente ao restante do mandato de João Goulart. O que aconteceu, porém? Vinte e um anos de autoritarismo, ao fim dos quais, uma classe política ainda pior e mais viciada do que a anterior ao golpe, ascendeu ao poder. Vamos cometer o mesmo erro em 2016? Confirmaremos a célebre tese de Burke e Santayana e repetiremos a história, por não conhecê-la? Continuará a ser o Brasil um eterno museu de velhas novidades? Será mesmo verdade o que, já há algumas décadas, disse Roberto Campos: "a burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor"? Espero, sinceramente, que não. Veremos. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Último Grande Poeta

Leonard Cohen (1934-2016)
O mundo, hoje, amanheceu mais triste e vazio. Leonard Cohen morreu. Cessem todos os cantos. Calem-se todas as vozes. Que importam todas as grandes e pequenas mazelas deste nosso infeliz e atribulado planeta, toda a sua miséria, todo o seu ódio, toda a sua violência, toda a sua vilania, toda a sua aspereza, hostilidade e hipocrisia, que importa tudo isso, pergunto, diante desta cruel e devastadora notícia: Leonard Cohen morreu? O último grande poeta da música contemporânea se foi. É verdade que ainda temos Bob Dylan, mas Cohen, ao meu ver, era imensamente superior. Penso, inclusive, que ele é que deveria ter ganho o Nobel de Literatura deste ano, em vez de Dylan. Não por falta de méritos de Dylan, mas pela superabundância de talento de Cohen.
Para mim, pessoalmente, o mundo perdeu grande parte de seu valor e beleza, no dia de hoje. As canções de Leonard Cohen marcaram várias passagens importantes e inesquecíveis de minha vida. Ele, de certa forma, fez parte desses momentos. Há vários aspectos de sua biografia com os quais identifico-me profundamente. Sua depressão crônica, por exemplo, além de sua obsessão por temas religiosos, sempre presentes em suas músicas. Agora que ele morreu, sinto como se eu tivesse perdido um amigo íntimo e de longa data. Dói, dói muito.
Para tentar aplacar um pouco a minha tristeza, conforto-me, ao menos quero confortar-me, com a vaga e tênue esperança de que Cohen, ao partir, tenha finalmente encontrado a paz que tanto buscou e ansiou em vida.
   

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dia de Finados

Nossa última morada
Não acredito na imortalidade da alma, nem no Céu, nem no Inferno, ou coisas correlatas. Para mim, a morte nada mais é do que um eterno sono sem sonhos. Claro que posso estar errado, mas só saberei depois de exalar meu derradeiro suspiro. Se Deus existir e depois que eu estiver morto, ficarmos frente a frente, terei uma conversa deveras franca com Sua Divindade e lhe farei algumas perguntas bastante desagradáveis, que estão, há muito tempo, entaladas na minha garganta. Mas até lá, fico na dúvida sobre Sua existência. 
Porém, embora incrédulo, respeito as crenças alheias. Hoje, Dia de Finados, não vou orar para os que se foram, porque não creio que eles possam me ouvir ou se beneficiar com as minhas orações, mas respeito os que oram e me solidarizo com sua dor e sua saudade. Para os que creem e sofrem com a sua ausência, é um grande conforto pensar que os entes queridos de outrora, estão no paraíso, a desfrutar da bem-aventurança eterna. Há momentos em que chego, confesso, até a sentir uma certa inveja de tal crença, mas não sou capaz de tê-la. A fé é uma dádiva que Deus não me concedeu.
Além do mais, para que rezar aos mortos? Eles estão melhor, muito melhor do que nós, os vivos ou quase vivos. Deveríamos, na verdade, invejá-los. A luta acabou para eles. Para nós, cada dia é e será uma nova e dolorosa batalha, sem trégua, nem misericórdia, até que finalmente chegue o momento de soar o último gongo.

domingo, 30 de outubro de 2016

O Presente de uma Ilusão

O Bezerro de Ouro
Outra ilusão, esta mais antiga do que a apontada no artigo anterior, em nome da qual, milhões de vidas foram violentamente ceifadas ao longo dos séculos, é a ilusão religiosa. A ideia de que há uma entidade suprema a controlar os acontecimentos e os caminhos do mundo e à qual devemos prestar obediência e vassalagem absolutas através de representantes humanos supostamente eleitos pela própria divindade para interpretar sua vontade superior, é a responsável direta por assombrosos morticínios e crimes atrozes contra a humanidade, como a Noite de São Bartolomeu, as Cruzadas, a Inquisição, a execução de Giordano Bruno, etc. No fundo, a diferença entre Torquemada e Hitler ou Stálin, é apenas numérica (em termos de quantidade de vítimas). Em essência, todas as tiranias se parecem, sejam elas teocêntricas ou antropocêntricas.

sábado, 29 de outubro de 2016

Uma Ideia Nefasta

O culto do Super Homem
O que se deve abolir, de uma vez por todas e para sempre, penso eu, é a nefasta ideia de que o homem é algo a ser superado ou transcendido, a equivocada e fatídica crença de que ele pode tornar-se algo maior ou mais perfeito do que já é, ou seja, a velha ilusão nietzcheana do "super homem", além da sua irmã gêmea ideológica, a macabra teoria do "homem novo", na terminologia comunista. Esta fatídica ideia, da superação do homem, base de doutrinas tão díspares e funestas, como o nazi-fascismo e o próprio comunismo, foi e continua a ser diretamente responsável por provocar todos os tipos de calamidades e holocaustos ao longo da história, e seus defensores e arautos, como se já não estivessem com as mãos suficientemente sujas de sangue inocente, permanecem insaciáveis, querem ainda mais vítimas para imolar no altar do Homem Superior.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pelo Direito de Morrer

Marieke Vervoort
A atleta paralímpica belga Marieke Vervoort chocou o público e acendeu uma polêmica mundial, ao anunciar que, após encerrar sua carreira nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, pretende submeter-se à eutanásia, em data ainda a ser definida. Ela sofre de uma cruel e devastadora doença degenerativa (tetraplegia progressiva com distrofia miopática reflexiva) que, aos poucos, acabará por paralisar completamente seu corpo, condenando-a a uma vida puramente vegetativa e extremamente dolorosa. Para fugir a esse destino, ela decidiu optar pelo suicídio assistido, prática legal na Bélgica e ainda cercada de tabus em vários países, inclusive no Brasil. Ela já tem, em mãos, todos os documentos necessários para autorizá-lo, obtidos após uma longa e extenuante via-crúcis burocrática. Antes de realizar o procedimento, porém, ela afirmou que deseja viver intensamente cada dia que ainda lhe resta, "como se fosse o último", o que realmente é o caso. E ela merece que esses dias sejam felizes e prazerosos, o máximo possível.
Quem poderá criticá-la? Há quem se posicione contra a eutanásia, por questões de religião e tenha criticado acerbamente Marieke, por recorrer a este procedimento para libertar-se de seu sofrimento. Mas com que direito, tais pessoas pensam que podem dizer a alguém que sofre uma doença da gravidade da de Marieke, doença esta que não tem cura e só a maltrata, e lhe provoca as mais excruciantes dores, com que direito, pergunto eu, tais pessoas podem dizer-lhe que ela não tem o direito de livrar-se, como queira, de seus tormentos físicos, se o modo como ela escolheu fazê-lo, em nada prejudica a ninguém e só a ela diz respeito? Como não sou um homem religioso e Deus não entra ou só entra mui raramente em minhas cogitações, penso diferentemente. Penso pelo ângulo dos direitos civis. Penso que cada indivíduo tem o direito total e absoluto de dispor da sua vida, como bem lhe aprouver, inclusive de tirá-la, se julgar necessário, desde que não prejudique ou coloque em risco, a vida e a segurança de outras pessoas. Ora, a quem a eutanásia de Marieke Vervoort pode prejudicar? 
E digo mais: está na hora de começar a discutir seriamente a possibilidade de legalizar a eutanásia no Brasil. Por uma simples questão de humanidade. 
Falta um pouco mais de amor humano nos corações dos que apregoam o amor divino. Em compensação, sobra intolerância.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Floresta Morta


Um cão negro e feroz devora meu coração. A depressão me domina. Sofro de ansiedade e tenho crises periódicas de pânico. Fico noites inteiras sem dormir. Tenho o pavio curto e meu temperamento não é dos mais fáceis, pelo contrário. Em sociedade, sou como um touro, solto numa loja de louças. Não tenho absolutamente nenhuma paciência ou capacidade de tolerância para com pessoas burras, arrogantes, ou fanáticas. Mando-as ao inferno, na primeira oportunidade, seja na vida real, seja na virtual. Nesta última, por exemplo, adoro usar o botão "bloquear" do Facebook. É um de meus maiores e mais malignos prazeres. Não hesito em usá-lo, quando a pessoa me aborrece.
Sou completamente avesso a reuniões sociais. Sou o típico chato de festa. Quando bebo, ao invés de me alegrar, fico ainda mais soturno e espectral do que de hábito. Tenho uma baixíssima, praticamente nula, quase inexistente, resistência à frustração. Desejo nada menos do que a destruição do universo, quando sou contrariado. Isso, obviamente, implica na triste e amarga constatação de que o Brasil não é o melhor lugar para eu viver. Pois não há, caros amigos - posso chamá-los assim? - não há sobre a face deste pobre e atribulado planeta, país que mais decepcione seus cidadãos. Infelizmente, sou obrigado a permanecer aqui, por uma série de razões, que estão além do meu controle. A maior delas, um profundo, intenso, desesperado, quase masoquista amor pela minha pátria natal, que me impede de traí-la, por mais que ela insista em maltratar-me.
Há quanto tempo, já, se arrasta a nossa crise política, econômica, social e moral? Quanto tempo? Haverá uma luz, no fim do túnel? Conseguiremos atravessar esta penosa e sombria quadra histórica, sem sangue, nem dor? Nossa frágil e enfermiça democracia conseguirá sobreviver à tentação totalitária que ronda os donos do poder e aos constantes ataques de que é o indefeso alvo eternamente deitado em berço esplêndido? Conseguiremos evitar a produção de novos cadáveres para preencher as estatísticas históricas? O que será de nós e de nossos filhos? O que será de ti, meu filho amado, meu querido Dudu? Conseguirei proteger-te da tempestade de aço que se aproxima, com passos cada vez mais velozes? Terei forças para tanto? Sou apenas um homem. Minha carne pode ser cortada. Minhas veias podem ser abertas. Balas podem me matar. Meu amor bastará para salvar-te?
Deus, quisera eu ser uma pessoa mais alegre e otimista! Mas a verdadeira alegria é uma arte. Uma arte que não sei exercer. Para meu desalento e opróbrio.
Invejo as pessoas que conseguem sempre adotar e manter uma postura leve, sorridente e otimista diante das turbulências da vida. Pessoas que permanecem sempre à altura dos acontecimentos e não se deixam abater por eles. Pessoas que não perdem o sono, nem o apetite, a pensar nas agruras do porvir. Pessoas para quem o amanhã não é um imenso e voraz buraco negro, como é para mim, mas um caleidoscópio mágico, cheio de esperanças sempre renovadas e inesgotáveis.
Mas tal não é o meu caso. Não por falta de vontade. Por falta de fé? Penso que sim. E também não, ao mesmo tempo. Não sou inteiramente ateu. Não creio que o universo tenha nascido, por obra pura e simples, do mero e irracional acaso. Já disse o rei Lear; "Do nada, nada vem". Mas tenho sérias dúvidas sobre a pretensa bondade de seu criador e é-me imensamente difícil acreditar em milagres.
Tal como Michel Leiris, exceto quando estou com medo - o que tem sido cada vez mais frequente - sinto-me sempre debater na mais profunda, densa e obscura irrealidade. Domina-me uma sensação de crônico e indissolúvel alheamento com relação à vida e ao mundo, o que fatalmente erige entre mim e os que me cercam, até mesmo a minha família, um muro intransponível, feito de estranhamento, desencanto e incompletude. Mesmo os que me amam, muitas vezes não me compreendem. Julgam-me frio, distante, apático, quando, na verdade, eu quisera poder corresponder à altura, o amor que me devotam, e com a mesma intensidade. Mas falta-me o talento necessário para exercer a reciprocidade no amor. Sou, como Bukowski, um bloco de granito, impermeável ao carinho alheio. Por isso, estou sempre só. Há alguma mola quebrada no meu coração, talvez uma floresta morta, como no poema de Kilkerry.
Um dia, esta floresta morta esteve cheia de vida. Suas árvores eram verdejantes e repletas de frutos, e era incessante o cantar dos pássaros em seus galhos. Mas a tempestade veio e não restou um arbusto em pé. Ficaram somente algumas ervas daninhas, os maus sentimentos que hoje me assombram e governam.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Má Educação

Pawel Kuczynski
Não, não tenho boas lembranças do meu tempo de escola. As escolas em que estudei, foram, para mim, verdadeiras antecâmaras do Inferno. Numa época em que a palavra bullying era ainda desconhecida ou pouco utilizada nos meios escolares brasileiros, eu já o sofria, cotidianamente, dia após dia, em todos os estabelecimentos em que fui matriculado. Vivi horrores dentro de suas salas de aula. Não raras vezes, cogitei seriamente a possibilidade de praticar uma atitude extrema, como a deste pobre menino. Nada aprendi dentro delas, a não ser a desprezar a humanidade, especialmente os profissionais da área da educação, sobretudo os professores. Tudo o que hoje sei ou suponho saber, aprendi-o fora de seus muros, em casa e nas bibliotecas públicas, sozinho, sem o auxílio de colegas, nem, obviamente, a orientação de qualquer mestre. Sou um autodidata, em toda a plenitude do termo. 
Nunca concluí o ensino médio. Não tenho, portanto, um diploma universitário pendurado em minha parede. Pois para cursar uma universidade e receber, após quatro longos e tediosos anos, um pedaço de papel pintado, é necessário, primeiro, ter outro pedaço de papel pintado, para poder prestar o vestibular, para, só então, cursá-la, caso aprovado nesse mesmo vestibular. Por conseguinte, minhas opiniões nada valem, porque não têm nenhuma chancela acadêmica, para embasá-las. Nada do que eu digo e ainda vier a dizer, seja aqui ou alhures, portanto, vai exercer qualquer influência sobre o rumo dos acontecimentos contemporâneos e não vai alterar em um milímetro, sequer, o atual estado de coisas, seja no Brasil ou no mundo. Mesmo assim, vou dizer claramente o que penso. O que digo, pode até não ter importância nenhuma, mas vou exercer plenamente meu direito constitucional à liberdade de expressão, mesmo que ninguém esteja disposto a ler-me, pois o direito que não se exerce, é um direito que não existe. Como Nietzche, cantarei a minha música, mesmo que eu seja o único a ouvi-la. No mais, às favas com quem não gostar! Basta mudar de site. Meu blog não é uma prisão de leitores desavisados. Todos que por acaso vierem a ler estas páginas, estão livres para abandoná-las, quando bem lhes aprouver. 
Não tendo um diploma universitário, claro está que também não sou especialista em pedagogia. Mas não é preciso sê-lo para constatar a inegável e catastrófica falência de nosso modelo educacional atual. Nossas escolas não cumprem sua função, não ensinam, nem educam. pelo contrário, só emburrecem e aviltam nossas crianças, transformam-nas em meras ferramentas para linhas de produção, úteis, por certo, mas vazias, como belas embalagens sem conteúdo, mais próximas da animalidade, ou melhor, da mecanicidade pura e simples, do que da humanidade.   
Para mim, os grandes problemas educacionais de nosso tempo, podem ser imediatamente resolvidos, de forma simples e eficaz, por meio de um único e barato instrumento: a abolição das escolas. E por que não? O modelo escolar, tal como o conhecemos hoje, só veio a se desenvolver à partir do século XII, uma época relativamente tardia, em comparação com o todo da história humana pregressa. Como diz Luiz Fujita: "A palavra 'escola' vem do grego scholé, que significa, acredite se quiser, 'lugar do ócio'. Isso porque as pessoas iam à escola, em seu tempo livre, para refletir. Vários centros de ensino pipocaram pela Grécia, por iniciativa de diferentes filósofos. As escolas geralmente eram levadas adiante pelos discípulos do filósofo-fundador e cada uma valorizava uma área do conhecimento. A escola de Isócrates, um exímio orador, por exemplo, era muito forte no ensino da eloquência, que é a arte de se expressar bem. Mas as escolas multi-temáticas, que contemplam as disciplinas básicas que temos hoje, como matemática, ciências, história e geografia, só surgiram entre os séculos XIX e XX".
Ou seja: a escola, como instituição, é um fenômeno relativamente recente e não é o único modelo possível de transmissão do conhecimento. Por que não valorizar o homeschooling, por exemplo?
É claro que não possuo a chave do enigma, ou seja, não tenho sequer a mais vaga ideia de como superar o atual modelo educacional, que, para mim, como já disse, está obsoleto e ultrapassado, e em completo descompasso com as reais exigências do mundo moderno. Mas lanço a questão e espero que ela possa render bons debates. Provavelmente não renderão, pois ninguém lê este blog além de mim.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Retorno

Neve de 1975 em Curitiba.

Sê bem-vindo de volta, bom e velho frio curitibano! Que saudades tive de ti! Não te vás tão cedo! Curitiba não é Curitiba, quando tu aqui não estás. Não te vás, fica ao menos o tempo suficiente para que eu possa saborear um bom mate quente, ao pé da lareira, enquanto teu hálito gelado embranquece o vidro de minha janela.

sábado, 19 de setembro de 2015

O Cão Negro


Hoje o cão negro que há longos anos habita as profundezas obscuras e recônditas de minha mente resolveu sair de sua toca e morder-me. Não foi uma mordida muito grave, não me arrancou nenhum pedaço, pelo contrário, foi apenas o simples roçar de suas presas em meu coração. Mas bastou para contaminar minha alma com o vírus da apatia e a bactéria do desencanto e acabar com meu ânimo pelo resto do dia.
Pois ele, o cão negro, vive a espreitar meus passos, silenciosa e obstinadamente. Para onde quer que eu vá, lá está ele, a me observar. É seu espectro que se oculta, sorrateiro e sinistro, atrás de cada revés que sofro, atrás de cada negativa que ouço, atrás de cada rasteira que a vida me dá. Ele se esconde entre os troncos calcinados da floresta morta que trago no meu peito - como no poema de Kilkerry - e mistura-se com as frias e nuas sombras das ruínas que restaram de meus sonhos destruídos, apenas aguardando, pacientemente, a hora certa para me devorar, de uma vez por todas.
O que talvez não seja de todo mau, afinal de contas. Pois, se é verdade que, como disse outro poeta, viver é lutar, então estou quase a ponto de ser nocauteado e a ideia de jogar a toalha torna-se, a cada dia, mais e mais tentadora.
Viver é cansativo. E eu já estou no limite da exaustão.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Odisséia Noturna


A noite de ontem, como previ, foi extremamente longa e cruel. Tive que correr em busca de um hospital, por causa de atrozes e excruciantes dores em minha vesícula biliar, provocadas por uma imensa pedra, que, de tempos em tempos, resolve me torturar, com requintes de crueldade.
Aliás, há meses, mesmo em momentos de intensa alegria, mesmo quando nada de estranho sinto em meu organismo ou em minha alma - e Deus sabe como estes momentos têm sido cada vez mais raros e fugazes! - tenho a nítida e funesta impressão de estar a viver perpetuamente coberto pela sombra densa e inexorável da Grande Dor - como os californianos vivem sob a sombra do "Big One", o grande terremoto que irá separar a Califórnia dos Estados Unidos, num futuro incerto mas não muito distante - a última e a maior de todas as dores, que pode surgir, de uma hora para outra, sorrateiramente, das profundezas recônditas de meu frágil e perecível corpo humano, para me levar consigo, para a eternidade do túmulo. 
O medo de sofrer novas dores tornou-se-me um hábito, a ferro e fogo entranhado em meu comportamento, quase uma segunda pele, de natureza psicológica, que me envolve e limita meus movimentos, uma prisão espiritual, infinitamente mais sombria e terrível do que um milhão de Alcatrazes. Pois tudo o que tenho feito nos últimos tempos, é ditado por ele. Alimentos, companhias, atividades, tudo é regido pela tirania da pedra que carrego comigo.
Há meses, corrói-me uma sensação semelhante a que deve sentir um rato amedrontado por entre as patas de um gato, prestes a devorá-lo, gato, este, que se diverte, imensamente, com o sofrimento de sua presa, antes de comê-la. 
Para quem não entende metáforas: a figura do gato representa a pedra na minha vesícula. O rato sou eu.
Mas o pior de tudo que sofri na noite passada, ainda não foi a dor na minha vesícula, foi o profundo desleixo com que fui tratado pela saúde pública de São José dos Pinhais, onde atualmente moro. 
Imagine o leitor que o primeiro hospital ao qual me dirigi (de táxi, uma vez que o SAMU estava indisponível; valor da corrida: R$ 23,60), o Hospital São José (antigo Atílio Tallamini), no centro da cidade, tal como o SAMU, se recusou a me atender, mesmo com todo meu sofrimento, visível mesmo a olhos leigos em medicina, pelo fato de meu estado representar um quadro clínico, e o referido hospital só atender a quadros traumatológicos. (Mas, pergunto, o Hospital São José não é uma instituição de saúde vinculada ao SUS e administrada pela prefeitura? Não é, portanto, um hospital público? A Lei faculta-lhe o direito de recusar pacientes? E se ele trata apenas de casos de traumatologia, então porque a propaganda governamental municipal o elogia como centro de referência em diversas outras especialidades médicas, não traumatológicas? Mistério típico do Brasil. Do Brasil real, não do Brasil de faz-de-conta das campanhas eleitorais.)
Tentei falar sobre isso com o obeso e entediado burocrata de olhos glaciais, responsável pelo atendimento aos pacientes que lá chegavam, mas foi em vão. Ele apenas me olhou com uma expressão de profundo desprezo, senão com um leve ar de sarcasmo, perceptível, apenas, por um quase sorriso, mal esboçado em seu lábio inferior, oculto por uma densa e maltratada barba grisalha, e disse-me que eu até poderia tentar o atendimento no local, mas acabaria, inevitavelmente, sendo encaminhado pela triagem, para a UPA Rui Barbosa ou para o atual posto Afonso Pena (pergunta que não quer calar: quando finalmente ficará pronta a nova e mais moderna UPA Afonso Pena?). Ou seja, de nada adiantaria minha espera por atendimento no Hospital São José.  
Contrariado com o grande acinte à minha cidadania e com as minhas dores aumentando exponencialmente, lá fui eu, com minha mulher, chamar mais um táxi para me levar à UPA Rui Barbosa, para onde decidi ir primeiro, antes de tentar o Afonso Pena. Chorando de dor, sentei-me sobre um banco de pedra, fronteiro ao Hospital São José, e fiquei a observar uma escola de dança localizada no outro lado da rua. Vislumbrei, através das janelas, alguns pares a dançar, cheios de volúpia e alegria, rodopiando intensamente. Não pude deixar de pensar comigo que se este mundo é, realmente, como diz o autor bíblico, um vale de lágrimas, é também um grande tablado, onde se desenvolvem danças de todos os gêneros e feitios, da cracoviana ao tango, e onde os que não podem dançar, choram. Em latim: quis non saltastis lamentavimus et ploravit.
Bem-aventurados os que dançam, porque eles terão os olhos enxutos. Dou de graça este novo versículo, aos futuros revisores da Vulgata. 
Veio o táxi e pusemo-nos a caminho da UPA Rui Barbosa. Lá chegando, senti o chão abrir-se sob os meus pés, assustei-me com o tamanho monstruoso da fila de pacientes aguardando por atendimento. Cheguei a ver um grupo de pessoas visivelmente enfurecidas (deviam estar aguardando há horas por atendimento médico), a discutir acrimoniosamente com o segurança da unidade, provavelmente cobrando providências para minorar a agonia em que se encontravam naquele momento.
Pergunta: por que têm de ser, sempre, os seguranças das unidades de saúde, os bodes expiatórios para as frustrações dos pacientes - com toda a razão, é claro, revoltados contra o escárnio diário a que seus direitos são submetidos pelo poder público - se os verdadeiros culpados pelas agruras que sofrem estão a quilômetros de distância, encastelados em suas torres de marfim, principalmente em Brasília, e não dão a mínima atenção para o que eles passam, a não ser em época de corrida eleitoral? Os seguranças das unidades de saúde são, o mais das vezes, tão vítimas quanto os pacientes, do sistema fratricida que vivemos neste inóspito e retrógrado rincão do globo terrestre, que atende pelo nome de Brasil.
Ainda a bordo do táxi, decidi tomar outro rumo e seguimos caminho em direção ao 24 horas Afonso Pena que, felizmente, estava bem menos movimentado do que a UPA Rui Barbosa (valor da corrida: R$ 30,00).
Quando lá cheguei, minha dor estava no auge de sua intensidade, cascatas de lágrimas brotavam de meus olhos e em lugar de palavras, só conseguia responder com monossílabos e gritos guturais ao que as pessoas ao meu redor, com inclusão de minha mulher, me perguntavam. A enfermeira que fez minha triagem, bastante solícita e prestativa, priorizou meu atendimento, e eu fui logo me consultar com uma excelente médica, que me prescreveu os medicamentos adequados para tratar minha crise, por via venal. Não demorou muito e finalmente pude sentir o alívio que tanto procurei em meu périplo noturno pelos prontos-socorros de São José dos Pinhais. Mas ainda me encontrava extremamente agitado e logo que o soro com os medicamentos acabou, encaminhei-me, com o acesso pingando sangue, para o consultório da médica que havia me atendido, para pedir-lhe um calmante para minorar minha ansiedade. Assim que o tomei, adormeci imediatamente. E depois fui liberado para voltar para casa. Mais uma vez, de táxi. (valor da corrida: R$ 25,00).
Valor total das corridas de táxi: R$ 78,60 na bandeira 2 (soma verdadeiramente estratosférica para quem, como eu, encontra-se desempregado). Preço pago pelo recurso à saúde pública de São José dos Pinhais: minha dignidade.
E o pior é que ainda faltam dois longos e dolorosos meses para poder operar minha vesícula! Quantas vezes mais terei que suportar tamanho sofrimento?         

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Uma Longa Noite


É madrugada. Há algo de errado comigo. Não sei descrever com precisão o que sinto. É uma espécie de pressentimento. Um pressentimento mau, com certeza, embora ainda vago e disforme. Como se algo funesto estivesse prestes a acontecer. Como se uma bomba estivesse pronta para explodir e eu não soubesse como desarmá-la. Como se o mundo estivesse a um passo de entrar em colapso e eu com ele. Ainda não é bem isso, creio, mas agora não me ocorrem as palavras certas para explicar-me com suficiente clareza. 
Estou fazendo uma inalação, uma forte crise asmática me acometeu há poucos instantes. E não veio sozinha. Trouxe consigo uma intensa dor nas costas, dor que está a incomodar-me profundamente e quase chega a impedir-me de permanecer sentado a escrever estas palavras. Temo que ela seja apenas o prenúncio, o primeiro sintoma, o primeiro tétrico e inequívoco sinal de uma nova crise na minha vesícula, provocada por uma pedra que há meses se encontra alojada dentro dela.
Essa mesma pedra já me obrigou várias vezes a correr até o hospital mais próximo para sanar as dores excruciantes que ela me provoca. Tem sido a grande cruz que carrego nos últimos tempos.

***

Mal escrevi as palavras acima, súbita náusea obrigou-me a correr até o banheiro, seguida de um intenso, longo e assaz desagradável desarranjo intestinal. (Peço perdão ao leitor que sentir-se horrorizado com  essa descrição tão crua e grotesca de minhas calamidades físicas, mas não vejo outra maneira de expor o que senti esta noite, a não ser da forma mais direta e franca possível - faça de conta que é um médico e que eu estou apenas a descrever-lhe o mais objetivamente possível meus sintomas, com o único propósito de ouvir um diagnóstico claro e preciso de sua parte. Talvez assim possa o nojo, se não desaparecer por completo, pelo menos reduzir-se substancialmente.) Senti uma grande onda de calor percorrer meu corpo e comecei a suar abundantemente. Suspeito estar com febre, mas não tenho um termômetro em casa para comprovar essa suspeita. Uma leve vertigem me atinge. Saio do banheiro a cambalear e vou para o meu quarto, claudicante, em ziguezague, como um ébrio. Lá minha esposa dorme sem suspeitar de meu estado, pois não gosto de incomodar a ninguém quando me sinto mal, a não ser em casos de extrema urgência, especialmente minha esposa, que invariavelmente torna-se o demônio em pessoa, quando tem seu sono abruptamente interrompido. Mas creio que hoje não terei alternativa, serei obrigado a acordá-la.
Não tenho o dom da profecia, mas prevejo que esta será uma longa e terrível noite. Que Deus me ajude!


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Apocalipse Zumbi



Acabo de descobrir que estou com uma imensa pedra alojada na minha vesícula. Aparentemente, esta é a causa imediata e funesta das dores atrozes e terrificantes que venho sofrendo nos últimos tempos, dores estas que, inúmeras vezes, ao longo deste ano, me levaram ao hospital, e me fizeram chorar lágrimas extremamente amargas. Péssima notícia, indubitavelmente. Mas receio que o exame a que me submeti para detectá-la, tenha errado o órgão em que a pedra está alojada. Suspeito estar com ela no coração, ao invés de na vesícula, tamanho o peso que sinto carregar dentro do meu peito. Mas tal não parece ser o caso. Pelo menos, por enquanto.
Mas como não sou o único a carregar uma pedra na vesícula, tampouco sou o único a carregar uma pedra no peito, no lugar do coração.
Neste mundo hostil e desolado, há pessoas que, embora caminhem sobre a terra, respirem profundamente, paguem seus impostos em dia, e despreocupadamente tomem seu desjejum pela manhã, estão mortas, irremediavelmente mortas, por dentro, com o único detalhe de que se esqueceram de se fazer sepultar. Não se deram, ainda, conta de que morreram. Simplesmente "não lhes caiu a ficha".
Posso apontar uma meia dúzia de cadáveres errantes, vistos in loco, nos mais variados lugares e ofícios, desempenhando as mais diversas funções, falando e gesticulando, até efusivamente, como se vivos estivessem.
Mas o "apocalipse zumbi" já começou. Há mortos-vivos entre nós. Não é mais necessário assistir aos seriados norte-americanos para vê-los. Basta manter os olhos abertos para observá-los, pois estão em todos os lugares: nas filas dos caixas, nos bancos das praças, nas reuniões de condomínio, nas repartições públicas (principalmente nas repartições públicas), nos cultos dominicais, etc. Um deles pode até estar ao seu lado neste momento, e devorá-lo, sem você nem perceber.
À diferença dos seriados e filmes hollywoodianos e congêneres, os zumbis a que me refiro não têm os corpos putrefatos e desmembrados, apenas a alma imunda e em frangalhos. Não deixam, atrás de si, um rastro fétido de sangue e destruição, mas um ambiente sombrio, carregado de profunda tristeza e solidão, e ser tocado por eles, é correr o grave risco de se deixar dominar por um estado de absoluto embotamento emocional e asfixiante apatia - o que é ainda pior do que ser mordido por um zumbi cinematográfico.   

domingo, 2 de fevereiro de 2014

The End

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)
Sinto como se um véu de profunda tristeza e devastador desespero tivesse subitamente descido sobre o mundo, agora que leio, consternado, e ainda incrédulo, e com lágrimas nos olhos, a estarrecedora e acachapante notícia do súbito falecimento do magnífico ator Philip Seymour Hoffman, ganhador do Oscar de 2005, por sua brilhante e verdadeiramente inesquecível atuação no filme "Capote", de Bennett Miller, atuação superada, apenas, em minha modesta opinião, pelo seu magistral e emocionante desempenho no belíssimo e comovente "Com Amor, Liza" (2002), de Todd Louiso. 
Informações preliminares dão conta de que seu corpo foi encontrado na banheira do apartamento em que morava, em Greenwich Village, Nova York Afirmam fontes anônimas que com uma agulha espetada no braço. Segundo um famoso tablóide norte-americano, a causa da morte teria sido overdose, possivelmente de heroína. O ator, certa vez, reconheceu, publicamente, enfrentar problemas com substâncias ilícitas, e teria sido internado, em maio passado, em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. 
A ser verdade, Hoffman torna-se, então, a mais nova vítima de talento a ter sua vida prematuramente ceifada pelo flagelo das drogas, mais uma entre tantas outras que nos deixaram tão precocemente e de forma tão abrupta e inexplicável, como Elis Regina, Jimi Hendrix, Jim Morrison, River Phoenix, Heath Ledger, Amy Winehouse, e tantos, tantos outros... A contagem seria longa e pesarosa, efetuá-la seria o mesmo que contar os corpos espalhados sobre um campo de batalha, encharcado de sangue, após o fim de um combate, atividade que, além de inútil, é propícia somente aos que têm estômagos fortes. Não é o meu caso, já que sofro de dispepsia.
Limitemo-nos a lamentar e lamentar profundamente, esta perda irreparável, e ponhamo-nos a rever suas representações primorosas, para aplacar um pouco a dor que nos está (que me está) a fustigar o coração. É o que vou fazer. Trago o "Capote" comigo.

        
     

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Homens e Mitos

"A Balsa da Medusa" (1819) - Theodore Guéricault (1791 - 1824)
A propósito da profunda e dolorosa comoção nacional que ora assola as plagas italianas por conta do aterrador e espetacular desastre ocorrido com o navio transatlântico "Costa Concórdia", naufragado após colidir com rochas na ilha de Giglio, na paradisíaca Toscana, a constatação maior a ser feita é de que o referido naufrágio é verdadeiramente notável, não apenas por suas proporções e pelo número de vítimas fatais que ocasionou, mas, sobretudo, pelo contraste gritante e infinitamente absurdo, que as circunstâncias e os fatos relativos a este fatídico evento acabaram por instaurar entre o que poderíamos classificar como duas visões de mundo diametralmente opostas e dois modos de ser e de agir frente às adversidades da vida, inteiramente distintos entre si. Graças ao modo extremamente tendencioso e maniqueísta com que a mídia italiana e internacional têm tratado aqueles que por ela foram definidos como sendo os personagens principais dessa trama, o que parece haver ocorrido, naquele momento supremo, em solo toscano, teria sido uma batalha épica de titãs entre o supremo bem e o supremo mal, cada lado nitidamente representado por uma figura que, embora de carne e osso, parece haver saído das turbulentas e vertiginosas páginas de um romance náutico do século XIX.
Do lado das hostes animalescas e horroríficas do Mal, temos aquele, que muitos, mesmo os que não têm o menor conhecimento da arte de comandar navios, adjetivam como o "incompetente" capitão do "Costa Concórdia", Francesco Schettino, e, do lado das falanges puras e translúcidas do Bem, o oficial da Guarda Costeira italiana, o comandante Gregorio De Falco, o célebre autor do novo lema nacional italiano: "Vada a bordo, cazzo".
A dicotomia estrita, quase cartesiana, que a mídia, e, por causa dela, o povo da clássica, heróica, longeva e sempre espalhafatosa e férvida Itália, criou entre um homem do mar que, na hora derradeira, diante do colapso iminente da embarcação que comandava, optou, qual encarnação mal-acabada de Lord Jim, por abdicar de seu dever sagrado como capitão para guiar-se pelo primordial e irrevogável instinto de sobrevivência, que de comum todos temos e que o levou a salvar primeiro sua própria pele, em detrimento de seus comandados e dos passageiros do transatlântico a afundar, e outro homem do mar, que, apenas por cumprir estritamente suas obrigações profissionais, acabou por ser alçado aos píncaros da glória nacional (triste sintoma de uma época degenerada, heroicizar um homem apenas por ele cumprir o papel que lhe cabe, sinal de que, até nos mínimos afazeres do cotidiano, a ordem natural das coisas há muito deixou de ser a norma, para tornar-se a exceção), além de falsa, é também o fruto peco e indigesto de uma irresponsabilidade midiática de proporções hercúleas, para novamente usar uma imagem mitológica.
Com todo o respeito devido às vítimas do naufrágio e aos seus familiares, vilanizar Schettino por preferir salvar sua vida, ao invés de sacrificá-la por um quimérico e altissonante ideal de marinha e glorificar De Falco por, no calor e no aconchego de sua cabine, ordenar-lhe pô-la novamente em risco através do reembarque em um navio em processo de afundamento, parece-me, no mínimo, precipitado e algo desonesto. Ocorre-me perguntar o que verdadeiramente faria De Falco, caso estivesse ele, naquele momento soturno, na mesma posição de Schettino e fosse ele a ouvir "Vada a bordo, cazzo".  No caso do malfadado capitão, eis o dilema que se lhe apresentou: preservar a vida ou a honra do ofício. Ele escolheu a primeira altrnativa. Escolha vergonhosa, sem dúvida, mas quantos de nós não teríamos feito exatamente a mesma opção? Lembremo-nos da passagem da adúltera apedrejada no Novo Testamento: "quem nunca pecou..." Quem poderá condenar Schettino por escolher viver?
Porém não é a intenção deste breve e despretensioso artigo, erigir-se em documento de defesa de quem quer que seja. Não vou tomar qualquer partido, seja dos detratores de Schettino, seja dos apologistas de De Falco, mesmo porque não possuo sequer um décimo das credenciais técnicas e científicas necessárias para julgar este caso com um mínimo de objetividade e isenção, e nem é minha função fazê-lo. Parece haver fortes evidências de negligência da parte de Schettino para com a segurança do "Costa Concordia", mas deixemos que as autoridades competentes julguem o caso.
O grande objetivo deste artigo, na verdade, é apenas chamar a atenção do leitor para o elevado e aparentemente irreversível grau de degeneração a que chegou o processo cada vez mais acelerado e, digamos assim, espetaculoso, de "novelização da realidade", pelo qual o jornalismo mundial vem passando nestes primeiros anos do século XXI. As notícias são, para o público contemporâneo, o que os folhetins foram para o público do século XIX e o que as telenovelas foram para o público do século XX.
De fato, a julgar pelo alto pendor para a dramatização, ao estilo mexicano, com que a mídia internacional e especialmente a que vigora aqui, em plagas tupiniquins, tem tratado, não só o naufrágio do "Costa Concordia", mas também outros eventos de grande impacto emocional junto às massas, parece-me ter sido o jornalismo, outrora centrado nos fatos e na objetividade das reportagens, inapelavelmente substituído por um jornalismo de fundo de quintal, altamente propenso a promover uma espécie de ficcionalização da vida real, como que para competir, em pé de igualdade, com a dramaturgia televisiva e os reality-shows.    
Dia haverá em que assistiremos aos telejornais como assistimos a uma telenovela, e, nesse dia, tudo em torno de nós não passará de um gigantesco e sombrio filme de terror, sem final feliz. 

sábado, 23 de julho de 2011

A Vulgaridade da Morte


Amy Winehouse (1983-2011)

Se há algo de que ninguém, em sã consciência, pode acusar a morte, é de parcialidade ou esnobismo. A morte é, indubitavelmente, o mais democrático e igualitário dos fenômenos naturais. Diante dela, todos se equivalem, todas as sutis e complexas distinções humanas, que tanto complicam e tornam atribulado e, por vezes, infernal, este pobre e pequeno mundo em que vivemos, se desvanecem, tornam-se completamente inúteis, desprovidas de qualquer sentido. Diante dela, todos prostram-se de joelhos, e clamam, em vão, por mais alguns segundos de vida. Não importa que sejam reis, papas, imperadores, generais, presidentes, primeiros-ministros, personalidades de mídia (seja o que for que isto signifique), celebridades instantâneas e outras não tão instantâneas, comendadores, diplomatas, desembargadores, petistas ou tucanos, republicanos ou democratas, flamenguistas ou vascaínos, carnívoros ou vegetarianos, a morte nada vê diante de si, a não ser a alma a ser ceifada. Ela não tem absolutamente nenhum preconceito de qualquer espécie, não segue nenhum critério fixo na hora de exercer seu ofício imemorial, não há uma ordem específica para ela respeitar em seu trabalho, ela não liga a mínima, para coisas tão vãs e fúteis, como idade, sexo, nacionalidade, raça, classe social, e coisas que tais. Todas essas superficialidades mundanas, que tanta aporrinhação e fadiga trazem à melancólica e desvalida raça humana, para ela, a "indesejada das gentes", nada significam. Penso que muito poderíamos aprender com ela, no tocante à velha e tempestuosa questão da igualdade. Paradoxalmente, se pensássemos mais sobre a morte, talvez aprendêssemos mais sobre a vida.
Mas há diversos momentos em que gostaríamos, eu pelo menos gostaria, que ela fosse menos democrática e um pouco mais seletiva em seu ofício, que adotasse critérios mais rígidos e claros para o desempenho de sua função, que fosse, enfim, um pouco mais aristocrática e um pouco menos vulgar.
Se me for perdoada a ousadia de lhe fazer sugestões, eu opinaria que uma boa regra de conduta a ser tomada pela morte, de agora em diante, seria a de não mais levar consigo, crianças. Outro grupo de pessoas que ela deveria se abster de ceifar, seria o das mães, que, de fato, deveriam ser imortalizadas, por meio de um decreto divino, a ser publicado no Diário Oficial do Céu, com todos os artigos e parágrafos a que o dito decreto teria direito, sem o esquecimento de uma vírgula. Seria o Treze de Maio das mães: "Artigo Primeiro: Fica abolida a morte das mães. Artigo Segundo: Revogam-se todas as disposições em contrário".
Ainda um terceiro grupo a ser privado do contato com a morte, seria o dos artistas, seres especiais, quase divinos, que tornam este remoto e desolado vale de lágrimas, senão um lugar menos lacrimejante e hostil, ao menos, um recanto mais confortável para viver, porque mais compreensível. Pois este é o real papel da arte, neste mundo: dar um sentido à vida, um sentido que ela não tem, em si mesma. E nada há mais trágico sobre a face da Terra, do que a perda abrupta e irreversível de um grande talento artístico, ainda em formação, subitamente cortado pela raiz antes de amadurecer por completo, tal como uma flor, ainda por desabrochar, repentinamente arrancada do solo, pela mão inábil de um jardineiro principiante.
Claro está que me refiro à súbita, mas não de todo surpreendente notícia da morte da talentosa e polêmica Amy Winehouse, a quem muitos veneravam por sua voz magnífica e outros repudiavam por seu comportamento assaz espalhafatoso e autodestrutivo. Muito já foi dito e redito a respeito deste evento fatídico, indubitavelmente catastrófico para seus fãs e os que verdadeiramente a amavam, mas, com certeza, infinitamente lucrativo para sua gravadora e os demais envolvidos com a comercialização de sua imagem - pois é uma verdade, já universalmente estabelecida, que nada é mais vantajoso para um artista, do ponto de vista financeiro do termo, do que a morte ainda nos píncaros da fama (vide o caso de Michael Jackson.). O único problema é que não é o artista que obtém os lucros advindos de seu passamento, esta cláusula não está prevista em qualquer contrato.
Nada mais poderia fazer aqui a não ser repetir, com outras palavras, tudo que vi, li e ouvi sobre a infeliz Amy, ao longo do dia, desde seu envolvimento com o obscuro e tétrico mundo das drogas (mal que já se abateu sobre outras figuras, tão ou até mais célebres e talentosas do que ela), até sua entrada no tão famoso, quanto sinistro, "Clube dos 27", o que muito me fez lembrar da histeria coletiva reinante quando da chamada "Maldição de Tutâncamon", que nada mais era, do que uma série de coincidências notáveis, envolvendo a morte de membros da equipe arqueológica responsável pela exumação do lendário faraó-menino. Coincidências notáveis, eu disse, mas ainda, coincidências. Assim como a idade em que morreram os integrantes do tal "Clube dos 27". 
Há pessoas que gostam e até se orgulham, de enxergar conexões ocultas em tudo, até entre coisas as mais díspares e inconciliáveis; pessoas que vêem, numa série de simples coincidências fortuitas, os claros e inequívocos sinais de um diabólico plano de dominação mundial, proclamando-se visionários homens de sabedoria a quem o resto da humanidade deveria adotar como sumos guias rumo ao mundo do porvir, e que, para todos os males que afligem a humanidade, têm a solução miraculosa e infalível, basta o fiel trouxa, digo, seguidor, depositar alguns gordos maços de cédulas, novas em folha, em suas sacrossantas algibeiras proféticas, para tomar conhecimento dela. A atual balbúrdia em relação ao hipotético apocalipse de 2012, por exemplo, motivada por uma errônea e superficial interpretação do calendário maia, é o mais novo e fértil campo de atuação de tais "gurus". 
Há também os que estão sempre prontos a apontar, com o dedo em riste, sem pejo, nem cuidado, os reais e únicos responsáveis pelas atuais mazelas do mundo, vociferando, como cães danados, contra todos os que se atrevem a contestá-los com um pouco mais de clareza. Ora é a maçonaria, ora são os Illuminati, ora são os templários, ora é o projeto eurasiano, ora são os reptilianos de Nebiru, isto, quando não são todos eles, juntos, agrupados sob a vaga e solene denominação de "Nova Ordem Mundial" ou "Governo Oculto do Mundo".
Mas voltemos à realidade. Era sobre Amy Winehouse que falávamos. 
O que mais podemos falar sobre ela que já não tenha sido dito, à exaustão, em outras paragens? Que ela foi a infeliz e atormentada protagonista da história trágica de um talento genuíno e inigualável, desperdiçado por um vício monstruoso, vício que, por fim, acabou por irremediavelmente jogá-la no abismo? Um enredo simples, sem grande originalidade, com um desfecho vulgar, vulgaríssimo. E esta é a maior acusação que podemos fazer contra a morte, talvez a única: ela é vulgar, tristemente vulgar.