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18 de agosto de 2016

Má Educação

Pawel Kuczynski
Não tenho boas lembranças do meu tempo de escola. As escolas em que estudei, foram, para mim, verdadeiras antecâmaras do Inferno. Numa época em que a palavra bullying era ainda desconhecida ou pouco utilizada nos meios escolares brasileiros, eu já o sofria, cotidianamente, dia após dia, em todos os estabelecimentos em que fui matriculado. Vivi horrores dentro de suas salas de aula. Não raras vezes, cogitei seriamente a possibilidade de praticar uma atitude extrema, como a deste pobre menino. Nada aprendi dentro delas, a não ser a desprezar a humanidade, especialmente os profissionais da área da educação, sobretudo os professores. Tudo o que hoje sei ou suponho saber, aprendi-o fora de seus muros, em casa e nas bibliotecas públicas, sozinho, sem o auxílio de colegas, nem, obviamente, a orientação de qualquer mestre. Sou um autodidata, em toda a plenitude do termo. 
Nunca concluí o ensino médio. Não tenho, portanto, um diploma universitário pendurado em minha parede. Pois para cursar uma universidade e receber, após quatro longos e tediosos anos, um pedaço de papel pintado, é necessário, primeiro, ter outro pedaço de papel pintado, para poder prestar o vestibular, para, só então, cursá-la, caso aprovado. Por conseguinte, minhas opiniões nada valem. Nada do que eu digo e ainda vier a dizer, seja aqui ou alhures, vai exercer qualquer influência sobre o rumo dos acontecimentos contemporâneos e não vai alterar em um milímetro, sequer, o atual estado de coisas, seja no Brasil ou no mundo. Mesmo assim, vou dizer claramente o que penso. O que digo, pode até não ter importância nenhuma, mas vou exercer plenamente meu direito constitucional à liberdade de expressão, mesmo que ninguém esteja disposto a ler-me. Cantarei a minha música, mesmo que eu seja o único a ouvi-la. No mais, às favas com quem não gostar! Basta mudar de site. Meu blog não é uma prisão de leitores desavisados. 
Não tendo um diploma universitário, claro está que também não sou especialista em pedagogia, mas não é preciso sê-lo para constatar a inegável e catastrófica falência de nosso modelo educacional atual. Nossas escolas não cumprem sua função, não ensinam, nem educam. 
Para mim, os grandes problemas educacionais de nosso tempo, podem ser imediatamente resolvidos, de forma simples e eficaz, por meio de um único e barato instrumento: a abolição das escolas.

29 de abril de 2016

A Grande Piada


Certo dia, ao final de uma espectral e confrangedora tarde de inverno, após encerrar mais um extenuante e tedioso dia de trabalho ("que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol"?) e descer do ônibus, estava eu prestes a atravessar a curta e aprazível rua que dava acesso ao local onde, por muito tempo, morei, quando, subitamente, vi a seguinte inscrição, gravada com spray, no muro do cemitério, situado na esquina:
"Escrever é uma piada".
Senti-me petrificado e perplexo, ao lê-la. Uma dor moral, aguda e excruciante esfacelou meu ingênuo coração de aspirante a escritor e por pouco não me fez desabar sobre meus próprios pés, que na ocasião, muito me incomodavam, por conta de alguns detestáveis joanetes, que estavam a flagelá-los.
Mas por que tamanha mortificação?
Expliquemo-nos.
Como humilde e pouco talentoso cultor da palavra escrita (não, gentil leitor, não o negues, agradeço os elogios, mas fiquemos com a verdade), para minha grande tristeza e bem merecido opróbrio, confesso não sentir, em mim, sequer a mais vaga e remota vocação para exercer, ainda que de forma superficial e ligeira, o nobre, porém, assaz complexo, e, diga-se, terrivelmente angustiante e doloroso ofício de palhaço, salvo quando desejo, modestamente, é óbvio (a modéstia, como bem sabes, é a maior de minhas muitas virtudes), espelhar-me em Aristófanes ou Jonathan Swift, e fazer minha a clássica divisa: ridendo, castigat mores. Eis porque esta sentença, ao mesmo tempo ridiculamente breve, mas incrivelmente eloquente, feriu-me por dentro, a ponto de obrigar-me a refletir profundamente sobre ela, ao longo de uma noite inteira, passada em claro. Tal como o burguês de Moliére, que teve uma grande surpresa ao descobrir que falou em prosa, a vida inteira, sem o saber, também eu me surpreendi, ao descobrir ser humorista, quando, na verdade, pensava ser moralista - dois ofícios aparentemente díspares e inconciliáveis, mas que, no fundo, acabam sendo a mesma coisa.
A propósito: o leitor já procurou refletir, com um mínimo de cautela e circunspecção, sobre a verdadeira natureza, complexidade e multiplicidade de sentidos da velha e indispensável arte da galhofa? Pois é, eu também não, pois, como todos que me conhecem, já estão fartos de saber, sou o mais preguiçoso e lento dos seres humanos e minha indolência no quesito "pensamento", é extrema. Pensar cansa muito e eu abomino tudo o que é cansativo. E isto desde o útero de minha mãe. Contam meus pais que, quando nasci, os médicos tiveram um enorme trabalho para me tirar da barriga de minha mãe, tamanha a minha preguiça de sair de lá de dentro, de forma semelhante ao que aconteceu com Henry Miller, segundo o que ele conta, em "Trópico de Capricórnio". Penso que tal recusa em sair do ventre materno, era perfeitamente justificada. Afinal, por que sair de dentro de um lugar quente e acolhedor, onde tudo de que eu precisava era-me fornecido de graça e sem grandes esforços de minha parte? O que tinha eu a ver com este mundo frio e hostil, onde fui, e ainda sou, obrigado a viver, a contragosto, desde que fui trazido à luz?
Minha indolência é tão grande, veja o leitor, que até para defender meus ideais, não movo uma palha, a não ser para descansar melhor. Prefiro estar em paz, a estar com a razão.
De qualquer forma, e digo-o para meu desagravo, é sempre melhor evitar querelas inúteis, que no fundo, a nada levam, a não ser a aborrecimentos de toda casta e gênero. Prefiro beber uma boa taça de champanhe - de preferência genuinamente francês, da estirpe daqueles outrora muito apreciados por Voltaire e a patota enciclopedista - com o diabo, que, aliás, não é tão feio como se pinta, é, até, muito elegante e cavalheiresco, a tentar exorcizá-lo, sob o risco de incorrer em sua ira satânica e ser impiedosamente precipitado ao inferno da execração pública.
Note-se que há sempre um diabo disponível para cada situação da desamparada vida humana. Todos temos nossos demônios particulares.
Preservemos a paz. Voltemos a falar sobre o humor.
A tentativa, na realidade essencialmente infrutífera e quixotesca, de definir o real significado do humor nas obras de arte, é algo sério e capaz de despertar polêmicas incendiárias, épicas, dignas de figurar nas mais célebres cenas da Ilíada, ou, pelo menos, nas mais hilariantes e flatulentas páginas de Rabelais. Já disse Friedrich Hebbel: "Nada é mais humorístico do que o próprio humor quando pretende definir-se". Opinião idêntica a de Enrique Jardiel Poncela, expressa, porém, em outras palavras: "Definir o humor é como pretender pregar a asa de uma borboleta, usando como alfinete, um poste de telégrafo". Grosso modo, é quase o mesmo que perder preciosos minutos de vida, discutindo a quadratura do círculo ou a concretude do vácuo, com quem nem mesmo tem ouvidos para ouvir...
Em minha vaga e modesta opinião de pobre, ínfero e obscuro escrevinhador blogosférico, Mark Twain está coberto de razão quando diz:
"A fonte secreta do humor não é a alegria, mas a mágoa, a aflição, o sofrimento. Não há humor no paraíso".
Com efeito, a alegria só tem utilidade onde impera a tristeza - pois o que são a tristeza e a alegria senão o inverso, uma da outra? O Eclesiastes diz que "a sabedoria mora na casa da melancolia." Mas às vezes ela pode hospedar-se, ainda que seja só por algumas horas, na casa da alegria. 
O autor da pichação supramencionada, embora talvez não tenha consciência disto, demonstrou ser um discípulo moderno do filósofo Diógenes, o cínico, que, num dia de muito mau humor - que eram, aliás, todos os trezentos e sessenta e cinco do ano - em resposta a Platão, que, num momento de péssima inspiração, havia definido o homem como um bípede sem plumas - uma opinião nada lisonjeira sobre a raça humana, diga-se, - lançou contra ele, uma galinha depenada, dizendo-lhe: "eis um homem"! Ou, talvez, de Beckett, o absurdo Beckett, naufrágo da existência, que usou a literatura como instrumento para colocar em evidência a falência da própria literatura:
"toda a palavra, é como uma mácula desnecessária, no silêncio e no nada".
Escrever é uma piada, realmente, e uma piada de muito mau gosto, por sinal, justamente porque a própria existência humana é ridícula. Não apenas ridícula, vã. Os deuses, dos píncaros do Olimpo ou do Valhala, ou do Sinai, sejam eles, nórdicos, gregos ou hebreus, nos contemplam com olhos impassíveis, quando não, cheios de tédio, riem sardonicamente de nossas angústias efêmeras e insípidas e depois ocupam-se de outros afazeres infinitamente mais interessantes. Nada mais somos do que poeira de estrelas.
Assim sendo, não há maior palhaço do que um escritor que se põe a escrever sobre a condição humana - afinal, há muito em comum entre o trabalho do escritor e o trabalho do palhaço, como já salientou Kenzaburo Oe:
"O trabalho de um escritor é o trabalho de um palhaço... o palhaço que também fale sobre desgostos". 
E o próprio Beckett, quando acusado por um crítico, de ver o mundo habitado por palhaços, perguntado se não seria este um termo meramente pejorativo, e se os escritores não seriam, também eles, uns palhaços, afirmou:
"No mundo que aí está, somos todos palhaços. Uns nascem com o dom de rir, outros de chorar. Minha cara, creio eu, expressa essas nuances. Quem me vê, não sabe se enruguei porque ri demais ou demais chorei. Para mim, o riso não é apenas um momento de alegria. No desenho de um rosto, pode ser o traço da dissimulação e até do desagrado. Alguma coisa a lembrar o gorjeio do pássaro engaiolado. Ele canta ou chora sua aflição de prisioneiro?"  
Então de que adianta escrever? O que me leva a digitar estas palavras, com sofreguidão e volúpia intelectual, se, no final das contas, o mundo não se moverá sequer um milímetro, de sua órbita louca rumo ao caos e todos nos precipitaremos no abismo, de uma forma ou de outra? Talvez também para esta questão, Beckett possa contribuir, com uma tentativa de resposta:
"Esse é o paradoxo do artista. O ato de escrever me provoca imensos conflitos porque não há nada a exprimir, nada com que exprimir, nada a partir do qual exprimir e, no entanto, há a obrigatoriedade de exprimir."  
Atrevo-me a fazer minhas as palavras de Beckett. Os conflitos a que ele alude, em relação ao ato de escrever, também me afligem, no momento em que me sento à mesa de trabalho, com o objetivo de lançar palavras sobre o papel, porque sinto o mesmo que ele. Mas, embora eu nada tenha a dizer, continuarei a escrever, assim mesmo, porque, mais do que a obrigatoriedade, sinto a necessidade, profunda e imperiosa, de fazê-lo. Quase tão grande quanto a necessidade que tenho de respirar. E eu sou asmático.

28 de abril de 2016

Terrores Noturnos


Para início de conversa, aproveito para confessar que me encontro, neste momento, completamente desprovido de ideias ou pensamentos verdadeiramente dignos de expressão por meio de palavras escritas. Mesmo assim, algum sorrateiro e perseverante demônio grafomaníaco agora toma conta de meu ser e me obriga, manum ad ferrum, a escrever, mesmo sem eu ter nada de realmente útil ou valioso para transmitir através destas linhas. Talvez seja o mesmo tipo de demônio literato que aquele que se apoderava de Faulkner, no momento da redação de suas obras magistrais, ou talvez, um primo distante daquele que acompanhava Sócrates, em seu diálogos em plagas atenienses. (Verdade que o demônio de Sócrates pertencia ao gênero dissuasório, enquanto o meu parece ser mais do gênero imprecatório.) Demasiada presunção da minha parte, comparar-me a Faulkner e Sócrates? Pode ser. A modéstia nunca esteve entre minhas maiores virtudes. O talento e a inteligência, sim, além, é claro, da beleza e da sabedoria.
Mas a falta de ideias persiste. Não há pior pesadelo para um escritor, do que o aterrador vazio de uma página em branco. Que fazer?

Creio que a razão principal, senão a única, da súbita e avassaladora esterilidade intelectual e criativa que assola e deprime minha mente, nesta terrivelmente fria e assustadoramente vazia madrugada curitibana, foi o estrondo verdadeiramente apocalíptico - para dizer o mínimo - que há cerca de uma hora, aproximadamente, abateu-se sobre o telhado de minha casa e provocou meu imediato e inapelável despertar, através de um choque de altíssima intensidade, como se uma bomba nuclear tivesse sido repentinamente detonada, a poucos passos de meu quarto.
Mas o que produziu tamanho barulho, tão inexoravelmente ensurdecedor e enregelante? Um gato notívago, de colossais e apocalípticas proporções, em uma corrida desabalada e implacável, em busca de alimento nos desvãos sombrios e tétricos dos quintais curitibanos, cobertos com a densa, mas não de todo, impenetrável, capa da escuridão noturna, sendo tal alimento, talvez, um rato, desagradavelmente brincalhão, portador dos genes do gigantismo? Um duende intrépido, que decidiu, por mero impulso, escapar da imperiosa e imutável lei do anonimato coletivo que, por séculos e séculos, garantiu a sobrevivência e a perpetuação de sua micro-sociedade utópica, para correr pelo mundo hostil dos seres humanos, em busca de quixotescas aventuras e felicidade autêntica? (Se acaso a encontrar, favor avisar o autor deste blog.) Um alienígena curioso, talvez oriundo dos confins de Zeta Reticuli, provavelmente integrante do mesmo grupo que abduziu o casal Hill, encarregado de realizar uma profunda e minunciosa investigação sobre o paradeiro atual de seus irmãos, perdidos em Rosswel e Varginha, com uma breve escala em Curitiba? Aliás, quem ignora que nossa célebre e ubíqua "Loira Fantasma", terror dos taxistas e pedestres insones da capital paranaense, nada mais é do que uma criatura extraterrestre, exilada de Sírius, e que constantemente se oculta, de modo assaz ignóbil e patético, sob o hábil e espectral disfarce de uma entidade sobrenatural, apenas para escapar da perseguição implacável dos Homens de Preto, sobretudo do soturno Tommy Lee Jones, e limitar-se a ficar na mira apenas de parapsicólogos autodidatas e discípulos do padre Quevedo, infinitamente mais inofensivos e condescendentes do que os agentes yankees, uma vez que o ceticismo absoluto do ilustre sacerdote é justamente a maior proteção que ela poderia obter? Ou terá sido o tropel furioso e insano de exércitos inumeráveis de berserkers, rumo ao Ragnarök, seguidos por uma multidão de valkyriots, em uma cavalgada frenética em busca de corpos de guerreiros nórdicos mortos em batalha, no crepúsculo dos deuses?
Ou, falando de modo um pouco mais prosaico e menos épico: seria algum ladrão tentando invadir minha residência?
Ignoro a causa imediata e correta do lúgubre som que ocasionou meu despertar, apenas sei que ele afastou de meus olhos, para milhares de quilômetros de distância, sem deixar sequer um mínimo vestígio de sua presença, o solícito e benfazejo Morfeu, deus do sono, generosa entidade mítica, que através de milênios e milênios sem conta, concede aos homens, a mais preciosa dádiva que pode existir sobre este pequeno e atribulado grão de poeira cósmica azul que ora habitamos: a faculdade de esquecer, ainda que pelo simples espaço de uma noite, a sordidez, a frieza e a brutalidade do mundo com que somos diariamente obrigados a conviver, quando em vigília. Lá se foi ela, a bondosa deidade que até há poucos instantes, tão encantadoramente, me embalava em seus braços tépidos e suaves, talvez, no fundo, não muito diferentes dos braços frios e pétreos de seu irmão gêmeo, a morte, com o qual, mo entanto, não tenho simplesmente o menor desejo de entrar em contato, pelo menos não tão cedo.
Em outras e mais claras palavras: o misterioso estrondo tornou-me, sem apelação e sem a menor chance de defesa, angustiado e triste prisioneiro da insônia, o inflexível e tirânico carcereiro dos amantes desenganados e dos poetas notívagos.
Por muito tempo, padeci e por vezes ainda padeço, de insônia crônica, fruto de pesadelos recorrentes que me atormentavam o sono e tornavam extremamente longas e penosas minhas noites, a ponto de, muitas vezes, assim que percebia estar o sono a aproximar-se, o medo de um novo pesadelo já me tomar de assalto, impedindo-me de dormir e angustiando-me profundamente. Não possuo grandes habilidades descritivas, não possuo a menor centelha do talento oratório de um Antônio Vieira ou de um Bossuet, portanto só posso dar ao leitor, uma vaga ideia de como eram tais pesadelos, dizendo que eram como que uma espécie de perturbadora, incongruente e diabólica mistura das telas de Fuseli e H. R. Giger, com os perturbadores quadros de Zdzislaw Beksinski e Edvard Munch, com uma leve pitada de Remedios Varo e Goya.
Este último disse que o sono da razão produz monstros. No meu caso, a privação de sono é que os trouxe das trevas, para atormentar meus pensamentos.
Ao acordar com o barulho, levei uma verdadeira infinidade de tempo para tomar plena consciência da realidade ao meu redor. Meu coração batia tão descompassada e violentamente que, por um momento, julguei estar quase às portas do além-túmulo. Meus olhos arregalados e impacientes esquadrinharam, minunciosamente, até o mais ínfimo detalhe de meu quarto, na esperança de encontrar algum sinal, por mais vago e superficial, que pudesse fornecer-me qualquer indicação minimamente clara sobre o que provocou o cataclísmico ruído, que, fosse eu, um pecador impenitente e miserável, como me acusam, far-me-ia sucumbir de vez, perante às garras demoníacas do medo.
Nada de estranho ou fora do comum em meus aposentos. Tudo na mais perfeita ordem e na mais santa paz.
Para concluir minha busca, abri meu velho e já bastante empoeirado baú de memórias, remexi minhas lembranças ocultas e vi que todos os meus antigos esqueletos continuavam perfeitamente acomodados lá dentro, junto dos últimos pedaços que restavam de meu coração dilacerado. Separadas em compartimentos estanques, marcadas por etiquetas correspondentes a cada fase de minha vida, lá estavam elas, as camadas de identidade que fui perdendo ao longo dos anos, para hoje estar aqui, em carne viva, diante do leitor. Pois não é sabido que os seres humanos são como laranjas, que o tempo e o mundo vão se encarregando de descascar, camada por camada, até não sobrar mais do que a essência última de nosso ser, o mais secreto rincão de nossa alma, legando as cascas que se perderam pelo caminho, aos vermes soberanos, os últimos que triunfarão, quando não formos mais do que carne morta e um simples imagem na prateleira de nossos descendentes?
Lá estava, recuperando-se de sua asma crônica, o menino franzino, cabisbaixo e sempre doentio, que passou um terço de sua infância, confinado em hospitais; em outro compartimento, o adolescente casmurro e extremamente frágil, e cheio de sonhos, que era, talvez por causa disso, o alvo preferencial da chacota de seus colegas e do escárnio cruel da primeira garota que lhe despertou a chama agridoce do amor; em outro compartimento, ainda, este com uma data um pouco mais recente, o aspirante a ator, que tentou fazer do palco, um prolongamento de sua existência, e que, à exemplo de Ícaro, tentou alcançar o céu com asas de cera, mas acabou por despencar das nuvens, na mais triste, sombria e miserável realidade; todos atendendo pelo mesmo nome, mas com personalidades totalmente distintas e até mesmo antagônicas - obra do tempo e dos homens.
Voltei-me para o espelho e contemplei, longa e fixamente, a face amarga e envelhecida que se apresentava, de maneira assaz impudica, quase pornográfica, ao meu olhar perplexo. Tal como na célebre canção dos Titãs, não consegui reconhecer o semblante monstruoso que via diante de mim. Séculos se passaram enquanto eu dormia. Tornei-me uma nova versão de Rip van Winkle. Recuei alguns passos e não consegui articular eficazmente as ideias, assaz confusas e indiscerníveis, que se embaralhavam em minha mente caótica. Não podia crer que aquele fosse meu rosto real: uma pálida máscara de tristeza e dor, por onde a vida passou como um furacão, sem deixar nada em pé. Escombros sobre escombros, nada mais.
- Deve ser o efeito da privação de sono - pensei, comigo - Se eu voltar a dormir, esta sensação de total isolamento e desolação passará e poderei voltar a sorrir como antes.
Com esse intuito, voltei para a cama e fechei fortemente os olhos. Tentei a célebre tática de contar carneirinhos, mas os putos não queriam atender ao meu chamado e não pulavam a cerca. Pelo contrário, ficavam a pastar no campo alheio, sem notar minha presença. Nem mesmo um lobo por perto, para movimentar um pouco as coisas!
Bem se vê que a solução matemática estava longe de poder ser aplicada ao meu problema. Nunca fui muito bom com números. As palavras são o meu forte.
Virava-me de um lado para o outro e o sono não vinha. o relógio parecia zombar de meu esforço inútil, com o ritmo impassível de seus ponteiros. Cada segundo sentia-me como se uma navalha em brasa, estivesse a rasgar minha carne e dedos de ferro triturassem meus ossos.
- Basta! - bradei, exasperado - Não vou mais tentar adormecer. Vou escrever um pouco para ver se me acalmo.
Levantei-me e sentei-me em frente ao computador, para exorcizar meus demônios, através da escrita. Antes, porém, à cata de inspiração, murmurei, num tom quase inaudível, alguns versos do heterônimo pessoano Álvaro de Campos: 


"Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, não posso escrever quando acordo de noite, não posso pensar quando acordo de noite — Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite"!
Diz o imperador Adriano, em sua longa e sábia missiva a Marco Aurélio (no clássico de Marquerite Yourcenar) : 

"Que é nossa insônia, senão a obstinação maníaca de nossa inteligência, em manufaturar pensamentos e formular uma série de silogismos, raciocínios e definições que lhe são próprios? Ou ainda, a a recusa em abdicar em favor da divina estupidez dos olhos fechados ou da sensata loucura dos sonhos? O homem que não dorme (...) recusa-se mais ou menos conscientemente a confiar no fluxo das coisas."
Montaigne, em certo trecho de seus "Ensaios" enumerou uma série de exemplos de grandes personagens históricos, que, ao contrário de mim nesta noite enigmática, entregaram-se completamente ao sono, em circunstâncias as mais inapropriadas e fatídicas e cita Catão, como um modelo ímpar de coragem e abnegação, posto não se ter permitido dominar pelos tentáculos vorazes da insônia, mesmo estando sua vida, sob sério risco.
Proust, ao contrário de Catão, um grande notívago, sofria em sua infância, sempre, um colossal martírio, por ser diariamente obrigado a dormir cedo, sem estar com sono. A passagem de "O Caminho de Swann" em que ele relata, pormenorizadamente e com uma linguagem verdadeiramente sublime, cada etapa do complexo ritual psicológico que envolvia seu adormecer e a lenta penetração do sono em seus olhos, é uma das mais preciosas e cintilantes jóias da literatura universal, sobretudo quando narra com cores vívidas e cativantes, o momento em que prorrompeu em lágrimas, nos braços de sua mãe, em uma noite de insônia. Dele, são estas palavras: 


"O sono é como uma outra casa que poderíamos ter, e onde, deixando a nossa, iríamos dormir".
- Mas qual é o real propósito deste artigo, Marcos? - pergunta um leitor impaciente - Por acaso, pretende me fazer perder meu precioso tempo, falando sobre sua insônia e não me deixar dormir, com toda essa conversa fiada? Pois saiba que se você não está com sono, eu estou. Termine logo este texto e volte para a cama!
Pois eu respondo, e com maior polidez do que o brutal leitor que agora me interpelou: estas palavras são apenas um meio de passar o tempo, enquanto Morfeu não volta para fechar novamente minhas pálpebras, um meio que encontrei para matar o tempo, enquanto ele não me enterra e... Mas... espere! Ei-lo aqui, de novo, em minha presença! Já começo a sentir, novamente, o langor no corpo, típico do gradual processo de adormecimento que me é peculiar, as pálpebras pesadas, e principio a dar meus primeiros bocejos. Viva! Vou colocar um ponto final neste artigo e finalmente me entregar ao sono, que agora retorna, e dar o meu mergulho na eternidade, como diria Coelho Neto. 
Mas antes permita-me citar ainda uma outra frase de Adriano, que vem bem a calhar neste instante: 
"(...) o sono mais perfeito é necessariamente um complemento do amor: repouso tranqüilo, refletido sobre dois corpos".
Pena que não haja um corpo a mais em minha cama, agora, para que eu possa comprovar esta teoria! Mas ainda assim, creio que vou conseguir repousar, tranquilamente e sem pesadelos. Pelo menos, assim o espero.

26 de abril de 2016

Filosofia Urbana


Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Confesso que sou ou bem posso ser considerado um autêntico, ainda que imperfeito, espécime daquilo que se convencionou chamar, desde os tempos do ébrio e soturno Baudelaire, um flâneur, no melhor estilo do termo, um convicto e incurável andarilho da urbe curitibana. Desde que aprendi a andar com os meus próprios pés, cultivo o salutar e agradável hábito de caminhar, durante horas e horas, a fio, sem destino, nem hora marcada, pelas silenciosas e algo melancólicas, aprazíveis e poéticas ruas curitibanas, com os olhos constantemente em alerta para tudo que existe ou se movimenta ao meu redor, sempre prontos a captar, guardar e processar, no arquivo labiríntico e multifacetado de minha memória, a beleza fugaz de instantes, gestos e paisagens, que, justamente por conta dessa mesma fugacidade, por não poderem jamais repetir-se, possuem um valor simplesmente inestimável, maior do que o de qualquer pepita de ouro já encontrada ou por encontrar, ainda que não devidamente reconhecido pela esmagadora maioria dos tecno-escravos de nossa opulenta e pretensamente progressista sociedade moderna, cujo tempo é quase que integralmente dedicado à mera busca desenfreada por lucro e status, pouco sobrando para o cultivo do espírito e do coração.
Estou sempre em busca de algo, que não sei definir com precisão, que não tem nome, nem uma forma definida, dentro da frenética e vertiginosa selva curitibana, que me emocione ou me seduza, com sua novidade e seu esplendor, por mais insignificante e medíocre que aparente ser na superfície. Já descobri e vivenciei o prazer de contemplar inúmeras coisas, deveras belas e inusitadas, em minhas perambulações. Coisas que os tecno-escravos que mencionei, julgariam completamente sem importância, porque desprovidas de real valor monetário. Desde a visão singularmente sublime e encantadora, quase paradisíaca, de uma singela e desgastada estatueta negra, pequena, finamente trabalhada, perdida no fundo de um jardim solitário e inóspito, com um estranho e comovente sorriso à la Gioconda, a lembrar exóticos ares orientais, estampado em sua face de ébano, até a aspiração, profunda e enlanguescedora, do sutil e inebriante aroma proveniente de um vaso de flores multicoloridas e luxuriantes, postado sobre o peitoril de uma janela adornada com esfarrapadas cortinas de renda, cheias de furos e marcas de cigarro, e na qual, um homem de cabelos austeramente encanecidos, com ares de profeta bíblico, fumava um cachimbo preto, com uma expressão, ao mesmo tempo, grave e nostálgico, pensando, sabe Deus em que passagens longínquas de seus sonhos de antanho, talvez pressagiando a iminente chegada da cláusula de seus dias sobre a Terra; crianças jogando "bafo" (não há o que estranhar, a modernidade ainda não soterrou, por completo, nas dunas velozes e vorazes do esquecimento e da desilusão, o verdadeiro significado da infância e o real valor da instituição familiar em alguns raros e heróicos lares curitibanos - eu próprio já participei de verdadeiros campeonatos improvisados deste já bastante raro esporte infantil, no qual sempre fui, confesso-o com pesar, uma gigantesca nulidade) na calçada fronteira à uma velha casa de madeira de inspiração ucraniana, sob o olhar terno e vigilante de seus pais; carrinheiros, de semblante fatigado, cruelmente flagelados pela inclemência do clima e constantemente acossados pelo olhar gélido dos mais afortunados, enquanto realizam seu trabalho e procuram a sobrevivência naquilo que facilmente descartamos quando não mais nos apetece conservar; os onipresentes e inexoráveis engraxates da Boca Maldita, tagarelas e presunçosos como somente eles sabem ser; as estátuas vivas da Rua das Flores, que formam como que um museu a céu aberto, com figuras de carne e osso em exposição, e que, em troca de alguns mirrados centavos, dados, às vezes, de não muito bom grado pelos passantes, adquirem movimento e desenvoltura ante os olhos admirados dos transeuntes e lhes saúdam, reverentemente, como dignos e solícitos anfitriões de um fantástico e caleidoscópico espetáculo de variedades urbanas (jamais esquecerei do olhar maravilhosamente deslumbrado de uma garotinha que recebeu um beijo na mão, dos lábios de um singular e elegante "Apolo de Belvedere" e que ficou verdadeiramente estupefata, ao ver-se imersa em tamanho encantamento, não conseguindo acreditar que estava a ver uma estátua movimentar-se de verdade diante de si); figuras já de todo presentes no imaginário coletivo da cidade e que se tornaram características do folclore moderno curitibano, como um certo senhor de sunga, bicicleta e um rabo de cavalo, um pouco fora de forma, é verdade, que caminha pela rua, com o corpo todo besuntado de óleo, como se fora um corcel prestes a galopar num haras de extensão ilimitada: a multicolorida e gentil Rainha do Papel, dona Efigênia Rolim, que transforma insignificantes embalagens de plástico em obras de arte de rara e magistral beleza; as mercadoras do amor da rua Cruz Machado, modernas sacerdotisas do mais antigo e secreto dos cultos, muitas a exalar ares lascivos e pecaminosos de todos os poros de seus corpos desnudos, outras com uma deprimente e angustiante expressão de profundo tédio a marcar seus rostos berrantemente pintados, e que, ao cair a noite, apregoam, fazendo uso das milenares técnicas conhecidas apenas pelas legítimas descendentes da Mulher Primordial, anterior a Eva, seus dotes, de duvidosa eficácia, para combater a solidão, e, por quantias previamente determinadas, dão aos clientes, ainda que por uma breve e fugaz meia hora, a vaga e efêmera sensação de ser verdadeiramente amados e desejados, sensação que não vale um cêntimo de um afeto real; tudo isto e mais ainda, meninos, eu vi, com os olhos ávidos e perspicazes de um apaixonado escrutinador do cotidiano desta metrópole, ao mesmo tempo, cosmopolita e provinciana, sempre disposto a queimar a sola dos sapatos e pôr o cérebro para trabalhar, à procura do oculto, que nem sempre se desvela, mediante a simples análise intelectual-racional, mas só depois de uma longa ruminação interior, aflora à superfície, e do imperceptível, que só se traduz em conhecimento real, quando nos esforçamos por ultrapassar e reduzir a cinzas, o soturno e teoricamente inexpugnável muro de nossos próprios preconceitos e ilusões.
Para mim, o caminhar serve, sobretudo, de pretexto para a reflexão. A ponto de quase poder fazer, não sem uma certa ponta de vaidade, meus, os célebres versos de Paulo Leminski:

"Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
Aonde vão dar esses passos?
Acima, abaixo?
Além? Ou acaso
se desfazem no vento
sem deixar nenhum traço?"

Flanar é hábito de cronistas. De gente da estirpe de um Machado de Assis, um Rubem Braga, um João do Rio. É coisa de filósofos, também, como o bom e velho Nietzche, por exemplo. E de poetas, como o imortal Fernando Pessoa.
Flanar é contemplar as múltiplas facetas da vida, tanto no que ela tem de mais puro e sublime, quanto nos seus aspectos mais sórdidos e execráveis. É contemplar a beleza elegante e sofisticada do Batel e a decrepitude intoxicante e pecaminosa da Vila das Torres. É presenciar o drama (ou a comédia?) humano até o último gole da taça do infortúnio ou do cálice da felicidade. É observar a glória e vislumbrar a podridão. É admirar a virtude severa e um pouco triste dos franciscanos da avenida Manoel Ribas, que palmilham as ruas com os pés descalços e esfolados, pedindo donativos para suas obras de caridade, e ao mesmo tempo, vituperar a mesquinharia e baixeza inerentes ao espírito de porco do povaréu incrédulo, que enxameia as vias urbanas com seus monstros resfolegantes de quatro rodas, a sujar o céu e a asfixiar os infelizes transeuntes que não têm a sorte de contribuir com seu pequeno quinhão para a destruição da camada de ozônio e da paz de espírito dos homens bons - se é que ainda os há neste mundo atribulado. Em suma, flanar é não apenas caminhar sem rumo pela selva urbana, mas viver, e viver mais intensamente do que quem apenas caminha em direção a um objetivo específico. O verdadeiro flâneur não se confunde com os atarefados corredores do dia-a-dia, que estão sempre com os olhos voltados para o relógio (time is money!) e não têm tempo, nem paciência, para contemplar aspectos da vida da cidade que somente quem tem olhos experientes e isentos de qualquer vestígio de pressa ou preocupação mundana, pode efetivamente reconhecer e admirar.
Eu pertenço ao time dos que não só amam, mas sobretudo enxergam este pequeno pedaço da Terra em que nos coube, por sorte, viver. E praza a Deus que eu nunca perca o desejo (ou o talento?) de continuar a flanar, pelo menos enquanto estiver com as pernas em perfeito estado - sem embargo de nos últimos tempos, estar a senti-las cada vez mais fatigadas e até um pouco doloridas - e puder levar meus olhos para cada vez mais distantes e aparentemente inacessíveis caminhos, nesta que é uma das mais belas e também turbulentas metrópoles, que hoje existem sobre a face deste mundo conturbado. Assim seja.

Leitura recomendada: “O Novo Flâneur”.

25 de abril de 2016

O Retorno





Sê bem-vindo de volta, bom e velho frio curitibano! Que saudades tive de ti! Não te vás tão cedo! Curitiba não é Curitiba, quando tu aqui, não estás. Não te vás, fica ao menos o tempo suficiente para que eu possa saborear um bom mate quente, ao pé da lareira, enquanto teu hálito gelado embranquece o vidro de minha janela.

24 de abril de 2016

A Roda da Fortuna


O mundo dá voltas. As coisas mudam. A História o prova. Reis foram destronados e terminaram seus dias como mendigos. Mendigos foram coroados e criaram impérios. Da mesma forma, há de chegar o dia em que todos os que hoje me humilham e menosprezam, por causa de minha pobreza e de meu desemprego, virão, humildemente, bater à minha porta, para adular-me e beijar meus pés. Exagero? O tempo dirá.
Não sou uma pessoa vingativa, pelo contrário. Mas, nesse dia, se tal dia vier, eu hei de lembrar-me, com todos os detalhes, de tudo o que sofri em suas mãos (e eu tenho uma ótima memória, uma memória de elefante, lembro-me de coisas que muitos gostariam que ficassem completamente esquecidas), lembrarei de todas as lágrimas que derramei, de todas as decepções que sofri, de todas as zombarias com que arquei, de todas as ofensas que me foram feitas, e aqueles que me maltrataram, quando eu mais precisei de ajuda e consolo, terão que acertar contas comigo. 
Portanto, podem zombar de mim, o quanto quiserem, podem escarnecer-me, à vontade, sintam-se livres para escarrar-me na cara, pisar sobre mim, usar-me como pano de chão e até como papel higiênico, se preferirem, ou, ainda melhor, como um vaso sanitário, eu já não me importo. Podem ignorar-me o quanto quiserem, podem continuar a fazer-se de surdos aos meus pedidos desesperados por ajuda financeira, ou por um emprego, não faz mal.
Ficará tudo anotado no meu caderninho, para quando chegar a hora certa. E se Deus é justo, como acredito que é, ela chegará, é só uma questão de tempo. 

23 de abril de 2016

O Futuro


Um cão negro e feroz devora meu coração. A depressão me domina. Sofro de ansiedade e tenho crises periódicas de pânico. Fico noites inteiras sem dormir. Tenho o pavio curto e meu temperamento não é dos mais fáceis, pelo contrário. Em sociedade, sou como um touro, solto numa loja de louças. Não tenho absolutamente nenhuma paciência ou capacidade de tolerância para com pessoas burras, arrogantes, ou fanáticas. Mando-as ao inferno, na primeira oportunidade. Adoro usar o botão "bloquear" do Facebook. É um de meus maiores e mais malignos prazeres. Não hesito em usá-lo, quando a pessoa me aborrece. Sou completamente avesso a reuniões sociais. Sou o típico chato de festa. Quando bebo, ao invés de me alegrar, fico ainda mais soturno e espectral, do que de hábito. Tenho uma baixíssima, praticamente nula, resistência à frustração. Desejo nada menos do que a destruição do universo, quando sou contrariado. Isso, obviamente, implica na triste constatação de que o Brasil não é o melhor lugar para eu viver. Pois não há, sobre a face deste pobre e atribulado planeta, país que mais decepcione seus cidadãos. Infelizmente, sou obrigado a permanecer aqui, por uma série de razões, que estão além do meu controle. A maior delas, um masoquista amor pela minha pátria natal, que me impede de traí-la, por mais que ela insista em maltratar-me. 
Há quanto tempo, se arrasta a nossa crise política, econômica, social e moral? Quanto tempo? Haverá uma luz, no fim do túnel? Conseguiremos atravessar esta penosa e sombria quadra histórica, sem sangue, nem dor? Nossa frágil e enfermiça democracia conseguirá sobreviver à tentação totalitária que ronda os donos do poder e aos constantes saques de que é o indefeso alvo? Conseguiremos evitar a produção de novos cadáveres para preencher as estatísticas históricas? O que será de nós e de nossos filhos? O que será de ti, meu filho amado? Conseguirei proteger-te da tempestade de aço que se aproxima, com passos cada vez mais velozes? Terei forças para tanto? Sou apenas um homem. Minha carne pode ser cortada. Minhas veias podem ser abertas. Balas podem me matar. Meu amor bastará para salvar-te?
Que Deus nos ajude!
Mas onde estará o meu Rivotril?

22 de abril de 2016

Ervas Daninhas


Quisera eu ser uma pessoa mais alegre. Mas a verdadeira alegria é uma arte. Uma arte que não sei exercer. Para minha tristeza e opróbrio. 
Invejo as pessoas que conseguem sempre adotar e manter uma postura leve, sorridente e otimista diante das turbulências da vida. Pessoas que permanecem sempre à altura dos acontecimentos e não se deixam abater por eles. Pessoas que não perdem o sono, nem o apetite, a pensar nas agruras do porvir. Pessoas para quem o copo está sempre mais cheio do que vazio. 
Não é o meu caso. Não por falta de vontade. Por falta de fé? Penso que sim e não, ao mesmo tempo. Não sou ateu. Não creio que o universo tenha nascido por obra pura e simples do mero e irracional acaso. Já disse o rei Lear; "Do nada, nada vem". Mas é-me imensamente difícil acreditar em milagres. 
Tal como Michel Leiris, a verdade é que exceto quando estou com medo, sinto-me sempre debater na mais profunda, densa e obscura irrealidade. Domina-me uma sensação de crônico e indissolúvel alheamento com relação à vida e ao mundo, o que erige entre mim e os que me cercam, um muro intransponível, feito de estranhamento, desencanto e incompletude. Mesmo os que me amam, muitas vezes não me compreendem. Julgam-me frio, distante, apático, quando, na verdade, eu quisera poder corresponder à altura, o amor que me devotam e com a mesma intensidade. Mas há alguma mola quebrada no meu coração, talvez uma floresta morta, como no poema de Kilkerry. 
Um dia, esta floresta morta esteve cheia de vida. Suas árvores eram verdejantes e repletas de frutos, e era incessante o cantar dos pássaros em seus galhos. Mas a tempestade veio e não restou um arbusto em pé. Ficaram somente as ervas daninhas, os maus sentimentos que hoje me assombram.

11 de setembro de 2014

Odisséia Noturna


Ontem à noite, tive que correr em busca de um hospital, por causa de atrozes e excruciantes dores em minha vesícula biliar, provocadas por uma imensa pedra, que, de tempos em tempos, resolve me torturar, com requintes de crueldade.
Aliás, há meses, mesmo em momentos de intensa alegria, quando nada de estranho sinto em meu organismo ou em minha alma - e Deus sabe como estes momentos têm sido cada vez mais raros e fugazes! - tenho a nítida e funesta impressão de estar a viver perpetuamente coberto pela sombra densa e inexorável da Grande Dor - como os californianos vivem sob a sombra do "Big One", o grande terremoto que irá separar a Califórnia dos Estados Unidos - a última e a maior de todas as dores, que pode surgir, de uma hora para outra, sorrateiramente, das profundezas recônditas de meu frágil e perecível corpo humano, para me levar consigo, para a eternidade do túmulo. 
O medo de sofrer novas dores tornou-se-me um hábito, a ferro e fogo entranhado em meu comportamento, como uma segunda pele, de natureza psicológica, que me envolve e limita meus movimentos, uma prisão espiritual, infinitamente mais sombria e terrível do que um milhão de Alcatrazes. Pois tudo o que tenho feito nos últimos tempos, é ditado por ele. Alimentos, companhias, atividades, tudo é regido pela tirania da pedra que carrego comigo.
Há meses, corrói-me uma sensação semelhante a que deve sentir um rato amedrontado por entre as patas de um gato, prestes a devorá-lo, gato, este, que se diverte, imensamente, com o sofrimento de sua presa, antes de comê-la. 
Para quem não entende metáforas: a figura do gato representa a pedra na minha vesícula. O rato sou eu.
Mas o pior de tudo que sofri na noite passada, ainda não foi a dor na minha vesícula, foi o profundo desleixo com que fui tratado pela saúde pública de ...! 
Imagine o leitor que o primeiro hospital ao qual me dirigi (de táxi, uma vez que o SAMU estava indisponível; valor da corrida: R$ 23,60), o Hospital São José, no centro da cidade, tal como o SAMU, se recusou a me atender, mesmo com todo meu sofrimento, visível mesmo a olhos leigos em medicina, pelo fato de meu estado representar um quadro clínico, e o hospital só atender a quadros traumatológicos. (Mas o Hospital São José não é uma instituição de saúde vinculada ao SUS e administrada pela prefeitura de ...? Não é, portanto, um hospital público? A Lei faculta-lhe o direito de recusar pacientes? E se ele trata apenas casos de traumatologia, então porque a propaganda governamental municipal o elogia como centro de referência em diversas outras especialidades médicas, não traumatológicas? Mistério típico do Brasil. Do Brasil real, não do Brasil de faz-de-conta das campanhas eleitorais.)
Tentei falar sobre isso com o obeso e entediado burocrata de olhos glaciais, responsável pelo atendimento aos pacientes que lá chegavam, mas foi em vão. Ele apenas me olhou com uma expressão de profundo desprezo, senão com um leve ar de sarcasmo, perceptível, apenas, por um quase sorriso, mal esboçado em seu lábio inferior, oculto por uma densa e maltratada barba grisalha, e disse-me que eu até poderia tentar o atendimento no local, mas acabaria, inevitavelmente, sendo encaminhado pela triagem, para a UPA Rui Barbosa ou para o atual posto Afonso Pena (pergunta que não quer calar: quando finalmente ficará pronta a nova e mais moderna UPA Afonso Pena?). Ou seja, de nada adiantaria minha espera por atendimento no Hospital São José.  
Contrariado com o acinte à minha cidadania e com as minhas dores aumentando exponencialmente, lá fui eu, com minha mulher, chamar mais um táxi para me levar à UPA Rui Barbosa, para onde decidi ir primeiro, antes de tentar o Afonso Pena. Chorando de dor, sentei-me sobre um banco de pedra, fronteiro ao Hospital São José, e fiquei a observar uma escola de dança localizada no outro lado da rua. Vislumbrei, através das janelas, alguns pares, dançando, cheios de volúpia e alegria, que rodopiavam intensamente. Não pude deixar de pensar comigo que se este mundo é, realmente, como diz o autor bíblico, um vale de lágrimas, é também um grande tablado, onde se desenvolvem danças de todos os gêneros e feitios, da cracoviana ao tango, e onde os que não podem dançar, choram. Em latim: quis non saltastis lamentavimus et ploravit.
Bem-aventurados os que dançam, porque eles terão os olhos enxutos. Dou de graça este novo versículo, aos futuros revisores da Vulgata. 
Veio o táxi e pusemo-nos a caminho da UPA Rui Barbosa. Lá chegando, senti o chão abrir-se sob os meus pés, assustei-me com o tamanho monstruoso da fila de pacientes aguardando por atendimento. Cheguei a ver um grupo de pessoas visivelmente enfurecidas (deviam estar aguardando há horas por atendimento médico), a discutir acrimoniosamente com o segurança da unidade, provavelmente cobrando providências para minorar a agonia em que se encontravam naquele momento.
Pergunta: por que têm de ser, sempre, os seguranças das unidades de saúde, os bodes expiatórios para as frustrações dos pacientes - com toda a razão, revoltados contra o escárnio diário a que seus direitos são submetidos pelo poder público - se os verdadeiros culpados pelas agruras que sofrem estão a quilômetros de distância, encastelados em suas torres de marfim, em Brasília, e não dão a mínima atenção para o que eles passam, a não ser em época de corrida eleitoral? Os seguranças das unidades de saúde são, o mais das vezes, tão vítimas quanto os pacientes, do sistema fratricida que vivemos neste inóspito e retrógrado rincão do globo terrestre, que atende pelo nome de Brasil.
Ainda a bordo do táxi, decidi tomar outro rumo e seguimos caminho em direção ao 24 horas Afonso Pena que, felizmente, estava bem menos movimentado do que a UPA Rui Barbosa (valor da corrida: R$ 30,00).
Quando lá cheguei, minha dor estava no auge de sua intensidade, cascatas de lágrimas brotavam de meus olhos e em lugar de palavras, só conseguia responder com monossílabos e gritos guturais ao que as pessoas ao meu redor, com inclusão de minha mulher, me perguntavam. A enfermeira que fez minha triagem, bastante solícita e prestativa, priorizou meu atendimento, e eu fui logo me consultar com uma excelente médica, que me prescreveu os medicamentos adequados para tratar minha crise, por via venal. Não demorou muito e finalmente pude sentir o alívio que tanto procurei em meu périplo noturno pelos prontos-socorros de São José dos Pinhais. Mas ainda me encontrava extremamente agitado e logo que o soro com os medicamentos acabou, encaminhei-me, com o acesso pingando sangue, para o consultório da médica que havia me atendido, para pedir-lhe um calmante para minorar minha ansiedade. Assim que o tomei, adormeci imediatamente. E depois fui liberado para voltar para casa. Mais uma vez, de táxi. (valor da corrida: R$ 25,00).
Valor total das corridas de táxi: R$ 78,60 na bandeira 2 (soma verdadeiramente estratosférica para quem, como eu, encontra-se desempregado). Preço pago pelo recurso à saúde pública de ...: minha dignidade.
E o pior é que ainda faltam dois longos e dolorosos meses para poder operar minha vesícula!



          

23 de julho de 2011

A Vulgaridade da Morte



Se há algo de que ninguém, em sã consciência, pode acusar a morte, é de parcialidade ou esnobismo. A morte é, indubitavelmente, o mais democrático e igualitário dos fenômenos naturais. Diante dela, todos se equivalem, todas as sutis e complexas distinções humanas, que tanto complicam e tornam atribulado e, por vezes, infernal, o pobre e pequeno mundo em que vivemos, se desvanecem, tornam-se completamente inúteis, desprovidas de qualquer sentido. Diante dela, todos prostram-se de joelhos, e clamam, em vão, por mais alguns segundos de vida. Não importa que sejam reis, papas, imperadores, generais, presidentes, primeiros-ministros, personalidades de mídia (seja o que for que isto signifique), celebridades instantâneas e outras não tão instantâneas, comendadores, diplomatas, desembargadores, petistas ou tucanos, republicanos ou democratas, flamenguistas ou vascaínos, carnívoros ou vegetarianos, a morte nada vê diante de si, a não ser a alma a ser ceifada. Ela não tem absolutamente nenhum preconceito de qualquer espécie, ela não segue nenhum critério fixo na hora de exercer seu ofício imemorial, não há uma ordem específica para ela seguir em seu trabalho, ela não liga a mínima, para coisas tão vãs e fúteis, como idade, sexo, nacionalidade, raça, classe social, e coisas que tais. Todas essas superficialidades mundanas, que tanta aporrinhação e fadiga trazem à melancólica e desvalida raça humana, para ela, a "indesejada das gentes", nada significam. Penso que muito poderíamos aprender com ela, no tocante à velha e tempestuosa questão da igualdade. Paradoxalmente, se pensássemos mais sobre a morte, talvez aprendêssemos a viver melhor.
Mas há diversos momentos em que verdadeiramente gostaríamos que ela fosse menos democrática e um pouco mais seletiva em seu ofício, que adotasse critérios mais rígidos e claros para o desempenho de sua função, que fosse, enfim, um pouco mais aristocrática e um pouco menos vulgar.
Se me for perdoada a ousadia de lhe fazer sugestões, eu opinaria que uma boa regra de conduta a ser tomada pela morte, de agora em diante, seria a de não mais levar consigo, crianças. Outro grupo de pessoas que ela deveria se abster de ceifar, seria o das mães, que, de fato, deveriam ser imortalizadas, por meio de um decreto divino, a ser publicado no Diário Oficial do Céu, com todos os artigos e parágrafos a que o dito decreto teria direito, sem o esquecimento de uma vírgula. Seria o Treze de Maio das mães: "Artigo Primeiro: Fica abolida a morte das mães. Artigo Segundo: Revogam-se todas as disposições em contrário".
Ainda um terceiro grupo a ser privado do contato com a morte, seria o dos artistas, seres especiais, quase divinos, que tornam este remoto e desolado vale de lágrimas, senão um lugar menos lacrimejante, ao menos, um recanto mais confortável para viver, porque mais compreensível. Pois este é o real papel da Arte, neste mundo: dar um sentido à vida, um sentido que ela não tem, em si mesma. E nada há mais trágico sobre a face da Terra, do que a perda abrupta e irreversível de um grande talento artístico, ainda em formação, subitamente cortado pela raiz antes de amadurecer por completo, tal como uma flor, ainda por desabrochar, repentinamente arrancada do solo, pela mão inábil de um jardineiro principiante.
Claro está que me refiro à súbita, mas não, de todo, surpreendente notícia da morte da talentosa e polêmica Amy Winehouse, a quem muitos veneravam por sua voz magnífica e outros repudiavam por seu comportamento espalhafatoso e autodestrutivo. Muito já foi dito e redito a respeito deste evento fatídico, indubitavelmente catastrófico para seus fãs e os que verdadeiramente a amavam, mas, com certeza, infinitamente lucrativo para sua gravadora e os demais envolvidos com a comercialização de sua imagem - pois é uma verdade, já universalmente estabelecida, que nada é mais vantajoso para um artista, do ponto de vista financeiro do termo, do que a morte ainda nos píncaros da fama (vide o caso de Michael Jackson.). O único problema é que não é o artista que obtém os lucros advindos de seu passamento, esta cláusula não está prevista em qualquer contrato.
Nada mais poderia fazer aqui a não ser repetir, com outras palavras, tudo que vi, li e ouvi sobre a infeliz Amy, ao longo do dia, desde seu envolvimento com o obscuro e tétrico mundo das drogas (mal que já se abateu sobre outras figuras, tão ou até mais célebres e talentosas do que ela), até sua entrada no tão famoso, quanto sinistro, "Clube dos 27" , o que muito me fez lembrar da histeria coletiva reinante quando da chamada "maldição de Tutâncamon", que nada mais era, do que uma série de coincidências notáveis, envolvendo a morte de membros da equipe arqueológica responsável pela exumação do lendário faraó-menino. Coincidências notáveis, eu disse, mas ainda, coincidências. Assim como a idade em que morreram os integrantes do tal "Clube dos 27". 
Há pessoas que gostam e até se orgulham, de enxergar conexões ocultas em tudo, até entre coisas as mais díspares e inconciliáveis; pessoas que vêem, numa série de simples coincidências fortuitas, os claros e inequívocos sinais de um diabólico plano de dominação mundial, proclamando-se visionários homens de sabedoria a quem o resto da humanidade deveria adotar como sumos guias rumo ao mundo do porvir, e que, para todos os males que afligem a humanidade, têm a solução miraculosa e infalível, basta o fiel trouxa, digo, o fiel seguidor, depositar alguns gordos maços de cédulas, novas em folha, em suas sacrossantas algibeiras proféticas, para tomar conhecimento dela. A atual balbúrdia em relação ao hipotético apocalipse de 2012, motivada por uma errônea e superficial interpretação do calendário maia, é o mais novo e fértil campo de atuação de tais "gurus". 
Há também os que estão sempre prontos a apontar, com o dedo em riste, sem pejo, nem cuidado, os reais e únicos responsáveis pelas atuais mazelas do mundo, vociferando, como cães danados, contra todos os que se atrevem a contestá-los com um pouco mais de clareza. Ora é a maçonaria, ora são os Illuminati, ora são os templários, ora é o projeto eurasiano, ora são os reptilianos de Nebiru, isto, quando não são todos eles, juntos, agrupados sob a vaga e solene denominação "Nova Ordem Mundial" ou "Governo Oculto do Mundo".
Mas voltemos à realidade. Era sobre Amy Winehouse que falávamos. 
O que mais podemos falar sobre ela que já não tenha sido dito, à exaustão, em outras paragens? Que ela foi a infeliz e atormentada protagonista da história trágica de um talento genuíno e inigualável, desperdiçado por um vício monstruoso, que, por fim, acabou por jogá-la no abismo? Um enredo simples, sem grande originalidade, com um desfecho vulgar, vulgaríssimo. 
E esta é a maior acusação que podemos fazer contra a morte, talvez a única: ela é vulgar. 
                
                     
            

21 de julho de 2011

A Última Viagem

Insígnia da Missão "Apollo 11", desenhada pelo astronauta Michael Collins

Hoje, o ônibus espacial Atlantis encerrou oficialmente sua longa e brilhante trajetória astronáutica. Sua aposentadoria marca o fim, algo melancólico, é verdade, e, no meu ponto de vista, deveras frustrante, de uma era gloriosa e epopeica, a era dos ônibus espaciais, fruto quase utópico e verdadeiramente idílico, de um belo e majestoso sonho, que desde os primórdios da história, habita os mais íntimos e profundos recantos do coração humano: a libertação, ou, falando de um modo, digamos, mais metafísico - ou teológico - do que de ordinário nestas páginas tão ínfimas e prosaicas, a transcendência, do que alguns constantemente denominam nossa "prisão terrestre", a conquista plena e definitiva da última fronteira que ainda resta ao homem explorar: a vastidão incomensurável, indescritível e vertiginosa do cosmos.
É também um sinal claro e inequívoco do acentuado e, cada vez mais, acelerado, talvez irreversível, grau de declínio, não apenas econômico, mas sobretudo espiritual, e também civilizacional, em que se encontram, hoje, os Estados Unidos da América do Norte.
Símbolo histórico gritante e inquestionável da grave patologia, de nebulosas origens, que agora corrói e enfraquece o organismo norte-americano, é a nefasta decisão do presidente Obama, de entregar aos russos, a condução dos astronautas dos Estados Unidos, rumo à Estação Espacial Internacional.
É, no mínimo, irônico: o programa espacial norte-americano começou como uma resposta, que se pretendia espetacular e irrefutável, ao programa espacial soviético, que desferiu um grande golpe contra a vaidade yankee, ao alçar Yuri Gagarin ao espaço, antes que o próprio Tio Sam conseguisse fazê-lo com um de seus próprios astronautas. Façanha espetacular, sem dúvida, apenas suplantada, heroicamente, pela mítica marca do pé de Neil Armstrong, na superfície lunar. Eram anos loucos e perigosos, anos de um delicado, ambíguo e potencialmente explosivo relacionamento geopolítico entre as duas maiores potências mundiais à época, e a corrida espacial entre os dois grandes "impérios", era uma peça extremamente importante do jogo de xadrez internacional da Guerra Fria, por ser, sobretudo, uma grave questão de genuíno "orgulho nacional" para ambos os lados.
Daí ser uma espécie de "tapa com luva de pelica" - para ficarmos numa metáfora leve - no orgulho nacional norte-americano, a supramencionada decisão obâmica, tomada por conta da grave crise financeira que ora assola os Estados Unidos. Grosso modo - agora uma metáfora um pouco mais pesada e violenta - é como se a Rússia, herdeira direta da finada União Soviética, tivesse obtido, no "tapetão", a vitória que não obteve no período regulamentar de jogo. Trapaça pura e simples. E o mais curioso, é que o grande trapaceiro da história sequer é russo (alguns dizem que não é nem mesmo americano).
Mas deixemos o campo minado da política internacional, que de política, não cuida este blog. Abordemos o aspecto humano, puramente humano, das viagens espaciais, o último que nos faltou comentar, e o mais importante de todos. Por "aspecto humano", naturalmente que me refiro aos astronautas, essa classe heroica de homens e mulheres de uma coragem ímpar, que têm o privilégio, simplesmente inefável, de fazer o que os outros sete bilhões de habitantes deste planeta, jamais puderam ou poderão fazer no curso de uma vida inteira! Que prodígios alguns poucos "macacos nus" - como um velho e ressentido misantropo uma vez nos chamou a nós, pobres criaturas humanas - foram capazes de realizar, a que alturas estonteantes conseguiram alçar-se! Às vezes, ponho-me a pensar no quão mesquinhas e insignificantes podem parecer as coisas terrenas para quem já esteve em contato direto, como que face-a-face, com a imensidão cósmica, e pôde ter a constatação, real, não apenas metafórica, da pequenez extrema de nosso planeta, quando comparado com a infinitude do espaço... Guardadas as devidas proporções, deve sentir-se como se sentiria alguém que tivesse sido subitamente transportado ao paraíso e conseguido contemplar, por uma mera fração de segundo, o rosto de Deus, para depois ser novamente precipitado para a mesquinhez terrestre. 
Um entusiasta da astronáutica poderia objetar o uso de metáforas religiosas em referência a um tema de caráter tão estritamente científico e tecnológico como as viagens espaciais. Mas não sou o primeiro a lançar mão de paralelismos entre o misticismo e a exploração do cosmos. Michael Collins, o terceiro tripulante da lendária missão Apollo 11 - os outros dois tripulantes eram Edwin "Buzz" Aldrin e Neil Armstrong, o primeiro ser humano a caminhar sobre a superfície lunar - e o único dos três a não descer do módulo espacial, homem de uma inteligência imensa e cujo compromisso com a ciência é incontestável, também o fez, ao dar à sua magistral autobiografia, o título de "Carrying the Fire", "Transportando o Fogo" (título da tradução brasileira: "O Fogo Sagrado"), numa feliz alusão ao carro em que o deus Apolo - qualquer semelhança com o nome da clássica missão espacial não é mera coincidência - transportava o sol, na mitologia grega. Também o prefácio do referido livro, escrito por Charles Lindbergh, o célebre aviador, traz ecos de uma visão mística da exploração espacial. Nele, Lindbergh , o primeiro piloto a sobrevoar o Atlântico sem escalas - na época, uma façanha quase tão incrível e gloriosa quanto a própria chegada do homem à lua - relata a experiência transcendental de comunhão com o universo que experimentou, a bordo do "The Spirit of Saint Louis", enquanto realizava seu histórico voo. 
Verdade seja dita: viajar pelo universo deve ser uma experiência muito boa, embora tenha lá seus transtornos. Quisera eu ter, um dia, tal privilégio! Infelizmente, só astronautas treinados e bilionários russos podem tê-lo. Como não sou nem uma, nem outra coisa, terei de me conformar em continuar prisioneiro do solo terrestre. Mas o nosso planeta, embora pequeno e turbulento, hostil e violento, e caótico e atribulado, ainda é belo. E jovem, imensamente jovem, em comparação com a totalidade do universo. E é o nosso lar comum. É dele que devemos cuidar. É para ele que os astronautas voltam, depois de peregrinar pelo cosmos, como velhos soldados, cansados de guerra. É nele, que repousam seus e nossos antepassados. É sua atmosfera que abriga nossos mais caros sonhos e ideais. É nele que transcorre nossa história. É ele o palco do drama perene de nossa existência humana, demasiado humana. É nele, enfim, que repousaremos quando chegar nosso derradeiro momento, como agora descansará o Atlantis. Em paz. Pelo menos, até algum arqueólogo intrometido escavar nossos ossos e expô-los num museu de preciosidades históricas, daqui a algumas centenas ou milhares de anos.