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11 de setembro de 2014

Périplo Noturno


Ontem, à noite, tive que correr em busca de um hospital por conta de atrozes e excruciantes dores em minha vesícula biliar, provocadas por uma imensa pedra, que, de tempos em tempos, resolve me fazer lembrar de sua existência dentro de mim. 
Há meses, mesmo em momentos de intensa alegria, quando nada sinto de estranho em meu organismo ou em minha alma - e Deus sabe que estes momentos têm sido cada vez mais raros e fugazes - tenho a nítida e funesta impressão de estar a viver perpetuamente coberto pela sombra onipresente da Grande Dor, a última e a maior de todas, que pode surgir, de uma hora para outra, sorrateiramente, das profundezas recônditas de meu frágil e perecível corpo humano, para me levar consigo, inexoravelmente, para a eternidade do túmulo. 
O medo de sofrer novas dores tornou-se-me um hábito, a ferro e fogo entranhado em meu comportamento, como uma segunda pele, que me envolvesse e limitasse meus movimentos, uma prisão espiritual, infinitamente mais sombria e terrível do que um milhão de alcatrazes. Pois tudo o que tenho feito nos últimos tempos é ditado por ele. Alimentos, companhias, atividades, tudo é regido pela tirania da pedra que carrego comigo.
Há meses corrói-me uma sensação semelhante a que deve sentir um rato, amedrontado por entre as patas de um gato prestes a devorá-lo, gato este que se diverte imensamente com o sofrimento de sua presa antes de comê-la. 
Para quem não entende metáforas: a figura do gato representa a pedra na minha vesícula.
Mas o pior de tudo que sofri na noite passada ainda não foi a dor na minha vesícula, foi o profundo desleixo com que fui tratado pela saúde pública de São José dos Pinhais. 
Imagine o leitor que o primeiro hospital ao qual me dirigi (de táxi; valor da corrida: R$ 23,60), o Hospital São José, antigo Hospital Atillio Talamini, se recusou a me atender, mesmo com todo meu sofrimento, visível mesmo a olhos leigos em medicina, pelo fato de meu estado representar um quadro clínico, e o hospital só atender a quadros traumatológicos. (Mas espere um pouco: o Hospital São José não é uma instituição de saúde vinculada ao SUS e administrada pela prefeitura de São José dos Pinhais? Não é, portanto, um hospital público? A Lei faculta-lhe o direito de recusar pacientes? E se ele trata apenas casos de traumatologia, então porque a propaganda governamental o elogia como centro de referência em diversas outras especialidades médicas, não traumatológicas? Mistério típico do Brasil. Do Brasil real, não do Brasil de faz-de-conta das campanhas eleitorais.)
Tentei argumentar tudo isso com o obeso burocrata de olhos glaciais responsável pelo atendimento aos pacientes que lá chegavam, mas foi em vão. Ele apenas me olhou com um ar de profundo desprezo, senão com um leve ar de sarcasmo, meramente perceptível por um quase sorriso mal esboçado em seu lábio inferior, envolto por uma densa barba grisalha, e disse-me que eu até poderia tentar o atendimento no local mas acabaria inevitavelmente sendo encaminhado pela triagem ou para a UPA Rui Barbosa ou para a unidade 24 horas do Afonso Pena (pergunta que não quer calar: quando finalmente ficará pronta a nova UPA Afonso Pena?). Ou seja, de nada adiantaria minha espera por atendimento no Hospital São José.  
Contrariado com o acinte à minha cidadania e com as minhas dores aumentando exponencialmente, lá fui eu, com minha mulher, Marina Viana Bauléo, chamar mais um táxi para me levar a UPA Rui Barbosa, para onde decidi ir primeiro, antes de tentar o Afonso Pena. Chorando de dor, sentei-me sobre um banco de pedra fronteiro ao Hospital São José, e fiquei a observar uma escola de dança localizada no outro lado da rua, onde vislumbrei, através das janelas, alguns pares cheios de volúpia, que rodopiavam intensamente. Não pude deixar de pensar comigo que se este mundo é, como diz o autor bíblico, um vale de lágrimas, é também um grande tablado, onde se desenvolvem danças de todos os gêneros e feitios, da cracoviana ao tango, e onde os que não podem dançar, choram.
Bem-aventurados os que dançam, porque eles terão os olhos enxutos. 
Veio o táxi e pusemo-nos a caminho da UPA Rui Barbosa. Lá chegando, senti o chão abrir-se sob os meus pés, assustei-me com o tamanho monstruoso da fila de pacientes aguardando por atendimento. Cheguei a ver um grupo de pessoas visivelmente enfurecidas (deviam estar aguardando há horas por atendimento médico), discutindo acrimoniosamente com o segurança da unidade, provavelmente cobrando providências para minorar a agonia em que se encontravam naquele momento (Pergunta: por que têm de ser sempre os seguranças das unidades de saúde os bodes expiatórios para as frustrações dos pacientes, com toda a razão revoltados contra o escárnio diário a que seus direitos são submetidos pelo poder público, se os verdadeiros culpados pelas agruras que sofrem estão a quilômetros de distância, encastelados em suas torres de marfim, em Brasília, e não dão a mínima atenção para o que eles passam, a não ser em época de corrida eleitoral? Os seguranças das unidades de saúde são, o mais das vezes, tão vítimas quanto os pacientes, do sistema fratricida em que vivemos neste inóspito e atrasado rincão do globo terrestre, chamado Brasil).
Ainda a bordo do táxi, decidi tomar outro rumo e seguimos caminho em direção ao 24 horas do Afonso Pena que, felizmente, estava bem menos superlotado do que a UPA Rui Barbosa (valor da corrida: R$ 30,00).
Quando lá cheguei, minha dor estava no auge de sua intensidade, cascatas de lágrimas brotavam de meus olhos e em lugar de palavras, só conseguia responder com monossílabos e gritos guturais ao que as pessoas ao meu redor, com inclusão de minha mulher, me perguntavam. A enfermeira que fez minha triagem, bastante solícita e prestativa, priorizou meu atendimento, e eu fui logo me consultar com uma excelente médica, que me prescreveu os medicamentos adequados para tratar minha crise, por via venal. Não demorou muito e finalmente pude sentir o alívio que tanto procurei em meu périplo noturno pelos prontos-socorros de São José dos Pinhais. Mas ainda me encontrava extremamente agitado e logo que o soro com os medicamentos acabou, encaminhei-me, com o acesso pingando sangue, para o consultório da médica que havia me atendido, para pedir-lhe um calmante para minorar minha ansiedade. Assim que o tomei, adormeci imediatamente. E depois fui liberado para voltar para casa. Mais uma vez de táxi. (valor da corrida: R$ 25,00).
Valor total das corridas de táxi: R$ 78,60 na bandeira 2 (soma verdadeiramente estratosférica para quem, como eu, encontra-se desempregado). Preço pago pelo recurso à saúde pública de São José dos Pinhais: minha dignidade.
E ainda faltam dois longos e dolorosos meses para poder operar minha vesícula.  



          

25 de junho de 2014

Apocalipse Zumbi


Descobri, hoje, que estou com uma imensa pedra na vesícula, aparente causa imediata - e assaz funesta - das dores atrozes e terrificantes que venho sofrendo nos últimos tempos, dores estas que  inúmeras vezes me levaram ao hospital e me fizeram chorar lágrimas extremamente amargas. Péssima notícia, sem a menor sombra de dúvida. Mas receio de que o exame a que me submeti para detectá-la tenha errado o órgão em que a pedra está alojada. Suspeito estar com ela no coração, ao invés da vesícula, tamanho o peso que sinto carregar dentro do meu peito. Porém tal parece não ser o caso. Pelo menos, por enquanto.
Por enquanto, só o que parece haver no meu peito, é uma floresta morta, como no poema de Kilkerry. E que pesa muito mais do que uma simples pedra, mesmo drummondiana. 
Verdade é que há, infelizmente há, neste mundo tão imensamente hostil e desolado, não apenas pessoas que carregam gigantescas pedras em seus corações - por conta disto, mesmo, extremamente pesados e cheios de amargor - como há também aquelas cujo próprio coração, em si, já se encontra completamente petrificado, e sem o mínimo sinal de vida; pessoas que, embora caminhem sobre a terra, respirem profundamente, paguem seus impostos em dia, e despreocupadamente tomem seu desjejum pela manhã, estão mortas, irremediavelmente mortas, por dentro, com o único detalhe de que se esqueceram de se fazer sepultar. Não se deram, ainda, conta de que morreram. Simplesmente "não lhes caiu a ficha".
Posso apontar uma meia dúzia de cadáveres errantes vistos in loco, nos mais variados lugares e ofícios, desempenhando as mais diversas funções, falando e gesticulando, até efusivamente, como se vivos estivessem.
Mas o "apocalipse zumbi" já começou. Há mortos-vivos entre nós. Não é mais necessário assistir aos seriados americanos para vê-los. Basta manter os olhos abertos para observá-los, pois estão em todos os lugares: nas filas do caixas, nos bancos das praças, nas reuniões de condomínio, nas repartições públicas (principalmente nas repartições públicas), etc, etc. Um deles pode até estar ao seu lado neste momento, e devorá-lo, sem você nem perceber.
À diferença dos seriados e filmes hollywoodianos e congêneres, os zumbis a que me refiro não têm os corpos putrefatos e desmembrados, apenas a alma. Não deixam atrás de si um rastro fétido de sangue e destruição, mas um ambiente carregado de profunda tristeza e solidão, como o que emana das telas magistrais de Edward Hopper - o que é ainda pior do que ser devorado por um zumbi cinematográfico.  
Tenhamos medo. Muito medo.   

14 de março de 2014

Terrores Noturnos

Henry Fuseli



Para início de conversa, amado leitor, permita-me ser franco, e confessar, com a máxima clareza, e sem maiores delongas, que meu pobre e pequenino cérebro encontra-se, no presente momento, completamente desprovido de ideias ou pensamentos verdadeiramente dignos de serem expressos por meio de palavras escritas. Mesmo assim, não sei que espécie de sorrateiro e perseverante demônio grafomaníaco e algo beligerante, agora toma conta de meu ser e me obriga, com mão de ferro e a espada em riste, a escrever, mesmo sem ter nada de realmente útil ou valioso para transmitir através destas linhas. Talvez o mesmo que Faulkner dizia apoderar-se de si no momento da redação de suas obras magistrais ou talvez um primo distante daquele que acompanhava Sócrates em seu diálogos em plagas atenienses. Demasiada presunção? Pode ser. A modéstia nunca esteve entre minhas maiores virtudes.
A razão principal, senão a única, da súbita e avassaladora esterilidade intelectual e criativa que assola e deprime minha mente nesta terrivelmente cálida e assustadoramente vazia madrugada curitibana é, indubitavelmente, o estrondo verdadeiramente apocalíptico - para dizer o mínimo - que há cerca de duas horas, aproximadamente, abateu-se sobre o telhado de minha casa e provocou meu imediato e inapelável despertar, como que através de um choque de alta intensidade, provavelmente semelhante àquele que Jonathan Noel sentiu no quarto de hotel em que se refugiou da pomba que outrora tanto terror lhe provocara em Paris.
Mas o que produziu tamanho barulho, tão inexoravelmente ensurdecedor e enregelante? Um gato notívago, de colossais e apocalípticas proporções, em uma corrida desabalada e implacável em busca de alimento nos desvãos sombrios e tétricos dos quintais cobertos com a densa, mas não de todo impenetrável, capa da escuridão noturna da vampiresca e daltônica capital da Província das Araucárias, sendo tal alimento, talvez um rato desagradavelmente brincalhão, portador dos genes do gigantismo? Um duende intrépido que decidiu escapar da imperiosa e imutável lei do anonimato coletivo que por séculos  garantiu a sobrevivência e a perpetuação de sua microssociedade utópica e correr pelo mundo hostil dos seres humanos em busca de quixotescas aventuras e felicidade autêntica? (Se acaso a encontrar, favor avisar o autor deste blogue.) Um alienígena curioso, talvez oriundo dos confins de Zeta Reticuli, provavelmente integrante do mesmo grupo que abduziu o casal Hill, encarregado de realizar uma profunda e minunciosa investigação sobre o paradeiro atual de seus irmãos perdidos em Rosswel e Varginha, com uma breve escala em Curitiba? (Aliás, quem ignora que nossa célebre Loira Fantasma, terror dos taxistas e pedestres insones da capital paranaense nada mais é do que uma criatura extraterrestre exilada de Sirius, perenemente a ocultar-se, de modo assaz ignóbil, sob o hábil disfarce de uma entidade sobrenatural apenas para escapar da perseguição implacável dos Homens de Preto e limitar-se a ficar na mira apenas dos parapsicólogos autodidatas e discípulos do padre Quevedo, infinitamente mais inofensivos e condescendentes do que os agentes yankees, pois o ceticismo absoluto do ilustre sacerdote é justamente a maior proteção que ela poderia obter?) Ou terá sido o tropel furioso e insano de exércitos inumeráveis de berserkers rumo ao Ragnarök, seguidos por uma multidão de valkyrjas em uma cavalgada frenética em busca dos corpos dos guerreiros nórdicos mortos em batalha no crepúsculo dos deuses?  
Ou, falando de modo mais prosaico: seria algum ladrão tentando invadir minha residência?
A simples menção de tal possibilidade põe-me em pânico.
Em suma: ignoro a causa imediata e correta do lúgubre som que ocasionou meu despertar, apenas sei que ele afastou de meus olhos, para milhares de quilômetros de distância, sem deixar sequer um mínimo vestígio de sua presença, o solícito e benfazejo Morfeu, deus do sono, generosa entidade mítica que através dos milênios, concede aos homens a mais preciosa dádiva que pode existir sobre este pequeno e atribulado grão de poeira cósmica azul que ora habitamos: a faculdade de esquecer, ao menos por algumas breves horas, ainda que pelo simples espaço de uma noite, a sordidez, a frieza e a brutalidade do mundo com que somos diariamente obrigados a conviver, quando em vigília. Lá se foi ela, a bondosa deidade que até há poucos instantes tão encantadoramente me embalava em seus braços tépidos e suaves, diferentes dos braços frios e pétreos de seu irmão gêmeo, a morte, com o qual não tenho simplesmente o menor desejo de entrar em contato tão cedo.
Em outras e mais claras palavras: o misterioso estrondo tornou-me, sem apelação, ou a menor chance de defesa, angustiado e triste prisioneiro da insônia, o inflexível e tirânico carcereiro dos amantes desenganados e dos poetas notívagos.
Por muito tempo, padeci de insônia crônica, fruto de pesadelos recorrentes que me atormentavam o sono e tornavam extremamente longas e penosas minhas noites, a ponto de, muitas vezes, assim que percebia estar o sono a aproximar-se, o medo de um novo pesadelo já me tomar de assalto, impedindo-me de dormir e angustiando-me profundamente. Não possuo grandes habilidades descritivas, portanto só posso dar aqui uma vaga ideia de como eram tais pesadelos, dizendo ao leitor que eram como que uma espécie de perturbadora, incongruente e diabólica mistura das telas de Fuseli e H. R. Giger com as de Zdzislaw Beksinski e Edvard Munch, com uma leve pitada de Goya.
Este último dizia que o sono da razão produz monstros. No meu caso, a privação de sono é que os trouxe das trevas para atormentar meus pensamentos. 


H.R. Giger



Ao acordar com o barulho, levei uma verdadeira infinidade de tempo para tomar plena consciência da realidade ao meu redor. Meu coração batia tão descompassada e violentamente que por um momento, julguei estar quase às portas do além-túmulo. Meus olhos arregalados e impacientes esquadrinharam minunciosamente até o mais ínfimo detalhe de meu quarto, na esperança de encontrar algum sinal, por mais vago e superficial que aparentasse ser, que pudesse fornecer-me qualquer indicação minimamente clara sobre o que provocou o cataclísmico ruído que, fosse eu um pecador impenitente e não um trabalhador honrado e consciencioso, com o espírito repleto de amor pela nossa melancólica humanidade e fé no trabalho, na igreja e nas instituições de nosso glorioso país, far-me-ia sucumbir de vez perante as garras demoníacas do medo.
Nada de estranho ou fora do comum em toda a quase infinita extensão de meus aposentos palacianos. Tudo na mais perfeita ordem e na mais santa paz.
Para concluir minha busca, abri meu velho e já bastante empoeirado baú de memórias e vi que todos meus esqueletos continuavam perfeitamente acomodados lá dentro, junto dos últimos pedaços que restavam de meu coração dilacerado. Separadas em compartimentos estanques, marcadas por etiquetas correspondentes a cada fase de minha vida, lá estavam as camadas de identidade que fui perdendo ao longo dos anos, para hoje estar em carne viva, aqui, diante do leitor. Pois os seres humanos são como laranjas que o tempo e o mundo vão se encarregando de descascar, camada por camada, até não sobrar mais do que a essência última de nosso ser, o mais secreto rincão de nossa alma, legando as cascas que se perderam pelo caminho, aos vermes soberanos, os últimos que triunfarão quando não formos mais do que carne morta. 
Lá estava, recuperando-se de sua asma crônica, o menino franzino, cabisbaixo e sempre doentio que passou um terço de sua infância confinado em hospitais; em outro compartimento, o adolescente casmurro e extremamente frágil que era o alvo preferencial da chacota de seus colegas e do escárnio cruel da primeira garota que lhe despertou a chama agridoce do amor; em outro compartimento, ainda, este com uma data mais recente, o aspirante a ator que fez do palco um prolongamento de sua existência, e que, à exemplo de Ícaro, tentou alcançar o céu com asas de cera e despencou das nuvens na mais triste, sombria e miserável realidade; todos atendendo pelo mesmo nome mas com personalidades totalmente distintas e até mesmo antagônicas - obra do tempo e dos homens.
Voltei-me para o espelho e contemplei, longa e fixamente, a face amarga e envelhecida que se apresentava de maneira assaz impudica, quase pornográfica, ao meu olhar perplexo. Tal como na célebre canção dos Titãs, não consegui reconhecer o semblante monstruoso que via diante de mim. Séculos se passaram enquanto minhas pálpebras permaneciam cerradas. Recuei alguns passos e não consegui articular eficazmente as idéias, assaz confusas e indiscerníveis, que se embaralhavam em minha mente obtusa. Não podia crer que aquele fosse meu rosto real: uma pálida máscara de tristeza e dor, por onde a vida passou como um furacão, sem deixar nada em pé. Escombros sobre escombros, nada mais.
 
Zdzislaw Beksinski


- Deve ser o efeito da privação de sono - pensei comigo - Se eu voltar a dormir, esta sensação de total isolamento e desolação passará e poderei voltar a sorrir como antes.
Com esse intuito, voltei para a cama e fechei fortemente os olhos. Tentei contar carneirinhos mas eles não queriam atender ao meu chamado e não pulavam a cerca. Pelo contrário, ficavam a pastar no campo alheio, sem notar minha presença. Nem mesmo um lobo por perto para movimentar um pouco as coisas.
Bem se vê que a solução matemática estava longe de poder ser aplicada ao meu problema. Nunca fui muito bom com números - confissão fatal para quem trabalha na minha área (finanças).
Virava-me de um lado para outro e o sono não vinha. o relógio parecia zombar de meu esforço inútil, com o ritmo impassível de seus ponteiros. Cada segundo sentia-me como se uma navalha em brasa estivesse a rasgar minha carne e dedos de ferro triturassem meus ossos.


Edvard Munch



- Basta! - bradei, exasperado - Não vou mais tentar adormecer. Vou escrever um pouco para ver se me acalmo.
Levantei-me e sentei-me em frente ao computador para exorcizar meus demônios através da escrita. Antes porém, à cata de inspiração, murmurei em um tom quase inaudível alguns versos do heterônimo pessoano Álvaro de Campos:


"Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, não posso escrever quando acordo de noite, não posso pensar quando acordo de noite — Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite"!

Diz o imperador Adriano em sua longa e sábia missiva a Marco Aurélio (na verdade, a autoria é de Marguerite Yourcenar, mas gosto de imaginar que seu autor é o próprio imperador Adriano, tamanha a profundidade e também a destreza com que Marguerite conseguiu penetrar na mentalidade e na alma de uma das maiores figuras da história universal) : "Que é nossa insônia senão a obstinação maníaca de nossa inteligência em manufaturar pensamentos e formular uma série de silogismos, raciocínios e definições que lhe são próprios? Ou ainda a a recusa em abdicar em favor da divina estupidez dos olhos fechados ou da sensata loucura dos sonhos? O homem que não dorme (...) recusa-se mais ou menos conscientemente a confiar no fluxo das coisas."
Montaigne, em certo trecho de seus "Ensaios" enumerou uma série de exemplos de grandes personagens históricos que, ao contrário de mim nesta noite enigmática, entregaram-se completamente ao sono em circunstâncias as mais inapropriadas e fatídicas e cita Catão como um modelo ímpar de coragem e abnegação, pois não se permitiu dominar pelos tentáculos vorazes da insônia, mesmo estando sua vida sob sério risco.
Proust, ao contrário de Catão, um grande notívago, sofria em sua infância sempre um colossal martírio por ser diariamente obrigado a dormir cedo sem estar com sono. A passagem de "O Caminho de Swann" em que ele relata pormenorizadamente e com uma linguagem verdadeiramente sublime, cada etapa do complexo ritual psicológico que envolvia seu adormecer e a lenta penetração do sono em seus olhos é uma das mais preciosas e cintilantes jóias da literatura universal, sobretudo quando narra com cores vívidas e cativantes, o momento em que prorrompeu em lágrimas nos braços de sua mãe, em uma noite de insônia. Dele são estas palavras: "O sono é como uma outra casa que poderíamos ter, e onde, deixando a nossa, iríamos dormir".
- Mas qual é o real propósito deste artigo, Marcos? - o leitor pergunta, impaciente - Por acaso, pretende me fazer perder meu precioso tempo falando sobre sua insônia e não me deixar dormir com toda essa conversa fiada? Pois saiba que se você não está com sono, eu estou. Termine logo este texto e volte para a cama!
Pois eu respondo, e com maior polidez do que o brutal leitor que agora me interpelou: estas palavras são apenas um meio de passar o tempo, enquanto Morfeu não volta para fechar novamente minhas pálpebras, um meio que encontrei para matar o tempo enquanto ele não me enterra, mas... Espere! Ei-lo aqui de novo em minha presença, já começo a sentir de novo a moleza no corpo típica do gradual e profundo adormecimento que me é peculiar, e principio a dar meus primeiros bocejos. Viva! Vou colocar um ponto final neste artigo e finalmente me entregar ao sono que agora retorna, e dar o meu mergulho na eternidade, como diria Coelho Neto. Preciso trabalhar amanhã e contribuir com meu pequeno e suado quinhão, para o pleno funcionamento da impessoal e desumana roda do capitalismo internacional, e estar perfeitamente alerta, para servir com civilidade e diligência, o onipotente e temível Cliente, essa obscura e intolerante força motriz do comércio e arcanjo indômito do Deus Lucro.
Mas antes permita-me citar ainda uma outra frase de Adriano que vem bem a calhar neste instante: "(...) o sono mais perfeito é necessariamente um complemento do amor: repouso tranqüilo, refletido sobre dois corpos".
E para comprovar esta teoria, lá está minha amada, esperando-me, para juntos repousarmos, tranquilamente.


Francisco Goya

Boa noite, leitor.


2 de fevereiro de 2014

Phillip Seymour Hoffman (1967-2014)


Sinto como se um véu de profunda tristeza e exasperante melancolia tivesse descido sobre o mundo, agora que leio, consternado, e ainda incrédulo, a devastadora e acabrunhante notícia do súbito e estúpido falecimento do magnífico e inigualável ator Phillip Seymour Hoffman, ganhador do Oscar, em 2005, por sua nada menos do que brilhante e verdadeiramente inesquecível atuação no filme "Capote", de Bennett Miller, atuação superada apenas, em minha modesta opinião, pelo seu magistral e emocionante desempenho no belíssimo "Com Amor, Liza" (2002), de Todd Louiso. 
Informações preliminares dão conta de que seu corpo foi encontrado na banheira do apartamento em que morava, em Greenwich Village, Nova York. Afirmam fontes anônimas que com uma agulha espetada no braço. Segundo um famoso tablóide norte-americano, a causa da morte teria sido overdose, possivelmente de heroína. O ator, certa vez, reconheceu, publicamente, ter problemas com substâncias ilícitas, e teria sido internado em maio passado em uma clínica de reabilitação para dependentes dessa mesma droga. 
A ser verdade, Phillip seria então a mais nova vítima de talento a ter sua vida aniquilada pelas fleurs du mal, mais uma entre tantas outras que nos deixaram tão precocemente e de forma tão abrupta e inexplicável, como Elis Regina, Jimi Hendrix, Jim Morrison, River Phoenix, Heath Ledger, Amy Winehouse, e tantos, tantos outros... A contagem seria longa e pesarosa, efetuá-la seria o mesmo que contar os corpos espalhados sobre um campo de batalha encharcado de sangue após o fim do combate, atividade que, além de inútil - pois que é a guerra, senão o mais inútil dos fenômenos humanos? - é propícia somente aos que têm estômagos fortes. Não é o meu caso, já que sofro de dispepsia.
Por ora, limitemo-nos a lamentar esta perda imensurável, e ponhamo-nos a rever suas representações primorosas. É o que vou fazer. Trago o "Capote" comigo.        
     

25 de janeiro de 2014

Fim de Jogo



A propósito da recente controvérsia provocada no meio esportivo mundial pela notícia do suposto desvio de dinheiro ocorrido quando da contratação de Neymar para atuar no Barcelona, notícia esta que teria ocasionado, segundo referem folhas catalãs, a demissão do próprio presidente do clube espanhol, o senhor Sandro Rosell, nada tenho para dizer, já que nada entendo de futebol, muito menos de finanças, e menos ainda de leis, sobretudo espanholas - aliás, da Espanha pouco mais sei e conheço do que o que há escrito nas gloriosas páginas de Cervantes e nas movimentadas e idílicas cenas de Lope de Vega, e talvez, se cavar fundo nos surrados alforjes de minha memória, um ou outro verso de algum poeta da terra, como estes de Garcia Lorca: 
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte
.
El aire es inmortal. La piedra inerte
Ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.
(Etc., etc., etc.)
Mas, sem embargo de minha colossal e já proverbial ignorância sobre os temas supracitados, uma ou duas palavras creio que não será de todo descabido escrever sobre este curioso episódio.
A primeira palavra diz respeito à fabulosa, estratosférica quantia de 120 milhões de reais que, segundo afirmam as mesmas folhas catalãs, teriam sido mascarados durante as negociações para a compra de Neymar, e pagos como comissão a seu pai: fiquei um pouco confuso com esta informação, talvez por falta de maior clareza no modo como foi relatada, ou de neurônios em meu cérebro, porque - isto segundo o que penso haver compreendido do que li a respeito - o agora ex-presidente do Barcelona está sendo acusado de desviar para si, justamente os mesmos 120 milhões de reais, utilizando-se para tal, do mistério e de certa aura conspiratória que, desde o princípio, marcaram os trâmites da ida de Neymar para a Espanha. Trata-se do mesmo dinheiro com todos os zeros à direita? Ou são valores distintos? Questão para averiguação posterior.  
Mas leio agora que o valor da comissão de Neymar Pai pode ter sido ainda maior. Que imbróglio! Quem poderá deslindá-lo? 
Por esta bem pode ver o leitor a enormidade de minha ignorância.
Ainda segundo as ditas publicações, Neymar teria sido comprado por um valor substancialmente superior ao que foi oficialmente divulgado por ocasião de sua contratação. Superior até mesmo ao pago por Messi, várias vezes consecutivas eleito o melhor jogador do mundo.
Um minuto de silêncio para a consternação do leitor.
A ser verdade o que se cogita sobre os contratos secretos de Neymar, sobretudo no que diz respeito a comissão paga a seu pai, bem podemos dizer que nada disto é novo em plagas brasileiras, embora seja, como é de praxe em países minimamente civilizados, objeto de imenso escândalo em solo europeu.
Afinal, por aqui, de praxe é sempre pagar um valor a mais do que o oficial, por tudo, desde um saco de cimento para a construção de uma escola (ainda se constroem escolas no Brasil, ou apenas estádios?) até um quilo de açúcar para a alimentação dos detentos do sistema carcerário. Os estrangeiros que pretendem fazer negócios em nossos tristes trópicos, a primeira coisa que aprendem - às vezes, a duras penas - é que a propina é a mola mestra, a força motriz de nossa economia, ela é que faz com que as coisas andem - verdade é que muitas vezes faz com que permaneçam inertes.
Sem a boa e velha propina nossa de cada dia, a indústria nacional talvez nem existisse.
A primeira propina já veio a bordo da nau de Cabral - pois o que era o escambo praticado com os ingênuos silvícolas, senão uma forma de propina em troca da escravização de suas almas? Cá ela aportou junto com os colonizadores, cá ela ficou depois que eles partiram, aclimatou-se, viveu uma vida longa e próspera, e deixou numerosa e ainda mais próspera descendência, até hoje indissoluvelmente ligada ao organismo estatal, como uma solitária a um intestino doente.
A segunda palavra versa sobre a renúncia do presidente do Barcelona.
Com efeito, surpreendeu-me esta notícia pelo que ela tem de inusitado, e deveras extraordinário, para olhos que se acostumaram a ver, em plagas brasileiras, dirigentes de clubes de futebol aferrarem-se a seus cargos por tantos anos que, mesmo depois de mortos, esquecem-se de se fazerem enterrar, simplesmente para não largarem o osso ou melhor, as tetas dos times que presidem e nas quais vivem a mamar copiosamente. Na Espanha, a simples suspeita de corrupção bastou para provocar a renúncia do presidente de um dos maiores clubes do mundo. Aqui, na terra onde canta não só o sabiá, mas também fazem ouvir sua voz as balas perdidas nos tiroteios dos morros cariocas e das ruas maranhenses, mesmo a comprovação da prática de corrupção não é capaz de apear um cartola de seu trono.
O exemplo salutar de Sandro Rosell bem poderia servir de inspiração a certos dirigentes brasileiros, como o senhor Mario Celso Petraglia, que, após deixar o futebol, poderia perfeitamente passar a dedicar-se ao cultivo de batatas, ele mesmo, ao invés da torcida atleticana a qual ele mandou plantá-las.
Aliás, o oceano de dinheiro já gasto na Arena da Baixada também poderia ser bem melhor aproveitado na distribuição de batatas reais, não puramente metafóricas, a famílias pobres. Matar a fome de crianças desnutridas é um investimento infinitamente melhor e mais lucrativo - do ponto de vista moral - do que torrar milhões na construção de um estádio que até corre o risco de não receber jogos da Copa do Mundo, digam o que disserem figuras de tão alto gabarito intelectual como os senhores Pelé e Ronaldo "Fenômeno".      
"Ao vencedor, as batatas". Ao perdedor, cabe descascá-las.            
        
   

19 de janeiro de 2014

A Escolha Certa


Hoje acordei sentindo uma grande vontade de naturalizar-me cidadão sueco.
Isto porque li ontem, a grata notícia de que Estocolmo, a bela e nobre capital da Suécia, por decisão praticamente unânime dos partidos políticos suecos, com o apoio, inclusive, do próprio primeiro ministro do país, o senhor Fredrik Reinfeldt, optou por desistir de tentar sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, por considerar demasiado altos os custos com os quais teria de arcar caso a cidade fosse escolhida para organizá-los. Em comunicado à imprensa, o prefeito de Estocolmo, Sten Nordin, afirmou que não poderia recomendar à Assembléia Municipal que desse prioridade ao projeto de sediar os jogos, porque - note bem o leitor o que estou a ponto de escrever - em suas próprias palavras, "precisamos priorizar outras necessidades, como a construção de mais moradias na cidade."
Belíssimo exemplo para nossas autoridades locais, não?
Referem folhas suecas que três fatores foram de crucial importância para a tomada da decisão de cancelar a candidatura de Estocolmo junto ao Comitê Olímpico Internacional. 
O primeiro: de acordo com os políticos suecos (morram de inveja os desvalidos cidadãos brasileiros!), a cidade tem prioridades infinitamente mais importantes e urgentes do que meramente servir de cenário a um evento que, apesar de sua magnitude, é tão efêmero e fugaz, que simplesmente não vale a pena investir nele a quantia necessária para sua realização. Os benefícios não compensam os custos.
O segundo: "a conta dos gastos para realizar o evento na cidade seria alta demais" - mesmo para os bolsos suecos, mais cheios e profundos do que os nossos. 
O terceiro (e para este ponto peço um pouco mais da atenção do leitor): "um eventual prejuízo com a organização dos Jogos teria que ser coberta com o dinheiro dos contribuintes". 
Eis o ponto nevrálgico da questão: o dinheiro dos contribuintes. Eis que, finalmente, o milagre supremo, pelo qual todos tão ansiosamente esperávamos, aconteceu: não somente um exemplar deste estranho e misterioso ser, a que se dá o nome de "homo políticus", mas toda uma classe de membros dessa enigmática espécie, genuinamente preocupada com o bom uso do dinheiro dos contribuintes!
De imediato, mal pude acreditar no que lia. Pus-me a esfregar os olhos uma, duas, três vezes para ver se não seria algum defeito da minha visão que me levasse a ler no jornal o que de fato não estava ali escrito. Mas estava. Não foi uma ilusão, tampouco um defeito de visão, a coisa era real, tão real quanto a cadeira em que estou agora sentado, tão real como são reais os boletos de janeiro que agora estão a assoberbar minha escrivaninha, tão real como é real o nariz estranhamente vermelho de Dilma Rousseff (será de constipação?).  
Dei um salto da cadeira e comecei a pular pela casa, de pura alegria. Entoei em alta voz, um Te Deum laudamos, em homenagem ao maravilhoso acontecimento, mas um súbito pensamento veio pôr água na fervura, o pensamento de que minha alegria talvez não se justificasse plenamente, porque não se tratava de políticos brasileiros e, sim, suecos e eu não moro na Suécia.   
Fiquei consternado com esta constatação, pois cumpre saber que, antes de me dar conta desta triste realidade, por algum misterioso e incompreensível dessaranjo no maquinismo vagaroso e truncado de meu cérebro, de ordinário tão inerte e confuso como as votações no Congresso Nacional, inadvertidamente troquei os termos da matéria: onde estava escrito "Estocolmo", li "Rio de Janeiro"  e onde havia os dizeres "Jogos Olímpicos de Inverno", meus olhos simplesmente não apreenderam a última palavra.
A nós resta-nos apenas morrer na fila dos hospitais públicos enquanto o jogo rola nas arenas durante a Copa e os atletas olímpicos disputam suas medalhas de ouro na Cidade "Maravilhosa".
Ah! Por que não nasci sueco?
          

3 de abril de 2013

A Cor da Verdade

"Chega sempre um momento na história em que quem se atreve a dizer que dois e dois são quatro é condenado à morte." - Albert Camus.
" E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" - João (8: 32)
"Por mais que procure a verdade nas massas, não a encontro, só nos indivíduos." - Eugéne Delacroix.
"Nem  Marx nos é tão caro quanto a verdade". - Simone Weil


"A Incredulidade de São Tomé" (1599) - Caravaggio



Indagou Pôncio Pilatos: "Que é a Verdade"? Será a verdade uma quimera tão intangível e fugaz como aquela sutil e efêmera brisa de outono - quase leminskiana, não fosse sua atávica propensão ao gongorismo - tão bem conhecida dos taciturnos transeuntes curitibanos, fina como um fio de teia de aranha marrom e gelidamente cortante como uma navalha daltoniana, que mal nos roça os cabelos, e se desvanece entre as vulneráveis e levemente melancólicas pétalas de flores que solenemente flutuam nos braços imateriais do vento, e depois se precipitam, em queda livre, sem um protesto, sobre as calçadas de petit-pavé de nossa gloriosa mas nem sempre alegre e magnificente cidade-modelo? Será ela tão camaleônica e protéica, esquiva e nebulosa como o era a aterradora figura da felicidade no delírio tragicômico de Brás Cubas? O inalcançável mas perpetuamente brilhante e irresistível objeto do desejo voraz e insone de filósofos, poetas, sábios dos mais diversos naipes ideológicos e sistemas de pensamento e de conduta já forjados pelo animal humano, não passará, talvez, de uma triste e ao mesmo tempo cruel e sardônica ilusão, talvez uma peça de extremo mau gosto pregada em nós por uma entidade sádica e onipotente, que se diverte, grotescamente, com nosso quixotesco ou quiçá fáustico talento milenar para o martírio, e nossa eterna e proverbial tendência a chafurdar na lama pútrida de nossos próprios erros de rocambolescas proporções, quais porcos de Pirro, a navegar no oceano encapelado e soturno de nossa gigantesca ignorância e colossal iniquidade? Ou, para esboçarmos uma hipótese talvez um pouco mais entusiasmante - façamos uma breve e honrosa concessão ao otimismo crônico e atávico dos joviais e ingênuos asseclas de Leibniz e afins - não será a própria busca da verdade, por mais metamórfica, fugidia e multifacetada que ela se apresente aos nossos olhos míopes, eternamente ávidos de conhecimento e de alegria, a chave capaz de nos permitir visualizar e finalmente compreender, em sua totalidade cósmica e orgânica, a real essência da vida do homem sobre a Terra, o farolete que nos guiará rumo a decifração do hieróglifo impenetrável da condição humana, e que ainda aguarda, incólume e incomensurável, o heróico Champollion filosófico que vislumbrará a luz no outro lado da ponte e nos conduzirá com mãos firmes ao Eldorado supremo da Sabedoria? Teorias sobre o que vem a ser isto a que damos o nome de verdade há-as aos montes, e ao gosto do freguês. Todas tentativas algo canhestras e assás precárias de formular respostas minimamente adequadas e satisfatórias para as perguntas de todo gênero e espécie que já foram expressas ao longo do tempo sobre a verdadeira natureza da verdade. Perguntas estas que, para efeito de explanação e clareza de argumentação, podem ser (como o são de fato) subdivididas em três categorias fundamentais: metafísicas ("O que é a verdade"? "No que consiste a verdade"? "Qual é a essência da verdade"?), epistemológicas ("como podemos conhecer a verdade"?) e semânticas ( "O que significa a palavra verdade"?).   
Estas angustiantes e algo pretensiosas indagações vêm a propósito da infeliz porém inescapável constatação de um fato que, por muito tempo, permaneceu encoberto e oficialmente inexistente aos olhos da mídia bem-pensante nacional e de seus escravos ideológicos (perpetuamente prontos a saltar como feras enlouquecidas sobre o incauto pescoço de quem quer que se atreva a pôr minimamente em dúvida a verdade oficial - verdade esta que lhes foi perfidamente pregada pelos mais diversos meios possíveis e imagináveis desde o berço até os pouco confortáveis bancos de nossas gloriosas e veneráveis madraçais universitárias nacionais) e que somente agora que já nos encontramos no mais avançado e talvez irreversível grau de idiotia coletiva que ora assola o território pátrio, e que não há mais ninguém com coragem suficiente para suportar com nobreza e desprendimento a dor heróica de ser o último homem entre as ruínas, e efetivamente insurgir-se contra o deplorável estado em que se encontram as coisas ao nosso redor, tornou-se deveras evidente: a profecia de Orwell concretizou-se plenamente em solo tupiniquim, a célebre máxima de Goebbells tornou-se o lema oficial da classe dirigente nacional e já não há mais espaço respirável para pensamentos e expressões que divirjam sequer uma vírgula do pensamento oficial da crimocracia ora em vigor na ilha Brasil.   
Em que consiste tal pensamento? Uma palavra basta para para nos auxiliar a compreendê-lo e subsenquentemente descrevê-lo: revolução - palavra para a qual Jeff Goodwin cunhou uma definição altamente esclarecedora: "qualquer e todas as instâncias em que um estado ou um regime político é deposto e, assim, transformado por um movimento social de forma irregular, extraconstitutional e/ou violenta", não deixando de frisar os principais elementos que verdadeiramente a caracterizam: "revoluções implicam não apenas em mobilização de massas e mudança de regime, mas também em mais ou menos rápidas e fundamentais mudanças sociais, econômicas e culturais, durante ou logo após o luta pelo poder do Estado." 
De acordo com correntes de pensamento de orientação marxista, uma revolução só pode ser experimentada quando todos os pontos fundamentais que sustentam o status quo de uma sociedade invertem-se completamente. Ou seja, se as relações de trabalho, a hierarquia social, as práticas econômicas ou os hábitos cotidianos permanecem intactos após uma mudança histórica, exclui-se a possibilidade de ter havido uma verdadeira revolução. 
Com base neste ponto de vista e no cerne da definição acima expressa, temos o principal componente identificador do que se pode de fato chamar de revolução: a inversão do status quo, em todos os níveis em que transcorre a vida em sociedade, a começar pelo próprio conceito de realidade em que vivem seus membros.  
Diz Olavo de Carvalho: "a inversão da realidade é um fator tão constante e onipresente no pensamento revolucionário de todas as épocas, que praticamente podemos encontrar amostras dele no que quer que os porta-vozes de ideologias revolucionárias digam sobre assuntos do seu interesse político". A verdade é a primeira vítima fatal da ação revolucionária, é a primeira cabeça a rolar no patíbulo ideológico dos cultores da subversão. 
Diz Hayek: " O modo mais eficaz de fazer com que todos sirvam ao sistema único de objetivos visados pelo plano social é fazer com que todos acreditem nesses objetivos. Para que um sistema totalitário funcione com eficiência, não basta que todos sejam obrigados a trabalhar para os mesmos fins: é essencial que o povo passe a considerá-los seus fins pessoais. Embora seja necessário escolher as ideias e impô-las ao povo, elas devem converter-se nas ideias do povo, num credo aceito por todos, que leve os indivíduos, tanto quanto possível, a agir espontaneamente do modo desejado pelo planejador. Se o sentimento de opressão nos países totalitários é, em geral, bem menos agudo do que muitos imaginam nos países liberais, é porque os governos totalitários conseguem, em grande parte, fazer o povo pensar como eles querem".   
Sintoma paradoxalmente claro e inequívoco da atual e destrutiva hegemonia intelectual e política esquerdista em solo pátrio é o fato de que hoje simplesmente inexistem verdades absolutas e inquestionáveis sobre as quais fundamentar nossas crenças e pelas quais orientar nossas atitudes e fortificar nossos propósitos ao longo da vida. Isto porque acreditar em verdades absolutas como a ressurreição de Cristo e a punição dos pecados depois da morte já não é de bom tom, é, pelo contrário, politicamente incorreto e ideologicamente inadequado, quando não pura e simplesmente reprovável. 
Hoje há apenas opiniões, as mais diversas e desconexas, sobre os vários aspectos e dilemas da existência humana  - ou, para fazermos uso do complexo, quase ininteligível jargão acadêmico de esquerda, desconstruções conceituais à moda derridiana - opiniões que por sua vez, estas sim,  passam aos olhos do populacho sequioso de certezas e até dos que as professam por dogmas indissolúveis e invioláveis, que porém nada possuem de concreto em que embasar seus alicerces. Em nome de meros artificialismos retóricos espalhafatosamente propagandeados como "teorias" pelos vários segmentos da planosfera acadêmica nacional (sistema pelegocrático que produz, em escala industrial, respeitáveis especialistas em mediocridade filosófica e sacrossantos analfabetos morais, aprovados com distinção pelas hostes professorais lulescas e congêneres), com cataclísmicos reflexos na arena política, monstruosas perversões éticas carinhosamente apelidadas de "novos paradigmas conceituais", adquirem, a golpes de machado verbais, espaços cada vez maiores e mais difusos no de ordinário pobre e algo esquizofrênico ideário das sempre tão veneradas mas nunca inteiramente compreendidas "massas". O terrorismo ideológico incansável dos hirsutos acadêmicos revolucionários de salão obra, diuturnamente, por tornar inócuos, vazios de sentido e totalmente sem valor, deixando intacta apenas sua casca linguística, termos como "meritocracia", "honestidade", "consciência", "família", "sabedoria", "lealdade", "tradição", "democracia", "liberdade", "fé"..., conferindo-lhes significados completamente díspares do conceito original, termos que outrora representavam verdades supremas pelas quais milhões de homens derramaram seu sangue e suas lágrimas e em nome dos quais nossa tão caluniada e ao mesmo tempo tão invejada e odiada civilização ocidental foi construida.   
Hoje encaradas como se fossem simples e insignificantes pedaços de vidro forjados por um ourives inescrupuloso com o intuito de vendê-los como diamantes autênticos para lucrar no mercado negro ideológico com o fruto equívoco de sua nefasta dissimulação, as verdades que outrora nos guiavam e eram o esteio de nossa fé, têm sido constantemente alvo de um gradual e progressivo movimento de anulação e deturpação, estupradas - este é o termo exato - por indivíduos que descartam a consciência e a moralidade como fardos inúteis e demasiado pesados para serem satisfatoriamente utilizados na luta pela vida, escroques intelectuais que despem a Verdade de suas vestes primevas para fantasiarem-na com roupas de empréstimo, esfarrapadas e deselegantes, que nada têm a ver com ela.
Os que ainda não perderam a coragem nem o senso de valor e se posicionam abertamente contra o acelerado e inexorável processo de falsificação ideológica e nulificação moral que têm tomado conta do panorama acadêmico, político e também cultural de nossos tristes trópicos (e é cada vez menor o número dos que ainda se atrevem a fazê-lo), quando levantam suas objeções à revolução cultural em curso, logo são tachados de "reacionários", "hipócritas" "defensores do status quo", "desonestos", "fascistas", e assim ad infinitum.
Nos tempos modernos é mais pertinente do que nunca, o veredicto quadricentenário do padre Antônio Vieira: "Muito tempo há que a mentira se tem posto em pés de verdade, ficando a verdade sem pés e com dobradas forças a mentira; e é força que, sustentando-se em pés alheios, ande no mundo a mentira muito de cavalo; e se houve filósofo que com uma tocha numa mão buscava na luz do meio-dia um sábio, hoje, por mais que se multipliquem luzes às do Sol, não se descobrirá um afeto verdadeiro. Buscava-se então a ciência com uma vela, hoje pode-se buscar a verdade com a candeia na mão, que apenas se acha nos últimos paroxismos da vida".
Palavras proféticas. 
É hora de encerrar esta despretensiosa e algo prolixa postagem. Fechemo-la com a célebre divisa de Diderot: "Os erros passam, mas a verdade fica".

1 de abril de 2013

Contra a Sinceridade

Dedicado especialmente a B., N. e T. M., involuntárias musas inspiradoras deste texto.


Palavras são armas. Armas infinitamente mais poderosas e letais do que as utilizadas no conflito em curso na Síria. Armas de fogo podem ferir, e até mesmo destruir, por completo, e irremediavelmente, o corpo de quem estiver na linha de tiro, mas palavras podem matar uma alma. Quantos rocambolescos, quixotescos e ainda assim, caros  e generosos sonhos já não foram completamente destruídos e soterrados por uma palavra cruel ou simplesmente inoportuna, dita num momento crucial, definidor de toda uma trajetória de vida? Quantos pobres e ardorosos corações já não foram irremediavelmente partidos e aniquilados por conta de uma palavra ferina e amarga, pronunciada sob o soturno influxo da dor e da mágoa? Quantas crianças já não tiveram o sublime e imponente castelo de cartas de sua idílica e multicolorida infância, brutalmente desmantelado pelo gélido e espectral sopro de uma palavra atroz e devastadora?
Porque as palavras possuem um poder imenso, absolutamente avassalador, cuja grandeza e magnitude são incomensuráveis, difíceis de imaginar até mesmo para o artista mais prolífico e criativo. Elas são capazes tanto de construir impérios quanto de reduzi-los a escombros, podem tanto encher um coração de esperanças quanto precipitá-lo inexoravelmente no mais profundo e absoluto abismo do desespero, podem tanto propagar a verdade quanto disseminar a mentira, e, porque elas são também amorais, podem perfeitamente servir a mais do que a dois senhores ao mesmo tempo, ser tanto portadoras da paz quanto propagadoras do ódio e da tirania. 
Penso que as pessoas deveriam procurar tomar o máximo cuidado com as palavras que pronunciam ou escrevem ao longo de suas breves e frágeis vidas, não apenas por uma questão estética, como soem fazer os escritores, mas sobretudo por uma questão da mais alta relevância moral, como soem fazer os pregadores e os teólogos. Nossas línguas são metralhadoras e as palavras que delas brotam são a munição com a qual alvejamos aqueles que nos cercam. Talvez seja por isso que o mundo moderno tenda a se tornar cada vez mais violento e caótico, porque esquecemos do poder altamente devastador das palavras, e quiçá também por isso, nos dias que correm, torna-se uma tarefa cada vez mais difícil e hercúlea sustentar um diálogo minimamente equilibrado e civilizado com nossos oponentes, sem precipitações e com ao menos uma pequena dose de bom senso.
Há pessoas que confundem sinceridade com incivilidade. Pessoas que, sob o lindo, maravilhoso, encantador, quase idílico e celestial pretexto de cultivar as celebremente heróicas e sumamente nobres virtudes da sinceridade e da firmeza de caráter, não hesitam em expressar claramente - e sem "papas na língua", como diz a velha figura de linguagem, muito em voga nos meios midiáticos e culturais oficiais - tudo o que verdadeiramente lhes passa pelo cérebro febril e ébrio, sem antes submeter suas ideias e opiniões ao filtro depurador do bom senso e também, em última instância, da boa educação. São pessoas que, mesmo sem você pedir, não se furtam a expressar, em alto e bom som, e para todos os infelizes basbaques ao seu redor, sem atentar, sequer por um segundo, para as mais básicas e elementares leis da etiqueta, suas opiniões - reveladas como verdades absolutas e inquestionáveis - sobre tudo e todos, desde a aurora boreal até o gol-contra marcado no jogo do fim-de-semana, passando pelo figurino estrambótico de Lady Gaga, a renúncia de Bento XVI, as brigas no Big Brother e a tetraplegia do leão Ariel. E também não medem palavras na hora de tecer comentários sobre sua aparência ou seu comportamento, mesmo que você não tenha sequer cogitado a mais remota possibilidade  de solicitar tais comentários.
Conheço pelo menos três pessoas dessa estirpe - por sinal, as musas inspiradoras deste artigo - (na verdade, bem mais do que três, mas não vou falar sobre elas, agora, por falta de tempo e economia de espaço) que têm o péssimo, nefando, execrável hábito, de dizer àqueles com quem convivem, mesmo sem para tanto terem sido solicitadas, tudo que pensam e sentem, sem medirem, sequer por uma fração de segundo, as consequências nefastas de seu descalabro retórico, dizendo sempre o quão cheias de defeitos e ruins os outros - sempre os outros - são, não deixando de evidenciar, por tabela, e sob uma máscara de falsa modéstia, sua própria perfeição, e isso com a professa intenção de ajudá-los a se aperfeiçoarem por sua vez. Mas elas próprias não conseguem enxergar suas próprias deficiências, e se alguém comete a temeridade de apontá-los, torna-se, ex abrupto, o infeliz alvo preferencial de seus petardos verbais. Chamam sinceridade ao que é apenas a mais pura e simples grosseria. 
Nada há que me irrite e desgoste mais profundamente do que a verborréia insípida e autossuficiente dos que se julgam os monopolistas da verdade. (Talvez apenas os autoproclamados guardiões da virtude pertencentes à intelligentsia esquerdopata nacional e certos pseudoatores consigam fazê-lo.) Aos ouví-los discorrer, de alto de sua ilusória onisciência, com tamanha soberba e tão prolixamente, sobre tudo que há entre o céu e a terra, no fundo dos mares, e nas alcovas ministeriais, tenho, juro-o com o coração nas mãos, a infernal e quase irreprimível tentação de lançar sobre eles a maldição que Latona lançou contra os camponeses da Lícia que lhe negaram água para saciar sua sede e a de seus filhos, pois das rãs eles já tem o coaxar incompreensível, só lhes falta o corpo de anfíbios.
Reconheço que a sinceridade, em si mesma, como valor e ideal, é, de fato, uma virtude. Mas a urbanidade também o é.
Como diz  Machado de Assis:
"Tudo pede certa elevação. Conheci dous velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: 'Caro major!' -'Pronto, comendador!' — Variavam às vezes: — 'Caro comendador!' -'Aí vou, Major' . Tudo pede certa elevação".
Sim, tudo pede certa elevação. Na verdade, a elevação que Machado julga tão necessária nas relações humanas, hoje parece cada vez mais ausente da vida em sociedade. A começar pelos pequenos, simples gestos de incivilidade explícita praticados no conturbado cotidiano de nossas atribuladas metrópoles: uma fila no supermercado em que um cidadão mais afoito rouba nosso lugar sob a desculpa do atraso para voltar ao trabalho ou pegar o filho na escola; o jovem fisicamente perfeito que ocupa o assento preferencial no ônibus e finge dormir enquanto uma gestante ou idosa fica em pé ao seu lado, sendo jogada de um lado para outro da grande lata de sardinha sobre rodas (pois o que são nossos ônibus urbanos senão isto?), enquanto o motorista da dita lata, que mais parece ser um condutor de um vagão de gado, reflexo direto da bovinização acelerada de nossa sociedade, já em curso, infringe todas as leis da boa educação para com seus passageiros e às vezes até as de trânsito, impunemente; o policial que abusa dos direitos que lhe confere a farda e passa a agir exatamente como aqueles a quem ele deveria, em tese, combater, ultrajando, de forma truculenta e irresponsável, a cidadania de pessoas de bem, enquanto os verdadeiros criminosos continuam soltos, muitos deles lotados nos gabinetes de seus superiores hierárquicos; o jornalista que humilha garis em rede nacional; todos são  exemplos claros e inequívocos do estado anêmico, periclitante, moribundo, em que se encontra a civilidade, o único escudo capaz de nos proteger de nosso monstro interior.
A profissão da sinceridade não pode ser pretexto para a falta de educação. Falando agora em causa própria, quero alertar aos que porventura estiverem a ler este singelo texto, que dispenso e quero que fique longe de mim a dita sinceridade daqueles que estufam o peito, empinam o nariz e enchem a boca para dizer a quem estiver por perto, o quão honestos e íntegros são (logo chamando a todos que não comungam de seus preconceitos e achismos, de desonestos e prostituídos), pois estas mesmas sinceridade e integridade muitas vezes não passam de máscaras, artifícios usados para encobrir a mais absoluta falta de civilidade (e também inocuidade mental) da parte de seus cultores. Exemplo clássico do que afirmo é um certo comentarista esportivo que adora falar o que pensa e faz dos ouvidos de sua audiência a cuba sem fundo de suas sandices conspiratórias.
Não quero que me digam o que pensam ao meu respeito sem que eu o solicite. Não quero que me falem do sol e da lua se eu nada quiser ouvir do sol e da lua. Já tenho plena e absoluta consciência de minha calvície crescente e minha adiposidade já bastante pronunciada, não preciso que me lancem ao rosto, o quão calvo e gordo estou.
Entendamo-nos: logicamente não estou a fazer aqui uma espécie de apologia da hipocrisia, como pode parecer a um leitor mais superficial e apressado (como é a maioria dos comentaristas atuantes na blogosfera brasileira). Pelo contrário. reputo a hipocrisia como o mais hediondo e nefasto dos vícios humanos. A honestidade é vital. Faço apenas uma singela defesa do decoro da parte daqueles que dizem professá-la, pois "a honestidade, sem as regras do decoro, transforma-se em grosseria" (Confúcio). 
Verdade seja dita, o Marquês de Maricá estava coberto de razão, quando afirmou:
"Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade".

Vã e triste criatura é o homem! Ama a verdade mas não pode viver sem a mentira. Melhor seria que nunca tivesse sido criado. Mas já que o foi, o melhor que tem a fazer é viver com uma máscara pregada ao rosto. Ou fazer como Espurina e rasgar a própria face.
  

29 de março de 2013

Pelas Ruas de Curitiba


Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Confesso que sou um autêntico espécime daquilo que se convencionou chamar, desde os tempos do ébrio Baudelaire, um flâneur, no melhor estilo do termo, um convicto e incurável andarilho da urbe curitibana. Tenho o salutar e agradabilíssimo hábito de caminhar, durante horas e horas, à fio, sem destino nem hora marcada, pelas silenciosas e algo melancólicas, mas nem por isso, menos aprazíveis, sofisticadas e poéticas ruas curitibanas, com os olhos constantemente em alerta para tudo que existe ou se movimenta ao meu redor, e sempre prontos a captar e depurar, no filtro turbilhonante de minha memória e de meu intelecto perpetuamente em ebulição, a fugacidade algo trágica de instantes que, justamente por conta dessa mesma fugacidade, possuem um valor simplesmente inestimável, maior do que qualquer pepita de ouro já encontrada ou por encontrar em Serra Pelada, ainda que não devidamente reconhecido pela esmagadora maioria dos tecno-escravos de nossa opulenta e insana  sociedade moderna, cujo tempo é quase que integralmente dedicado apenas a busca desenfreada por lucro e status, pouco sobrando para o cultivo do espírito e do coração. Estou sempre em busca de algo que me emocione ou me seduza com sua novidade e seu esplendor, por mais insignificante e medíocre que aparente ser na superfície. Já descobri e vivenciei inúmeras coisas deveras belas e inusitadas em minhas perambulações. Coisas que os tecno-escravos que mencionei julgariam completamente sem importância porque desprovidas de real valor monetário ou político.  Desde a visão singularmente sublime e encantadora, quase paradisíaca, de uma singela e desgastada estatueta negra perdida no fundo de um jardim solitário e inóspito, com um estranho e comovente sorriso rescendente a exóticos ares orientais estampado em sua face de ébano, até a aspiração profunda do inebriante e vertiginoso aroma proveniente de um vaso de flores multicoloridas e luxuriantes postado sobre o peitoril de uma janela adornada com esfarrapadas cortinas de renda cheias de furos e marcas de cigarro,  e na qual, um homem de cabelos austeramente encanecidos, fumava um cachimbo preto, com um ar ao mesmo tempo, grave e nostálgico, pensando sabe Deus em que passagens longínquas de seus sonhos de antanho, talvez pressagiando a chegada iminente da cláusula de seus dias.
Crianças jogando "bafo" (não há o que estranhar, a modernidade ainda não soterrou, por completo, nas dunas velozes do esquecimento, o verdadeiro significado da infância e o real valor da instituição familiar em alguns raros e heróicos lares - eu próprio já participei de verdadeiros campeonatos improvisados deste já bastante raro esporte infantil no qual sempre fui, confesso-o com pesar, uma gigantesca nulidade. ) na calçada fronteira a uma velha casa de madeira de nítida inspiração ucraniana, sob o olhar terno e vigilante de seus pais; carrinheiros de semblante fatigado, cruelmente flagelados pela inclemência do  clima curitibano e constantemente acossados pelo olhar gélido dos mais afortunados, enquanto realizam seu trabalho e procuram a sobrevivência naquilo que facilmente descartamos quando não mais nos apetece conservar; os engraxates onipresentes da Boca Maldita, tagarelas e presunçosos como somente eles sabem ser; as estátuas vivas da Rua das Flores que formam como que um museu a céu aberto, com figuras de carne e osso em exposição e que, em troca de alguns mirrados centavos dados às vezes de não muito bom grado pelos passantes, adquirem movimento e desenvoltura ante seus olhos e lhes saúdam, reverentemente, como dignos e solícitos anfitriões de um fantástico e caleidoscópico espetáculo de variedades urbanas (jamais esquecerei do olhar maravilhosamente deslumbrado de uma garotinha que recebeu um beijo na mão dos lábios de um singular e elegante "Apolo de Belvedere" e que ficou literalmente sem palavras, ao ver-se imersa em tamanho encantamento, não conseguindo acreditar que estava a ver uma estátua movimentar-se de verdade diante de si.); figuras já de todo presentes no imaginário coletivo da cidade e que se tornaram características do folclore moderno curitibano, como um certo senhor de rabo de cavalo, um pouco fora de forma, é verdade, que caminha pela rua com uma bicicleta a tiracolo, de sunga, e com o corpo todo besuntado de óleo, como se fora um corcel prestes a galopar num haras de extensão ilimitada, e a Rainha do Papel, que transforma insignificantes embalagens em obras de arte de rara e humilde beleza; as mercadoras do amor da rua Cruz Machado, muitas a exalar lascívia bruta de todos os poros de seus corpos desnudos, outras com uma deprimente e angustiante expressão de profundo tédio a marcar seus rostos berrantemente pintados, e que apregoam, fazendo uso das milenares técnicas conhecidas apenas pelas legítimas descendentes da Mulher Primordial, seus duvidosos dotes quando cai a noite e, por quantias previamente determinadas, dão aos clientes a vaga e efêmera sensação de serem verdadeiramente amados e desejados, sensação que não vale um cêntimo de um afeto real; tudo isto e ainda mais, eu vi com os olhos ávidos e perspicazes de um apaixonado escrutinador do cotidiano desta ao mesmo tempo cosmopolita porém ainda espiritualmente provinciana metrópole, sempre disposto a queimar a sola dos sapatos e pôr o cérebro para trabalhar, à procura do oculto que nem sempre se desvela a um toque de mágica intelectual mas só depois de uma extenuante labuta aflora à superfície, e do imperceptível que só se traduz em conhecimento quando nos esforçamos por ultrapassar e reduzir a cinzas, o soturno e teoricamente inexpugnável muro de nossos próprios preconceitos e ilusões.
Para mim, o caminhar serve sobretudo de pretexto à reflexão. A ponto de poder até, não sem uma certa ponta de vaidade, fazer minhas as célebres palavras de Paulo Leminski:

Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
    Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
    Aonde vão dar esses passos?
Acima, abaixo?
    Além? Ou acaso
se desfazem no vento
    sem deixar nenhum traço?
Em suma: flanar é absorver as múltiplas facetas da vida, no que ela tem de mais puro e sublime, até nos seus aspectos mais sórdidos e execráveis. É contemplar a beleza elegante e sofisticada do Batel e a decrepitude intoxicante e pecaminosa da Vila das Torres. É saborear o drama humano até o último gole da taça do infortúnio ou do cálice da felicidade. É tomar contato com a glória e vislumbrar a podridão. É entoar panegíricos à virtude severa e um pouco triste dos franciscanos da avenida Manoel Ribas, que palmilham as ruas com os pés descalços e esfolados, pedindo donativos para suas obras de caridade, e ao mesmo tempo, vituperar a mesquinharia e baixeza inerentes ao espírito de porco do povaréu incrédulo, que enxameia as vias urbanas com seus monstros resfolegantes, a sujar o céu e a asfixiar os infelizes transeuntes que não têm a sorte de contribuir com seu pequeno quinhão para a destruição da camada de ozônio e da paz de espírito dos homens bons - se é que ainda os há neste mundo atribulado. Em suma, flanar é não apenas caminhar sem rumo pela selva urbana, mas viver, e viver mais intensamente do que quem apenas caminha em direção a um objetivo específico. O verdadeiro flâneur não se confunde com os atarefados corredores do dia-a-dia que estão sempre com os olhos voltados para o relógio (time is money!) e não têm tempo nem paciência para contemplar aspectos da vida da cidade que somente quem tem olhos experientes e isentos de qualquer vestígio de pressa ou preocupação mundana, pode efetivamente reconhecer e admirar.
Eu pertenço ao time dos que não só amam mas sobretudo enxergam este pequeno pedaço da Terra em que nos coube por sorte viver. E praza a Deus que eu nunca perca o desejo (ou o talento?) de continuar a flanar, pelo menos enquanto estiver com as pernas em perfeito estado - sem embargo de nos últimos tempos, senti-las cada vez mais fatigadas e até um pouco doloridas - e puder levar meus olhos para cada vez mais distantes e aparentemente inacessíveis caminhos nesta que é uma das mais belas e também turbulentas metrópoles que hoje existem sobre a face deste mundo conturbado. Assim seja.

À Guisa de Apêndice


Tencionava esboçar neste texto um amplo e preciso panorama histórico da arte do flâneur mas admito, compungido, que sinto-me hoje preguiçoso demais para fazê-lo. Ao invés de fazê-lo e para não ficar com a consciência de todo sobrecarregada por conta de mais uma entre tantas outras culpas que já me assolam o espírito, opto por recomendar ao leitor curioso e que ainda não esteja perfeitamente familiarizado e sintonizado com a bela e sublime arte de flanar, a leitura atenta e minunciosa de um breve porém esclarecedor artigo de autoria de Fernanda Passos (sem trocadilhos), Mariana Gouvêa, Raphael Tosti e Rodrigo Polito, publicado na edição semestral da revista Eclética (julho/dezembro de 2003). É um excelente trabalho e vale a pena ser examinado com mais atenção do que é de hábito nestes tempos marcados pelo imediatismo interpretativo e pela fugacidade intelectual. Talvez que uma ou outra ideia ou hipótese não esteja lá muito bem colocada, pois a perfeição não é deste mundo. Não obstante, creio que cumpre a contento a tarefa a que se propôs: deslindar as origens históricas da figura do flâneur no imaginário contemporâneo. Basta acessar o link: “O Novo Flâneur”. Boa leitura!

20 de março de 2013

O Fim da Inspiração


"Sinto, por vezes, um temor espantado das minhas inspirações, dos meus pensamentos, compreendendo quão pouco de mim é meu."
Fernando Pessoa (1888-1935)

"E sou já do que fui tão diferente / Que, quando por meu nome alguém me chama, / Pasmo, quando conheço / Que ainda comigo mesmo me pareço". 
Camões (1524-1580)


"O Poeta Pobre" - Carl Spitzweig

Nobre e estimado leitor,

Para início de conversa. permiti-me confessar-vos desde logo que estou, sim, de fato estou, seria não apenas ocioso como profundamente deselegante mentir, neste exato e fatídico momento de minha atribulada e vertiginosa existência física sobre a superfície terrestre - e sinto-me extremamente triste e pesaroso por constatá-lo - com a mente completamente vazia, inerte e desolada, completamente destituída de pensamentos minimamente coerentes e construtivos, e à beira do mais profundo e absoluto desespero oriundo de um bloqueio criativo extremamente doloroso e asfixiante, que me impede de dar agora e de forma verdadeiramente satisfatória, plena vazão ao meu feroz e sempre inquieto instinto literário, ainda, reconheço-o de bom grado, em estado bruto, profundamente necessitado de uma cuidadosa e paciente lapidação. Não faço simplesmente a menor ideia do que posso escrever nestas desconexas e esparsas linhas que, talvez num gesto demasiado temerário e quixotesco, decidi dedicar aos meus hipotéticos mas nem por isso menos amados (e exigentes) leitores como uma espécie de parca e humilde oferenda a enigmáticos e silentes deuses que se ocultam sob a máscara fria e sem expressão do anonimato onipotente. Por mais que me esforce, de forma quase sobre-humana, para desenterrar do solo árido e infértil de meu cérebro inculto e pequenino, algum assunto verdadeiramente digno de atenção e análise, sobre o qual possa livremente refletir ou devanear por intermédio deste espaço, a verdade, nua, crua e irrefutável, é que perdi a minha inspiração. Creio que, por algum lamentável e absurdo descuido de minha parte, acabei por deixar uma das janelas de meu subconsciente entreaberta e ela acabou voando para fora, em direção aos confins inescrutáveis do mundo dos sonhos, em busca de algum pobre poetastro alcoolizado, ao estilo da figura representada no célebre quadro de Carl Spitzweg, entregue à febre, num sujo, empoeirado e fétido quarto de pensão de enésima categoria, segurando uma caneta quase sem tinta, e um papel sujo, amarelado, nas mãos, e que tenta encontrar, nos braços imateriais das míticas Musas, o lampejo há tanto esperado, da Ideia Original, que há de (pois ele assim sonha e espera) revolucionar e subverter, de forma irreversível e paradigmática, os parâmetros e as regras enfadonhas hoje em vigor no domínio da criação artística e da reprodução cultural. 

Pobre inspiração! Há momentos em que ela finalmente desiste de tanto bater em vão à porta de alguns fracos e  miseráveis sonhadores que, obstinadamente se recusam a corporificá-la através do trabalho, e sai, cabisbaixa, mas esperançosa, à procura de alguém mais digno de recebê-la na intimidade acolhedora e reconfortante de sua alma. Quantos Homeros, Dantes, Shakespeares, Goethes, Tolstois, Dostoiévskis, o mundo perdeu por conta da doentia e verdadeiramente criminosa indolência de grandiosos talentos embrionários que, infelizmente, não se desenvolveram - ou simplesmente se recusaram a fazê-lo por meio da confecção de criações próprias, quiçá transbordantes de imaginação e beleza, recusando-se a deixá-lo amadurecer e desabrochar em obras de arte que poderiam ingressar, de forma apotéotica e triunfal, nos mais gloriosos e inacessíveis píncaros da Arte Universal? A Preguiça sempre foi a adversária mortal e irreconciliável da Criação em que pese o elogio que dela fez Machado de Assis, pois embora seja verdade que amamente muita virtude, é também a mãe de todos os vícios. 
Herman Melville - o célebre autor de Moby Dick - escreveu um conto famoso, em que descreve a postura estranhamente absenteísta e inerte de um personagem que, calmamente, sem a menor sombra de cólera ou temor, recusa-se a fazer o que seu patrão lhe ordena, preferindo ficar imóvel, como uma estátua (ou talvez uma esfinge, ao estilo de Jonathan Noel), por horas à fio, com apenas sua respiração sendo claramente perceptível aos que o cercavam. Há não muito tempo, um romance laureado com críticas assaz benévolas e condescendentes - verdadeiros panegíricos para dizer o mínimo - foi escrito com base neste assaz idiossincrático e complexo personagem e sua mórbida e enigmática atração pela negatividade criativa, mal que, não raramente, atinge até grandes mestres e cultores da arte literária. 
Pois quantos não são os autores de uma única grande obra que escolheram o mutismo da caneta trancafiada na gaveta à formulação de novos e mais amplos caminhos para suas criações e curvaram-se à derrota, em sua hercúlea e feroz luta com as palavras - essas entidades volúveis e diabólicas que eternamente nos vergastam e angustiam com sua desfaçatez e sua protéica esquivança ao nosso controle e as nossas muitas vezes infrutíferas e risíveis tentativas de confiná-las dentro de períodos harmoniosos e bem construidos - uma verdadeira infinidade de Bartlebys espalhados pela castigada face deste planeta solitário e que preferem a abstenção à criação, a começar por certos casos crônicos e de ampla repercussão no mundo das letras, como Raduan Nassar, ou J.D. Salinger? 
Qual é o real significado de sua inércia criadora? Ignoro-o mas suspeito que se trata de uma espécie de protesto, às avessas, contra a prolixidade irracional e desleixada dos aspirantes a escritores da chamada pós-modernidade - que nada mais é, descontado o palavrório insano e abstruso dos pseudofoucaultianos da esquerda acadêmica e congêneres -  do que a contemporaneidade irremediavelmente perdida na barafunda incompreensível e desenfreada de seus próprios valores invertidos e desfigurados pelo progresso desumanizante da técnica, em detrimento da evolução espiritual da civilização. Para quê continuar a escrever quando tantos escrevem e, mesmo assim, o mundo continua a trilhar o mesmo caminho louco e vertiginoso rumo à sua própria destruição? Desde quando um escritor conseguiu efetivamente alterar a realidade que o cerca, apenas com a força e o poder de suas palavras? 
No meu caso, mais especificamente neste instante, escrevo apenas para não perder o costume, embora muitas vezes o tenha feito como se estivesse a praticar um ato de contrição espiritual, um rito de natureza essencialmente religiosa, quase um dever de ofício, como bater continência à bandeira ou rezar o terço num convento. Escrever é também uma forma de sacerdócio. As palavras possuem um poder infinitamente maior e mais avassalador do que supostamente pensam ou se atrevem a afirmar os habituais detratores das ciências humanas e os cínicos e vorazes apologistas do tecnicismo burocratizante e desumanizador que atualmente assola a civilização ocidental, um poder muitas vezes negligenciado até mesmo por aqueles que constroem suas vidas e carreiras com base no exercício da faculdade de comunicação verbal. O ato de dar expressão a ideias e sentimentos através da formulação de palavras e, principalmente, por meio da escrita, possui ou implica, desde os primórdios da história, um componente essencialmente sacramental, uma certa aura de sacralidade congênita, que produziu, ao longo do tempo, reflexos profundos e indeléveis sobre a própria gênese e evolução da cultura humana, inclusive em seus aspectos mais obscuros e aparentemente indecifráveis. A própria ideia da criação do mundo, conforme relatada no Gênesis, expressou-se por meio da metáfora da concretização da vontade de Deus em palavra viva. Foi pela enunciação da vontade divina por meio do Verbo, que a luz se criou e o universo foi gerado. A visão bíblica da origem do cosmo, portanto, é alicerçada, fundamentalmente, na concepção da Palavra de Deus como geradora do universo, fonte da vida e raiz primordial da existência do homem sobre a Terra. 
Inúmeras culturas espalhadas pelo globo terráqueo, tanto as mais arcaicas quanto as sociedades letradas contemporâneas, de elevado índice de desenvolvimento científico e tecnológico, condicionadas pela transmissão do conhecimento em escala industrial e pela reprodução cultural através da escrita e de outros meios de comunicação de ampla repercussão social e de alto valor agregado no mercado de bens simbólicos, consideram as palavras instrumentos de poder tanto num sentido eminentemente teológico (sem embargo do elevado grau de dessacralização e laicização mecanicista que caracteriza a vida moderna) - com seus reflexos no plano social como a criação e perpetuação de estruturas tais como o catolicismo e as diversas igrejas cristãs, fundadas substancialmente sobre a revelação da Palavra de Deus através das Escrituras – quanto no sentido político de sua manipulação como instrumento propiciador de domínio e adestramento social.
A palavra exerce um papel de extrema relevância na construção de sistemas ditatoriais de governo. Os tiranos sabem, como ninguém, fazer uso da manipulação da consciência das massas por meio da distorção da verdade através das palavras. Basta recordar o gigantesco poder de sedução popular dos discursos incendiários de Hitler na Alemanha pré-Segunda Guerra. E a retórica vazia e narcotizante de Hugo Chávez também está aí para prová-lo. 
Leve-se em conta, também, o poder mágico inescrutável que a mentalidade predominantemente animista de determinados estratos dos habitantes das zonas rurais e das periferias metropolitanas confere ao ato de pronunciar ou calar certas palavras, principalmente no que diz respeito a evocação de termos que se referem a certas enfermidades, consideradas pelos que se nutrem mais de religião que de ciência, quase como de origem sobrenatural. A palavra câncer, por exemplo. Cresci em um meio familiar completamente dominado pelas mais abstrusas e incompreensíveis formas de superstição que se possa imaginar. Nesse ambiente, era terminantemente proibida sequer a mais simples menção ao termo câncer e a tudo que a ele estivesse relacionado. Quando criança, sempre que ouvia meus parentes ou amigos conversando sobre algum outro parente ou conhecido da família que estivesse sofrendo com esta que é a mais cruel e abjeta enfermidade que pode se abater sobre a pobre e vã criatura humana, ouvia-os utilizando eufemismos algo ingênuos para designá-la. Era mais comum ouvir: Fulano está com “aquela doença” do que Fulano está com câncer. E o mesmo posso dizer a respeito de outras palavras igualmente interditadas ao vocabulário familiar, como Diabo e Morte. Segundo o pensamento mítico que me foi ministrado em doses cavalares na infância, e do qual só a muito custo consegui me libertar (e talvez ainda não esteja totalmente livre de seus laços etéreos), bastaria pronunciar a primeira e o próprio Tinhoso surgiria diante de nossos olhos, envolto em chamas, rescendendo a enxofre, vermelho vivo e com chifres enormes a ornamentar sua cabeça calva. Já a segunda seria a senha infalível para a morte instantânea.
A superstição é a mãe do preconceito. E o preconceito nada mais é, como o próprio nome diz, um pré-conceito, ou seja, um conceito que se formula a respeito de um determinado objeto sem o prévio contato com este objeto, sem antes conhecer as verdadeiras qualidades deste mesmo objeto. É uma visão que se constroi a respeito de algo ou alguém sem verdadeiramente conhecê-lo em toda sua plenitude e complexidade. Portanto, é uma perversão intelectual, uma aberração ideológica, um forma de pensamento falaciosa e errônea. Mas a palavra preconceito contêm em si, a palavra conceito e o que é, afinal de contas, um conceito?
Nossos atos são frutos de nossos pensamentos e também de nossas crenças. Crenças estas estruturadas em conceitos padronizados e estereotipados que atuam como referenciais normativos para nossa conduta diária e que constituem o aparato mental do indivíduo frente ao plano geral da civilização em que se insere. Na verdade, o conjunto de nossa vida mental e, por extensão, social, rege-se por uma miríade de conceitos muitas vezes vagos e desconexos que nos dão perpetuamente, a ilusão de sanidade e segurança mas que, na realidade nua e crua dos fatos concretos e inelutáveis, acabam, o mais das vezes, revelando-se de uma nulidade gigantesca e estagnante, mergulhando-nos na mais estéril, cruel e asfixiante perplexidade. Vemos e pensamos o mundo através de conceitos e conceitos nada mais são, no final das contas, que palavras. Ou para utilizar uma definição mais ampla e detalhada: um conceito é uma “unidade do conhecimento constituido por características que refletem as propriedades significativas relevantes atribuídas a um objeto ou a uma classe de objetos e expresso comumente por signos lingüísticos”. E interpretar conceitos é a missão suprema da filosofia.
A filosofia, tal como hoje a conhecemos, efetivamente só nasceu quando o legendário e inigualável Sócrates principiou seu apostolado errante – digamos assim – em prol daquela velha e fatídica quimera chamada Verdade entre seus contemporâneos e passou a adotar perante a intelligentsia de sua época -impregnada até a raiz dos cabelos, do que poderíamos perfeitamente chamar totalitarismo democrático de Péricles e seus asseclas - uma postura essencialmente crítica, não-dogmática, quase poderíamos dizer herética, que por fim culminou em sua condenação à morte e ao mesmo tempo, o alçou aos píncaros da imortalidade. Sua conduta e seu método de prospecção do conhecimento efetivo e não meramente superficial e doxográfico da realidade consistia, basicamente, em interpelar seus interlocutores, com uma voz melíflua, sedutora como a de uma espécie de Don Juan de caráter puramente intelectual e maliciosamente indagar-lhes o que eles realmente concebiam como sendo o significado pleno de suas crenças ou do que poderíamos chamar, com a terminologia contemporânea, ideologias. O diálogo era o instrumento principal, a enxada de que ele se utilizava para cavar, entre os emaranhados e vertiginosos escaninhos e meandros de dogmas irrefletidos e aparentemente inflexíveis, o solo ainda estéril mas com grande potencial de fecundidade da mente humana, para nele fazer germinar, de uma semente minúscula porém assaz poderosa, a imponente embora humilde e majestosa ainda que benevolente árvore do conhecimento, não necessariamente a mesma cujo fruto foi furtado pela pobre e vilipendiada Eva, mas semelhante a mítica e imortal Ygdrasil, o universo corporificado do folclore nórdico – tal como no fiat bíblico.
Foi propositadamente que lancei mão de uma metáfora agrícola, para me referir ao método socrático de pesquisa filosófica. Embora os antigos gregos nutrissem uma profunda e quase irreprimível aversão ao trabalho braçal, legando-o aos escravos e aos “bárbaros”, traço da personalidade helênica que, penso eu, foi uma das principais causas do declínio político e militar da Grécia perante o império macedônico, creio ser perfeitamente adequado usá-lo para descrever com um mínimo de acuidade e verossimilhança, embora algo toscamente, confesso, o processo de depuração de idéias que o verdadeiro pai da filosofia empregava para dar à luz a verdade. Processo este denominado maiêutica, homenagem de Sócrates a sua mãe, cujo ofício de parteira levou-o a estabelecer a agora clássica mas naquela época, verdadeiramente revolucionária analogia da obstetrícia com o exercício do pensamento sistemático que é apanágio de todo filósofo verdadeiramente digno do epíteto. Na verdade, o trabalho árduo do agricultor no contato direto com a terra, fazendo brotar a vida do campo outrora infértil e o da parteira que timbra por trazer ao mundo com o uso hábil e terno de suas mãos, um novo ser, têm uma grande semelhança e uma valiosa conexão, corroborada, por exemplo, pela raiz etimológica comum das palavras semente – o fruto em estado embrionário – e sêmen, o líquido sagrado que ao fecundar o óvulo, dá origem a um novo exemplar de homo sapiens. Ambos os ofícios ainda têm muito a ensinar aos filósofos e aos cientistas em geral, que precisam ter a necessária humildade e nobreza de espírito para aprender com eles. Lembre-se da origem agrícola da palavra Cultura, a fonte primordial da ciência e alicerce fundamental da civilização humana. Mas não tenho a intenção de utilizar este espaço meramente ocasional para dar lições de moral a quem quer que seja, tampouco para efetuar uma nova apologia de Sócrates, pois a que Platão escreveu é mais do que suficiente para firmar sua inquebrantável reputação como o maior sábio que o mundo já conheceu, não importa o que o bom e velho Nietzche tenha dito em contrário. Quero agora dar vazão a um breve capricho e falar um pouco sobre mim mesmo, não resisto a dar ao leitor um breve testemunho de minha colossal vaidade.
É singular e excruciante característica de minha personalidade, a dispersão. Tenha plena e inequívoca convicção de minha inteligência, excepcionalmente aguda e capaz de abarcar a multiplicidade de problemas de um determinado tema, numa visão holística e objetiva, mas o que me falta, sobretudo, é um conhecimento mais profundo e sistemático, inclusive (ou principalmente) das áreas da cultura humana que particularmente mais me interessam, a antropologia cultural, a ciência política, a teoria literária e a psicanálise. Em outras palavras: estou sempre com os olhos voltados para o todo e por isso mesmo, os detalhes muitas vezes escapam ao alcance de meu discernimento, o que é deveras negativo e prejudicial ao conjunto de minhas concepções epistemológicas. E isto não por eventuais e aparentemente intransponíveis dificuldades inerentes a absorção ou assimilação do arcabouço teórico e prático destas disciplinas – o que seria, sobretudo, um empecilho de natureza fundamentalmente intelectual, relativamente passível de um equacionamento satisfatório, embora de proporções hercúleas e quase desesperadoras - mas por pura e simples preguiça. Foi isto mesmo que eu disse, pasmo e perplexo leitor: preguiça. Esta é uma idiossincracia inelutável de minha psique. A espada de Dâmocles perpetuamente pendente sobre minha cabeça. Meu calcanhar de Aquiles. E ao mesmo tempo, meu anel de Polícrates e meu fio de Ariadne. Digo-o porque o que vejo com cada vez maior e mais apavorante frequência no mundo contemporâneo, é uma atitude generalizada e infundada da parte da grande massa contra a indolência – entendida na acepção de ócio puro e simples. Se fosse possível fazê-lo, penso que eu poderia perfeitamente me esforçar por reabilitar a preguiça aos olhos da sociedade moderna e conferir a ela o valor que lhe tem sido constantemente negado ao longo da história. Mas isso daria muito trabalho e eu agora estou com uma preguiça imensa de defender o quer que seja, neste momento. Nem mesmo a própria preguiça.
Como bem pode ter percebido o leitor atento e minuncioso deste singelo texto, não sigo nenhuma regra ou cânone preestabelecido na hora de formular minhas idéias ou teorias – se for lícito o uso deste termo para qualificar o que verdadeiramente não passa de meros devaneios assaz atribulados e descoordenados, nascidos no calor do momento e lançados ao léu, sem maiores preocupações com relação a sua hipotética e, como tal, sempre fluida e fugidia legitimidade ou quiçá relativa exequibilidade no plano árido e insosso da vida prática. Escrevo ao correr da pena, sem planos ou métodos e, acima de tudo, por prazer, nunca por obrigação. Nada mais sou do que um diletante ou um beletrista na mais perfeita definição olaviana. 
Machado de Assis uma vez satirizou a falta de silêncio dos maus poetas. Se isto era verdade num tempo em que o padrão do gosto - quero eu alimentar esta doce e benigna ilusão - era infinitamente mais elevado e acentuado do que hoje, o que dizer então atual panorama, em que uma monótona avalanche gramaticida  de obras vulgares e medianas passa pelo crivo da crítica e do público como verdadeiros pináculos de inspiração e talento inigualáveis, enquanto que as obras-primas realmente dignas de tal epíteto, permanecem encerradas no interior frio e escuro de gavetas que estão condenadas a jamais se abrirem, pelo menos em vida de seus autores? Como no antológico conto de Wells, estamos fadados a viver para sempre numa terra de cegos, em que só uma ínfima minoria continua capaz de enxergar? Em verdade, ó ingênuos e aflitos filhos deste século, em verdade, vos digo: o que prevalece hoje no panorama geral não só da cultura brasileira como também da de outros países que antigamente detinham o primeiro lugar no pódio das vanguardas, é a mais triste, abjeta e grotesca mediocridade. O turbilhão frenético e voraz de novos lançamentos do mercado editorial que abarrotam e intoxicam as modernas livrarias que timbram por despir os livros de sua sacralidade primordial para transformá-los em meros objetos de consumo e entretenimento, submetendo-os à coisificação mercadológica, guiadas pela tirania do lucro ao invés da meritocracia do talento e da sabedoria, parecem cada vez mais acelerada e explicitamente, tornar a literatura um mero passatempo para ociosas conversas de salão ou metamorfosear seus frutos em um simples símbolo de status, tais como um novo carro ou um novo celular. Para ilustrar o que digo, com apenas um breve e salutar exemplo, permita-me, caro e hipotético leitor, contar uma pequena anedota: outrora trabalhei numa livraria onde as regras vigentes são justamente as que mecionei nos páragrafos anteriores, o lucro, a reificação da arte e também, em maior escala, a desumanização alienante das pessoas que lá trabalham, em troca de um módico salário, meramente simbólico. Não digo o nome da empresa porque não tenciono fazer publicidade gratuita, ainda que negativa. Uma cliente aproximou-se de meu posto com um livro cujo lançamento gerou grande repercussão na mídia e naqueles dias de ingrata memória, encontrava-se na lista dos mais vendidos de uma revista de ampla circulação nacional. Antes de perguntar-me qualquer outra coisa relativa ao livro, como o enredo, o estilo, ou suas qualidades intrínsecas, ela preferiu indagar-me apenas se ele estava sendo um sucesso de vendas. Nada mais do que isso. Para ela, não interessava saber se o livro era bom ou ruim ou apenas mediano. Ela não tinha a mínima intenção de me ouvir discorrer sobre seu real valor literário. Só o que ela desejava saber era se ele estava sendo verdadeiramente um sucesso junto ao público, pouco importando seu valor como obra de arte em si mesma, independentemente de sua receptividade junto à massa. Para ela, indubitavelmente, aquele livro não passava de uma mercadoria fugaz, criada apenas para seu prazer imediato e de valor meramente superficial computado em algumas poucas dezenas de reais e não um tesouro inestimável, de validade eterna e inigualável, como são livros da estatura dos escritos por Dostoiévski e Proust ou até mesmo Kawabata e Thomas Mann. Amo os livros, leves e frágeis arcas onde jaz o maior e mais inestimável de todos os tesouros. Quem jamais transpôs o limiar de uma biblioteca, deixou para trás o turbilhonar frenético e desconexo da cidade turbulenta e mergulhou corajosamente no oceano límpido e eterno da leitura, não tem simplesmente a menor noção do que verdadeiramente significa uma vida mais plena e repleta de novas e múltiplas perspectivas que nos proporciona o ato de ler, perspectivas estas que transcedem o puro e inócuo materialismo sem alma do cotidiano e elevam o espírito humano a dimensões vertiginosas e indefiníveis, etéreas moradas de anjos e deuses, luxuriantes berços de demônios mefíticos e sombras errantes.
Caçar Moby Dick em companhia de Ismael e sob o vulto onipresente e monomaníaco de Acab; explorar Liliput e Brobdingnagg ao lado de Gulliver e compartilhar sua aversão incontrolável pelos yahoos; deplorar junto de Michael o brutal e infame suplício imposto a Rael, pela Inquisição; perder-se na vastidão inexplorada do Alasca conjuntamente com os promyshleniki a bordo do Shitik capitaneado por Luka Ivanovitchgalopar o cavalo amarelo e magro de d'Artagnam, peregrinar com Kelderek por Zeray em busca de Shardik e palmilhar o solo prosaico porém sagrado do País das Neves sob o olhar tranqüilo e algo triste de Kawabata; quem não o fez, sinto dizer que não viveu. Vegetou. Pode protestar e dizer o contrário - a liberdade de expressão é um direito inviolável de qualquer cidadão numa sociedade minimamente democrática, embora hoje esteja sendo cada vez mais questionada e vilipendiada pelos atuais detentores do poder e seus inflexíveis asseclas. No entanto, é a mais pura verdade.
Ler é travar, heroica e valentemente, uma batalha solitária e inextinguível contra o fluxo voraz do tempo e o vazio perene do sono.
Estou plenamente consciente da escassez crescente de tempo e disposição para a leitura que - causa-me grande tristeza constatá-lo - tornou-se um traço predominante da geração atual, notoriamente mais interessada em blockbusters e jogos eletrônicos, do que na absorção serena e gratificante dos sábios ensinamentos oriundos dos clássicos. Porém, uma renitente senão crônica esperança de dias melhores, impede-me de desistir por completo de cerrar fila junto aos heróicos guerreiros da cultura, que, meio quixotescamente, insistem em travar o bom combate pela sobrevivência da palavra na era da imagem.
Ainda há espaço para os livros na sociedade moderna? Há lugar para o teatro num universo dominado pela linguagem chula e rala das patetadas televisivas e pela velocidade estonteante e hipnótica das produções hollywoodianas? Obras de arte autênticas e dignas de permanecer importantes aos olhos da posteridade, podem, de fato, competir em pé de igualdade com os modismos nauseantes e vulgares que campeiam, desabalados, por galerias sedentas de lucros e que hirsutos intelectualóides esquerdopatas vagamente classificam como "conceituais"?
Talvez o leitor superficial pense que não me cabe expressar qualquer opinião a respeito de assuntos que oficialmente estão fora de minha alçada, tendo em vista a total ausência de qualificações técnicas que me credenciem a fazê-lo.
Superficial Leitor, o senhor - confesso-o de bom grado e curvo-me humildemente ante sua impressionante sagacidade - tem razão, em parte. De fato, não tenho formação acadêmica e considero-me, sem falsa modéstia - note bem a imperdoável falta de limites de minha egomania - um autêntico autodidata, no melhor estilo de Machado de Assis e Herbert Spencer. Para mim, a cultura é uma entidade viva, sagrada e dinâmica, que não se restringe ao espaço compacto de uma sala de aula onde predominam o tédio e a torturante ansiedade pelo fim da verborragia insípida de um mestre indiferente, ou o que é ainda pior, de um doutrinador político canhestro e rancoroso, e tampouco, se limita a uma simples resma de papel repleta de erros ortográficos e clichês estupefaciantes, como os que compõem os atuais livros didáticos do Ministério da (Des)Educação. (Nem falo aqui dos vídeos de alto e inquestionável valor pedagógico que nosso onisciente e sempre eficientíssimo ministro mandou exibir nas escolas públicas a pretexto de combater a homofobia, para não incorrer na pecha de impiedoso para com Sua Excelência. Deixemos que nossos ilustres representantes no parlamento lhe façam as devidas cobranças, é para isso que os pagamos, não é mesmo?) Por amor e por um imperativo moral da mais alta importância, é que escrevo sobre minha intensa e visceral relação com a arte, e não temo expressar, em alto e bom som, a minha total revolta com o estado avançado de decrepitude e apatia em que ela se encontra hoje, sendo considerada mero objeto de comercialização e diletantismo. Somos de tal forma dominados e manipulados pela mídia global e pelos interesses econômicos das grandes corporações nativas e multinacionais, que já não decidimos por nossa livre e espontânea vontade, o que vamos ler, ouvir ou assistir no cinema e na televisão. Guiamo-nos pelo que a intelectualidade oficial, deveras escravizada e submissa a esses mesmos interesses, nos prega e não mais damos ouvido a nossa própria voz interior. Onde estão os intelectuais de antanho que ousavam levantar sua voz e sua obra contra o "Sistema" quando a opressão, a ossificação de estruturas de poder e de organização social, arcaicas e obsoletas e o marasmo, o comodismo conceitual, eram os valores predominantes da sociedade como um todo - como de fato voltaram a ser nos dias presentes? Estão nas universidades públicas (controladas pelo Estado), nos partidos políticos (que almejam o controle do Estado), nas organizações não-governamentais (que, apesar de sua tão propalada independência em relação ao Estado, nos últimos anos têm recebido cada vez mais generosas e substanciais verbas oriundas do Estado para o exercício de suas atividades, com base em critérios partidários e não técnicos e sem um mínimo de fiscalização (ou com uma fiscalização desleixada e leniente) da parte dos órgãos públicos, nas passeatas do movimento (pseudo)estudantil e nos piquetes grevistas, gritando palavras de ordem tão ou até mais gastas do que a sola dos meus sapatos, demonizando o Capital e romanticamente glorificando o Trabalho, esquecendo-se de que ambas as esferas de ação humana que estes dois termos representam não são necessariamente díspares e inconciliáveis, mas pelo contrário, as duas faces de uma mesma moeda - os reversos da mesma medalha. Como um ornitorrinco - esta  singular peça pregada pela natureza num momento de excepcional e triunfante sarcasmo - que tem pêlos como um mamífero e bota ovos como um pássaro. Os intelectuais de passeata surgidos nos chamados anos de chumbo, e que agora auferem voluptuosamente as benesses do Estado e vituperam o satânico e fantasmagórico bicho-papão neoliberal, hoje são justamente os maiores beneficiários e defensores do pensamento hegemônico (no melhor estilo gramsciano do termo) em vigor nas sórdidas e tristes paragens latino-americanas. Os intelectuais de outrora eram verdadeiros paladinos da democracia e da liberdade humana. Hoje, defendem abertamente o aviltamento da democracia e sua transformação em instrumento de manipulação das massas e construção de regimes ditatoriais ditos populares e revolucionários, oficialmente exercidos com base em nobres e edificantes ideais salvíficos, supostamente em prol dos pobres e dos famintos, suprimindo a consciência do valor sagrado dos direitos humanos como um fardo inútil e extremamente incômodo. Não é preciso perder tempo com reflexões desnecessárias. É mais fácil gritar chavões (qualquer semelhança desta palavra com o nome de um aclamado e rocambolesco caudilho latino-americano e teórico da extição da vida em Marte, de grande destaque na mídia de esquerda não é mera coincidência) e slogans de forte impacto junto ao populacho - que é sempre um alvo fácil de qualquer manipulador minimamente isento de qualquer preceito moral mais elevado e pronto a usá-lo para seus próprios propósitos - do que examinar de forma atenta e minunciosa, com o uso da razão (algo que se encontra numa brutal escassez até mesmo nas mais avançadas e ditas progressistas confrarias de filosofastros de plantão) a verdadeira essência do mundo e dos acontecimentos ao seu redor, procurando enxergar além do que sua cegueira ideológica permite. Os velhos mitos morreram ("há controvérsias") e estão sepultados sob bandeiras velhas e esfarrapadas, há muito ultrapassadas e vilipendiadas pelo frenético e tumultuoso turbilhão da História, cuja voracidade não poupa nem os operários que, com seu sangue e suor, ergueram os zigurates babilônicos, nem os próprios reis que comandaram sua construção e hoje estão reduzidos a pó dentro de seus túmulos, volta e meia devassados por sequiosos e irreverentes arqueológos que por sua vez, um dia também serão tragados pela foice inexorável do tempo que a tudo transforma e consome, sem piedade. O império chinês durou milhares de anos e talvez a criminocracia maoísta dure ainda outros milhares mas ela também um dia conhecerá o colapso. Roma caiu nas mãos dos bárbaros e o catolicismo triunfou sobre seus escombros calcinados. O que existirá no lugar do catolicismo, quando ele se extinguir? Quem pode dizer se o colosso estadunidense durará tanto quanto ou até mais do que o gigante romano? Nossos orgulhosos e imponentes arranha-céus resistirão ao desmoronamento das pirâmides egípcias? Nossos ossos permanecerão enterrados no mesmo lugar, daqui a mil anos? Comunistas, liberais, marxistas, socialistas, bonapartistas, pacifistas, chavistas, lulistas, obamistas, feministas, higienistas, espiritistas, racistas, santistas, flamenguistas, coristas, puristas, carreiristas, punguistas, etc., etc., não se enganem e não se esfalfem à toa, com disputas inúteis e insignificantes... seu (e meu) destino comum é o túmulo e quando chegar a hora extrema, de nada valerão suas escaramuças que aos olhos dos deuses (eles também fruto da insensatez humana, embora o mais belo e valioso) não passam de brigas de galos na grande rinha universal, apenas um pouco mais confusas e barulhentas.
Partamos agora, dizendo como nos versos de Schiller:


Adeus, belos prados!
Campos ensolarados!
O pastor deve partir
O verão vai embora.
Vamos voltar para a montanha, e só voltaremos
Quando voltarem as canções.
Quando a terra se enfeitar de novo com flores,
Quando escorrerem fontes no agradável verão.
Adeus belos prados.
O pastor deve partir.
O verão acabou.