Páginas

12 de janeiro de 2016

A Deusa Matéria (Ou: O Marxismo Como Religião)



"Monumento às Vítimas do Comunismo" - Praga, República Tcheca, detalhe.
A ideia comunista nasceu de um impulso generoso: aliviar a miséria e o sofrimento dos que nada possuem, frente àqueles que os exploram. Ora, ninguém, que tenha um mínimo de sensibilidade e compaixão para com o próximo, ousará negar que esta é uma bela ideia, uma ideia apaixonante, uma ideia, pela qual, a priori, valeria a pena matar e morrer em batalha. O próprio cristianismo, em seus primórdios, a abraçou. Mas, como toda ideia que nasce generosa e sublime, ela tem, também, um lado perverso. O reverso da medalha consiste no erro fundamental do comunismo, erro que é a principal causa pela qual, ele nunca deu e jamais dará certo em parte alguma do mundo: ele ignora completamente a existência de algo denominado “natureza humana”. Ele é um sistema anti-humano, “par excellence”. Não apenas desumano, mas anti-humano. É-o na medida em que tenta fazer do homem aquilo que o homem não é. Despe-o de tudo que o torna efetivamente “humano”. Tenta abolir da esfera da vida humana tudo o que a humanidade erigiu como símbolo e razão de ser de sua própria vida na Terra: família, pátria, religião, cultura, e, sim, mas não somente, a propriedade. Mas, acima de tudo, ele almeja retirar do homem, o mais valioso e fundamental alicerce de sua “humanidade”: a liberdade.
O comunismo, como ideia, tem uma longa história. Suas origens remontam, não apenas a Platão, mas ainda mais longe, a Pitágoras e aos atomistas. Mas o comunismo moderno - marxista – é fruto direto de duas outras ideias ou correntes de ideias principais: o niilismo, que assolou o ambiente intelectual europeu após as guerras napoleônicas, e o darwinismo, ou melhor, a aplicação das ideias de Darwin, via Herbert Spencer, nos campos da sociologia e da economia política. A primeira corrente aboliu Deus dos assuntos humanos. A segunda aboliu a primazia do homem sobre a natureza. Há, ainda, outra influência, mais direta, sobre o marxismo: o hegelianismo, principal fonte da qual beberam Marx e Engels e da qual o primeiro extraiu o conceito de “dialética”, invertendo completamente seu sentido original, proposto por Hegel.
Com a “morte de Deus”, urgia edificar uma nova religião, e criar um novo deus para guiá-la. Marx o fez: no trono deixado vago por Deus, ele entronizou a Matéria. A Matéria passou a ser o centro do universo, na escatologia marxista. Os defensores do marxismo chamam-no, como o próprio Marx o chamava, “científico”. Mas, na verdade, o marxismo é uma religião. Uma religião, na qual, a salvação virá através da abolição das classes. Mas a abolição das classes nunca ocorreu, nem mesmo na União Soviética. Mesmo assim, os fiéis do marxismo continuam a acreditar cegamente na palavra de seus profetas e permanecem inabaláveis em sua crença, fanaticamente. Acreditar no marxismo é um exercício de fé. Como em qualquer outra igreja. 
E como qualquer outra igreja, o marxismo também teve e tem seus autos-de-fé e suas inquisições. E também seus holocaustos. A Matéria é uma deusa tirânica e sanguinária. Sua sede é inestancável. Cem milhões de mortos ainda não bastam para saciá-la. Ele quer mais. Muito mais.