Eu te amei algumas vezes,
não todas,
somente aquelas em que o amor
esteve presente
e você se deixou amar.
Houve dias em que o teu nome
não significava nada
além de uma palavra
que o vento pronunciava
sem saber por quê.
E houve outros
em que bastava a sombra
do teu corpo na parede
para que eu compreendesse
a tristeza inteira
de existir sozinho.
Eu te amei algumas vezes,
como se acendesse
todas as luzes de uma casa
já sabendo que iria partir
antes do amanhecer.
Amei teu rosto
quando ainda não o conhecia,
teus olhos
quando já não me viam,
e a distância entre nós
quando ela se tornou
a única coisa
que ainda nos pertencia
e hoje, só a mim cabe suportar.
Amei a pequena queimadura em seu braço
cuja história você nunca me contou
e o gato de que eu nunca soube o nome.
Te amei quando te vi dançar
entre luzes e névoas
e vi, em você, um ser de terra e fogo, consumindo todos os olhares vãos
dos que te desejavam,
entre cigarros e cervejas.
Talvez eu nunca tenha te amado
de uma só vez,
mas amei o modo como você cruzava
as pernas sobre a cadeira
e amei, para meu pesar,
o seu jeito próprio de desviar a cabeça quando me via,
fingindo limpar as unhas.
Talvez o amor seja
uma criatura intermitente
que regressa,
de tempos em tempos,
para encontrar no mesmo peito
os restos daquilo
que um dia destruiu.
Eu te amei algumas vezes.
E cada vez
foi uma mulher diferente
que amei.
E sempre a única.
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