Anaïs Nin


Final de um domingo chuvoso nas cercanias de Curitiba. Passei o dia na excelente e sempre gratificante companhia de minha amada musa Anaïs Nin.
Minha paixão por suas obras, visível no estado já bastante gasto (resultado de inúmeras leituras através dos anos) de meu exemplar de "Fome de Amor", o primeiro volume de sua série contínua "Cidades Interiores", também conhecida como "Erótica", em que Nin disseca a figura de Lillian e suas contradições interpessoais não através de uma narrativa linear tradicional, mas por meio de uma orquestração de imagens poéticas, associações livres e uma carga psicológica densa, onde o amor e o desejo surgem como uma tentativa desesperada de integração de um self fragmentado, não reside apenas em seu tratamento literário do erotismo, mas na maneira como ela transforma o desejo, a introspecção e a transgressão em formas de experiência estética. Senti-me sempre profundamente atraído pelo território íntimo de sua escrita, no qual a sexualidade se torna indissociável da imaginação, da psicologia, da memória e da exploração do próprio eu. Seus diários, em particular, fascinam-me, porque diluem as fronteiras entre experiência vivida e criação literária, transformando o eu privado simultaneamente em objeto e obra de arte, transcendendo as fronteiras de gênero para alcançar a universalidade humana, embora profundamente enraizada na experiência singular de sua feminilidade.
Em Nin, encontro um erotismo menos interessado na explicitude (o que seria, de resto, mera pornografia), do que na atmosfera, na sugestão, na interdição, na vulnerabilidade e no lento desvelamento do desejo, sendo, muitas vezes, a carga erótica daquilo que está prestes a ser revelado mais poderosa do que a própria revelação. Sua obra corresponde à minha convicção pessoal de que a literatura erótica pode ser intelectualmente sofisticada, esteticamente transgressora e psicologicamente profunda, ao mesmo tempo, sem descer à vulgaridade pura e simples: uma literatura, enfim, na qual o desejo não é simplesmente representado, mas se converte em um meio de penetrar e desvelar as regiões mais profundas e ambíguas da consciência humana.


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