A Andrômeda do Bosque


Ao final de cada flânerie diária, no caminho de volta para casa, sempre que me deparo com este pinheiro-anão-das-montanhas no bosque próximo à minha residência, tenho a forte impressão de que ele se transforma, diante dos meus olhos, em uma mulher de cabeça baixa, carregando a própria copa sobre seus muitos braços. A Hedera helix que o recobre ganha, então, o aspecto de cabelos longos que lhe ocultam o rosto e de um vestido vegetal que escorre pelo corpo retorcido até o chão. É fascinante observar como a trepadeira se moldou ao redor da estrutura tortuosa do tronco, de tal maneira que o pinheiro e a hera deixam de parecer organismos distintos e passam a compor uma única figura, uma espécie de escultura viva cuja forma parece saída de algum mito arcaico.
A massa foliar, verde e densa, cai de maneira fluida justamente na bifurcação dos galhos principais, como o caimento natural de cabelos que cobrem inteiramente uma face e se prolongam nas dobras de um vestido drapeado. A inclinação acentuada do tronco constantemente me transmite a sensação de uma figura humana curvada para a frente, em um gesto simultâneo de esforço, reverência e recolhimento, enquanto a curva da madeira evoca uma espinha dorsal vergada sob um peso invisível. Ao mesmo tempo, a ramificação superior do pinheiro se espalha em múltiplos arcos que emergem acima dessa cabeça inclinada, como braços desmesurados sustentando e elevando sobre si toda a massa da copa.
Mas, especialmente quando a encontro sob a luz oblíqua e indecisa do crepúsculo, a árvore me parece assumir algo de mais sombrio e mitológico: vejo nela uma espécie de Andrômeda vegetal, oferecida em sacrifício a algum Kraken da floresta. A hera, que à primeira vista poderia ser apenas seus cabelos e seu vestido, passa a sugerir também as próprias amarras que aprisionam a vítima. Ela não parece simplesmente coberta pela vegetação; parece enredada nela, como se tivesse sido lentamente absorvida pela árvore até se tornar parte de sua própria matéria.
O monstro, entretanto, não está à vista. E é precisamente sua ausência que torna a imagem mais inquietante. Não vemos o Kraken; vemos apenas sua vítima, inclinada e silenciosa, aguardando alguma coisa que se aproxima das profundezas da floresta, mas sabemos que ele está lá, e nenhum Perseu errante virá salvar a Andrômeda do bosque. Seus muitos braços vegetais parecem sustentar não apenas a copa, mas o peso de um destino inevitável. O que a ameaça permanece oculto entre as raízes, sob a terra escura, ou dissolvido na própria massa indistinta da mata.
Creio que a principal razão por que eu sempre diminuo o passo ao passar por este pinheiro é que certas árvores, como certos animais e até certas pessoas, pertencem inteiramente ao mundo das coisas que vemos, acessíveis apenas materialmente; esta árvore, porém, parece guardar uma segunda existência, acessível apenas durante alguns instantes, quando a luz, o cansaço e a imaginação coincidem. Então permaneço algum tempo em silêncio diante dela, porque reconheço nela uma presença, sem saber exatamente qual ela seja. Depois sigo meu caminho, levando comigo a estranha sensação de que, em algum ponto entre a realidade e o sonho, deixei para trás alguém que ainda estava ali quando parti.


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