Há uma flor de tinta escura
gravada na orla macia do teu calor.
A agulha abriu caminho
entre o tremor
e a carne viva,
desenhando uma coroa
de pétalas imóveis
no ponto exato
em que a geometria do teu corpo
começa a afundar
no mistério.
Passo a boca devagar,
pela haste desenhada
que desce, rasgando,
tua pele trigueira.
Sinto o sal do teu suor,
a febre,
o sopro breve,
que emanam dessa raiz que não seca,
essa flor de carbono,
fincada na dobra mais íntima,
na penumbra precisa,
onde a sede do zangão procura
o pólen mais denso.
É um enigma
impresso sob a epiderme,
uma marca de fogo
e silêncio,
que pulsa
a cada respiração tua,
subindo,
descendo,
como uma maré
de desejo incontido.
Quando meus dedos
se aproximam daquela margem,
já não sei
se me perco
na linha do desenho
ou no perfume líquido
que brota
do vale úmido entre tuas coxas,
que essa flor vigia.
A curva do teu quadril
se oferece ao meu encontro,
e cada pétala gravada em preto
parece sangrar
uma beleza devoradora,
um mapa profano
que me chama
para as profundeza de teu corpo,
para o contorno
onde o limite da seda da calcinha cede
e a temperatura da tua pele
se dobra sobre si mesma.
Aproximo os dentes
do contorno gravado.
Persigo a linha de estame
e espinho,
enquanto a umidade oculta
transborda
além da margem marcada,
transformando a tinta
num altar
que estremece
sob o peso
do meu hálito.
A pele tingida
cede ao toque,
e o desenho
parece dissolver-se
na fome
que percorre teu corpo.
A flor de agulha
abre-se inteira,
entre o relevo do pigmento
e o rumor
dos teus lábios entreabertos,
fazendo, desse pequeno sinal,
uma porta voltada
para o indizível.
Minhas mãos
ancoram teu quadril
no limite da cama.
Tua pele irradia
o calor molhado
de uma flor
prestes a perder
as primeiras pétalas.
Meu rosto afunda
no delta entre tuas coxas,
onde a gravidade
desaprende seu ofício
e o perfume da tua carne
atrai tudo
para um centro invisível
e aprende a falar
a linguagem dos incêndios.
Tuas pernas se entreabrem
num tremor ritmado,
o corpo inteiro desenhando
uma dança cega,
uma maré de sons e tremores
que avança e recua
sem jamais refluir.
Tuas mãos me puxam
e prendem minha cabeça
abaixo de teu umbigo,
para não deixar
que o instante escape,
antes do grito,
enquanto minha língua
silenciosamente desbrava os mistérios
da tua carne mais profunda.
Então o silêncio se rompe.
O corpo inteiro
se arqueia e treme,
como uma corda
tensionada ao extremo.
Uma onda
nasce no centro,
cresce,
espalha-se
pela pele,
pelos ossos,
pela respiração,
até que toda resistência
se dissolve
num único estremecimento.
A sinfonia visceral do teu orgasmo
rasga a penumbra
como um tanque rompe
uma antiga fronteira.
Depois, apenas o abandono,
o peso doce
do cansaço.
A flor permanece,
escura,
gravada,
imóvel,
enquanto tudo o mais
continua pulsando,
muito depois
de o desejo
ter perdido
o próprio nome.
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