Desnudamento


Ela se despe com vagar e exatidão,
porque reconhece o poder da demora.

Cada gesto prolonga o instante,
cada pausa alimenta um desejo silencioso.

Ensaiando passos suaves de dança,
deixa que o corpo dialogue 
com a penumbra.

A luz percorre-lhe a pele
com dedos feitos de ouro.

Cada peça tirada é a revelação de um segredo
e um convite à fruição de um mistério.

Não há pressa em desvendar-se;
há prazer em permanecer, 
por um momento mais,
entre o oculto e o revelado.

Os olhos que a contemplam
aprendem que a beleza 
não se entrega de súbito.

Ela seduz pela distância,
pela promessa contida 
em cada movimento,
pela lentidão grave
com que transforma o ar 
em expectativa.

Quando o último véu, enfim, desaparece, 
a demora torna-se urgência, 
surgem o triunfo e o escândalo,
a voraz vertigem de uma presença ardente.

Meu corpo encontra o seu
com a reverência sagrada 
de um aprendiz de versos 
que recita um poema 
há muito decorado 
e a fome inestancável 
de um devorador de amores.

E, por um instante sem nome,
já não existem duas respirações,
mas um único ritmo, 
um único corpo, 
unido pelos quadris e bocas,
uma única febre,
na qual o desejo e a ternura
aprendem a falar a mesma língua.

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