A noite escorre em torrentes de âmbar
sobre os lençóis,
como se algum anjo exilado
tivesse derramado conhaque
nas páginas gastas da salvação.
Há um evangelho fechado
ao lado do cinzeiro,
e, entre ambos,
a antiga disputa dos séculos:
a chama que sobe,
a carne que sonha.
Você repousa na indolência litúrgica
das madrugadas sem remissão,
vestida de marfim líquido,
de seda cansada,
de silêncio angelical.
Os fones sobre os ouvidos
parecem transmitir
uma estação distante,
um jazz espectral,
um ruído elétrico,
orações esquecidas
num quarto de hotel
onde Deus
já não paga a conta.
Algo em sua beleza
possui a gravidade blasé
dos pecados elegantes,
dos poemas escritos
às três da manhã
por homens tuberculosos
que amavam
excessivamente
as flores,
o absinto
e a própria ruína.
A fumaça sobe.
Você não a observa.
Está além dela.
Como uma santa cansada da santidade,
como uma mártir
que trocou o êxtase celeste
pela música baixa
de um toca-discos invisível.
E eu penso
que o desejo, o meu desejo,
raramente nasce da nudez,
mas dessas contradições luminosas:
o livro sagrado e a cinza,
a pureza do cetim,
a sombra sob a clavícula,
a inocência encenada com a precisão
de um ritual antigo
e sagradamente profano.
Lá fora, a cidade continua produzindo
seus motores,
suas guerras,
seus pregadores.
Aqui dentro,
o mundo reduz-se ao brilho morno
sobre sua pele,
à lentidão voluptuosa do tempo
que hesita em passar
e à essa agridoce sensação
de que toda decadência verdadeira
é apenas uma forma mais sincera de oração.
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