A fumaça densa dos cigarros misturava-se ao vapor de suor dos corpos na pista, criando uma névoa que diluía os contornos das paredes descascadas do casarão. No centro do salão, o som dos alto-falantes operava em uma frequência grave, contínua, que parecia fazer vibrar o assoalho de madeira sob os pés. Era a última hora da última festa. O tipo de celebração que já nasce com o peso do próprio fim.
Eles estavam estáticos perto da janela de guilhotina, imunes ao ritmo frenético dos poucos sobreviventes da noite. A luz da rua, um tom de sódio filtrado pelas cortinas encardidas, cortava o rosto dela em duas metades: uma nítida e fria; a outra, entregue à penumbra.
— A gente sabe que é agora — ela disse, a voz baixa, quase engolida pelo eco dos graves.
Ele não respondeu de imediato. Olhou para o copo de plástico quase vazio em sua mão, onde o gelo já havia derretido por completo, restando apenas um líquido morno e turvo. Havia semanas que vinham ensaiando aquela distância, uma coreografia mútua de silêncios e desvios, mas a atmosfera saturada daquela sala impunha uma urgência inevitável. O amanhã traria trens diferentes, portões de embarque distintos e a irremediável liquidez dos dias comuns.
— Não precisa de solenidade — ele murmurou, dando um passo à frente.
Ela sorriu, um espasmo breve e melancólico nos lábios, e inclinou a cabeça.
O toque inicial teve a textura de um papel antigo: seco, denso, consciente de sua própria fragilidade. Não houve nele a euforia dos primeiros meses, nem a urgência dramática das reconciliações. Foi um ato de puro registro. Os lábios se encontraram com a precisão de um peregrino que reconhece um território familiar pela última vez, sabendo que, a partir do próximo minuto, a entrada ali estaria permanentemente vetada.
O beijo moveu-se devagar, em um compasso próprio, alheio aos gritos e risadas ecoando no canto do bar. Havia o gosto amargo do tabaco e a doçura artificial do xarope de alguma bebida barata, uma combinação que o tempo e a memória inevitavelmente transformariam em nostalgia. Cada pressão, cada leve hesitação da língua, funcionava como o fechamento de uma gaveta pesada de carvalho. Um pacto silencioso de que nenhuma promessa seria feita para aliviar o peso da partida.
Quando se afastaram, o espaço de poucos centímetros entre os dois pareceu subitamente intransponível. A música parou abruptamente, substituída pelo zumbido estático dos amplificadores desligados e pelas luzes brancas do teto que se acenderam sem aviso, revelando a crueza do chão sujo de confetes e copos pisados.
Ela ajeitou a gola do casaco, deu as costas e caminhou em direção à saída, misturando-se aos poucos remanescentes que ganhavam a rua cinzenta da madrugada.
Ele permaneceu junto à janela por mais alguns instantes, sentindo o ar frio da manhã entrar pelas frestas, guardando o gosto de cinza e absoluto que ainda restava em seus lábios.
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