O motor do automóvel parecia o único elemento vivo naquele quadrante de Avelânia, a grande autopista imperial 312, uma fita asfáltica larga e interminável, que rasgava os contrafortes rochosos da Cordilheira Nestoriana, subindo em direção à província de Valquíria e deixando para trás os vales úmidos de Sabrina. Àquela hora da noite, o silêncio da altitude era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido constante dos pneus contra o pavimento perfeito.
No banco do motorista, Darion mantinha as mãos firmes no volante de osso e couro, os olhos fixos nos feixes dos faróis de acetileno que mal conseguiam vencer a imensidão da pista deserta. Ao seu lado, Mirela observava a escuridão abissal pela janela. Ambos eram funcionários da Secretaria de Registro Civil de Sabrina, pessoas habituadas a inventários, a censos demográficos e à solidez dos papéis timbrados. Não eram dados a fantasias.
— Olhe, Darion! Na crista da montanha! — disse Mirela, a voz baixa, quase temendo quebrar o isolamento do lugar.
Darion inclinou a cabeça. Acima dos picos denteados da cordilheira, onde apenas as estrelas deveriam reinar, uma luz de tonalidade violeta e densidade incomum flutuava. Não piscava como os astros, nem caía como os meteoros que costumavam cortar o céu daquela região. Era um ponto firme, magnético, que parecia deslizar de forma síncrona com o movimento do veículo pela autopista.
— Deve ser um reflexo nos cristais de gelo da encosta — murmurou Darion, apegando-se à lógica fria dos topógrafos. Ele hesitou por um segundo antes de continuar, baixando o tom de voz. — Ou talvez... você lembra dos boatos que circulam nas secretarias de fronteira? Dizem que o exército está conduzindo testes de voo secretos com protótipos de alta altitude numa base militar no coração da Floresta de Valquíria. Alguma tecnologia experimental que trouxeram do norte. Dizem que da Ilha Branca.
Mirela balançou a cabeça, cética. No entanto, a luz mudou de comportamento antes que ela pudesse responder. O objeto desceu a encosta com uma velocidade que desafiava a gravidade e qualquer engenharia conhecida, posicionando-se algumas dezenas de metros acima da pista, logo à frente deles. O motor do carro tossiu. Os faróis vacilaram, diminuindo até se tornarem brasas opacas. Darion pisou no freio, e o veículo deslizou suavemente, até parar no amplo acostamento da autopista. Nenhum protótipo militar humano agiria daquela forma.
O que viram não era uma máquina com engrenagens, fumaça ou rebites, mas uma lente perfeita de metal fosco, que parecia absorver a própria noite. Através de uma fenda longitudinal, figuras esguias, desprovidas de pelos ou expressões discerníveis, observavam o casal. Tinham cabeças volumosas e olhos que lembravam poços de piche polido.
Uma vibração aguda, semelhante ao zumbido de mil vespas de ferro, ecoou no interior do crânio de Darion. Ele tentou alcançar seu revólver no porta-luvas, mas seus dedos recusaram o comando. A rigidez não era de medo; era como se o seu sistema nervoso tivesse sido desconectado por uma vontade externa. A última imagem gravada em suas pupilas foi a de Mirela, estática, com os olhos abertos e vazios, enquanto a penumbra violeta invadia o habitáculo do veículo.
Um estalo metálico. O som do motor funcionando novamente.
Darion piscou, assustado. Suas mãos ainda seguravam o volante. O painel estava iluminado e os faróis cortavam a autopista deserta. À sua direita, Mirela respirava arfante, as mãos cravadas no tecido do vestido.
— O que... o que aconteceu? — ela perguntou, olhando ao redor.
A autopista à frente estava vazia, estendendo-se em direção ao horizonte negro. A luz geométrica havia desaparecido. Darion olhou para o relógio de bolso preso ao painel: os ponteiros marcavam quase quatro horas da manhã. Pelo cálculo de marcha e pela distância percorrida na rodovia, deveriam ser pouco passadas duas horas. Havia um vácuo de tempo na memória de ambos, um abismo de duas horas onde nada existia além do som daquele zumbido de vespas.
Nos meses que se seguiram, a rotina em Sabrina tornou-se insuportável. Darion passou a sofrer de tremores nas mãos, e Mirela acordava aos gritos, desenhando linhas obsessivas nas margens das folhas de inventário da Secretaria. Sentiam-se violados na carne e na mente, mas não possuíam as palavras para explicar o porquê. Aquela vaga hipótese sobre os testes de voo na Floresta de Valquíria agora parecia uma tentativa ingênua e desesperada de confortar a si mesmos antes do abismo.
Desesperados por ordem no caos que se instalara em suas vidas, procuraram o Dr. Aris, um psiquiatra e parapsicólogo inortodoxo, que estudava os mistérios do magnetismo e da mente humana nas periferias de Valquíria. No gabinete sombrio do médico, sob o efeito de um transe induzido por pêndulos e ópio suave, as barreiras da amnésia ruíram.
As vozes de Darion e Mirela, gravadas nos cilindros de cera do médico, mudaram de tom. Eles descreveram o interior da lente de metal: um ambiente frio, com cheiro de ozônio e superfícies que pareciam feitas de osso polido. Falaram de agulhas finas que mediam a densidade de suas peles, de instrumentos que perscrutavam suas linhagens e de olhos negros que colhiam informações sem a necessidade de palavras.
Em uma das últimas sessões, Mirela, ainda em transe, pediu um pedaço de carvão. Com movimentos rápidos e geométricos, ela desenhou na mesa de madeira do Dr. Aris uma teia de pontos e linhas.
— O que é isto, Mirela? — perguntou o analista, aproximando a lamparina.
— O mapa deles — ela respondeu, com uma voz que parecia vir de uma distância incomensurável. — O líder me mostrou na parede de osso. É de onde eles vêm. Não tem nada a ver com as bases de Valquíria... Ele disse que nosso planeta é apenas um grão de poeira na estrada.
O silêncio que se instalou na Secretaria do Registro Civil de Sabrina após o retorno de Darion e Mirela não decorria apenas do trauma oculto na memória do casal, mas também de uma nova e discreta presença que passou a frequentar os corredores de mármore acinzentado do prédio público: as visitas dos agentes da UCC (Unidade de Controle de Contingências).
Diferentemente dos inspetores comuns do Ministério da Defesa ou dos oficiais da base de Valquíria, os agentes da UCC não usavam fardas vistosas ou medalhas. Vestiam longos casacos de gabardine escura, perfeitamente alinhados, e chapéus que projetavam sombras profundas sobre seus rostos expressivamente neutros. Suas visitas nunca eram anunciadas. Eles simplesmente surgiam nas antessalas, portando pastas de couro rígido e credenciais de latão polido que abriam qualquer porta sem a necessidade de chaves.
A princípio, as abordagens pareceram casuais. Um agente de voz excessivamente pausada sentava-se à mesa de Darion sob o pretexto de revisar os registros de tráfego noturno da autopista 312.
— Apenas uma rotina de checagem, funcionário Darion — dizia o homem, enquanto seus olhos, frios e fixos como duas esferas de vidro, inspecionavam o leve tremor nas mãos do analista. — Há relatos de contrabando de combustível vindo do norte, pela floresta. Queremos garantir que nenhum veículo oficial tenha cruzado o perímetro fora do horário.
Mas o tom mudava quando o assunto tocava, mesmo que por acidente, nos "boatos de testes de voo" na base da floresta de Valquíria. O agente inclinava-se para a frente, e a atmosfera na sala parecia perder alguns graus de temperatura.
— Histórias de camponeses e operários impressionáveis, o senhor compreende. A propagação de rumores sobre a segurança nacional de Avelânia é uma infração grave contra a ordem civil. O silêncio é a mais nobre das virtudes burocráticas.
Com Mirela, a pressão era mais sutil e psicológica. Os agentes da UCC confiscavam as folhas de papel onde ela, em momentos de distração, começava a traçar as linhas geométricas e os pontos interligados com a ponta do lápis. Eles guardavam os desenhos nas pastas de couro com um zelo quase religioso, sem emitir uma única palavra de explicação.
Em uma tarde de outono, antes que o casal decidisse buscar o Dr. Aris em Valquíria, um dos agentes mais velhos da Unidade parou junto à mesa de Mirela, depositou sobre ela um pequeno relatório datilografado e disse, quase como um conselho amigável:
— A Secretaria preza pela sanidade de seus arquivistas, senhorita. Estreite suas vistas aos papéis oficiais. Olhar demais para as cristas da Cordilheira Nestoriana costuma causar uma fadiga mental severa... e permanente.
As visitas da UCC deixavam claro que o governo de Avelânia sabia perfeitamente que algo cortava os céus da província. Mas, para a Unidade, a verdade era uma mercadoria perigosa demais para ser deixada nas mãos de cidadãos comuns. Cada passagem daqueles homens deixava no ar um rastro de ozônio, o som ecoante de sapatos de cromo no corredor e a certeza sufocante de que Darion e Mirela estavam sendo vigiados tanto por Tellus quanto pelas estrelas.
Anos mais tarde, eruditos da Imperial Academia de Astronomia de Lavínia analisaram o desenho rústico deixado por Mirela na mesa do médico. Confrontando o carvão de Mirela com os novos telescópios que mapeavam o hemisfério sul celeste, encontraram uma correspondência exata. Os pontos principais, interligados por linhas grossas que sugeriam rotas de trânsito, apontavam para dois sóis gêmeos e pálidos, invisíveis a olho nu, perdidos na Constelação Meridional.
O casal de Sabrina nunca mais voltou a ser o mesmo. Eles sabiam que, embora continuassem dirigindo pelas autopistas modernas de Avelãnia e assinando os papéis da Secretaria, uma parte de suas almas havia sido deixada para trás, flutuando em algum ponto escuro entre a Cordilheira Nestoriana e as estrelas gêmeas do firmamento.
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