Passeio Noturno


Foi numa madrugada fria e nublada, numa época em que as luzes noturnas nas ruas ainda possuíam aquele inexplicável e algo melancólico tom laranja de sonho e devaneio. 
Eu estava sem sono. Os comprimidos para dormir não fizeram efeito. Tentei ler, mas não consegui, as palavras teimosamente fugiam do alcance dos meus olhos. O álcool e o cigarro também em nada ajudaram. Então decidi sair.
As ruas pareciam submersas em um oceano de fumaça cinzenta, onde o som dos meus próprios passos era devorado pelo silêncio. Naquela madrugada, o mundo não passava de um esboço inacabado. O relógio no pulso era um adereço inútil; o tempo havia estagnado entre o "ainda não" e o "nunca mais".
Caminhei até que a névoa fosse rasgada por um retângulo de luz âmbar, uma ilha de calor em meio ao deserto de asfalto úmido. O letreiro dizia apenas "COFFEE", com letras que pareciam flutuar no vácuo.
Através do vidro embaçado, vi uma silhueta. Um homem sentado ao fundo, imóvel, como se estivesse posando para uma pintura que ninguém terminaria. Parecia uma espécie de quadro vivo de Hopper. Ele não lia, não escrevia, não esperava. Apenas existia ali, fundindo-se à penumbra da cafeteria.
Hesitei diante da porta. Havia algo de sagrado e terrível naquela quietude. Se eu entrasse, quebraria o feitiço daquela solidão compartilhada? Ou nos tornaríamos dois fantasmas ocupando o mesmo purgatório?
Foi quando ouvi o motor. Um ronco baixo, cansado, vindo das entranhas do nevoeiro. Um carro antigo surgiu como uma miragem, seus faróis projetando feixes pálidos que mal venciam a densidade do ar.
Ao meu lado, um vulto de chapéu cruzou o brilho solitário do poste de luz. Ele caminhava com a inclinação de quem carrega o peso de todos os seus ontens. Não olhou para o café, não olhou para o carro, não olhou para mim.
A cidade, às três da manhã, não é feita de pedra, mas de lembranças que esquecemos de enterrar.
Fiquei ali, parado na calçada, sentindo o frio morder a pele. Naquele instante, compreendi que nós três, o homem no café, o pedestre, na neblina, e eu, éramos a mesma pessoa em diferentes tempos de uma mesma saudade. Éramos pontos de luz alaranjada tentando, em vão, não ser engolidos pela vastidão cinza de uma existência que, às vezes, parece um sonho do qual não conseguimos acordar.
O carro passou, o pedestre sumiu na curva e a luz do poste oscilou, como se estivesse prestes a suspirar. Eu continuei ali, esperando que a névoa me contasse para onde todos eles estavam indo, ou se, como eu, apenas buscavam um lugar onde o café fosse quente o suficiente para provar que ainda estávamos vivos.

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