Ela vinha sempre com um grito
preso na garganta,
nascido num quarto apertado
de um lar sem janela,
carregando o batom como espada,
e um passado preso à bainha
da saia de látex.
Trocou promessas por neon,
rezas por suspiros entre um gole e outro,
aprendeu a dançar como quem luta,
e a sorrir como quem mente.
Diziam: “Ela não presta.”
Mas ela só prestava atenção
no jeito como a cidade tudo devora e engole,
no preço que o amor de aluguel
cobra no fim do beco.
Tinha nos olhos o que ninguém via:
um espelho partido em mil futuros,
cada estilhaço, uma escolha,
cada escolha, uma cicatriz invisível,
além das visíveis em seu corpo.
Foi estrela em boates sem céu,
foi santa em noites sem fé.
A cada beijo vendido,
perdia um nome
e ganhava um segredo.
Alguém um dia lhe deu flores.
Ela não soube o que fazer com elas.
Jogou-as num vaso sanitário,
junto com seu vômito.
Era mais fácil despir o corpo
do que o coração.
Hoje, dizem que sumiu.
Talvez esteja em Paris,
ou num porto africano,
ou apenas dormindo num metrô,
com a cabeça encostada
em alguma canção antiga.
Mas se um dia você a vir,
não pergunte de onde ela vem;
ofereça um café,
um pouco de silêncio,
e um pouco mais de paciência,
e talvez ela lhe conte quem é.
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