João Roberto nunca gostou do próprio nome. Soava longo demais, excessivamente correto. Ele dizia achar que era um nome de velho.
Nos rachas, porém, ninguém o chamava assim. Era Johnny, simplesmente Johnny, seco, funcional, um nome que cabia melhor quando o giro subia e o mundo se resumia a reta e reação.
Ele aprendeu a correr tarde.
Não com bicicletas ou brincadeiras de infância, mas já nos quinze, quase dezesseis anos, quando o tempo parece insuficiente e tudo pede intensidade. Havia nele uma pressão interna, uma necessidade de avanço, que não encontrava forma organizada de se expressar.
Começou encostado.
Postos de gasolina fechados, avenidas largas, asfalto limpo. Capôs abertos, trocas de ideias curtas, som alto vazando de porta-malas. Ali, ninguém falava em imprudência, falava-se em puxar, alinhar, dar chão, segurar pé embaixo.
Johnny observava.
Aprendeu rápido o vocabulário das corridas clandestinas. Aprendeu também que o carro fala antes do motorista: preparação, ronco e resposta. E que, naquele meio, hesitar era ser descartado.
O carro veio depois. Era do irmão mais velho. Uma máquina mais forte do que ele precisava, menos do que os veteranos tinham. Suficiente para entrar no jogo. A chave esquecida sobre a mesa não foi um simples acaso, mas um ponto de inflexão.
Na primeira noite em que alinhou, ninguém quis saber sua idade.
Quiseram saber se o carro “andava”.
Alinhou lado a lado. Farol baixo, respiração curta, pé segurando o giro alto. Um gesto quase imperceptível fez as vezes de bandeira.
Ele saiu bem.
Não queimou a largada, não patinou demais. A segunda entrou limpa. A terceira sustentou. Quando cruzou o ponto combinado, já tinha dado meio carro. Venceu.
Nada de comemoração aberta, porém.
Apenas um “anda bem”, vindo de alguém que importava. A única. Um espaço aberto no círculo. Era o suficiente.
Mas, aos poucos, ela começou a desaparecer. Sem ruptura clara. Sem confronto. Apenas ausência progressiva. Visualizava e não respondia. Promessas vagas. Um deslocamento silencioso que lentamente tornava evidente o desinteresse.
Johnny percebeu antes de admitir.
Na noite do acidente, ele já operava com essa informação consolidada, ainda que não verbalizada. Havia uma perda ali, não espetacular, mas corrosiva. E, sobretudo, havia uma comparação insidiosa, que o devorava por dentro: o outro que ocupava seu antigo lugar era alguém mais estável, mais previsível, mais adequado do que ele jamais seria.
Naquela noite, Johnny chegou ao ponto de encontro dos corredores mais calado.
Recusou distrações. Aceitou direto quando chamaram para outra puxada. Mais longa. Valendo até a saída da cidade. Estrada aberta.
Alguém comentou:
— Termina na curva.
Johnny sabia qual era a curva.
Alinharam.
Motor cheio, giro alto, controle no limite. Um carro ao lado, mais leve, aparentemente melhor acertado. Não importava. Johnny não estava ali para cálculos conservadores.
O sinal veio na buzina.
Ele cravou o pé.
Primeira curta, troca rápida. A segunda entrou com leve cantada de pneu. A terceira puxou forte. O carro respondeu acima do esperado. Ele estava inteiro na condução. Mão firme, olho longe, leitura de pista precisa.
Deu vantagem.
Atrás, o outro vinha tentando buscá-lo no vácuo.
Mas não era apenas uma puxada. Havia interferência. Fragmentos de memória intrusivos: conversas interrompidas, silêncios recentes, a sensação de substituição. Ele não tentou bloquear. De certo modo, incorporou isso à condução, como se acelerar fosse também um modo de não permanecer.
A cidade acabou.
Restou a estrada.
Restou a curva.
Ele conhecia cada detalhe técnico daquele trecho. Sabia o ponto de frenagem, o limite de entrada, o quanto podia manter de pé antes de aliviar. Já passara ali outras vezes, sempre respeitando a margem. Desta vez, a margem era outra coisa. Viu a curva com antecedência. Teve tempo de decisão.
Atrás, o farol do outro carro ainda pressionava. Reduzir significaria perder a puxada. Tirar o pé seria admitir limite. Manter seria arriscar tudo, a máquina, o corpo, o resultado.
Ele manteve.
Entrou rápido demais.
No primeiro instante, pareceu que daria. O carro apontou corretamente. A trajetória inicial sustentou a escolha. Porém, a física não responde a intenções, responde a condições.
O pneu dianteiro perdeu aderência. Uma fração mínima. Mas foi o suficiente.
O volante corrigiu dentro do possível, mas o conjunto já estava comprometido. O carro abriu mais do que devia. A traseira ameaçou sair. Havia, ainda, uma janela técnica, estreita, mas existente, para aliviar, corrigir, recuperar.
Essa janela passou.
Resta saber se foi percebida.
Resta saber se foi utilizada.
O instante seguinte de Johnny foi de lucidez absoluta. Sem gritos, sem gestos desordenados, sem medo; apenas a compreensão da curva, da velocidade, da sequência de decisões. Como se, naquele ponto exato, tudo se tornasse coerente.
Depois, veio o impacto.
Os outros frearam mais à frente.
Um voltou correndo. Outro ficou dentro do carro, olhando pelo retrovisor. Comentários baixos, técnicos, quase defensivos:
— Entrou muito quente.
— Não aliviou nada.
— Dava para segurar.
Ninguém concluiu nada.
No ambiente dos rachas, certas hipóteses permanecem tácitas. Defini-las implicaria reconhecer que o controle, o valor central daquele sistema, pode, em algum momento, ser voluntariamente abandonado.
Na manhã seguinte, a cidade tratou o caso como mais um acidente de alta velocidade.
No quarto de Johnny, ficaram os restos de uma vida em estado de esboço: cadernos abertos, roupas largadas, intenções não consolidadas, o violão em que tocava os Beatles.
Naquela curva, Johnny não apenas perdeu. Pode ter escolhido não ganhar.
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