O Vento na Estrada


A poeira fina do asfalto agarrava-se ao cromo do escapamento da velha Harley, mas nada conseguia ofuscar o brilho daquele metal polido. A moto estava parada na beira da estrada secundária, sob a sombra magra de uma araucária. Era um respiro, um momento suspenso no tempo e na velocidade, um instante roubado da complexidade dos dois mundos que ela conduzia.
Naquele assento de couro ligeiramente rachado, dois pares de pernas, entrelaçados, contavam histórias diferentes, narrativas de universos tão distintos que jamais deveriam ter se cruzado.
Havia as de Laura: pele exposta, bronzeada pelo sol errante de Ibiza, pousada de leve sobre a coxa de couro e ganga. Eram as pernas de quem estava ali por prazer, por impulso, um capricho, talvez, uma fuga temporária da moldura dourada de sua vida. Ela vinha da grande metrópole, do calor de um verão passado em piscinas de cobertura e jantares formais, mas naquele momento, ela só queria o vento da estrada no rosto. A mão repousava suavemente sobre o couro, um contraste de textura e temperatura com o tecido mais grosso por baixo, um gesto de delicadeza que jamais seria compreendido na dureza do asfalto. Laura, herdeira de uma fortuna que mal podia quantificar, habituada ao circuito internacional de luxo que a levava de Mônaco às Maldivas, sentia-se mais livre, ali, do que em qualquer mansão ou resort cinco estrelas, para o escândalo de seus pais e da alta sociedade em que nascera.
E havia as pernas de César, envoltas em ganga escura, gasta e amassada, que se fundia às botas de combate já cansadas. Essas botas não eram apenas calçados; eram artefatos de sobrevivência, testemunhas de invernos rigorosos e verões escaldantes, os cadarços folgados, o couro marcado por incontáveis quilômetros de terra, asfalto e cascalho, a sola grossa que pisara desde as areias desérticas de Atacama até as lamas fluviais do Orinoco. Elas o protegiam, o ancoravam, eram sua única certeza. Ele era um cavaleiro moderno, o condutor do ritmo veloz e constante da máquina que vibrava sob eles, a personificação da estrada. 
César, um errante por escolha ou destino, sem raízes ou heranças, nada a não ser sua velha Harley, encontrava sua riqueza na liberdade de cada amanhecer e no ruído do motor.
Laura inclinou a cabeça para trás, o vento ainda zunindo em seus ouvidos, apesar da moto estar parada.
— Para onde vamos agora, César? — perguntou, a voz rouca, quase um sussurro contra o vasto silêncio da paisagem.
César tirou o pé da pedaleira, sentindo a rigidez do tornozelo, e fixou os olhos na estrada vazia que se estendia além. Ele apertou os lábios, e a ruga entre as sobrancelhas se aprofundou. Ele não tinha um destino no mapa, apenas uma direção. Um destino, para ele, era uma âncora que ele se recusava a ter. Deu uma última tragada em seu cigarro, jogou a guimba no asfalto, olhou para Laura e sorriu.
— Não sei. Para onde ela — e deu uma palmada leve na motocicleta — nos levar. — Ele esfregou a mão enluvada no joelho, um gesto quase inconsciente de quem está acostumado a não ter muito para onde ir. — Está com frio?
Laura sorriu, o vento dissipando o calor do sol da tarde.
— Não. Estou ótima. Sinto-me... não sei... invencível, aqui, assim, em cima dela.
Era a máquina envenenada que dava a Laura essa sensação, mas era César que lhe dava a permissão para senti-la, a porta para um mundo de que seus ancestrais se esforçaram tanto para protegê-la. Ele podia ser duro, e, às vezes até áspero, como o couro de suas botas, mas ali, naquele momento, era apenas a rocha sobre a qual ela descansava, o pilar de um mundo que ela nunca imaginou existir. 
E então os dois se beijaram sob um céu cálido e livre. 
Ele olhou para a bota, depois para a perna nua ao lado da sua. Dois mundos. Duas estradas. Mas, naquela tarde, naquele pedaço de asfalto, eles seguiam a mesma direção, com o cheiro da gasolina e do couro como perfume, com a incerteza do amanhã como guia, e a estranha união de seus universos, suspensa no tempo, apenas por um instante, breve, mas infinito, como um sonho de amor.

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