Hoje acordei pensando
nas quatro mulheres que mais amei.
Não como alguém que simplesmente
rememora uma recordação,
mas como quem reabre uma ferida antiga,
a seco,
e com uma pitada de sal,
para arder mais,
e encontra nela ainda pulsação,
ainda calor,
ainda sede,
uma inesgotável e imperecível sede.
As mulheres que mais amei
não se deixam reduzir a meras lembranças,
elas ainda retornam, em fragmentos:
um tornozelo,
um riso,
um silêncio depois do toque
uma dobra de pele
onde o tempo parecia nunca correr.
A comissária de bordo luso-germânica,
pai português, mãe alemã,
com sua precisão quase litúrgica,
sabia exatamente onde pousar
as mãos e os lábios,
como se já conhecesse,
desde longas eras,
cada relevo, planície, esplanada e cordilheira
do mapa hirsuto de meu corpo em chamas.
Havia nela, de fato, um ímpeto teutônico
que me incendiava,
um erotismo, contudo, disciplinado, prussiano,
de linhas retas e respiração medida,
mas, quando cedia ao Sturm und Drang
entre nossos lençóis,
irrompia como turbulência súbita,
como se marchasse ao som de Wagner,
como se o céu, enfim, perdesse o controle,
e eu também me perdia no intervalo
entre suas pernas cruzadas em minha cintura.
Ela tinha o cheiro de aeroportos
e despedidas adiadas,
e um modo de inclinar o rosto
que transformava qualquer
proximidade em promessa jamais quebrada.
A bailarina loira da Sociedade Garibaldi
era feita de tensão e abandono,
cada músculo treinado
para conter o excesso,
cada gesto calculado
para parecer inevitável.
Mas havia momentos,
raros, perigosos,
em que o corpo traía a técnica
e então surgia algo mais cru
mais próximo da carne do que da alma.
Eu a via no intervalo entre as danças,
suada, os cabelos colando na nuca,
a respiração irregular,
e ali, nesse colapso mínimo,
o desejo deixava de ser contemplação
para tornar-se vertigem.
Ela dançava como quem domina
não só próprio corpo,
mas o mundo inteiro,
e me tocava como quem ainda o descobre,
e nisso havia uma beleza inquietante,
quase violenta,
em sua delicadeza de cisne
à beira da morte.
A atriz com pretensões literárias
vivia em camadas,
texto, subtexto, intenção, desvio,
entoava obscenidades
como se recitasse preces,
e beijava-me como se reescrevesse
um romance erótico,
apagando, testando, sempre recomeçando
onde o prazer pulava
para o próximo parágrafo.
Havia nela uma fome de ser vista
não apenas como um corpo,
mas como construção,
como narrativa,
como espetáculo,
e, ainda assim,
era no instante em que esquecia seu papel,
que se tornava absolutamente real.
Seus dedos tinham urgência.
Seus silêncios, densidade.
E, às vezes, depois, deitados, lado a lado,
depois de seu hipismo sobre mim,
parecíamos dois personagens
que sobreviveram ao próprio enredo.
Ela queria eternizar tudo
em palavras,
em páginas,
em versões,
e eu sabia,
com uma lucidez quase cruel,
que certas experiências só existem enquanto não são fixadas.
- Sou uma obra em progresso, ela dizia.
Mas o papel sempre mente.
E a dekasegui fumante,
descendente de samurais, segundo dizia,
obsessiva, caótica, multipolar,
delicadamente deslocada,
como se vivesse num país
que não era o seu,
apesar de nele haver nascido,
eternamente sonhando
com a terra de origem de seus ancestrais,
e nunca presente no tempo que lhe coube,
a pele dos pulsos, braços e pernas marcada
pelas cicatrizes de feridas autoinfligidas,
o que dizer a seu respeito?
Havia uma lentidão ritual em seus gestos,
um cuidado quase cerimonial
ao acender o cigarro,
ao inspirar,
ao soltar a fumaça,
como se dissolvesse pensamentos.
Quando me olhava,
não era inteiramente a mim que via.
Havia ali, camadas de referências,
de fantasmas de ronins,
talvez um aroma longínquo de sakuras,
como se eu fosse também uma tradução
de um haicai de Bashô.
Mas seu corpo,
esse não mentia.
Havia nele uma entrega sem ornamento,
um abandono que contrastava
com sua mente superpovoada
de sonhos orientais.
E no encontro entre esses dois planos,
nascia algo estranho,
íntimo e estrangeiro, ao mesmo tempo.
As mulheres que mais amei
foram territórios instáveis,
zonas de contato
entre desejo e linguagem,
lugares onde o corpo tecia hinos
antes da consciência compreender o idioma.
Não as possuí,
nem mesmo quando me deram seus corpos,
nem fui por elas possuído
de forma duradoura.
Houve apenas interseções
breves, intensas, irrepetíveis.
Corpos são intercambiáveis,
Almas, incomunicáveis.
E, ainda assim
há madrugadas em que retornam em mim,
não como lembranças organizadas
e racionalmente depuradas,
mas como sensações difusas,
calores que não encontram origem,
nome que não ousam se pronunciar.
E eu permaneço ali,
entre o que foi e o que poderia ter sido,
escutando ecos,
bebendo litros de uísque,
insistindo em inserir mais uma moeda,
só mais uma moeda,
numa jukebox velha,
que já conhece de cor,
cada canção.
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