Ela tem uma boca incrivelmente suja,
mas os palavrões ferozes que profere
soam como sonetos de Petrarca
em seus lábios deliciosamente carnudos.
Há uma música subterrânea em cada sílaba,
um canto lúbrico, antigo, ancestral,
a vibração de uma deusa pagã
perdida nas encruzilhadas
onde o desejo aprende a caminhar sozinho.
Quando fala, é como se um incêndio
se insinuasse pelas frestas do mundo,
e cada palavra sua,
obscena, brutal, elétrica,
erguesse altares clandestinos
dentro de meu templo mental.
O que ela diz, eu não decoro;
o que ela diz, eu respiro.
Suas blasfêmias cintilam como relâmpagos
que riscam a madrugada do meu peito,
e me deixam marcado, mordido,
ferido de súbita claridade.
Que importa o vocabulário chulo e pobre,
se é a sua voz que arruína
a gramática do meu juízo?
Em sua boca, até a vulgaridade
ganha nobreza e requinte.
Entre suas coxas serpenteantes,
esvai-se toda minha cultura e erudição.
Ela não tem nenhuma elegância,
fuma cigarros falsos,
fala alto e faz escândalos,
adora chamar toda a atenção
do mundo para si.
Contudo, tem o porte de uma deusa ctônica.
Há nela a solenidade dos abismos,
a autoridade silenciosa dos terremotos
que despertam cidades adormecidas.
Mesmo quando tropeça nas próprias palavras,
seu corpo parece obedecer
a leis arcaicas, subterrâneas,
como se caminhasse guiada por forças
que nenhuma superfície compreende.
Sua risada,
desajeitada, estridente, vulgar,
é o eco de rituais esquecidos,
de uma noite primordial
em que o caos ainda moldava o mundo
com as mãos nuas.
E quando ergue o queixo,
mesmo com o batom borrado
e a impaciência acesa nos olhos,
há uma realeza mineral em sua postura,
o brilho grave das criaturas
que nunca pedem licença.
Ela não seduz: arrasta em seu vórtice.
Ela não encanta: reclama o que é seu.
Nada nela foi talhado para agradar,
e, no entanto, sua presença
tem o peso de um mito
respirando no escuro,
o magnetismo brutal
daquilo que sabe
e faz você saber
que nasceu para ser temido.
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