Gata Preta às 3 da Manhã


A penumbra respira lentamente.
O quarto é um navio imóvel
num mar de lençóis amassados.

Ela estende o braço,
um gesto sacerdotal 
entre o feitiço e o tédio,
como se chamasse a noite
pelo seu nome ancestral.

A gata preta roça seu ventre,
macia, líquida, sem culpa,
como se o mistério, 
tal como nos áureos tempos do Egito Antigo, 
tivesse pelos negros 
e quatro patas.

Há um rumor de cantos arcaicos, 
de promessas 
que não precisam ser ditas, 
de relâmpagos breves
entre a pele e a renda.

Do lado de fora, 
o mundo é mecânico, 
frio, impessoal.
Mas, aqui dentro,
tudo pulsa em analogia, 
o corpo, 
a sombra, 
o felino desejo,
numa gramática 
anterior à fala humana.

E aqui estou eu, de novo,
meio bêbado, como sempre, 
porém, não de álcool 
(ou não só), 
mas de amor,
com o cheiro dela 
grudado na minha alma,
pensando que, talvez, a paixão 
seja mesmo um gato 
atravessando a noite, 
cada mordida e arranhão, 
uma antífona do Magnificat,
um corpo que se camufla no escuro,
um toque que nos faz esquecer 
de que o mundo apodrece lá fora.

Mas, ainda assim,
agradecemos,
porque há beleza no desastre,
e o desastre, às vezes,
tem perfume de mulher.

Há beleza em certos precipícios 
e beleza ainda maior, em algumas quedas.

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