Semáforos


Assim que o sinal vermelho se acendia no semáforo, eles imediatamente começavam o espetáculo. Era sempre ali, naquele instante breve em que o tempo se detinha, que eles realmente existiam e o mundo lhes pertencia
Miguel e Luna não tinham uma idade definida, ora pareciam ser extremamente velhos, ora mal tendo acabado de sair da infância. Fosse qual fosse sua idade real, haviam-na irremediavelmente perdido no turbilhão voraz e inexorável dos dias sempre iguais. Ambos acreditavam ser eternamente jovens, embriagados pela névoa de uma fome que nunca cessava, pela adrenalina que lhes provocavam os carros que rugiam impacientes, pela ilusão química que às vezes lhes permitia sonhar com outro mundo.
Os corpos magros, desenhados pelo tempo áspero da rua e do vício, moviam-se com uma estranha graça sob os olhos distraídos dos motoristas. Luna atirava as bolinhas e malabares para o alto, e Miguel, com uma destreza quase ingênua, os colhia de volta, compondo um balé frágil e silencioso. Nos segundos em que durava a performance, eram artistas de um circo invisível, crianças brincando com a gravidade, deuses efêmeros sustentando um infinito cosmos de cores e movimentos. Era sempre o mesmo show, em todos os semáforos. 
Mas a indiferença também fazia parte do espetáculo. Olhares apressados atravessavam suas figuras como se eles fossem de vidro, sem ver o suor na testa, o tremor nos dedos, os olhos marcados pelo cansaço. Às vezes, alguém abaixava o vidro e jogava uma moeda, às vezes apenas desviavam sua visão, como se o simples ato de ignorá-los os apagasse da existência.
Quando a luz verde surgia no semáforo, como um decreto dos deuses mecânicos do asfalto, os carros partiam, levando consigo os resquícios daquela breve atenção. Luna então contava os poucos trocados recolhidos, e Miguel ajeitava a mochila surrada onde guardavam tudo o que possuíam: suas maiores riquezas, além dos malabares, eram um cobertor puído, um isqueiro e uma seringa.
À noite, debaixo do viaduto, o mundo se tornava um universo à parte. Sob a luz amarelada dos postes, o frio infiltrava-se-lhes por entre os ossos, mas era ignorado quando a primeira picada trazia seu êxtase doce e entorpecente. Luna sentava-se no chão, encostada em um dos pilares, e Miguel deitava a cabeça em seu colo. Ela acariciava seus cabelos desgrenhados e sujos com dedos frágeis, sentindo a pulsação lenta de um coração que já não conhecia pressa.
— Um dia a gente vai sair dessa, né? — murmurava ele, os olhos semicerrados, inebriado pelo narcótico.
Luna não respondia de imediato. Olhava para cima, para o céu cortado pelo concreto, tentando encontrar uma estrela, qualquer uma, ou talvez um cometa em que ela pudesse voar. Uma vez, sua mãe lhe disse, os olhos roxos, depois de um dos costumeiros abusos de seu pai, que, se desejasse com força suficiente, alguma coisa boa aconteceria. Mas aquilo já fazia tanto tempo...
Às vezes. sonhava com uma casinha branca, como a da sua infância distante, cercada de árvores e pássaros, ou próxima a uma cachoeira, como uma casa de calendário. Até chegou a tatuá-la no braço, agora coberto de picadas de agulha. Quase nem era mais possível reconhecer sua tatuagem. 
Miguel, por sua vez, nem conseguia compreender o conceito de "casa", ele nunca teve uma, pois seu berço foi a própria rua, e na rua ele sempre viveu, exceto por alguns anos que passou no reformatório. Seu verdadeiro lar era Luna, Luna era todo o seu mundo. 
— Claro que vamos — respondeu ela por fim, sem muita certeza se o dizia para Miguel ou para si mesma.
O silêncio se acomodava entre os dois como um cobertor fino demais para aquecê-los.
Pela manhã, quando os primeiros carros começavam a encher as avenidas, eles já estavam de pé. O corpo pesado, a alma leve, o sangue pedindo mais. Mais uma vez, caminharam até o cruzamento, tomando seus lugares como atores antes da cortina se abrir.
Luna jogou a primeira bolinha para o alto, e Miguel a seguiu com os olhos. Viu-a subir, girar no ar por um instante, hesitante, antes de começar sua queda. Naquele breve momento, Miguel sentiu como se sua própria vida estivesse suspensa ali, flutuando no vácuo, sem saber se voltaria a tocar o chão ou se se perderia no vento.
O farol ficou vermelho. O espetáculo recomeçou. 
Um dia, Luna teve uma overdose. Morreu engasgada no próprio vômito, enquanto Miguel dormia, completamente entorpecido e alcoolizado. Veio o rabecão, policiais entediados tomaram notas enquanto Miguel, subitamente sóbrio, apenas chorava, convulsivamente, e os carros seguiram sem o habitual espetáculo de malabares.
Luna foi sepultada como indigente. No cemitério, apenas Miguel e os coveiros, trocando piadas obscenas e reclamando do clima. Chovia. Miguel ainda ficou um longo tempo, diante da sepultura, debaixo da chuva, depois que tudo acabou.
Na manhã seguinte ao enterro, Miguel foi sozinho ao semáforo. E não saiu da frente dos carros quando o sinal ficou verde.

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