As Lendas de Lady Revólver

Dizem que Lady Revólver 
nasceu num motel de beira de estrada,
entre os gritos estridentes 
de uma parturiente solitária 
e o ronco estrondoso e gutural 
de um caminhoneiro bêbado.

Outros juram
que era filha de um coronel desertor 
do exército americano
com uma cantora de tangos argentina
que morreu por overdose de barbitúricos.

Falam que matou o primeiro homem 
aos quinze anos,
com um beijo envenenado
e uma lâmina escondida no sutiã: 
um movimento preciso e rápido, 
quase sem sangue, 
e depois a fuga para o vasto mundo,
a bordo de uma motocicleta roubada.

Outros dizem que foi a única sobrevivente
de um massacre numa cidade sem nome, 
esquecida nos grotões do Brasil Profundo,
e que, desde então,
carrega consigo o revólver 
do último jagunço que tombou. 

Há também os que dizem 
que foi bailarina em Marselha,
que dançava sobre o piano 
com uma rosa na boca
e um punhal nos cabelos.

Outros, que foi espiã em Praga,
e que as cicatrizes em seu corpo 
eram códigos secretos 
criptografados a faca.

Contam que ela teve um filho, natimorto,
e o enterrou com as próprias mãos, 
entre as cinzas de um circo incendiado.

Outros contam que jamais pariu seres humanos,
mas vinganças, com dores maiores 
do que em qualquer parto.

Há quem diga que amou um homem cego,
que tocava violoncelo no porão 
de um cassino clandestino, 
e por ele quase se matou, 
quando ele não a amou de volta.

Também dizem que matou 
todos os que ousaram amá-la,
um por um,
de forma tão bela e doce, porém,
que eles sorriam ao expirar em seus braços. 

Lady Revólver, 
a rainha das estradas vicinais,
a matriarca dos corpos inumados,
a cafetina dos condenados,
a santa dos pecadores.

Com um dedo no gatilho
e outro entre as pernas do destino,
ela escreve sua lenda
na pele de cada homem 
que pensa ser o escolhido
e descobre, tarde demais,
que foi só mais um nome
no caderno vermelho
que ela mantém trancado
na última gaveta
do último quarto
do último bordel do fim do mundo.

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