Para entrar em meu mundo,
é preciso abandonar a pressa
e abraçar o silêncio.
Só assim, a entrada secreta se abre,
como uma porta antiga,
apenas para quem sabe ouvir
o som da própria alma.
Há corredores de sombra e âmbar,
onde os passos ecoam devagar,
como se o tempo, neles, respirasse
num ritmo próprio, subterrâneo.
Nele, nada real floresce
sob a tirania dos segundos;
a delicadeza precisa de intervalos,
a verdade exige penumbra,
e o desejo, quando nasce,
vem sempre depois da contemplação.
Nos desvãos das salas altas,
o pó repousa sobre livros gastos,
como se guardasse, em silêncio,
os grandes nomes que o mundo esqueceu.
Ali, a luz se parte em diagonais lentas
e as margens das páginas
parecem folhas de inverno.
Há uma mesa onde velhas anotações
ainda conservam o calor de mãos atentas;
a tinta, ligeiramente desbotada,
indica batalhas travadas na solidão gloriosa
de madrugadas carregadas de pensamento.
As janelas, altas e estreitas,
deixam entrar um ar frio
que cheira à madeira e contemplação.
Nos corredores silenciosos,
esculturas rachadas vigiam a noite,
como se esperassem um visitante
capaz de decifrar seus lábios imóveis.
E, ao longe, o rumor do vento
faz vibrar uma porta semicerrada,
sugerindo segredos que preferem
não ser tocados pela luz.
Quem caminha comigo
aprende a ler o que não digo,
o que vibra sob a superfície,
onde o gesto é mais profundo
do que qualquer palavra.
Meu mundo não se visita,
conquista-se.
E só se abre, inteiro,
àqueles que sabem deter o relógio
e deixar o espírito
amadurecer no fogo lento da reflexão.
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