A Colmeia


Chamava-se Paulo, embora o nome, com o tempo, tenha se tornado um detalhe supérfluo, um resquício burocrático necessário apenas para folhas de pagamento e registros internos. No cotidiano da companhia, era identificado por um número de matrícula: 47-B. Era assim que surgia nos relatórios, nas escalas, nos avisos afixados em murais assépticos. O nome próprio, outrora portador de memória e singularidade, fora sendo corroído pela repetição mecânica de tarefas que não exigiam identidade, apenas execução.
O edifício onde trabalhava erguia-se como uma colmeia de concreto e vidro, pulsando com a regularidade de um organismo sem alma. Ali dentro, o tempo não se media em horas, mas em metas, prazos e ciclos de produtividade. Não havia manhãs ou tardes, apenas intervalos funcionais entre um comando e outro. A luz artificial dissolvia qualquer vestígio da passagem natural do dia.
No início, Paulo ainda resistia. Levava consigo pequenos sinais de humanidade: um livro na mochila, uma anotação dispersa, um pensamento que escapava à lógica do desempenho. Durante o almoço, observava os colegas. Notava como mastigavam com pressa pressa e sem presença, como se o ato de alimentar-se fosse apenas mais uma função a cumprir. Tentava, então, lembrar-se de algo que o diferenciasse, um gosto pessoal, uma lembrança afetiva, um desejo não mensurável.
Com o passar dos meses, essa resistência começou a falhar.
Os relatórios tornaram-se mais exigentes. Os gerentes passaram a falar em termos de “otimização comportamental”. Pequenas pausas passaram a ser registradas. O silêncio, outrora um espaço de repouso, transformou-se em indício de baixa performance. Conversas paralelas eram desencorajadas; reflexões, desnecessárias; hesitações, quase uma infração.
Paulo, ou melhor, 47-B, adaptou-se.
Deixou de levar livros. As anotações cessaram. Seus pensamentos, antes errantes, passaram a seguir trilhos definidos: tarefa, execução, entrega. Não porque tivesse decidido abandonar a interioridade, mas porque ela se tornou inútil, um gasto de energia sem retorno mensurável.
Certa noite, ao regressar ao seu pequeno apartamento, 47-B percebeu algo que lhe causou uma estranha inquietação: não conseguia recordar o próprio dia. Sabia que havia cumprido suas funções de sempre, o sistema o confirmava, os indicadores estavam dentro do esperado, mas não havia imagens, sensações ou narrativas que pudessem ser resgatadas. O dia existira, mas não fora vivido.
Nos dias seguintes, esse vazio se intensificou.
Começou a notar que também suas emoções haviam se tornado indistintas. Alegria, cansaço, frustração, tudo isso parecia nivelado por uma espécie de anestesia difusa. Não havia sofrimento agudo, mas tampouco qualquer forma de prazer genuíno. Era como se sua vida emocional tivesse sido reduzida a uma linha reta, constante e inexpressiva.
Um episódio, contudo, rompeu brevemente essa monotonia.
Durante uma revisão de desempenho, o diretor de seu departamento, um homem de voz calibrada e gestos mínimos, comentou, com aparente neutralidade, que o índice de eficiência de 47-B havia atingido um patamar “exemplar”. Em seguida, acrescentou que, dadas as circunstâncias, sua função poderia ser parcialmente automatizada nos meses seguintes.
47-B ouviu aquilo sem reação imediata. Apenas assentiu.
Ao sair da sala, porém, algo inesperado ocorreu: um pensamento surgiu, abrupto, quase violento: se posso ser substituído, o que, exatamente, fui até aqui? 
A pergunta não encontrou resposta, ele nunca soube exatamente para quem trabalhava, nem para o quê servia seu trabalho. E, mais inquietante ainda, ela logo perdeu força, como se o próprio sistema interno de 47-B (ou já seria novamente Paulo?) a tivesse considerado improdutiva.
Nos dias que se seguiram, a transição começou. Parte de suas tarefas foi delegada a algoritmos. Restaram-lhe funções residuais, de supervisão mínima. Sua presença tornou-se progressivamente dispensável.
Curiosamente, não houve qualquer revolta de sua parte, apenas perplexidade, quando recebeu a notícia de seu desligamento. 
Agora, sem o trabalho, Paulo, que já não era mais o operador 47-B, deveria, em tese, reencontrar-se a si mesmo. Mas o que encontrou foi um espaço vazio. Não havia hábitos a retomar, nem paixões latentes, nem sequer memórias suficientemente vívidas para servirem de ponto de partida. Aquilo que fora lentamente suprimido ao longo dos anos não retornava por simples ausência de função.
Nos primeiros dias de pretensa liberdade, sentava-se, às vezes, diante da janela, observando o fluxo distante da metrópole cinza. Carros, pessoas, luzes, tudo em movimento contínuo. Sabia, racionalmente, que ali havia vida. Mas essa constatação não produzia qualquer ressonância interior.
Ao deixar o prédio pela última vez, ninguém notou sua saída. Nenhum registro relevante foi feito. O número 47-B logo foi arquivado, substituído, esquecido.
A cidade continuava a funcionar. Paulo já não era mais uma de suas engrenagens, mas não sabia mais o que poderia ser.

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