Mais uma Dose?


Aproximava-se o fim da entrevista. O velho escritor deu uma longa baforada em seu charuto, bebeu mais um gole de vinho e olhou para o nada por alguns minutos. A garçonete passou por nós e sorriu. Clientes entravam e saíam. Chovia lá fora. Ao fundo, uma canção de Chet Baker. Depois voltou-se para mim, pigarreou e recomeçou a contar:
— Aconteceu há tantos anos, mas ainda me lembro, como se fosse neste exato instante. 
Vejo-a entrar. Ela me oferece um vinho, tal como este que estamos agora bebendo.
Faz isso com uma calma estudada, como se já soubesse exatamente o efeito que seu gesto teria. E realmente sabia. O gelo dança no copo como se ensaiasse o momento. A garrafa pousa de volta à mesa com um som surdo, mas sua mão permanece desenhando arabescos no ar, como se escrevesse uma história com palavras invisíveis. 
Ela não me olha de imediato. Apenas cruza as pernas devagar, deixando à mostra uma faixa breve de pele entre o vestido e a meia, o que já basta para me incendiar. O silêncio pesa, mas não constrange. É um silêncio escolhido, como a iluminação amarelada da sala, como a trilha sonora que sussurra, ao fundo, jazz, blues e bossa nova.
— Não vai beber? — ela pergunta, sem sorrir.
Mas seus olhos... bem, seus olhos sorriem, de um jeito perigoso, deliciosamente perigoso.
Levo o copo aos lábios, mais por obediência do que por vontade. Embora suave, talvez por meu nervosismo, o líquido arde-me na garganta, mas é o perfume dela que me embriaga primeiro: alguma mistura de baunilha e noite antiga.
Ela se aproxima. A não ser pela nudez completa abaixo do vestido, não há nada declaradamente erótico em seus movimentos, e talvez por isso mesmo, tudo nela seja altamente sensual. Senta-se ao meu lado sem pressa, sabendo que o jogo já estava vencido. Cruza os braços, e o decote forma um vinco sutil, um V quase tímido, mas impossível de ignorar, evidenciando a doce fartura de seus seios.
— Você parece tenso, querido. Mais uma dose? — ela pergunta.
Quero responder. Quero dizer que estou com medo, que ainda sou demasiado jovem, que não tenho um pingo de experiência comparado a ela, que tenho apenas alguns trocados no bolso e não sei se poderei pagar pela noite, que sou apenas um garoto com temor e desejo diante de uma verdadeira mulher, a primeira mulher que toco... Mas há algo na forma como ela brinca com o próprio copo, um giro lento, circular, hipnótico, que me desarma. Não sei mais se vim por causa dela ou se por causa de mim mesmo. Só sei que agora tudo cheira a perigo, madeira antiga e pele aquecida.
E ela sabe. E me puxa para o quarto. Dali nasceu minha primeira obra.
Os lábios vincados do velho escritor tremeram levemente e ele se levantou da mesa, colocou o chapéu e o sobretudo, pegou o guarda-chuva, e saiu do bar, mergulhando no coração da noite. Eu fiquei ainda por alguns minutos, olhando para os copos vazios, fazendo as últimas anotações para a matéria na revista, e pensando. Ou melhor, sonhando. Há ocasiões em que sonhar é tudo o que nos resta na vida.

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