Havia um pacto silencioso entre elas, firmado muito antes de sequer saberem o peso real das palavras. Nunca foi escrito, nem jurado, mas existia, tão sólido quanto as calçadas rachadas da rua onde cresceram: jamais se separariam.
Eram quatro.
Clara era a mais bela, e sabia disso. Havia nos seus gestos uma consciência do próprio corpo que não era vaidade, mas uma arma, uma forma de existir num mundo que parecia exigir sempre algo em troca de sua presença. Ria alto, como se sempre desafiasse toda e qualquer tentativa de contenção.
Beatriz era a mente do grupo. Observadora, metódica, a única que compreendia que o mundo não era um palco, mas um mecanismo. Via suas engrenagens girarem nas pessoas, nas instituições, nas pequenas violências cotidianas, e, em silêncio, anotava tudo.
Sabrina era puro fogo. Impulsiva, inquieta, sempre à beira de alguma explosão. Onde as outras hesitavam, ela avançava. Onde havia risco, ela via sentido. Sua risada era breve, quase um estalo.
E Letícia, talvez a mais perigosa de todas, era a que amava demais. Amava tudo: as amigas, os homens, as ideias, as promessas. Vivia como se cada instante fosse um último gesto de entrega.
As quatro cresceram juntas, entre tardes de verão, músicas altas e sonhos desordenados. Diziam, com a convicção própria da juventude, que queriam apenas se divertir.
A primeira a romper o pacto foi Clara.
Não por vontade, mas por cálculo.
Saiu cedo da cidade, levada por um homem mais velho, estrangeiro, grisalho e misterioso, um desses sedutores natos, que prometem o mundo em troca de obediência disfarçada de carinho. Clara acreditou que dominava o jogo. Sempre acreditou.
Por algum tempo, pareceu verdade.
Fotos em lugares caros, roupas impecáveis, viagens que as outras acompanhavam pelas redes sociais como quem assiste a uma ficção. Mas a ficção, como Beatriz teria dito, é apenas uma versão editada da realidade.
Quando Clara desapareceu por três dias, ninguém estranhou de imediato.
Dias depois, uma notícia breve num jornal local: uma mulher encontrada morta em circunstâncias suspeitas. Nome confirmado após uma semana. O riso alto de Clara nunca mais foi ouvido.
Beatriz tentou entender o que aconteceu. Era a única forma que conhecia de lidar com a perda. Mergulhou em estudos, estatísticas, padrões de comportamento. Queria provar que aquilo não fora um acaso, que havia lógica, que poderia ter sido previsto.
Foi trabalhar em um órgão público, investigando fraudes, corrupção, esquemas que se repetiam como fórmulas matemáticas.
Descobriu demais.
Os nomes começaram a pesar. As informações deixaram de ser abstratas. Tornaram-se perigosas.
Uma noite, voltando para casa, percebeu que estava sendo seguida. Não era paranoia. Beatriz não era dada a ilusões.
Nos dias seguintes, tentou denunciar, documentar, deixar rastros. Mas subestimara o alcance daqueles que estudava.
O relatório final nunca foi publicado. Beatriz morreu em um acidente de trânsito. Um caminhão, disseram. Possível falha humana.
Ela saberia que não foi.
Sabrina não suportou.
A morte de Clara foi um choque. A de Beatriz, uma confirmação: o mundo não era apenas injusto, era hostil. E ela não fora feita para recuar.
Entrou em tudo o que podia incendiar: protestos, movimentos radicais, confrontos diretos. Tornou-se presença constante em todos os lugares onde a tensão era a regra.
Dizia que não tinha medo. Talvez não tivesse mesmo. Mas havia uma diferença entre ausência de medo e presença de destino.
Numa noite de manifestação que saiu do controle, a linha entre protesto e confronto dissolveu-se. Gás, gritos, correria. Sabrina avançou quando todos recuavam. Um disparo, ninguém sabe de onde. O fogo que ela carregava apagou-se ali, no asfalto.
Restou Letícia.
E talvez tenha sido a que mais sofreu. Porque, ao contrário das outras, ela continuava acreditando. Mesmo depois de tudo. Mesmo quando não havia mais nada em que acreditar.
Tentou reconstruir o que restava do passado. Visitava os lugares onde as quatro estiveram, revivia memórias como quem tenta ressuscitar o tempo.
Conheceu alguém. Apaixonou-se. Como sempre fazia, por inteiro.
Mas havia algo quebrado nela. Um excesso de ausência. Um peso que não se dividia.
O amor não resistiu. Nenhuma coisa resiste quando precisa ocupar o espaço de três mortes.
Letícia começou a desaparecer aos poucos. Não de forma abrupta, como Clara, nem violenta, como Sabrina, nem silenciosa, como Beatriz. Foi um apagamento progressivo. Parou de atender ligações. Parou de sair. Parou de escrever.
Um dia, simplesmente não foi mais vista.
Alguns dizem que se mudou. Outros, que não suportou.
Não houve notícia. Nem corpo. Nem explicação.
Apenas o vazio.
Anos depois, a rua onde cresceram ainda existe. As calçadas continuam rachadas. As casas mudaram de cor, de donos, de histórias.
Mas, em certas noites, dizem, é possível ouvir risadas.
Quatro vozes femininas, jovens demais, livres demais, inconscientes demais. Como se ainda acreditassem na promessa nunca dita. Como se ainda repetissem, com a leveza de quem não conhece o fim: garotas só querem se divertir.
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