Flag Girl


A fumaça dos pneus subiu devagar pela Avenida Industrial, espalhando no ar o cheiro metálico de gasolina, borracha queimada e chuva antiga. Era madrugada em algum ponto esquecido de Lavínia, um daqueles lugares da metrópole imperial onde os postes tremem sob a luz amarela e os galpões parecem mastodontes adormecidos.
Ela surgiu entre os carros como se já estivesse ali antes de todos.
Jaqueta curta de couro negro, cabelos presos num rabo de cavalo alto, botas até o joelho. Na mão direita, um lenço branco. Não havia, porém, vulgaridade em sua presença. Havia precisão. A mesma precisão de uma lâmina bem afiada.
Ninguém sabia seu nome verdadeiro.
Chamavam-na apenas de Selene.
Os caras do racha falavam dela com uma mistura estranha de desejo e receio, como se fosse menos uma mulher e mais um ritual necessário para que a noite começasse. Porque sem Selene não havia corrida. Os motores podiam roncar, o dinheiro podia trocar de mãos, os egos podiam se inflar feito cães de combate, mas ninguém largava antes que ela ocupasse o centro da pista.
Ela escolhia o momento.
E todos obedeciam.
Naquela noite, contudo, algo estava fora do eixo.
O Kargov preto estacionado à esquerda carregava um silêncio diferente. Motor V12 preparado, pintura fosca, faróis apagados. O dono era um sujeito recém-chegado de Barra do Sol, conhecido apenas como Arthos. Diziam que corria por dinheiro. Outros diziam que corria porque precisava sentir alguma coisa antes de morrer.
No outro lado estava Ilyan Kors, veterano das corridas clandestinas dos distritos do norte. Impulsivo, rápido, orgulhoso. Já perdera carros, amigos e dois dentes naquelas madrugadas, mas jamais perdera uma largada para um desconhecido.
Selene caminhou lentamente entre os veículos.
Os homens ao redor abriram espaço sem perceber que o faziam. Ela tinha aquele tipo raro de autoridade que não precisava ser anunciada. Bastava existir.
Parou entre os dois carros.
Os motores cresceram.
Ela ergueu o lenço.
Ilyan observava os olhos dela, não o tecido. Sempre fazia isso.
Havia qualquer coisa de hipnótico naquela expressão imóvel, quase entediada, como se a violência masculina ao redor lhe parecesse um fenômeno antigo demais para causar-lhe qualquer impressão.
Então ela viu, no reflexo do para-brisa do Kargov, o brilho breve de uma arma.
Seu rosto não mudou.
Mas o braço permaneceu suspenso por meio segundo além do habitual. Tempo suficiente.
O estampido veio antes da largada.
Arthos tentou sacar o revólver pela janela, mas Ilyan já havia mergulhado para fora do carro. O caos explodiu na avenida. Gente correndo. Pneus cantando. Garrafas quebrando no asfalto.
Selene não se moveu.
Observava.
Como uma sacerdotisa cansada assistindo a mais um sacrifício previsível.
Dois homens imobilizaram Arthos perto do guard-rail. Outro recolheu a arma. Alguém gritava. Outro ria nervosamente.
Ilyan levantou-se com sangue escorrendo pela sobrancelha cortada. Olhou para Selene ainda no centro da pista.
— Você sabia.
Ela guardou lentamente o lenço no bolso da jaqueta.
— Eu suspeitei.
— E por que não avisou?
Os olhos dela repousaram sobre os carros, sobre a fumaça, sobre os homens arfando como animais depois da caça.
— Porque vocês não vêm aqui para serem salvos.
Silêncio.
Ao longe, ouviu-se uma sirene.
Selene acendeu um cigarro com absoluta calma.
A luz vermelha do isqueiro iluminou por um instante o rosto dela: bonito sem delicadeza, duro, sem perder a elegância. O rosto de alguém que aprendera cedo que certas noites nunca terminam, de fato.
Ela tragou lentamente seu cigarro. Depois caminhou para fora da avenida, desaparecendo entre os galpões úmidos enquanto os motores se apagavam um a um atrás dela.
Na semana seguinte haveria outro racha. Outros homens. Outras apostas.
E novamente, no centro da pista, estaria Selene, com seu lenço branco erguido contra a madrugada, decidindo o instante exato em que a destruição poderia começar.

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