Os Cadernos de Isadora


O professor Breno de Albuquerque tinha quarenta e oito anos, um apartamento de dois quartos, um dos quais usava como escritório, nos fundos de uma alameda com nome francês, e um gato persa chamado Montaigne. Era celibatário, por destino e por opção. Todas as manhãs, às sete em ponto, tomava café preto sem açúcar e folheava lentamente os jornais, como se procurasse não exatamente notícias, mas sinais de que ainda havia alguma ordem no mundo. Não havia, era sempre o mesmo caos de sempre. A humanidade não aprende com seus próprios erros. A marcha da insensatez continua em pleno movimento. 
Ministrava Filosofia Antiga na Universidade Estadual. Sempre o mesmo ritual: sapato bem engraxado, paletó escuro, óculos na ponta do nariz e uma pilha de anotações manuscritas. Tinha a voz grave e lenta, e falava de Platão como quem fala de um velho amigo morto. Seus alunos o temiam e o admiravam, ao mesmo tempo, como se ele fosse um monge desiludido que, por desencanto com o mosteiro, continuava lecionando.
Foi numa manhã qualquer, dessas comuns, que começam cinzentas e sem presságios, que ela entrou. O nome constava na chamada: Isadora Campelo, 20 anos, estudante de Letras, que escolheu seu curso como disciplina optativa. Sentou-se à esquerda, perto da janela. Vestia-se com um desleixo encantador: blusas largas, cabelos mal presos, uma gargantilha com uma pedra azul e olhos da cor da noite, de um negror profundo e voraz. Havia algo diferente naqueles olhos. Não eram exatamente bonitos. Eram atentos. E atentos àquilo que Breno mais temia: ele mesmo.
Ao longo do semestre, ela começou a chegar antes, a sentar-se cada vez mais perto de sua mesa. Fazia perguntas certeiras, sublinhava frases em cadernos de capa preta, que ela carregava como pergaminhos sagrados, e, por vezes, o observava em silêncio, como quem lê um livro difícil. Certo dia, após uma aula sobre o "Banquete", ela se aproximou e lhe disse:
— O senhor parece triste quando fala de amor.
Ele sorriu, quase sem sorrir. Respondeu algo trivial. Mas a frase ficou, como uma rachadura invisível numa taça de cristal.
Naquele dia, já em casa, ele se contemplou no espelho: as rugas em torno de seus olhos, os vincos em seu rosto, os cabelos e a barba grisalhos não permitiam autoenganos: ele estava velho. Não pôde deixar de sentir, consigo, que sua senilidade incipiente era praticamente uma ofensa à juventude vibrante e leve de Isadora. Nessa noite, nem mesmo Marco Aurélio pôde curá-lo de sua tristeza.
Começou, nos dias seguintes, a reparar em suas caligrafias nos trabalhos: letras firmes, com pausas elegantes; suas escolhas de leitura: Clarice, Bataille, Rilke, Balzac, Flaubert... E uma vez, num debate, ela citou Simone Weil como quem fala da chuva, numa pausa do trabalho.
O amor não surgiu como paixão súbita. Surgiu como uma perturbação no ar. Uma presença que se impunha pela delicadeza. Breno não se apaixonou por Isadora. Apaixonou-se pela imagem que ela despertava: a juventude inteligente, a mulher que pensa, que lê, que ouve, que sabe apreciar e discorrer sobre a beleza. Ela era, ao mesmo tempo, lembrança e promessa, um perfume de um tempo perdido.
Começou a escrever sobre ela em seu diário, como fazia nos tempos de juventude, sobre outros amores, há muito passados:
“Hoje Isadora usava um casaco cinza. Tossiu durante a aula. Anotou cada palavra que eu disse sobre Anaximandro. Eu me senti ridículo, como um velho trêmulo tentando parecer firme.”
Nunca a tocou. Nunca lhe escreveu nada que não fosse em papel timbrado. Mas, aos poucos, Isadora tornou-se o centro de seus dias. Um centro invisível. Um sol que não aquecia, mas doía.
No fim do semestre, ela entregou o trabalho final com um bilhete dobrado dentro:
“Obrigada pelas aulas! O senhor me ensinou muito mais do que filosofia. Às vezes, eu o olhava e pensava: deve ser muito solitário viver com tanto silêncio por dentro.”
Breno leu aquilo como quem escuta um sino distante em meio à neblina. Nunca respondeu.
No ano seguinte, ela trocou de curso, mudou de cidade, e sumiu. Ele soube, por um colega, que ela estava estudando Teoria da Literatura na Europa e escrevia um livro de contos.
Breno ainda dá aulas. Ainda veste paletós escuros. Ainda escreve em cadernos de couro. Às vezes, ao passar por jovens de olhos atentos, pensa: E se ela voltasse? Mas não voltam. Ninguém volta. E tudo que resta são os cadernos, as lembranças, e uma leve ardência na garganta, como se tivesse lido demais e amado de menos.
Seu gato, Montaigne, envelheceu. O jornal continua a chegar às sete. E ele, sentado à mesma mesa, ainda não procura notícias, mas sinais. Sinais de que aquilo que viveu com Isadora não foi imaginação. 
Foi amor. Impossível, é claro, como todo amor verdadeiro.

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