O Sorriso


Há sorrisos que marcam como tatuagens de fogo nas paredes do coração.
O sorriso dela não o foi o mais belo que já vi, nem o mais amplo, tampouco o mais espontâneo. Havia nele, entretanto, uma medida exata, como se tivesse sido calculado para mim, e apenas para mim, com uma precisão que me desconcertou desde o primeiro instante. 
Conheci-a numa tarde morna, uma tarde de outono, em que a cidade parecia suspensa num estado de expectativa difusa. A cafeteria estava quase vazia. Escolhi uma mesa ao fundo, mais por hábito do que por necessidade, confesso; sempre me senti mais à vontade quando protegido por paredes, quando posso observar sem ser imediatamente observado. Ela entrou sem pressa, trazendo consigo uma espécie de silêncio que não dependia da ausência de ruído, mas de uma ordem interna, uma sutil economia de movimentos.
Sentou-se duas mesas adiante. Não olhou ao redor. Pediu algo ao garçom com uma voz baixa, firme, e só então, como se obedecesse a um compasso secreto, ergueu os olhos. Foi nesse momento que o sorriso surgiu, atravessando o espaço de tal forma que me alcançou inevitavelmente.
Passei os minutos seguintes tentando recompor uma neutralidade que já não me era possível. Folheei um livro sem ler uma linha sequer. Ela ficou tentando observar o título. Sorriu novamente ao observar que era um volume de Henry Miller. Tirou da bolsa um exemplar de Anaïs Nin. Rimos e retomamos nossos cafés. Observei o movimento da rua através do vidro, mas era como se todas as imagens viessem filtradas por aquele instante inaugural. O sorriso, agora ausente, persistia, em meus olhos, com uma nitidez incômoda, como uma forma luminosa gravada na retina.
Quando nossos olhares novamente se cruzaram, não houve surpresa em seu rosto. Apenas uma confirmação tranquila, quase protocolar, como se estivéssemos retomando uma conversa interrompida há muito tempo. Levantou-se, aproximou-se da minha mesa e perguntou se poderia sentar-se. Assenti com um gesto breve, consciente de que qualquer palavra me trairia.
Conversamos. Ou, ao menos, produzimos algo que externamente poderia ser descrito como conversa. Falamos de coisas comuns: livros, cidades, pequenos episódios que, em outra circunstância, se perderiam na banalidade. No entanto, havia sob cada frase uma tensão subterrânea, como se ambos estivéssemos atentos a algo que não se deixava claramente definir. Eu a observava com a cautela de quem sabe estar diante de um mecanismo delicado, em que qualquer movimento em falso poderia comprometer o todo.
Em certo momento, ela sorriu novamente. Não da mesma forma. Desta vez, havia uma sombra, não de tristeza, mas de conhecimento. Foi então que compreendi, ainda que de maneira incompleta, que aquele primeiro sorriso não fora um acaso. Ele continha, em germe, tudo o que viria depois: a aproximação, o descompasso, a inevitável fissura.
Não nos tornamos amantes, nem mesmo quando fazíamos amor, nem amigos no sentido convencional. O que houve entre nós escapa a essas categorias ordinárias. Encontramo-nos outras vezes, sempre sob o mesmo regime de intensidade recíproca, mas contida. Nunca avançávamos o suficiente para nos perdermos, nem recuávamos a ponto de nos tornarmos indiferentes. Era um equilíbrio instável, sustentado mais por intuição do que por decisão.
E, ainda assim, foi o bastante.
Hoje, passados tantos anos, não mais retenho com precisão o timbre de sua voz, nem o exato contorno de seus gestos. As palavras que trocamos se dissiparam como se jamais tivessem sido ditas. Mas aquele primeiro sorriso permanece intacto em minha memória, não só como lembrança, mas como marca. Há dias em que o sinto com a mesma nitidez de então, como se tivesse sido gravado não no tempo, mas em alguma superfície mais profunda, resistente ao desgaste.
Compreendi, tardiamente, que certas experiências não se destinam a durar no mundo, mas a inscrever-se em nós com uma força que dispensa a simples continuidade. São acontecimentos fechados em si mesmos, cuja função não é prolongar-se, mas alterar a estrutura interna de quem os atravessa.

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