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Thomas Carlyle (1795-1881) |
A moda da época atual parece ser a uniformização. Cultural, comportamental, sentimental. Em última instância, ideológica e política. Contudo, não é um fenômeno inteiramente novo, embora hoje seja mais visível e agudo: já nos anos 30, Stefan Zweig denunciava a monotonização (ou melhor, americanização, isto é, massificação) do mundo.
Thomas Carlyle, que, há exatos cento e oitenta e seis anos, realizou a primeira de suas clássicas conferências sobre as grandes personalidades da história, religião e cultura humanas, pensava de forma diametralmente oposta à dos atuais arautos e apologistas da mediocridade coletiva. Dizia ele que o mundo não anda senão pela ação dos grandes homens e a massa não é mais do que um instrumento passivo e flexível de que eles se utilizam para atingir os próprios fins. Pode-se, é claro, discordar desta posição (os marxistas, por exemplo, com sua patológica obsessão pela economia como o motor da história, discordam), mas eu penso exatamente como ele, e, pessoalmente, ouso até fazer minhas estas belas e célebres palavras de Will Durant, no tocante ao tema:
"Dos muitos ideais que, na mocidade, dão à vida uma significação e uma radiância que faltam às frias perspectivas da idade madura, um, pelo menos, não se adormentou em mim, permanecendo brilhante como no começo - a intrépida adoração dos heróis. Numa idade que nivela tudo e nada reverencia, ponho-me ao lado de Carlyle e acendo minhas velas, como Pico de Mirandola¹, diante da imagem de Platão, no santuário dos grandes homens".
Particularmente, acho deveras difícil, senão impossível, imaginar como seria o mundo, hoje, se não tivesse sido moldado, em que pesem suas inúmeras diferenças de ações e de pensamentos, pelas mãos de homens como Alexandre, César, Napoleão, Bismarck, Churchill, de Gaulle, Roosevelt e tantas outras grandes personalidades (incluindo mulheres, convém esclarecer) que já caminharam sobre a face deste planeta, e deixaram suas marcas na história, membros representativos, como diria Emerson, de uma espécie que se encontra sob grave risco de extinção nos dias atuais, se é que já não foi completamente extinta: o Homem Superior. Esta ideia é um anátema nesta era de falsa equidade. Mas convém sempre lembrar: a igualdade humana é, pura e simplesmente, uma mentira, um mito moderno, responsável por fazer derramar verdadeiros rios de sangue na história contemporânea.
Existem muitas formas válidas e reconhecidas de estudar e compreender os fenômenos históricos. Já citei o marxismo, mas também há o conceito de "longa duração" da Escola dos "Anales", por exemplo. Entretanto, eu ainda fico com Carlyle:
"Porque, conforme eu a considero, a história universal, a história daquilo que o homem tem realizado neste mundo, é, no fundo, a história dos grandes homens que aqui têm laborado. Eles foram os condutores de homens, estes grandes homens, os modeladores, padrões, e, em sentido amplo, criadores de tudo o que a massa geral dos homens imaginou fazer ou atingir; todas as coisas que nós vemos efetuadas no mundo, são, propriamente, o resultado material externo, a realização prática e a incorporação dos pensamentos que habitam nos grandes homens mandados ao mundo: a alma de toda a história universal, pode justamente considerar-se, seria a história destes".
E, ainda uma vez, Will Durant:
"Não, a verdadeira história do homem não está nos preços e salários, nem em eleições e batalhas, nem no nível de vida do homem comum: está nas duradouras contribuições dos gênios para a soma da civilização e da cultura humana. A história da França não é a história do povo francês, o desenrolar da vidinha de criaturas sem nome que lavraram o solo, fizeram sapatos e roupas, mascatearam artigos (porque estas coisas sempre foram feitas em todos os tempos); a história da França é o relato da ação dos seus homens e mulheres excepcionais, seus inventores, cientistas, homens de Estado, poetas, artistas, músicos, filósofos e santos, e das adições que eles trouxeram à técnica e à sabedoria, às artes e aos costumes, tanto da França como da humanidade. E o mesmo com todos os demais países; a história do mundo é a história dos grandes homens".
Há anos não vejo um grande homem. Nem no Brasil, nem alhures. Há, nestes dias sombrios, apenas homens moral e intelectualmente pequenos, para onde quer que meus olhos apontem, e não sou o único a ter essa amarga e incômoda impressão, mas provavelmente sou um dos pouquíssimos a externá-la, pois não é politicamente aceitável dizer que há homens superiores. Sim, as instituições, principalmente numa democracia, são superiores aos indivíduos, e assim devem permanecer. Mas, ouso perguntar, de que valem grandes instituições quando comandadas por homens pequenos? Instituições pequenas, comandadas por grande homens, tornam-se igualmente grandes e sólidas instituições, mas o contrário nunca acontece. Homens pequenos tudo apequenam, até mesmo as maiores e mais sólidas instituições, e instituições pequenas, comandadas por homens pequenos, geram países pequenos.
Quando anões morais e intelectuais habitam catedrais institucionais, eles não se elevam; eles rebaixam o teto da catedral para que este se ajuste à sua própria pequenez. O resultado é o espetáculo grotesco que assistimos diariamente: o apequenamento sistemático do debate público, transformado em um teatro de sombras para saciar apetites imediatos e vaidades nanicas. O Brasil de hoje é um vívido e triste exemplo desse fenômeno. Basta observar o bestiário, digo, noticiário político nacional, para averiguar esse fato.
É um velho truísmo, mas que convém sempre repetir: grandes homens fazem a história. Homens pequenos apenas a sofrem.
Este pequeno artigo é a minha humilde vela para o altar de Platão.
¹E Marsílio Ficino.

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