O Spleen de Pluviópolis


Renato Russo gostava de imaginar sua vida como um musical dos anos trinta. Há dias em que me sinto um personagem de filme francês dos anos sessenta. Especialmente em dias de céu plúmbeo, como têm sido tantos, ao longo deste ano, em Curitiba (que, a propósito, bem poderia ser rebatizada como Pluviópolis; fica a sugestão para a prefeitura e a câmara municipal). Nesses dias, caminho lentamente por nossa chuvosa metrópole como se fosse um flâneur baudelairiano ou benjaminiano, de boina na cabeça e mãos nos bolsos, circulando por cenários cuja lógica compreendo apenas parcialmente, observando os transeuntes, os gestos mecânicos da vida cotidiana e a pressa frenética e inútil daqueles que parecem ter sempre algum lugar aonde ir, sem jamais, de fato, lá chegar. 
Não se trata propriamente de misantropia, nem, tampouco, de nostalgia. É antes uma espécie de alheamento, uma discreta sensação de não pertencer inteiramente ao meu tempo, embora não me falte curiosidade em relação a ele.
Creio que é justamente essa constante curiosidade pelo microcosmo humano que me salva do tédio puro e simples, e que distingue o alheamento da indiferença. O indiferente não olha; eu, pelo contrário, olho demais. Posso deter-me, por minutos sem conta, na vitrine de um sebo da Rua Riachuelo, num homem que lê um jornal enquanto tem seus sapatos engraxados na Boca Maldita (sim, ainda há jornais impressos, homens que os leem e engraxates na Boca Maldita), como se se recusasse a conceder ao tempo o privilégio de ser desperdiçado, na senhora que equilibra o guarda-chuva e a sacola com a dignidade de uma equilibrista, nos caminhantes idosos da Praça Carlos Gomes, nas prostitutas tristes e cansadas da Rua Cruz Machado. São pequenas cenas, que ninguém registra, e não fazem absolutamente o menor sucesso nas redes sociais, das quais, no entanto, se faz a substância real de uma cidade. Os monumentos arquitetônicos dizem o que a cidade quer ser; os gestos anônimos dizem o que ela realmente é. 
Há nesse comportamento, reconheço, certo anacronismo calculado. A boina, as mãos nos bolsos, o passo lento: tudo concorre para compor uma figura que o cinema de Godard ou de Truffaut teria acolhido sem estranheza, mas que a Curitiba de dois mil e vinte seis da Era Comum, com seus aplicativos de entrega e suas calçadas ocupadas por telas luminosas, tolera com a indulgência reservada às excentricidades inofensivas. Não me queixo. Há uma liberdade singular em ser considerado ligeiramente fora de época, pois dispensa seu alvo da obrigação de parecer atual, esse esforço exaustivo e, muitas vezes, insalubre, que consome tantos contemporâneos meus. Ser considerado démodé é um elogio na época da vulgaridade performática.
Mas seria desonesto sustentar que o flâneur contemporâneo conserva a mesma inocência moral e estética do seu antepassado oitocentista. Baudelaire passeava pelas galerias de Paris como um espécime que habita o próprio elemento; Benjamin, já tocado pela melancolia do século seguinte, via nelas as ruínas de um mundo que o voraz e inexorável capital industrial em expansão se apressava em demolir. 
Quanto a mim, caminho em ruas onde a demolição já se consumou e foi, por sua vez, esquecida. 
O que me resta, como um passeante de ruínas, não é a embriaguez da multidão, mas uma atenção desinteressada, quase arqueológica, voltada para os vestígios de formas de vida que ainda sobrevivem, aqui e ali, na dobra de uma esquina ou na lombada gasta de um livro. Desnecessário dizer que sempre trago um comigo. Frequentemente, Proust ou Montaigne. Nos ouvidos, Cohen ou Dylan; às vezes, jazz ou blues.
Provavelmente é por isso que a chuva, longe de me contrariar, me parece ser o elemento mais apropriado ao ofício do escritor que flana. Ela rebaixa o brilho das superfícies, aproxima os rostos sob as marquises, devolve à cidade uma espécie de intimidade involuntária. Sob o céu plúmbeo, Pluviópolis (doravante, meu apelido particular para Curitiba) deixa de representar o papel de capital moderna e cosmopolita e consente em ser apenas aquilo que verdadeiramente sempre foi: um lugar úmido, discreto e levemente melancólico, onde um homem de boina e mãos nos bolsos pode, sem constrangimento excessivo, passar a tarde apenas olhando a tarde passar e depois escrever sobre ela.

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